Estado para quê?

De acordo com este sistema de liberdades naturais, o soberano [ou o Estado] tem somente três obrigações a cumprir: … primeira, a obrigação de proteger a sociedade da violência e de invasão por outras sociedades independentes; segunda, a obrigação de proteger, tanto quanto possível, cada membro da sociedade da injustiça e da opressão de qualquer outro membro, ou a obrigação de estabelecer uma administração precisa da justiça; e terceira, a obrigação de manter determinadas obras públicas e instituições públicas, as quais nunca podem ser do interesse de nenhum indivíduo, ou de um pequeno número de indivíduos, erigir ou manter.

Trecho retirado do livro “A Riqueza das Nações”, do economista escocês Adam Smith (1723-1790)

No restaurante dele, são 22 funcionários, mas deveriam ser 25. Ele não consegue preencher três vagas. Na pandemia, diz, muitos migraram para pequenos negócios, montaram delivery, foram trabalhar como motorista de aplicativo ou nem voltaram para o mercado de trabalho. Para Vitali, programas do governo como o Bolsa Família, que teve reajuste significativo nos últimos anos, fazem muitos preferirem trabalhar como autônomos, sem carteira assinada, para não perder o benefício. Empresários têm de pagar mais.

Trecho retirado do artigo “Pleno Emprego – Qualificada ou não, mão de obra começa a ficar escassa nas empresas”, publicado no jornal O Globo de 18 de agosto sobre o apagão de mão de obra vivido no Brasil

 

A desigualdade não desaparecerá enquanto o acesso a escolas de base com qualidade continuar restrito. Universidade para todos é uma ilusão demagógica se o sistema educacional não superar a divisão entre “escolas senzala”, para a maioria pobre, e “escolas casa-grande”, para a minoria rica. O entorno do presidente precisa perceber que os produtos da mesa são comprados, mas a educação universitária é conquista de cada indivíduo, desde que tenha acesso à escola pública de qualidade. A mudança necessária não está em políticas que aumentem as vagas para ingresso no ensino superior. Está em garantir a universalização do egresso oriundo de escolas com a máxima qualidade para todos.

Trecho do artigo “Mesa, Escola e Bola” publicado por Cristovam Buarque na edição de Veja de 9 de agosto

    Prezados leitores, há duas semanas, no artigo “Útil para quê?”, ao falar sobre o utilitarismo e a eutanásia, fiz menção à crítica feita pelo filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970) ao laissez faire proposto por Adam Smith em sua obra-prima, “A Riqueza das Nações”. Para Adam Smith, o melhor sistema econômico possível, isto é, aquele que gerará a maior quantidade de riqueza possível e portanto o melhor do ponto de vista utilitarista, é aquele em que cada indivíduo tem a liberdade de perseguir seus objetivos na vida, pois num ambiente de liberdade econômica haverá um maior incentivo à criação e à inovação que geram investimentos e empregos. O lado negro do laisser faire, para Russell, é que na prática a liberdade, apesar de ser útil sob o ponto de vista econômico, causa uma imensa desigualdade e permite uma grande exploração das pessoas, como ocorreu na Revolução Industrial, que teve início no século XVIII na Inglaterra. Meu objetivo nesta semana é mostrar uma faceta menos conhecida do pai do liberalismo econômico, que via o Estado desempenhando um papel fundamental na economia. Esse lado obscurecido do livro “A Riqueza das Nações” servirá para lançar luz sobre alguns dos problemas enfrentados hoje no Brasil.

    De acordo com o trecho que abre este artigo, para Adam Smith o Estado deveria prestar três serviços à sociedade para que cada membro pudesse ter condições de colocar em prática seu projeto de vida particular: garantir a segurança do cidadão contra a violência interna ou externa, aplicar a justiça às disputas entre os cidadãos de forma que nenhum levasse vantagem exagerada em relação ao outro e por último realizar os tais trabalhos públicos. E o que são tais trabalhos públicos? Hoje em dia diríamos que são bens públicos que criam externalidades positivas, isto é, bens que devem ser proporcionados pelo Estado porque eles geram benefícios que se espalham pela sociedade e não podem ser capturados por agentes privados através da precificação, pois o preço não refletiria o valor que tal bem agrega à sociedade.

    A educação básica para todos é um exemplo disso, mostrado no artigo de Cristovam Buarque. A educação básica de qualidade permite que as pessoas tenham acesso às melhores universidades e consigam se qualificar para buscar empregos de boa remuneração. Para quem não tem acesso à educação básica de qualidade, que infelizmente é a maioria dos brasileiros, o acesso ao ensino superior, quando se dá, é por meio de vagas subsidiadas em faculdades particulares, que oferecem um diploma que pouco contribui para que as pessoas consigam empregos que satisfaçam suas expectativas, pois não as provê das habilidades exigidas pelo mercado de trabalho no século XXI. O resultado na economia brasileira é catastrófico, como mostra o artigo do O Globo.

    De acordo com o IBGE, no acumulado de 12 meses o Brasil teve um crescimento de 2,5%, o que é insuficiente para gerar as riquezas necessárias para aumentarmos nosso nível de desenvolvimento. Por outro lado, a taxa de desemprego está em 6,9%, a menor em uma década, de acordo com o artigo. E por quê? Ora, há um apagão de mão de obra nas duas pontas. Na ponta de cima, aqueles que têm diploma de curso superior não tem a formação solicitada pelo mercado. Faltam engenheiros civis, faltam gestores de projetos. Na ponta de baixo, aqueles que não têm diploma universitário não se sentem atraídos pelos baixos salários pagos à mão de obra pouco qualificada. O artigo informa que um indivíduo que faz bicos e recebe benefício social ganha em média R$1.399,00, que é menos do que o salário mínimo de R$1.412,00, mas que não é muito menor. Daí o comportamento constatado pelo empresário Leonardo Vitali, dono de um restaurante em Goiânia, cuja fala é citada na abertura deste artigo. É difícil recrutar gente para trabalhar em restaurantes porque o salário não é lá grande coisa e para o candidato a garçom ou a auxiliar de cozinha ou de limpeza é muito melhor manter-se no rol de beneficiários da assistência governamental e fazer alguns bicos do que prender-se a um emprego formal que requer jornadas fixas de trabalho e dias de descanso estabelecidos pelo patrão.

    É clara a catástrofe para o Brasil gerada pela falta de educação básica, que cria um círculo vicioso nas duas pontas: na ponta de baixo, sem qualificação, a pessoa só tem acesso a empregos de baixa remuneração, fazendo com que seja preferível não ter carteira assinada, o que por si só aumenta a desqualificação pela própria falta de formalização; na ponta de cima, devido à falta de pessoas com os diplomas úteis à economia, o empresário enfrenta restrições ao investimento produtivo, pois as atividades que não podem ser automatizadas carecem de mão de obra para serem exercidas.

    Prezados leitores, quando forem votar em outubro, lembrem-se das lições de Adam Smith sobre a necessidade de o Estado proporcionar aqueles bens que só ele tem a capacidade para prover: um dos mais importantes é a educação básica de qualidade para todos, que ao qualificar as pessoas viabiliza a criação de riqueza. À pergunta de “Governo para quê?” podemos responder: proporcionar os serviços que permitam a cada um, nos dizeres de Cristovam Buarque, “ter o mapa que lhe permita buscar sua felicidade”.

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Liberdade de expressão para quê?

Não posso enaltecer uma virtude fugidia e enclausurada, não exercida e sem fôlego, que nunca se aventura e encara seus adversários, mas move-se sorrateiramente para fora da corrida… Dê-me a liberdade de saber, de falar e de argumentar livremente de acordo com minha consciência, acima de todas as liberdades… Mesmo que todo os ventos da doutrina fossem soltos para soprarem na Terra, de modo que a Verdade esteja em campo, nós praticamos um mal, concedendo licenças e proibindo, ao duvidar da sua força. Deixe que a Verdade e a Mentira lutem corpo a corpo; quem alguma vez viu a Verdade ser prejudicada em um encontro aberto e livre?

Trecho retirado do livro “The Age of Louis XIV” escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), citando a fala do poeta inglês John Milton (1608-1674) defendendo a liberdade de expressão

Podemos partir do pressuposto de que um regime democrático requer liberdade de expressão e de associação, liberdade de pensamento e de consciência. […] Em que pese tal arranjo não garantir que haverá racionalidade, na sua ausência parece certo que o rumo mais razoável será rejeitado em favor de políticas perseguidas por interesses especiais. […] Todos os cidadãos devem ter os meios de ser informados sobre as questões políticas. Eles devem estar em uma posição tal que lhes permita avaliar como as propostas afetam seu bem-estar e quais políticas promovem sua concepção de bem público. […] As liberdades protegidas pelo princípio da participação perdem muito do seu valor sempre que se permite àqueles que têm mais meios particulares utilizar suas vantagens para controlar o rumo do debate público. […]

Trecho retirado do livro “A Theory of Justice”, do filósofo americano John Rawls (1921-2002)

    Prezados leitores, aula de dança para crianças em uma escola primária ao som de Taylor Swift, na cidade de Southport, 27 quilômetros ao norte de Liverpool, na Inglaterra, em 29 de julho. Um homem entra no recinto e esfaqueia várias das pessoas presentes, matando três crianças, Bebe King de seis anos, Elsie Dot Stancombe de sete anos e Alice da Silva Aguiar, de nove anos. Oito outras crianças e mais dois adultos são feridos. Rumores começam imediatamente a se espalhar nas mídias sociais de que o assassino era um imigrante recém-chegado em um barco inflável, desses que são usados para atravessar ilegalmente o Canal da Mancha. A polícia demora vários dias para divulgar o nome do culpado, o que faz as pessoas presumirem que não se tratava de um inglês branco.

    Finalmente a polícia divulga que o assassino é um adolescente de 17 anos nascido no País de Gales, portanto um cidadão britânico, filho de imigrantes de Ruanda. Trocas de informações não verificadas pelas mídias sociais, que incluíram afirmar que o assassino era muçulmano, têm seu efeito sobre o ânimo das pessoas: em 30 de outubro um grupo de homens brancos reúne-se em torno de uma mesquita em Southport, atacando-a e na sexta-feira dia 2 ocorrem tumultos em várias cidades da Inglaterra, como Leeds, Newcastle e Birmingham, incluindo incêndios, saques, ataques a pessoas. Os tumultos duram até dia 5 de agosto e o saldo final é de 130 policiais lesionados e 1024 pessoas presas (575 delas já denunciadas).

    O governo do primeiro-ministro Keir Starmer acusa grupos de ultradireita de espalhar informações erradas online para atiçar os tumultos e promete um combate duro contra quem encaminhar mensagens que veiculem informações erradas ou desinformação (isto é, informações falsas criadas deliberadamente para prejudicar alguém) por qualquer plataforma social. Mais um típico exemplo do efeito nefasto da troca desenfreada de informações nas mídias sociais, as quais precisam ser reguladas urgentemente, dirão muitos. No entanto, um outro ponto de vista é possível sobre a questão, que me proponho a expor neste meu humilde espaço, com base nas lições de John Rawls no século XX e de John Milton, no século XVII.

    Para John Rawls, teórico do liberalismo moderno, o regime democrático pressupõe a liberdade de expressão e de pensamento. De acordo com o trecho que abre este artigo, tais liberdades são condições necessárias, embora não suficientes, para que as decisões políticas sejam tomadas de maneira racional, isto é, de maneira que não haja a predominância dos interesses específicos de um grupo, mas se construa um consenso sobre o rumo a tomar após o confronto das diferentes ideias na arena pública. Para que haja um debate franco e de boa-fé, visando a formulação de políticas em prol do bem comum, é preciso que o cidadão possa ter acesso às informações sobre o que está acontecendo em sua cidade, Estado e país e com base nelas avaliar as propostas colocadas publicamente para tratar dos desafios que a sociedade enfrenta.

    Se, ao contrário, o cidadão é mal-informado ou se informações são dele omitidas por grupos de interesse para que ele opte por propostas que favorecem determinados grupos, acaba ocorrendo uma deturpação do debate público, que deixa de servir como instrumento de busca de consenso em torno da ideia do bem comum de todos e se torna instrumento de manipulação para que os interesses privados de uns prevaleçam sobre os interesses dos demais. Livre circulação de informações, liberdade para os cidadãos colocarem seus pontos de vista. Dessa maneira, todos juntos, imbuídos de um objetivo comum, que é o de lidar com problemas que afetam todos os membros da sociedade, ficam propensos à busca de consensos ao trocarem ideias e informações e acabam chegando à melhor solução possível, levando as necessidades de todos em consideração.

    Essa ideia do fluxo livre de ideias também está por trás da crítica que o poeta inglês, John Milton, autor de Paraíso Perdido, faz da censura governamental a livros e da necessidade de obtenção de licença de publicação. De acordo com o trecho que abre este artigo, Milton prefere que a Verdade vá a campo de peito aberto, apresente-se em face dos seus contendores. Sendo Verdade, ELA será robusta e prevalecerá contra a Mentira. Tratar a Verdade como uma criatura delicada, que precisa da proteção da limitação à liberdade de expressão para ser mantida, é o pior caminho a tomar, pois Ela só pode prevalecer de maneira duradoura se for testada nos embates com a Mentira, do contrário, enclausurada na bolha proporcionada pela censura, definhará pela falta de energia proporcionada pelo desafio colocado por seu contrário.

     Em suma, tanto para Milton, poeta que faz uso de alegoria, quanto para Rawls, quanto maior a circulação de ideias e informações, por mais que isso seja um processo de tentativa e erro, mais bem servido estará o bem comum, porque todos juntos discutindo franca e abertamente, cometendo erros, trilhando os inúmeros caminhos possíveis poderão ao final chegar ao consenso imaginado por Rawls, isto é, à melhor política pública para todos, ou à Verdade de Milton, a vencedora do duelo a céu aberto com a Mentira.

    À luz da importância enfatizada por John Rawls e por John Milton da liberdade de expressão e de pensamento, considero que apesar de todos os percalços desse turbilhão de informações geradas e consumidas a cada momento nas redes sociais, considero que a censura de conteúdo e a perseguição a usuários de redes sociais por suas publicações virtuais é contraproducente. Se aos cidadãos for negada a chance de participar do debate público, inclusive para dizer besteiras, ele acabará fazendo uso de outros meios mais físicos para fazer com que seja notado.

    Os tumultos podem ter acabado por ora na Inglaterra, mas se o governo impedir que as pessoas manifestem sua opinião sobre questões que as preocupam, como a imigração, elas mais cedo ou mais tarde voltarão às ruas para protestar contra decisões tomadas sem que tenham sido ouvidas. No frigir dos ovos, o melhor fact-checker disponível é aquele proporcionado pela maior circulação possível de informações pelo maior número de possível de pessoas e não por nenhuma agência governamental ou não governamental, que pode ter um interesse particular em realçar certas informações e omitir outras porque quer impor uma determinada política à sociedade sem consultar todos os seus membros.

    Prezados leitores, liberdade de expressão para quê? Para que algumas pessoas falem bobagens e mintam, isso é inevitável, mas principalmente para que a maioria das pessoas, expostas a toda sorte de ideias e informações, possam depois de muitas cabeçadas, aprender a separar o joio do trigo e chegar às conclusões necessárias para que o regime democrático possa continuar entregando resultados à população pela execução de políticas públicas. Apesar de todos os perigos, é só quando a Verdade se aventura e coloca sua cara para bater que ela amadurece e frutifica, permitindo que as decisões mais racionais possíveis a nós, pobres seres humanos, sejam tomadas.

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Útil para quê?

[…] Bentham expôs aquele “princípio da maior quantidade de felicidade” ao qual John Stuart Mill em 1863 deu o nome de “utilitarismo”. É a maior quantidade de felicidade do maior número de pessoas que é a medida do certo e do errado.” De acordo com esse “princípio de utilidade” todas as propostas morais e políticas e as práticas devem ser julgadas, porque “a tarefa do governo é a de promover a felicidade da sociedade”. No longo prazo, ele pensava, o indivíduo obtém a maior quantidade de prazer ou a menor quantidade de dor sendo justo com os outros membros da sociedade.

Trecho retirado do livro “Rousseau and Revolution”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981)

Aqui a felicidade é considerada como significando o mesmo que o prazer. A função da lei é garantir que, ao perseguir seu próprio prazer ao máximo, ninguém deveria prejudicar essa mesma busca nos outros. Dessa maneira é atingida a maior quantidade de felicidade do maior número de pessoas. Esse era, em que pese todas as suas diferenças, o objetivo comum dos utilitaristas.

Trecho retirado de “Wisdom of the West”, do filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970) sobre o filósofo Jeremy Bentham (1748-1832)

Jan e Els ficaram casados durante quase cinco décadas. No início de junho, eles morreram juntos depois de dois médicos lhes terem ministrado uma medicação letal. Na Holanda, isso é conhecido como eutanásia dupla. É legal e é raro – mas a cada ano, mais casais holandeses escolhem terminar a vida dessa maneira.

Trecho de um artigo publicado no site da BBC em 28 de junho de 2024 intitulado “Morte juntos: por que um casal que tinha um casamento feliz decidiu parar de viver

    Prezados leitores, há duas semanas revelei a vocês a inevitabilidade de eu perder meu emprego em virtude do progresso tecnológico que faz com que as máquinas trabalhem de maneira melhor e mais barata do que os seres humanos. A perda do emprego traz outras repercussões, entre elas a impossibilidade de se aposentar se o desempregado não consegue continuar pagando as contribuições previdenciárias até que cumpra os requisitos impostos pelo INSS. E tais requisitos são cada vez mais estritos. Para mulheres, 30 anos de contribuição e idade mínima de 62 anos são necessários para se conseguir o valor máximo de aposentadoria, que hoje está, em R$7.507,49, o que talvez permita cobrir as despesas com plano de saúde e as necessidades materiais básicas. E se o desempregado não conseguir fazer os pagamentos previdenciários? O que lhe restará?

    Esta é uma pergunta para a qual nossas autoridades não nos oferecem resposta satisfatória. Em 2019, os eminentes deputados e senadores aprovaram uma reforma para tentar viabilizar financeiramente a previdência, mas não houve nenhuma atenção à elaboração e à execução de políticas que estimulem o emprego daquela parcela da população que já passou dos 50 anos e que precisa ter condições de chegar à linha de chegada para conseguir ter uma vida mais ou menos digna na terceira idade. Isso não é novidade no Brasil. Os escravos foram libertados pela monarquia em 1888 e a república nunca se preocupou em oferecer meios para que os ex-escravos tivessem acesso a serviços de saúde e educação que lhes permitissem viver uma nova vida longe do trabalho braçal nas lavouras.  Qual será o expediente menos complexo de que nossas autoridades irão se valer para dar conta desses velhinhos desempregados e “desprevidenciados”? Velhinhos que não são pobres o suficiente para terem direito a benefícios assistenciais como o BCP-LOAS e nem ricos o suficiente para ao final da vida produtiva terem acumulado uma gorda poupança que lhes permita viver mais 30 anos viajando, dedicando-se a hobbies e a trabalhos voluntários?

    Acredito que a solução que será encontrada será aquela proposta por países como a Holanda para lidar com a senescência, a eutanásia. Em, 2023, 9.068 pessoas morreram de eutanásia na terra das tulipas, dos moinhos e dos diques, o que corresponde a 5% do total de óbitos. A morte simultânea do casal Jan e Els, citado na abertura deste artigo, entra na estatística de 2024. Jan de 70 anos exerceu durante toda a vida ofícios que exigiam força física, como o descarregamento de mercadorias, e acabou adquirindo uma dor na coluna que uma cirurgia em 2003 não resolveu e que o obrigava a viver à base de analgésicos. Sua mulher Els, de 71 anos, havia sido professora e aposentou-se em 2018 quando começou a mostrar sinais de demência. A decisão de acabar com a vida foi tomada pelos dois de comum acordo e comunicada ao filho único. Ela resolvia vários problemas: acabava de vez com as dores insuportáveis de Jan, acabava com a angústia de Els de viver sabendo que sua demência só pioraria com os anos e a levaria a se tornar cada vez mais dependente, eximia o filho único de arcar com o fardo de cuidar de pais idosos e debilitados e economizava dinheiro para o Estado holandês, que não mais precisou pagar aposentadorias a duas pessoas que certamente precisariam ainda ser internadas em algum asilo financiado com dinheiro público.

    Diminuindo a dor e os ônus de um grande número de partes envolvidas, a eutanásia parece satisfazer aos critérios do princípio da maior quantidade possível de felicidade ou princípio utilitarista do filósofo e jurista londrino Jeremy Bentham, conforme exposto no trecho que abre este artigo. Afinal, o exemplo concreto da morte do casal Jan e Els mostra que de um lado foi evitada a dor física e o desconforto mental por que os dois passariam se tivessem ficado vivos e de outro lado foi proporcionado um benefício ao filho, que pode agora levar uma vida tranquila sem ter ninguém doente sob sua dependência e um benefício ao Estado, que economizou dinheiro. E mais, ninguém foi prejudicado pela morte dos dois velhinhos.  Sob essa perspectiva, a lei da eutanásia obedece ao princípio exposto por Bertrand Russell em sua exposição das ideias de Bentham de que a lei deve garantir que cada indivíduo possa seguir seu caminho rumo à felicidade e ao mesmo tempo permitir que todos os outros possam fazer a mesma coisa simultaneamente. Para Jan e Els, acabar com a vida era o caminho da felicidade pois evitava a dor inevitável à condição de decadência física em que se encontravam. O que pode haver de mal nisso se não o preconceito dos proponentes de uma moral de fundamento religioso que faz da vida um bem absoluto?

    E no entanto, Bertrand Russell expõe algumas falhas na visão utilitarista. Ela foi utilizada pelos economistas liberais para justificar o laisser faire e o livre comércio em voga no século XIX. A ideia era que se a cada indivíduo fosse dada a liberdade de perseguir sua própria felicidade, em termos de busca de bens materiais, a sociedade como um todo sairia ganhando, porque ao final haveria a maior quantidade de felicidade possível para o maior número de pessoas possível. Como vimos quando tratamos da Revolução Industrial, o laisser faire teve um lado negro, pois permitiu a superexploração dos trabalhadores nas fábricas, exaurindo-os física e mentalmente. Jeremy Bentham pensava que a justiça para todos seria obtida se cada indivíduo ao calcular sua felicidade pensasse nela no longo prazo e no longo prazo é melhor que não prejudiquemos os outros membros da sociedade, porque isso tem repercussões negativas para nós.

    No entanto, será que o ser humano consegue agir cotidianamente e tomar decisões sobre o que fazer pensando no longo prazo? Será que ele tem informações suficientes sobre o que pode ocorrer no futuro para fazê-lo? E será que na prática não somos levados pelas nossas paixões e desejos de forma que a busca da felicidade como ideal acaba sendo uma busca da satisfação dos nossos instintos? Afinal, Sócrates no século V a.C. já havia nos alertado que sem conhecimento não pode haver virtude. Como ser virtuoso ao praticar o culto da felicidade se não conhecemos a nós mesmos e se não entendemos a realidade presente para antecipar o futuro?

    Sob essa perspectiva, será que o filho de Jan e Els, ao se ver privado dos pais por longos anos pela frente, não se arrependerá de ter compactuado com a morte deles porque lhe era mais conveniente no momento? Será que o Estado holandês que economiza agora, cortando custos ao liberar a eutanásia, não estimulará no longo prazo um individualismo cada vez maior, o esgarçamento cada vez maior dos laços familiares e desincentivará a constituição de famílias e a consequente reprodução das pessoas? Afinal, para que ter filhos se quando eu ficar velho serei coagida a me deixar ser objeto de eutanásia para não ser estorvo para ninguém? Quem sustentará o Estado se não houver pessoas que possam trabalhar, gerar riqueza e pagar impostos?

    Prezados leitores, a eutanásia pode ser útil e resolver no momento os problemas de um grande número de pessoas de maneira simples. No longo prazo, ela pode contribuir para destruir a civilização, porque ao cultivar a morte, ela acabará com o vínculo do passado com o futuro estabelecido por aqueles que praticam os valores de uma sociedade que pretende permanecer viva, notadamente o de preservar o legado deixado pelas gerações passadas para as gerações futuras. Espero que nosso Brasil, que está envelhecendo rapidamente e não achou ainda meio de dar emprego e condições dignas aos velhinhos, não adote esse expediente utilitarista. No final das contas, a eutanásia é útil para quê? Para resolver um problema financeiro imediato ou para destruir aquilo que gerações e gerações de seres humanos construíram ao longo dos séculos?

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Morrer para quê?

A Revolução Industrial transformou a moralidade. Ela não alterou a natureza do homem, mas deu novos poderes e oportunidades a antigos instintos que primitivamente eram úteis, mas socialmente causavam problemas. Ela enfatizou a motivação do lucro a um ponto em que parecia estimular e intensificar o egoísmo natural do homem. Os instintos não sociais tinham sido coibidos pela autoridade parental, pela instrução moral nas escolas e pela doutrinação religiosa.

Trecho retirado do livro “Rousseau and Revolution”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981)

Ele considera as religiões tradicionais como sendo os alicerces da moralidade dos escravos. De acordo com ele, o homem livre deve reconhecer que Deus está morto; aquilo pelo que devemos lutar não é Deus, mas um tipo mais sublime de homem. O exemplo típico de moralidade dos escravos Nietzsche encontrava no Cristianismo. Isso porque ele é pessimista ao cultivar a esperança de uma vida melhor em outro mundo, valorizando virtudes de escravo como a docilidade e a empatia.

Trecho retirado de “Wisdom of the West”, do filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970) sobre o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Se não existe Deus, então eu sou Deus. […] Se Deus existe, então toda a vontade é Dele, e fora da vontade Dele nada posso. Se não existe, então toda a vontade é minha e sou obrigado a proclamar o arbítrio. […] Não compreendo como até hoje um ateu pôde saber que Deus não existe e não se matou no ato! […] O homem foi até hoje tão infeliz e pobre porque temeu proclamar a parte essencial do seu arbítrio.

Trecho retirado do livro “Os Demônios”, do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), falado pelo personagem Kiríllov

    Prezados leitores, eu já apresentei aqui anteriormente personagens da literatura como o Dr. Lydgate e sua esposa Rosemond, idealizados pela escritora inglesa George Eliot. Nesta semana abordarei um personagem do romance de Fiódor Dostoiévski, Os Demônios. O nome dele é Kiríllov e suas ideias são consideradas pela critica literária como uma antecipação avant la lettre do que seria proposto pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Se o casal inglês ilumina as relações passivo-agressivas às quais muitas vezes ficamos presos, o revolucionário russo ilumina os caminhos históricos pelos quais seu país enveredou no século XX e foram vislumbrados pelo autor de Os Demônios.

    Kiríllov faz parte de um grupo de rebeldes que se reúnem em Genebra, na Suíça, e têm a ideia de destruir todas as instituições russas, incluindo sua moral e sua religião para criar uma nova sociedade. De volta à pátria-mãe, os membros do grupo seguem percursos paralelos que vez ou outra se entrecruzam. O percurso de Kiríllov é o suicídio, que ele concretiza como uma manifestação da sua liberdade. Conforme o trecho que abre este artigo, se Deus não existe, o homem não está submetido aos seus ditames e nem deve a Deus a graça da vida. Não estando limitado por nenhuma regra imposta por algum Ser Supremo, o homem deve exercer seu livre-arbítrio e a manifestação mais perfeita desta liberdade de escolher o que fazer é escolher dispor da própria vida, que é o bem que segundo os ditames da religião teria sido concedido a nós por Deus. Dessa forma, o homem se torna Deus, porque ele cria e destrói como Ele faria se existisse. Entre continuar a viver e morrer, Kiríllov escolhe dar-se um tiro mortal.

    Daí porque Kiríllov anuncia a visão de mundo que seria defendida pelo filósofo alemão Nietzsche em obras como “Assim Falou Zaratustra” (1885). Tanto o personagem de Dostoiévski quanto o personagem de Nietzsche renegam e desprezam o cristianismo. Para Kiríllov, a morte de Jesus Cristo é absurda, não tem significado nenhum. Ele sofreu imensamente por nada, pois nem foi para o paraíso e nem ressuscitou. O amor, a compaixão, a caridade mostrados pelo principal personagem do Cristianismo não serviram de nada, pois foram pretensas virtudes que acabaram não sendo recompensadas nem aqui nem em um outro mundo. Nietzsche também envereda pelo mesmo caminho de desprezar as virtudes cristãs, que para ele servem apenas para escravos, pois incentivam o pessimismo, a subserviência e a timidez, já que implicam a aceitação do sofrimento de maneira inquestionável. Em contraposição a esta moralidade dos escravos, devemos criar a moralidade dos senhores, do homem sublime, conforme mencionado no trecho que abre este artigo.

    O homem sublime nietzschiano reconhece que Deus está morto, como Kiríllov reconhece, e tal reconhecimento é uma oportunidade de criar a moralidade do übermensch, isto é, do ser independente, generoso, resiliente que supera o velho homem que sofre e tem medo das vicissitudes que a vida lhe impõe, por isso sonha com a vida além da morte. O übermensch ao contrário, segue em frente, destemido, atuando no mundo de maneira implacável, sem reticência, mesmo porque ele, pertencente ao grupo dos melhores, tem pouca simpatia pelo sofrimento da maioria dos seres humanos que não estão destinados a grandes realizações como o übermensch, tomando o lugar de Deus, está.

    Não é de surpreender que uma nova moralidade, livre das amarras da religião cristã, tenha surgido na mente de intelectuais do final do século XIX como Dostoiévski e Nietzsche. Como tentei explicar neste meu humilde espaço na semana passada, a Revolução Industrial proporcionou a melhora das condições materiais da vida em virtude do emprego da tecnologia para a produção de bens de consumo em grandes quantidades e a um preço cada vez mais acessível a um grande número de pessoas. Conforme o trecho que abre este artigo, a Revolução Industrial acabou tendo um impacto também sobre a moralidade. Dotando o homem de novos poderes e de novas possibilidades, ela tirou o foco do sofrimento e da redenção após a morte para infundir-lhe otimismo ante o que ele poderia fazer no futuro. Isso claro, incluía destruir a antiga sociedade e recriar a sociedade sobre novas bases, já que o homem toma do Deus morto o poder de vida e de morte.

    Prezados leitores, os Kiríllov e os Zaratustra da vida real no século XX fizeram a revolução na Rússia, na China, no Camboja, entre outros países. Para que esse novo homem pudesse surgir foi preciso que milhares de homens morressem e para quê? Para ressuscitar para a vida eterna depois de sofrerem na Terra a opressão de outros homens? Ou para afirmar a liberdade de ação dos übermensch que decretam a morte de Deus, como é proposto em obras como “Os Demônios” e “Assim Falou Zaratustra”? E que novo homem surgiu depois de todas essas mortes? O mesmo egoísta de antes, mas sem amarras morais que lhe atassem à religião e à família? Ou um homem sublime, que prescinde de Deus porque ele é seu próprio Deus? Cada um ache sua resposta, conforme sua ideia do que é a vida e a morte.

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