Missa para quê?

Goethe considerava que a “religião cristã é uma revolução política abortada que se tornou moral”. Há na literatura “mil páginas tão belas e úteis” quanto nas Escrituras. “Ainda assim eu considero todos os quatro evangelhos como genuínos, porque neles é evidente o esplendor refletido do poder sublime que emanava da pessoa de Cristo e de sua natureza, que era tão divina quanto o divino possa ter se manifestado na Terra … Eu tiro o chapéu para ele como a manifestação divina do mais alto princípio da moralidade. […] Ele suspeitava que o Protestantismo sofreria devido à falta de cerimônias inspiradoras, formadoras de hábitos, e ele considerava o catolicismo sábio e benéfico ao simbolizar as relações e desenvolvimentos espirituais com sacramentos que deixavam uma profunda impressão nas pessoas.

Trecho retirado do livro “Rousseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), sobre as ideias do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

As expressões do divino como algo íntimo e não alienado, como residente no interior e perto do interior das pessoas e não remoto, caracterizam o panteísmo e o panenteísmo em contraste com o teísmo clássico. Tal imanência estimula o senso do homem de participação individual na vida divina, sem a necessidade de mediação por nenhuma instituição.

Trecho retirado do verbete sobre panteísmo e panenteísmo do volume 13 da edição de 1975 da Enciclopédia Britânica

 

Deixe o homem ser nobre,

Prestativo e bom

Porque isso é a única coisa

Que o distingue dos outros seres

Que conhecemos…

Trecho retirado “Wilhelm Meisters Wanderjahre, oder Die Entsagenden” do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), conforme citado no livro “Rousseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), sobre as ideias do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

    Prezados leitores, na semana passada eu humildemente conclamei os franceses que protestavam contra os resultados do primeiro turno das eleições a abandonarem o ódio e optar pelo amor, ou pelo menos por uma benevolência ou boa-vontade mútuas que os levassem a entender o ponto de vista do outro. Claro que esse apelo não foi ouvido por ninguém do outro lado do Oceano Atlântico e no segundo turno das eleições que ocorreram no último dia 7 de julho, os franceses praticaram o voto útil para mostrar seu repúdio ao Rassemblement Nacional, o partido que em 30 de junho havia chegado em primeiro e que uma semana depois acabou ficando na terceira posição. A democracia na França parece ter resvalado para o tribalismo, a luta de um grupo contra o outro, cada um com valores irreconciliáveis e cujo objetivo é destruir o inimigo. Quem perde com a polarização é o país: em não dialogando, a direita e a esquerda não conseguem pensar juntas e estabelecer denominadores comuns para a ação concreta. Prenuncia-se na França uma paralisia que pode piorar a situação do país cujas despesas públicas totalizaram 57,3% do PIB em 2023 (fonte: Trading Economics) e cuja dívida pública ficou em 117% do PIB em 2022 (fonte: Statista). A situação nos Estados Unidos não é diferente: se os espantalhos na França são Marine Le Pen, a líder da direita, ou o líder da esquerda Jean-Luc Mélenchon, na terra do Tio Sam os bichos-papões no momento são Donald Trump, considerado pelos seus detratores como mentiroso contumaz, e Joe Biden, o velho gagá, como não deixam de enfatizar os trumpistas.

    Nessa era de ódios e tribalismos como cultivar o amor e o respeito pelo outro? Meu objetivo nesta semana é apresentar-lhes a receita encontrada por Johann Wolfgang von Goethe, o autor da famosa obra Fausto, a mais importante já escrita na língua alemã. A receita de Goethe foi sendo elaborada ao longo da sua vida, com base nas experiências que teve e no conhecimento que ele adquiriu. A princípio, pode-se dizer que ele rejeitava o cristianismo, por uma série de razões: sua sensualidade, seu gosto pela vida o impediam naturalmente de considerar-se um eterno pecador por ter tais características. A história de que Jesus Cristo era o filho de Deus, vindo à Terra no ventre de uma mulher virgem para redimir os pecados da humanidade pela morte na cruz parecia-lhe absurda. Para Goethe, provavelmente o que o homem Jesus quis foi livrar os judeus do jugo dos romanos, mas o resultado prático da sua tentativa de rebelião foi a criação por seus seguidores de uma igreja que ao longo do tempo se institucionalizou e arvorou-se em detentora da verdade sobre o que era o bom e o mau comportamento. Para um indivíduo que se via como parte da Natureza, que não é nem boa nem má, mas simplesmente existe e se destrói e se recria constantemente, era impossível seguir os preceitos quer do Catolicismo, quer do Protestantismo e levar a vida reprimindo seus sentimentos e seus desejos para não se sujar com a mancha do pecado e condenar-se à danação eterna.

    Se a religião, tal qual estabelecida no Ocidente, não satisfazia seus anseios existenciais, a que Goethe recorreu? À arte e à ciência. Daí ele ter sido um cientista diletante, que publicou obras sobre a natureza das cores e anatomia comparativa, e ter sido um praticante da literatura que escreveu obras de ficção, autobiografias, peças de teatro e poemas. Nesse sentido, pode-se dizer que Goethe foi um panteísta, conforme a definição que abre este artigo: na qualidade de artista e portanto, dotado de aguçada sensibilidade, ele não poderia simplesmente conceber o mundo como algo meramente material, pois nele o material e o espiritual existiam intrinsicamente ligados. Deus não é uma entidade remota e abstrata como o pintava o teísmo clássico, mas algo imanente à Natureza, à forma como ela se manifestava em termos de eventos necessários, que obedeciam a leis imutáveis, mas também em termos de uma potência criadora e destrutiva que faz o homem maravilhar-se ante as surpresas e os mistérios que ele encontra no mundo exterior.

    Panteísta sim, teísta não. Deus é imanente à Natureza, não é um patriarca severo que dita regras morais aos homens do alto do seu trono no céu. E no entanto, será que Goethe era contra a religião? Ele, indivíduo intelectualmente preparado, sedento de conhecimento e extremamente sensível, alimentava seu espírito pela arte e pelo contato com a Natureza, seja estudando-a como cientista seja deleitando-se em contemplá-la em suas múltiplas manifestações. No entanto, ele tinha a sabedoria de admitir que nem todas as pessoas podiam ser como ele e que à falta de arte e de ciência, a religião poderia ser uma porta para a vida espiritual e fazer do homem uma criatura diferente dos outros seres vivos, na medida em que ele tinha a capacidade de fazer o bem.

    Conforme o trecho que abre este artigo, Goethe descartava a maior parte das afirmações teológicas do cristianismo sobre a divindade de Jesus Cristo, sua ressurreição dos mortos, etc. Mas ele não podia deixar de constatar que Jesus Cristo, ao pregar o amor como princípio moral básico, tinha sido um ser humano excepcional, que se elevou às mais altas esferas ao cultivar o que há de melhor no homem. Nesse sentido, a religião tinha o seu valor porque permitia que pessoas sem propensão artística ou intelectual cultivassem o espírito por meio dos sacramentos, dos rituais e dos símbolos da igreja. Nesse sentido, as missas da Igreja Católica para ele eram instrumentos mais poderosos para levar as pessoas a se conectar ao todo, ao mistério da vida do que os cultos protestantes, que ao darem muita ênfase aos sermões, à palavra, à argumentação teológica sem apelo à emoção não seriam tão inspiradores.

    Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Em pleno século XVIII, em que o cristianismo havia sido desacreditado intelectualmente pelos Iluministas, Goethe achou um lugar para os rituais religiosos: se o hábito de ir à missa aos domingos permite ao homem ter contato com a sua melhor parte ao lembrá-lo do cerne da mensagem de Jesus Cristo, qual o problema se as pessoas letradas não podem crer em todos os dogmas da Igreja? Afinal, como o poema citado na abertura deste artigo afirma, a nobreza do homem não está em ajudar seus semelhantes e fazer o bem?

    Prezados leitores, à luz das lições do maior escritor da língua alemã fica a dica para combatermos os maus sentimentos que predominam no mundo. Adquiramos o hábito de frequentar um culto religioso: por mais que não possamos aceitar muitas das proposições sobre a divindade que as igrejas oferecem, ao menos uma vez por semana cultivaremos o espírito e teremos a sensação que Goethe tinha ao olhar para as montanhas ou para o céu estrelado ou ao ler um poema ou uma música. Quem sabe com isso achemos nossa humanidade comum e sejamos mais benevolentes uns com os outros? Não custa tentar, basta que nos livremos dos nossos preconceitos antirreligiosos. Em suma, missas para quê? Para que, à falta dos talentos de um artista ou cientista, qualquer homem comum possa ter a oportunidade de concretizar sua vocação para uma vida em sociedade, em que um ajuda o outro em prol do bem de todos.

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Amor para quê?

Quando a igreja se torna uma instituição que força a crença ou o culto: quando ela presume ser ela a única com o direito de interpretar as Escrituras e de definir a moralidade; quando ela forma um clero que alega ter a exclusividade de aproximação com Deus e com a graça divina; quando ela torna seu culto um ritual mágico detentor de poderes miraculosos; quando ela se torna uma arma do governo e um agente de tirania intelectual; quando ela procura dominar o estado e usar os líderes seculares como instrumentos da ambição eclesiástica – então a mente livre levantar-se-á contra tal igreja, procurando fora dela aquela “pura religião da razão” que é a busca da vida moral.

Paráfrase de um trecho do livro “Die Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft”, do filósofo Immanuel Kant (1724-1804), citado no livro “Rousseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981)

 

Quando eu odeio eu retiro algo de mim mesmo; quando eu amo eu me torno mais rico por aquilo que amo. O perdão é o recebimento de um bem que foi perdido. A misantropia é um suicídio postergado.

A ética de Jesus Cristo, conforme definida por Johann Christian Friedrich Schiller (1759-1805), poeta autor da Ode à Alegria cantada na parte final da Nona Sinfonia de Beethoven, citado no livro “Rousseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981)

 

As ruas de Paris transformaram-se em palco de uma guerra na noite de domingo, quando dezenas de milhares de desordeiros de esquerda foram às ruas para mostrar sua oposição ferrenha à vitória histórica nas eleições legislativas do partido de direita francês Rassemblement National. Os desordeiros quebraram vitrines de lojas, vandalizaram monumentos e acenderam fogueiras em praças públicas depois que os resultados da eleição revelaram que o partido, liderado pela nacionalista Marine Le Pen, teve 33% dos votos no primeiro turno decisivo das eleições legislativas na França.

Trecho retirado do jornal New York Post sobre as eleições realizadas na França em 30 de junho, convocada pelo presidente Émmanuel Macron para a formação de um novo governo

    Prezados leitores, na semana passada eu lhes apresentei o conceito de imperativo categórico do filósofo Immanuel Kant e tentei aplicá-lo às ações dos houthis no Mar Vermelho à luz das críticas que foram feitas a ele por Bertrand Russell (1872-1970). Nesta semana, explorarei mais a ética kantiana para contrapô-la a uma visão menos racional da religião com o objetivo de analisar as manifestações de ódio ocorridas em Paris no dia 30 de junho e propor uma saída para a ameaça que elas revelam.

    Para Kant, a única religião defensável era uma religião da razão, isto é, uma religião que colocasse no centro das preocupações humanas a obediência a um senso do dever, o qual era uma manifestação da existência do divino no homem, portanto inexplicável e eterno: o ser humano nasce com a centelha de uma consciência moral que não se apaga jamais e o papel da religião é o de fazer com que essa centelha se transforme em uma brilhante fogueira que leve o homem a viver uma vida moral, isto é, uma vida dedicada à concretização do imperativo categórico de fazer a coisa certa em qualquer momento ou circunstância, independentemente das preferências pessoais.

    Daí por que o filósofo de Konisberg, cidade que ficava na antiga Prússia e hoje é Kaliningrado na Rússia, rejeitava a religião, conforme ela estava institucionalizada no século XVIII. Cultivando a razão e o livre arbítrio como fontes da ação ética, Kant insurgia-se contra tudo o que havia de irracional e arbitrário nas igrejas constituídas na Europa, conforme o trecho que abre este artigo. Assim, ele criticava o uso da religião, dentre outras coisas: como forma de controlar o pensamento das pessoas e de sufocar o livre exercício pelo indivíduo das suas faculdades mentais; como forma de manter  as elites no poder pela supressão das críticas ao sistema econômico e político; para impor a visão de que os membros da igreja eram os únicos com acesso à verdade, por conta de suas relações privilegiadas com Deus, estabelecidas por meio da instituição; como instrumento de culto de mitos e de prática de rituais que contrariavam a realidade dos fatos e os ensinamentos da ciência e que só serviam para dar uma aura de mistério a algo que era simplesmente absurdo.

    Assim, a igreja enquanto instituição prestava um desserviço ao exercício da “pura religião da razão” proposta por Kant, por ser um mero exercício de poder daqueles que se arvoravam em defensores do bem contra o mal e de divulgadores da verdade revelada, mas que no mais das vezes apenas defendiam seus privilégios e, em fazendo isso, praticavam atos imorais e propagavam mentiras. O que fazer em tal situação? Guiar-se pelos ditames da nossa consciência moral, manifestação divina?

    Ora, o exemplo das ações dos houthis, que querem diminuir a injustiça infligida aos palestinos piorando a vida de bilhões de pessoas ao redor do mundo por seus ataques a navios cargueiros, mostra que o senso de dever de cada indivíduo não é um guia infalível para fazer o que é certo. Navegando pelos meandros da razão, o ser humano pode acabar apenas dando vazão a paixões por meio da racionalização das suas motivações. Será que os houthis defenderiam grupos não muçulmanos da opressão da mesma maneira que estão defendendo os palestinos? Ou será que no final das contas, fazer a coisa certa para os houthis é simplesmente ajudar grupos amigos, membros da mesma tribo religiosa?

    Talvez a saída seja adotar uma concepção menos racional das obrigações éticas do homem. É o que fez o poeta alemão Schiller em uma série de cartas reunidas sob o título de “Philosophische Briefe”. Esqueçamos a velha teologia, que não pode ser mais aceita à luz dos avanços do conhecimento humano. Fiquemos com a mensagem básica de Jesus Cristo, o homem em nome de quem todas as igrejas ocidentais foram criadas, conforme citada no trecho que abre este artigo: amemos uns aos outros. É melhor amar do que odiar, porque o amor nos enriquece e o ódio nos empobrece espiritualmente, nos torna amargos, rancorosos e nos faz nos sentirmos injustiçados por aqueles que são o objeto do nosso sentimento.

    Nos tempos atuais, de polarizações políticas, a máxima de Schiller talvez nos livre das armadilhas do exercício da razão para o estabelecimento de obrigações éticas. Conforme o trecho que abre este artigo, no dia 30 de junho, após a divulgação dos resultados das eleições legislativas na França, nas quais o partido de direita de Marine Le Pen obteve o primeiro lugar, houve manifestações de protesto reunindo milhares de pessoas de esquerda. Todas elas convictas de estarem fazendo o que é certo, de estarem lutando contra o racismo, contra a xenofobia, contra o fascismo e a favor da democracia e da justiça a favor dos oprimidos. Será que o debate entre direita e esquerda renderá algum fruto? Considerando que cada lado do espectro político tem uma definição própria do que seja racismo, xenofobia, fascismo, democracia e justiça, baseada em seus valores fundamentais, será que o exercício da razão será de alguma utilidade? Como fazer uso da razão para chegar à verdade se não é possível que as partes beligerantes cheguem a um acordo sobre as premissas básicas da discussão?

    Daí que a saída pode estar em cultivar o amor e não o ódio, como Jesus Cristo fez, aos olhos de Schiller. Se olharmos o outro de maneira benevolente, talvez tornemo-nos mais dispostos a chegar a um meio-termo sobre as definições de conceitos que viabilizam uma discussão produtiva e a obtenção de conclusões e de consensos que permitam à sociedade executar soluções práticas para os problemas que são de todos. Se continuarmos no Ocidente a cultivar o ódio, a estigmatizar o objeto do nosso ódio e a colocá-lo em categorias éticas negativas que nos permitem continuar a odiá-lo sob o manto da vitimização e da superioridade moral, o próximo passo é a violência tornar-se institucionalizada, como parece ser o caso na França, um país desenvolvido que está a ponto de explodir.

    Prezados leitores, amemos uns aos outros: sem amor não há pensamento equilibrado, não há discussão produtiva e não há democracia que aguente os ataques mútuos. A hora é agora, pois se demorarmos muito perderemos o bonde e chafurdaremos na guerra de todos os injustiçados contra todos os injustiçados.

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Moral para quê?

Está claro que todas as concepções morais têm origem de maneira completamente a priori na razão. […] Essa consciência moral normalmente entra em conflito com nossos desejos sensoriais, mas reconhecemos que ela é um elemento mais superior em nós do que a busca do prazer. Não é o produto da experiência, é parte da nossa estrutura psicológica interna, como as categorias; é um tribunal interno presente em cada pessoa, em cada raça. E é um absoluto; ela nos comanda de maneira incondicional, sem exceção ou desculpa, a fazer a coisa certa por ela mesma, como um fim em si mesma, não como um meio de obter a felicidade ou a recompensa ou algum outro bem. Seu imperativo é categórico.

Trecho retirado do livro “Rosseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre a ideia da moral como um imperativo categórico proposta pelo filósofo Immanuel Kant (1724-1804)

O princípio supremo da ética é assim encontrado no seguinte imperativo categórico: sempre aja de maneira que os princípios que direcionam sua vontade possam se tornar a base de uma lei universal. Esse pronunciamento austero na verdade é somente uma maneira de dizer que devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que fizessem para nós. É um princípio que nega a justiça do pedido especial.

Trecho retirado do livro  “The Wisdom of the West” do filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970)

Tomar atitudes para ajudar os oprimidos […] é o verdadeiro teste da moralidade […] e quem quer que não tome atitudes para acabar com o crime de genocídio … perdeu sua humanidade. Os valores […] morais […] não mudam de acordo com a raça e a religião da pessoa […] Se outro grupo de seres humanos ficassem submetidos à mesma injustiça a que os palestinos estão sujeitos, nós tomaríamos atitudes para ajudá-los, independentemente da sua religião ou raça. […] o povo do Iêmen está comprometido em […] conseguir uma paz justa que garanta a dignidade e a segurança de todos os países e povos

Tweet do líder dos hutis, Mohammed Al-Bukhaiti, sobre o bloqueio a que os hutis estão submetendo navios comerciais no mar Vermelho, como maneira de pressionar Israel a prestar ajuda humanitária aos palestinos, conforme citado no artigo “Washington Faces Defeat in Red Sea Donnybrook” publicado por Mike Whitney em 22 de junho

    Prezados leitores, na semana passada falei das relações passivo-agressivas de um casal fictício, o Dr. Lydgate e Rosamond, personagens do livro Middlemarch. Nesta semana, falarei dos hutis, um grupo político religioso que fundou no noroeste do Iêmen um movimento, denominado Ansar Allah (isto é, os partidários de Deus), inspirado pelo islamismo xiita. Não descerei aqui às minúcias do que significa ser xiita, apenas falarei das ações dos hutis no mar Vermelho e de como elas podem – ou não – ser corretas à luz da noção de imperativo moral categórico do filósofo Immanuel Kant.

    Após o início das hostilidades entre Israel e o Hamas em 7 de outubro de 2023 e o bombardeio a que o exército israelense submeteu Gaza, os hutis tomaram uma decisão que está tendo sérias repercussões na economia mundial. Para pressionar Israel a parar com o a matança dos palestinos, os hutis têm atacado, com mísseis, drones e barcos com bombas,  navios comerciais que passam pelo mar Vermelho e que carregam a bandeira de algum país que esteja apoiando materialmente o esforço militar de Israel, principalmente dos Estados Unidos, do Reino Unido e claro, de Israel. O resultado desses ataques ininterruptos é que o mar Vermelho, que normalmente responde por 10 a 15% do comércio marítimo internacional, tornou-se uma via extremamente perigosa e custosa. De acordo com informações trazidas no artigo de Mike Whitney, o transporte de containers por lá diminuiu 90% desde dezembro de 2023 e os prêmios de seguro aumentaram de 0,7% a 1% do valor total dos navios que usam a rota do mar Vermelho. Como consequência, outras vias estão sendo utilizadas, particularmente aquelas de circum-navegação da África, o que aumenta de uma a duas semanas o tempo da viagem e em aproximadamente um milhão de dólares o custo do combustível.

    Os hutis dizem que só vão parar de lançar seus drones e mísseis contra os navios  quando os israelenses permitirem a entrada de ajuda humanitária em Gaza. A resolução deles parece ser férrea, considerando que os Estados Unidos estão realizando ataques aéreos a eles no Iêmen para tentar fazê-los parar e portanto, estão causando mais destruição em um país que desde 2015 enfrenta uma guerra civil. Se levarmos em conta que os hutis não estão auferindo nenhuma vantagem no momento e até agora são os únicos do mundo árabe-muçulmano que estão fazendo algo concreto em favor dos palestinos, a pergunta que se coloca é: qual a moralidade dos ataques dos hutis? Para tentar responder a essa pergunta recorro aos ensinamentos de Kant.

    O filósofo nascido em Konisgberg, atual Kaliningrado, tinha uma concepção peculiar da ética, conforme o trecho de Durant citado na abertura deste artigo. Kant não considerava os princípios éticos como derivados da experiência individual ou de um povo em uma sociedade específica, ou como comandos ditados por Deus e, portanto, externos ao homem. Eles eram um imperativo categórico. Imperativo porque tinham caráter universal e absoluto, portanto válidos em quaisquer circunstâncias de espaço e tempo. E categórico porque tinham a natureza de categoria a priori, uma forma de pensamento que era parte da estrutura inerente da mente humana. Reunindo esses dois atributos, os princípios éticos se impunham como uma vontade do homem como ser racional de fazer o que era certo, de cumprir seu dever, independentemente do que seus desejos o inclinassem a fazer e até como uma maneira de vencer tais desejos, pela pura força da decisão consciente de agir eticamente.

    Daí Bertrand Russel definir, no trecho que abre este artigo, a máxima moral kantiana como a de fazer aos outros somente aquilo que queremos que façam em nós. Em termos práticos, isso significa que caso vejamos nosso vizinho em dificuldades e queiramos ajudá-lo, o imperativo categórico determina que isso não é tão louvável quanto praticar a caridade com alguém que é detestável, porque dessa maneira a vontade autônoma da consciência humana de agir eticamente sempre se sobrepõe à inclinação subjetiva de ajudar uma pessoa querida.

    Sob essa perspectiva, as palavras do líder dos hutis citadas acima, de que a ajuda a um povo oprimido como o palestino é uma questão de justiça independente de qualquer religião ou raça ecoam o imperativo categórico da ética de Kant. Atacar navios de quem quer que dê apoio para Israel continuar seu bombardeio de Gaza é uma obrigação moral imposta pelo senso do dever de fazer a coisa certa, que é a de, nessa circunstância específica, ajudar a minorar o sofrimento de um povo que está passando fome e sede, está morrendo às dezenas diariamente e está acometido por doenças.   Os hutis estão convictos da correção das suas ações pois elas não visam atender um interesse deles, mas unicamente o interesse dos palestinos. Pelo contrário, os hutis estão realizando esse bloqueio naval no mar Vermelho sob o risco constante de represálias militares dos Estados Unidos e de seus aliados.

    E no entanto, uma dúvida surge sobre esse senso do dever como vontade de agir corretamente. Conforme explica Bertrand Russell em “Wisdom of the West”, se o que importa para determinar se uma ação é ética ou não é a intenção do agente de seguir um preceito moral, o que fazer a respeito das consequências nefastas do ato moral? Se os hutis consideram estar cumprindo seu dever, imposto a eles por essa consciência universal, como lidar com os prejuízos econômicos causados a toda a população do mundo? Afinal, o aumento do custo do transporte marítimo de containers acabará tendo repercussões nos preços dos produtos, o que afetará não só os atores diretamente envolvidos no apoio a Israel, mas mesmo as pessoas de países que condenam a matança de civis palestinos.

    Prezados leitores, à luz das lições kantianas sobre ética e sua aplicação prática às ações dos hutis no mar Vermelho em favor dos palestinos, fica a pergunta: para que serve a moral? Para dar vazão à nossa consciência interna, mesmo que isso tenha consequências negativas? Se a moral é produto da vontade autônoma do indivíduo, como ela pode ser combinada com nossas obrigações em relação aos outros, ditadas pelos costumes e regras locais? Se para salvar os palestinos é preciso causar inflação e tornar os pobres mais pobres em todo o mundo, a concretização do imperativo categórico não acaba tendo resultados questionáveis caso ignoremos seus desdobramentos? E como diria Sócrates, outro grande pensador ético, a ignorância é o maior pecado. Esperemos que a comunidade internacional encontre outras maneiras de ajudar os palestinos que não sejam o voluntarismo kamikaze dos “partidários de Deus”.

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Relacionamentos para quê?

Eles desafiavam as mulheres a descartar seus modismos e anquinhas, seus sentimentos e desmaios e piedade submissa, convocando-as a juntar-se a eles para compartilhar a vida excitante da mente emancipada e do homem errante.

Trecho retirado do livro “Rosseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre os proponentes do Sturm und Drang, movimento literário alemão do final do século XVIII, que teve entre seus participantes Goethe e Schiller

Seu conhecimento superior e força mental, ao invés de serem, como ele havia imaginado, um altar a ser consultado em todas as ocasiões, eram simplesmente colocados de lado em todas as questões práticas. […]Para Lydgate parecia que ele estava despendendo um mês após o outro sacrificando mais da metade das suas melhores intenções e suas melhores forças em prol da sua ternura por Rosamond; aturando as pequenas demandas e interrupções dela sem impaciência, e acima de tudo, aturando sem revelar nenhuma amargura a constatação com cada vez menos ilusões da superfície em branco e sem reflexo com que a mente dela apresentava-se ao ardor dele pelos fins mais impessoais  da sua profissão e de seus estudos científicos, um ardor que ele imaginara que a esposa ideal deve de alguma forma idolatrar como algo sublime. […] Rosamond sendo uma daquelas mulheres que acalentam a ideia de que cada homem que elas encontram teria preferido elas caso tal preferência não tivesse sido inútil.

Trecho do livro Middlemarch da escritora George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans (1819-1880)

    Prezados leitores, na semana passada, após várias semanas de ausência, eu lhes apresentei o Senhor Bulstrode, um rematado hipócrita cujo perfil a escritora George Eliot traça em seu romance Middlemarch para ilustrar sua visão de mundo, agnóstica que ela era: qual seja, a ideia de que o comportamento ético depende do caráter da pessoa e não da religião que ela professa, pois muitas vezes o discurso religioso só serve para justificar pelos artifícios de uma razão autocomplacente a crueldade, a mesquinharia e a ambição. Nesta semana, meu foco será em dois outros personagens, o doutor Lydgate e sua esposa Rosamond, pelos quais George Eliot mostra as sutilezas e as ambiguidades da sociedade patriarcal da época em que se passa o livro, a primeira metade do século XIX. Com isso ela nos dá sua visão desapaixonada do sexo feminino, de acordo com a qual as mulheres atuam em um contexto que as leva a agir de maneira específica de modo a atingir seus objetivos. Em assim fazendo, a escritora inglesa mostra como os relacionamentos humanos se desenvolvem na prática.

    A ascensão fulminante do feminismo nos países ocidentais na segunda metade do século XX consolidou uma visão crítica da sociedade dos séculos anteriores, ensinando-nos que as mulheres eram oprimidas pela sociedade patriarcal e não tinham maneira de expressar sua personalidade e desenvolver-se de maneira autônoma. Ora, a trajetória de Rosamond, ao lado do seu marido Lydgate, revela que a situação era bem mais complexa que este retrato em branco e preto dos oprimidos versus opressores. Lydgate é um cavalheiro que goza de reputação social em Middlemarch, onde ele resolve se instalar para atuar como médico. Sobrinho de um barão, portanto com conexões com a aristocracia, e tendo morado em Paris por algum tempo, ele chega à cidade cheio de autoconfiança e de ambições. Quer realizar uma prática médica diferente da comum, que insistia na prescrição de pílulas para toda e qualquer doença como meio de fidelizar os pacientes. Ele quer também construir um hospital para tratar de doenças infecciosas e o mais importante de tudo, quer dedicar-se à ciência combinando sua experiência ao lidar com os doentes com os estudo dos autores mais renomados e com experimentos por ele mesmo concebidos para fazer descobertas e assim contribuir para o progresso da humanidade.

    A princípio, ele consegue colocar esse projeto em prática, mas o comparecimento a festas na casa das famílias de Middlemarch coloca Lydgate em contato com Rosamond, filha de um industrial, portanto, uma mulher de menos prestígio social que ele, mas que é considerada a maior beldade da cidade e que havia frequentado uma escola para moças, onde aprendeu a ser educada, a cantar e a falar coisas agradáveis. O jovem e bem-apessoado médico flerta com a linda loira, mas não tem a intenção de casar logo, porque ele quer concentrar-se nos seus objetivos profissionais. Rosamond, ao contrário, está determinada a fisgá-lo como esposo, porque aos olhos dela ele seria o instrumento de sua ascensão social e da realização do sonho de morar em Londres e não ter mais contato com sua própria família modesta. A obstinação da moça tem sucesso: quando rumores começam a se espalhar de que Rosamond e Lydgate têm um relacionamento, o médico passa a evitar vê-la para não dar a entender que pretende casar, mas em um dia em que se encontram em uma festa, Rosamond chora e Lydgate ingenuamente toma isso como prova do amor que a moça sente por ele, quando na verdade era simplesmente o despeito de ela ver seu sonho de casamento estar indo para o brejo ante a reticência do seu alvo.

    Lydgate acaba cedendo e toma Rosamond como esposa. Conforme, o trecho que abre este artigo, ele via na beleza de Rosamond o sinal de um espírito sublime: o de uma mulher apaixonada pelo marido que o veneraria como mais forte, mais inteligente e mais sábio do que ela e que o obedeceria em tudo, ajudando-o a concretizar suas ambições profissionais ao proporcionar-lhe um lar agradável, preenchido pela doce voz e pela beleza física de uma mulher. No entanto, a loira mais cobiçada de Middlemarch estava longe deste ideal. Rosamond não compreendia os interesses intelectuais do esposo, que ela considerava esquisitos e inúteis, e começa a enfadar-se com ele, pois a conquista já estava feita, e seu ego exigia que ela fosse objeto da cobiça de outros homens. A preferência de Rosamond por divertir-se passa a prejudicar as atividades intelectuais de Lydgate, e como Rosamond só se interessa pelo marido na medida em que ele possa satisfazer os sonhos dela, Lydgate começa a perceber gradualmente que sua esposa em nada o ajudaria a tornar-se o grande cientista que ele gostaria de ser, o que mina gradativamente a autoconfiança que ele tinha ao chegar à cidade.

    O momento da verdade sobre o relacionamento do casal chega quando começam os problemas financeiros. Levando um estilo de vida que não condiz com os rendimentos que Lydgate consegue obter como médico que não receita pílulas milagrosas, as dívidas se acumulam. Lydgate tenta resolver o problema tomando as medidas mais racionais possíveis: penhorando bens e cortando despesas. Ele espera que sua esposa o obedeça, mas Rosamond é surda aos apelos dele, pois o que lhe importa acima de tudo é a reputação de que ela quer gozar na sociedade. Isso faz com que ela boicote de maneira sub-reptícia todos os esforços dele de lidar com os credores, o que o obriga a pedir dinheiro emprestado ao Sr. Bulstrode, com quem Lydgate trabalhava na construção do hospital. Bulstrode dá o dinheiro a Lydgate após este ter cuidado de um homem que chantageava Bulstrode ameaçando contar a todos o que sabia sobre o passado do paladino da moral em Middlemarch. O homem morre porque Bulstrode não lhe dá o remédio prescrito por Lydgate e quando todos na cidade acabam sabendo sobre as ações desonrosas de Bulstrode, eles chegam à conclusão de que o silêncio de Lydgate sobre a morte suspeita do chantageador foi comprado.

    Lydgate consegue pagar suas dívidas, mas sua reputação está em frangalhos, o que para Rosamond é insuportável. Ela exige a mudança para Londres e Lydgate atende ao pedido, apesar de sua vontade de continuar em Middlemarch trabalhando em prol do hospital e da ajuda de amigos que estão dispostos a asseverar a honestidade do médico. E por que Lydgate cede? No papel de cavalheiro casado que deve proteger sua esposa até o fim, ele se sente na obrigação de reparar os danos causados ao orgulho de Rosamond pelas dívidas e pelas relações com o famigerado Bulstrode. Assim, Rosamond consegue tudo o que sempre quis, mas a autora nos revela que Lydgate, apesar de ter ganho dinheiro em Londres como médico que receita remédios para gota, é um homem frustrado por não ter conseguido realizar seus sonhos. Ao longo dos anos, percebendo ter feito uma má escolha ao casar-se com a bela e vaidosa Rosamond, Lydgate dá vazão ao seu ressentimento acusando a esposa de ser um manjericão, isto é, uma planta que floresce no cérebro de um homem morto. Rosamond não se importa com essas acusações, pois jamais amou o marido e jamais percebeu o sacrifício que ele fez para agradá-la. Quando ele morre aos 50 anos e a deixa com quatro filhos e uma boa fortuna, ela logo casa-se de novo.

    A lição que tiramos do drama de Lydgate é que se o estereótipo da sociedade patriarcal é de que atrás de um grande homem existe uma grande mulher, o oposto também é verdadeiro: se uma mulher constrói um homem ela pode também o destruir, como Rosamond fez com seu marido, a quem ela usou como instrumento para suas ambições de ascensão social. Mas George Eliot é sutil o suficiente para mostrar os defeitos de Lydgate, que se deixou levar por uma paixão sexual e encantar-se por uma beleza oca, vazia de caráter ou de espiritualidade. Rosamond era mesquinha e seu prazer na vida era admirar-se no espelho, vendo seu próprio reflexo em tudo e todos. Mas Lydgate foi fraco e ingênuo ao se deixar enganar pela mulher que desempenha o papel da fêmea agradável, passiva, que se faz de frágil para alimentar a vaidade masculina e assim conseguir um esposo. Talvez George Eliot tivesse em mente as críticas que o Sturm und Drung fez ao comportamento estereotipado das pessoas em sociedade, conforme o trecho que abre este artigo. Os membros deste movimento, que propunha um individualismo humano, queriam que as mulheres fossem autênticas como eles eram, dessem vazão aos seus sentimentos e não ficassem escondendo-se atrás de atitudes fingidas como desmaiar, obedecer sempre, não tomar a iniciativa para nada, estabelecidas como estratégias para encaixar-se no estereótipo do feminino e assim conseguir a aprovação de um homem candidato a esposo ou a amante que as sustentariam.

    Prezados leitores, o gênio de George Eliot estava em mostrar os cinquenta tons de cinza das sociedades patriarcais do início do século XVIII: as mulheres seguiam as regras do jogo, agindo polidamente, agradando os homens, esperando que eles agissem, mas a depender do caráter delas, elas o faziam simplesmente para satisfazer seus próprios interesses em detrimento dos interesses do suposto sexo forte. Nessa guerra dos sexos, muitas das vítimas foram homens bem-intencionados como Lydgate, que fiéis ao ideal do cavalheiro responsável pelo bem-estar da dama, foram incapazes de lidar com mulheres predadoras como Rosamond, que souberam extrair o bônus de ter um financiador sem se preocuparem com os ônus de desempenhar o papel do sexo frágil, que era o de ajudar o marido a desenvolver seu potencial. A história do casal Lydgate e Rosamond nos coloca a questão: para que haver relacionamentos? Para sermos sinceros uns com os outros e buscarmos a felicidade juntos, como os românticos alemães propunham? Ou para desempenharmos papéis estereotipados e chafurdarmos em comportamentos passivo-agressivos? A escolha está posta, tanto na sociedade patriarcal do século XIX retratada por George Eliot quanto na sociedade pós-patriarcal do século XXI. Cabe a cada um de nós escolhermos.

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Hipocrisia para quê?

A trajetória de Bulstrode até aquele momento tinha, ele pensava, sido sancionada por ocorrências providenciais notáveis, parecendo apontar para ele o papel de agente da concretização do melhor uso de um grande patrimônio e evitando que este fosse pervertido. A morte e outras disposições extraordinárias, tais como a confiança das mulheres, haviam acontecido e Bulstrode teria feito suas as palavras de Cromwell – ‘Você chama esses acontecimentos de vazios? Que o Senhor tenha pena de você! Os acontecimentos eram comparativamente pequenos, mas a condição essencial estava lá – a saber, que eles favoreciam seus próprios fins. Era fácil para ele estabelecer o que ele devia aos outros indagando quais eram as intenções de Deus com relação a si próprio.

Trecho do livro Middlemarch da escritora George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans (1819-1880)

É impossível, a esta distância, retratá-lo de maneira objetiva, pois desde sua ascensão até hoje os historiadores o descreveram como um hipócrita ambicioso ou um santo-estadista. Uma personalidade tão ambivalente provavelmente encerra em si – às vezes harmoniza – em seu caráter as qualidades opostas que geram tais avaliações contraditórias. Essa pode ser a chave para entender Cromwell.

Trecho retirado do livro “The Age of Reason Begins”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981)

“Eu desejo que todas as pessoas de boa fé possam imputar a glória disto a Deus, que é quem deve ser elogiado por essa misericórdia”. Ele esperava que “tal amargura impedirá o derramamento de sangue, pela bondade de Deus.”

Trecho retirado do livro “The Age of Louis XIV”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) citando a fala de Oliver Cromwell (1599-1658), Lorde Protetor da Inglaterra entre 1653 e 1658, quando da sua campanha de conquista da Irlanda, na qual ele cercou a cidade de Drogheda e foi responsável pela morte de 2.300 pessoas, incluindo civis e padres

    Prezados leitores, eis-me aqui de volta, depois de várias semanas de férias. Trago em minha memória imagens de lugares que visitei e reflexões sobre livros que li. Nesta semana, quero compartilhar com vocês minhas impressões sobre Middlemarch, a obra-prima da escritora inglesa George Eliot, que não foi consagrada por Hollywood como Jane Austen foi, talvez pelo fato de seus livros não serem facilmente convertidos em um script de filme. Meu foco será em um único personagem, o Sr. Bulstrode, que a escritora cria como um paradigma do puritano hipócrita, que adora pregar a virtude, acha defeitos morais em todos a seu redor, mas tem telhado de vidro. O objetivo será traçar um paralelo com Oliver Cromwell, paralelo aliás estabelecido pela própria autora.

    O Sr. Bulstrode é um homem rico e respeitável da cidade de Middlemarch, no interior da Inglaterra. Ele é rico porque herdou o patrimônio de sua primeira esposa, de quem ficou viúvo, e o multiplicou pelo seu tino comercial, e respeitável porque tem um papel de liderança na comunidade, que ele exerce indicando pessoas para cargos religiosos e construindo um hospital para abrigar as vítimas de doenças infecciosas. Ele se opõe à escolha do Sr. Fatherstone como pastor para uma igreja porque ele joga cartas à noite, o que é um hábito condenável de acordo com a religião, e ele deixa de emprestar dinheiro a um médico que lhe pede ajuda para pagar suas dívidas dando-lhe uma lição sobre como ele deve viver de maneira frugal. Enfim, o Sr. Bulstrode aparece ao longo da história como o paladino da observância de rígidos padrões morais. E no entanto…

    A visita inesperada de um antigo amigo que lhe pede dinheiro revela atos e omissões da vida pretérita do vetusto “dissidente”, como eram chamados aqueles de confissões religiosas outras que o catolicismo e o anglicanismo. A primeira esposa do Sr. Bulstrode era herdeira de um negócio no qual ele começara a trabalhar como aprendiz. Ela tinha uma filha de um casamento anterior, que fugira de casa para casar-se com um ator. Bulstrode promete à mulher que iria investigar o paradeiro da moça e realmente o faz. Ao encontrá-la, ele não dá à esposa a boa-nova e a pobre coitada morre sem saber que a filha estava viva. É nas pirotecnias mentais que Bulstrode faz para justificar seus atos para si mesmo que George Eliot revela seu gênio para retratar um típico fanático religioso hipócrita.

    Conforme o trecho que abre este artigo, para Bulstrode a morte da mulher, a confiança que ela depositava nele, o fato de a filha nunca ter aparecido para reivindicar nada tudo isso eram sinais da providência divina. Se a esposa morreu e a filha não deu as caras é porque Deus quis que o dinheiro ficasse com o marido viúvo, para que este o empregasse de maneira produtiva e não para que fosse gasto por pessoas perdulárias que tinham uma vida desregrada, como se pode esperar de atores. O fato de Bulstrode ter tomado a decisão de não dizer à mãe que sua filha estava viva não é, aos olhos do seu raciocínio interesseiro, uma falha moral. A morte da esposa e o desinteresse da filha em procurar a família eram intervenções divinas que corroboravam a atitude de Bulstrode e portanto, a tornavam benigna aos olhos do Senhor.

    Na prática, Bulstrode estabelece para si um código moral maquiavélico, em que os fins justificam os meios, isto é, o fim de realizar a obra divina na terra justificam a mentira, a crueldade com a própria mulher, que morreu com a mágoa de não ter podido reencontrar a filha. Nesse sentido, ele usa sua razão não para controlar suas paixões, mas para dar-lhes um verniz ético que lhe permite dar plena vazão a elas, motivando-o a perseguir seus desígnios egoístas, que ele confunde com os desígnios divinos para ter uma consciência tranquila. Em suma, qualquer coisa que Bulstrode faça será sempre boa do ponto de vista moral, porque ele sempre encontrará uma razão para vê-la dessa forma, já que a busca pelo dinheiro e pelo poder sobre as pessoas é o que o move, acima de tudo.

    Não admira que George Eliot cite as palavras de Oliver Cromwell para ilustrar o pensamento casuístico de Bulstrode que a cada manifestação do seu ego vê a intervenção divina no arranjar dos acontecimentos para favorecer os fins por ele perseguidos e justificar seus atos. Cromwell, que ascendeu ao poder na Inglaterra depois da execução do rei Charles I em 1649, é um personagem polêmico da história da Inglaterra que muitos amam e outros odeiam. Essa ambivalência de julgamento, de acordo com a explicação de Will e Ariel Durant citada na abertura deste artigo, é fruto das características contraditórias do homem. Um exemplo de uma de suas ações servirá de ilustração.

    No chamado massacre de Drogheda, que ocorreu depois do cerco à cidade irlandesa em setembro de 1649, Cromwell, que liderava as tropas, ordenou a execução de prisioneiros e o incêndio da Igreja de São Pedro, onde os soldados que defendiam a monarquia se refugiaram. Conforme as palavras dele citadas em “The Age of Louis XIV”, a mão de Deus esteve presente nesses acontecimentos: o fato de soldados terem sido queimados vivos, de outros que haviam se rendido esperando clemência terem sido executados não eram atos malignos. Eles eram manifestação da clemência de Deus pois a repressão brutal dos irlandeses rebeldes permitiu que a revolta fosse debelada, impedindo assim que mais sangue fosse derramado.

    Daí a ambiguidade de um personagem como Cromwell, que George Eliot exemplifica na figura de Bulstrode inserido no microcosmo que ela cria inspirada em seu Warwickshire natal. O fato de ele ter a convicção de ser inspirado por Deus em seus atos dava-lhe a determinação para perseguir seus objetivos de maneira implacável? Não seria isso uma qualidade em um líder que estava enfrentando a desordem causada pela derrubada do Velho Regime da monarquia absolutista representada por Charles Stuart, o rei deposto e executado? Ou as matanças e crueldades praticadas sob as ordens de Cromwell, tudo em nome de Deus, seriam os atos de um hipócrita que sabia dar vazão a sua ambição pelo poder convencendo as pessoas de que ele estava fazendo a coisa certa do ponto de vista moral porque o Senhor havia intervindo diretamente nos acontecimentos? Será que a harmonização de que fala Durant significa que a hipocrisia de Cromwell, isto é, sua facilidade em costurar um manto sagrado para seus atos, permitiu-lhe uma firmeza de propósitos que deixou um legado digno de um estadista?

    Questões filosóficas cuja resposta depende dos valores de cada um. No seu esforço de retratar um hipócrita em ação, George Eliot, que era profundamente agnóstica em matéria religiosa, dá a seu personagem o final de um ser sobre o qual ela passa um julgamento moral. Bulstrode acaba tendo que sair de Middlemarch, diante da repercussão das revelações sobre sua vida pregressa que caem na boca do povo. Ele vai morar em outra cidade com sua fiel esposa que não o abandona por amor, mas a quem ele não tem a humildade de pedir perdão, porque seu orgulho e sua autoimagem são mais importantes que tudo. De qualquer forma, por maior que seja sua falta de caráter, para além do verniz do proselitismo religioso, ele deixa um legado: um hospital que terá um impacto positivo na comunidade, a despeito da origem ilícita dos recursos que o financiaram. Com certeza se pode dizer o mesmo do Lorde Protetor da Inglaterra: não há dúvida de que ele foi o carrasco da Irlanda, pois sua guerra de conquista causou a morte de 616.000 de um total de 1.466.000 pessoas. Mas o seu governo, cheio de excessos puritanos, deu um golpe fatal no direito divino dos reis e lançou as bases para a futura tomada definitiva do poder pelo Parlamento.

    Inspirados realmente por Deus ou não, os hipócritas Bulstrode e Cromwell, na sua estranha combinação de elementos contraditórios, deixaram sua marca no mundo, fazendo assim com que o vício prestasse tributo à virtude. Prezados leitores, no final das contas, a hipocrisia pode ter uma função no grande esquema das coisas, mas não deixem jamais de desconfiar de quem age em nome de Deus.

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