Arquétipos, lá e aqui

Em todas as coisas procurava-se pela “moralidade” como dizia o homem medieval, ou seja, a lição que dali se extraía, o significado moral mais essencial. Cada caso histórico ou literário tende a se cristalizar numa parábola, num exemplo moral, numa evidência; cada declaração, numa sentença, num texto, num dito. Assim como nas conexões simbólicas sagradas entre o Novo e o Velho Testamento, as conexões morais fazem com que cada incidente da vida possa imediatamente ser refletido num modelo, num arquétipo das Escrituras, da história ou da literatura. […] Num lugar em que para cada caso se encontra tão facilmente uma explicação, e, uma vez que esta foi aceita, se acredita nela com tanto fervor, reina uma extraordinária comodidade do falso juízo.

Trecho extraído do livro “O Outono da Idade Média” do historiador holandês Johan Huizinga (1872-1942)

   Prezados leitores, o trecho que abre este humilde artigo foi retirado do 17º capítulo do livro, intitulado “As formas do pensamento na vida prática”, em que Johan Huizinga explica como o homem medieval pensava centrando sua argumentação em torno de dois conceitos fundamentais, a casuística e o formalismo. Cada caso isolado da vida real, que suscitava uma pergunta a ser respondida com uma solução, era relacionado com as verdades eternas obtidas a partir da Bíblia ou de textos literários ou da narrativa histórica tal como se encontrava cristalizada.

    Uma vez estabelecida a conexão entre o caso e a verdade, estabelecia-se a solução ideal e o que era isolado passava a ser considerado como uma entidade delimitada por limites fixos que se encaixava na organização hierárquica das coisas. Essa solução transmuta-se então em regras formais rígidas, criadoras de formas dominantes, que servirão por sua vez para encaixar outros atos, os quais serão considerados com tendo características imutáveis independentemente das circunstâncias e da intenção dos agentes. Cria-se dessa forma a casuística, um rol de casos-modelo, que servirão de antecedentes para a abordagem de caso novos, pela aplicação automática das regras obtidas.

    As parábolas, os exemplos morais, os sermões, os juramentos são manifestações da aplicação simultânea desses dois conceitos, pois todos implicam a redução dos incidentes da vida a formas pré-definidas. As nuances, as peculiaridades da realidade concreta são deixadas de lado para enfatizar a reprodução eterna dos esquemas imutáveis. Esse formalismo tem consequências interessantes. Um indivíduo que cometesse um lapso ao prestar um juramento era punido pela falha em pronunciar as palavras sagrada, ao passo que um ato tentado, mas não consumado, mesmo no caso de um delito grave, não era punido. A forma era mais importante que o conteúdo, a repetição eterna das verdades consolidadas mais importante do que a investigação da realidade em si mesma, com toda sua complexidade, suas zonas obscuras, suas ambiguidades morais.

    Para Huizinga, esse formalismo geral do pensamento do homem medieval era responsável pelo caráter oco e superficial da mentalidade da época.

 

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Sacrifícios rumo ao progresso

A morte moderna não tem nenhum significado que a transcenda ou remeta a outros valores. Em quase todos os casos é, simplesmente, o fim inevitável de um processo natural. Num mundo de fatos, a morte é mais um fato. Mas como é um fato desagradável, um fato que questiona todas as nossas concepções e o próprio sentido da nossa vida, a filosofia do progresso (progresso para onde e de onde?, pergunta Scheler) pretende escamotear sua presença. No mundo moderno, tudo funciona como se a morte não existisse. Ninguém conta com ela. Tudo a suprime: os discursos dos políticos, os anúncios dos comerciantes, a moral pública, os costumes, a alegria a preço baixo e a saúde ao alcance de todos oferecida por hospitais, farmácias e campos de esporte.

Trecho retirado do ensaio “Todos os Santos, Finados” escrito pelo crítico, poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz 1914-1998

Tomei por conta que quero viajar, e não para me sentir mais segura. Uma vacina que dá 50% de segurança para mim não é uma vacina. Tomei foi água.

Palavras de Nathanna Faria Ceschin, enfermeira na Santa Casa de Misericórdia de Vitória, Espírito Santo, em vídeo gravado por ela e veiculado nas redes sociais

    Prezados leitores, “Todos os Santos, Finados” faz parte de uma série de ensaios reunidos em um livro intitulado “O labirinto da solidão”, em que Otávio Paz reflete sobre o caráter do mexicano, enfocando o substrato da sua psiquê: a tensão constante entre a herança dos povos que habitavam a Mesoamérica, entre os quais os olmecas, os toltecas, os mixtecas, os tlaxcaltecas, os zapotecas, e os astecas (para mencionar apenas aqueles que deixaram vestígios arqueológicos de sua presença nas terras do que no futuro seria o México fruto da Conquista), e a herança espanhola, trazida por Hernán Cortés.

    Dotado de um grande conhecimento da história do seu país, Paz tenta entender certas características do povo de uma maneira equilibrada, pois ele não cai na armadilha de adotar nenhum tipo de visão supremacista, quer indígena, quer europeia. Os indígenas não eram vítimas inocentes dos conquistadores, afinal eles lutaram e perderam entre outros motivos porque tinham uma visão ambígua dos espanhóis, quase como deuses salvadores e por isso muitas tribos aliaram-se a eles contra os então dominantes astecas. Por outro lado, os espanhóis trouxeram consigo, além dos germes e balas, uma religião católica que se pretendia universal e inclusiva, abarcando ricos e pobres, todos passíveis de serem tocados pela graça de Deus, o que era uma novidade e terras de sociedades teocráticas e altamente hierarquizadas, como eram as dos povos indígenas de então.

    Um exemplo desta abordagem em que ele analisa as diferentes verdades propostas pelas culturas que estiveram em choque no seu país é a reflexão que faz sobre o culto da morte no México, representado pelo Dia de Finados. Paz explica o que era a morte para os astecas e porque realizavam sacrifícios humanos: morrer era participar da regeneração das forças criadoras e o sacrifício trazia saúde cósmica, pois o sangue humano era o alimento da tal regeneração: o mundo vivia graças ao sangue e à morte dos homens. Para os cristãos que fundaram a Nova Espanha, ao contrário, a morte é uma redenção porque permite a salvação do indivíduo, só ele, por meio de Jesus Cristo. O mundo, a história, a sociedade, já estão condenados pelo pecado original, só resta a cada um de nós colocarmos nossas esperanças na vida transcendente. Por mais que a visão seja num caso a da morte como confirmação do mundo e no outro a da morte como negação do mundo, tanto os astecas como os cristãos tinham valores culturais que embasavam sua metafísica.

    Esse contraponto permite ao ensaísta mexicano lançar luz sobre nossa própria concepção moderna, pós-cristã da morte, conforme explicada no trecho que abre este artigo. Quem não há de concordar que em nosso mundo das mídias sociais a morte como um fato incômodo que deve ser negado e se possível varrido para debaixo do tapete não é ainda pertinente? O reconhecimento da morte resume-se a um post no Facebook ou uma mensagem pelo WhatsApp. A única obrigação da pessoa que recebe a notícia parece ser a de responder com um emoticom apropriado, ou alguns deles, para tornar a mensagem mais enfática, com algumas palavras de consolo e de solidariedade e voilà, a etiqueta dos tempos terá sido seguida à risca. Aquela obrigação social de acompanhar os familiares do defunto nos rituais fúnebres, o velório, o enterro, a missa de sétimo dia, é um incômodo totalmente desnecessário e a epidemia de Covid-19 forneceu a qualquer um a desculpa suficiente e epidemiologicamente correta para não comparecer a nenhuma das três cerimônias, para evitar aglomerações e a famigerada contaminação.

    Considerando a reação mundial e individual à pandemia iniciada em dezembro de 2019, as palavras de Octavio Paz são prescientes não só em descrever a morte pós-moderna como um incômodo, mas como algo a ser suprimido qual erva daninha por algum produto da nossa sociedade tecnológica. A comparação da enfermeira do Espírito Santo da vacina CoronaVac com água, devido a sua pouca eficácia, revela a mentalidade de todos nós, a despeito da enxurrada de críticas que ela levou e do julgamento sumário a que a pobre moça foi submetida, típicos das mídias sociais, que a levou a perder o emprego. A supressão do vírus que causa a síndrome respiratória aguda grave virá com um produto excepcional como a vacina produzida pela empresa Pfizer, cuja vacina tem eficácia ao redor de 91%, número este na ponta da língua de qualquer cidadão que checa ao menos uma vez por dia as notícias na internet. É um número bem maior do que o da CoronaVac, cuja eficácia é de pouco mais de 50%.

    Para Nathanna e para todos nós que queremos nos livrar da morte por meio do progresso representado por novos remédios e novas vacinas, é frustrante saber que devido à nossa condição de país pobre não teremos acesso à tecnologia “top” de combate ao corona vírus, qual seja, a do RNA mensageiro, disponível no Primeiro Mundo. Teremos que nos satisfazer com uma vacina com tecnologia ultrapassada que não serve para obtermos a saúde e a cura, apenas para passarmos na alfândega ou na imigração em algum aeroporto estrangeiro e não sermos vergonhosamente barrados.

    E assim caminhamos há exatos 12 meses, bombardeados com fatos desagradáveis: número de mortes por dia causadas pela Covid-19, número de mortes em todo o mundo, ranking dos países com mais mortes em números absolutos, ranking dos países com maior número de mortes per capita, número de mortes em cada Estado brasileiro. Será que os mais de 200.000 óbitos atribuídos ao vírus chinês que tem uma proteína em formato de coroa são sentidos por nós como uma tragédia, algo que nos faz repensar nossa vida, nossa relação com o mundo e com as pessoas, que nos fará elaborar uma nova visão cósmica como tinham os astecas e os cristãos conquistadores do México? Ou será que é um mero fato a ser superado com um produto eficaz que o destrua e o torne coisa do passado, para que sigamos adiante na nossa trilha rumo a novos fatos e novos produtos?

    Cabe a pergunta colocada por Scheler: para onde o progresso nos levará quando tivermos suprimido o evento incômodo que dominou as manchetes em 2020 e continua dominando em 2021? De qualquer forma, nossa sofreguidão em livrarmo-nos da erva daninha e nossa frustração com aqueles que atrapalharam nossa trajetória determinarão muitos desdobramentos políticos no Brasil e no mundo: quem será sacrificado para suprimirmos o vírus letal?

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Modelos na história

Nas grandes instituições de educação pública, na repartição de prêmios, sempre o maior é destinado ao caráter; aquele que em todo ano desenvolveu maiores virtudes e menos defeitos; provasse bem como todos os homens estão concordes em que as bases principais da educação são o que decide a felicidade da vida, são as virtudes sociais; esta educação os mestres não podem dá-la. Só se aprende com o exemplo e assiduidade de quem ensina e o convence com razão; isto não quer dizer que sejam sempre virtuosas as pessoas que ensinam a praticar a virtude, mas precisam ao menos fingi-lo, ao pé dos que se educam, pois que pregar aos seus que não tenham medo, e mostre tê-lo, nunca poderá fazer um homem valoroso, e assim com as mais virtudes.

Trecho de carta escrita por Mariana Carlota de Verna Magalhães Coutinho (1779-1855), aia de D. Pedro II (1825-1891), ao pai deste, D. Pedro I (1798-1834)

 

Sim, meu amado filho, é muito necessário, para que possas fazer a felicidade do Brasil, tua pátria de nascimento e minha de adoção, que tu te faças digno da nação sobre que imperas pelos teus conhecimentos, maneiras etc. etc., pois, meu adorado filho, o tempo em que se respeitavam os príncipes por serem príncipes unicamente acabou-se. No século em que estamos, em que os povos se acham assaz instruídos de seus direitos, é mister que os príncipes igualmente o estejam e conheçam que são homens e não divindades, e que lhes é indispensável terem muitos conhecimentos e boa opinião para que possam ser mais depressa amados do que mesmo respeitados. O respeito de um povo livre para com o seu chefe deve nascer da convicção que aquele tem de que seu chefe é capaz de o fazer chegar àquele grau de felicidade a que ele aspira, em assim não sendo, desgraçado chefe, desgraçado povo.

Trecho de carta escrita por D. Pedro a seu filho, D. Pedro II, em 12 de março de 1832, quando estava na Ilha dos Açores, a caminho da Europa

    Prezados leitores, os trechos que abrem este artigo foram retirados da biografia de D. Pedro II escrita por Paulo Rezzutti, intitulada D. Pedro II, A história não contada: O último imperador do Novo Mundo revelado por cartas e documentos inéditos. Rezzutti já havia escrito biografias sobre a Marquesa de Santos, sobre D. Pedro I e Dona Leopoldina, o que o faz um profundo conhecedor do Brasil Império. Em um país como a França, que dá e sempre deu muita importância aos historiadores, ele seria convidado até em programas de variedades na televisão para falar sobre seus livros e suas ideias. Aqui não me consta que a Fátima Bernardes tenha feito isso ou mesmo algum obscuro programa na Globo News que passe às 11 e meia da noite.

    Por que será que os franceses cultuam seus historiadores? Como tentei humildemente explicar aqui há duas semanas, a história é uma arte e não uma ciência, e em sendo assim, o mais que ela pode pretender é estabelecer uma narrativa dos fatos com base em determinados valores básicos. Não se deve esperar que os fatos históricos sejam estabelecidos de maneira incontestável, formulados em linguagem formal, tal como a matemática. O que se pode esperar é que a narrativa criada permita aos receptores dela uma visão do passado que norteie suas ações no futuro, já que o homem é sempre um ser que age com um objetivo.

    Esse objetivo da história, tão prezado pelos franceses, de ajudar o povo a caminhar e construir sua realidade com base naquilo que foi aprendido das experiências passadas, fica claro na correspondência que Pedro II manteve com seu pai, desde o momento em que este abdicou, em 1831, até o momento em que D. Pedro I, que de volta a Portugal adotou o título de Duque de Bragança, morreu em Queluz, em 1834. Desde quando seu filho tinha pouco mais de cinco anos Pedro I buscou dar-lhe conselhos sobre ser um bom governante. No trecho acima fica subentendida a menção à Revolução Francesa de 1789, que definitivamente tinha destruído a noção de direito divino dos reis. Um monarca que não trabalhasse em prol do bem comum, que não mostrasse resultados promovendo a prosperidade geral, não conquistaria nem respeito e nem amor, o que levaria à infelicidade tanto dele quanto dos súditos.

    Pedro II deu mostras de que ao menos apreendeu parte dos conselhos do pai e aprendeu com a própria trajetória política do nosso primeiro imperador, quando foi deposto em 15 de novembro de 1889, com um golpe do Exército. Conforme nos conta Rezzutti, o genro do imperador, o conde D’Eu, assim como os barões de Muritiba e Loretto, pensaram em colocar a família real brasileira no encouraçado chileno Almirante Cochrane, enquanto organizariam a resistência ao golpe. D. Pedro II foi veementemente contra a ideia, porque não queria uma luta fraticida no país. Nisso seguiu o exemplo dado por seu pai em 1831, o qual rechaçou a sugestão do então major Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, de retirar-se para a Fazenda Santa Cruz com a família e deixar que o Batalhão do Imperador convocasse as milícias para debelar a revolta dos brasileiros, que exigiam de D. Pedro I que punisse os portugueses que haviam causado distúrbios no Rio de Janeiro na Noite das Garrafadas, em 11 de março de 1831. No entanto, o então imperador preferiu abdicar para acalmar os ânimos do que derramar o sangue dos brasileiros.

    Este pequeno ato de D. Pedro II em 1889, no apagar das luzes da sua atuação no Brasil, emulando o apagar das luzes do governo de seu pai em 1831, mostra que a educação dada por D. Mariana ao vivo ao príncipe assim como a troca de cartas com o ex-imperador ao menos deram-lhe um senso de história, tanto pessoal da família dele, quanto política do então Império Brasileiro. Imbuído desse valor de evitar uma guerra civil em um país tão vasto e com tantas desigualdades regionais como o Brasil era no século XIX e como continua sendo no século XXI, D. Pedro II saiu da cena política brasileira de maneira digna, mantendo a compostura, honrando a tradição do seu pai e de sua mãe, que haviam criado um Brasil independente, mais ou menos unido em torno de um governo central.

    Esse esforço consciente de dar um sentido à história, de seguir modelos passados, foi totalmente deixado de lado na sociedade brasileira. A última eleição presidencial mostra nossa obsessão com o novo como necessariamente melhor simplesmente porque ele é diferente de tudo o que está aí. No primeiro turno, tínhamos outros candidatos com experiência administrativa no Executivo, com um currículo mais cheio de realizações concretas. Preferimos apostar em um deputado federal que nunca fora sequer prefeito de uma cidade do interior, que passava o tempo todo no Congresso atacando seus bodes expiatórios, e que agora faz o mesmo, incapaz que é de governar, pois lhe falta formação e bons modelos. O atributo de Jair Bolsonaro para ser eleito é que ele não participava de esquemas de corrupção e isso bastou para que, contraposto ao que estava imediatamente visível, ele fosse considerado pela população brasileira como apto para o cargo.

    Do alto da sua inexperiência, de sua incapacidade de dialogar com as pessoas, Bolsonaro teria sido um presidente sofrível, mas num momento de crise sem precedentes causada por um vírus que aparentemente escapou de um laboratório em Wuhan na China, Bolsonaro é um desastre. Uma pena que o estudo da história nacional seja de tal modo negligenciado que não consigamos ter modelos de caráter e conduta, que não tenhamos valores coletivos que nos unam e que certamente permitiriam que fizéssemos comparações e que tirássemos lições do passado. Se conseguíssemos ter esse senso de história, teríamos visto que Jair Messias Bolsonaro é um aloprado como Jânio Quadros, que ao menos não castigava a língua portuguesa como nosso presidente, com uma pitada de Tiririca (”aquele do lema “pior que tá não fica”).

    Prezados leitores, D. Pedro I e D. Pedro II, como o próprio Paulo Rezzutti mostra, tinham muitos defeitos, e talvez o principal deles é que nunca conseguiram enfrentar de fato o poder dos latifundiários escravocratas, mas de qualquer forma eles tinham claramente o senso do dever, de perseguir certos ideais, mesmo que muitas vezes não conseguissem atingi-los. O risco que corremos nas próximas eleições é de cairmos de novo na armadilha do voto contra, do voto destrutivo do presente sem consciência de aonde queremos ir no futuro. Para que as eleições de 2022 não sejam uma nova aposta no escuro, nós brasileiros teremos que nos perguntar “O que queremos?” ao invés de “Somos contra o quê? A leitura das biografias escritas por Rezzutti pode ser um bom ponto de partida para respondê-la.

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O difícil parto do diálogo

– Vamos falar sobre feminismo, você é feminista?

– Não, da maneira como é atualmente definido certamente não.

– Bem, de acordo com alguma outra definição?

– Eu acho que qualquer pessoa que não considere que o ambiente de concorrência deva ser aberto para a igualdade de oportunidades não pensa. Os melhores interesses de todos são mais bem servidos caso as pessoas tenham acesso tão igual às oportunidades de mostrar e manifestar seu talento quanto possível. Mas o feminismo atualmente, e é por isso que ele é tão impopular (uma pequena minoria de mulheres no Reino Unido identificam-se como feministas). E a principal razão disso é que ele se tornou basicamente uma ferramenta ideológica.

Trecho de entrevista dada por Jordan Peterson, professor de Psicologia na Universidade de Toronto no programa Daily Politics da BBC em 22 de maio de 2018

Os diálogos de Platão são claro, uma montagem, mas com um objetivo: mostrar quão problemáticas são as grandes questões, e ao mesmo tempo como, sob a orientação de Sócrates, mesmo que nenhuma conclusão seja obtida, todo mundo acaba entendendo mais claramente a verdadeira natureza das questões. Mas a abordagem abrupta e com base na confrontação adotada por Nick Robinson, em que pese  soar resoluta, nunca levará o entrevistado a respostas produtivas ou esclarecedoras, e muito menos ao diálogo.

Trecho retirado do artigo “Plato derrota o sábio” escrito pelo classicista Peter Jones para sua coluna semanal “Antigo e Moderno” na revista Spectator em 12 de dezembro de 2020

No diálogo socrático,  […] não há ensino que venha se interpor, como um objeto, entre aquele que fala e aquele que escuta, há somente um diálogo interrogativo, sendo o aluno que acha nele mesmo um saber que não sabia possuir. É por isso que não somente aprender é lembrar-se, mas a arte de Sócrates é comparável àquela da parteira: a maiêutica é a arte do questionamento pela qual o mestre faz nascer no discípulo a verdade de que ele era portador, mas havia esquecido.

Trecho retirado do livro “Sócrates” de Jean Brun

    Prezados leitores, conforme já expliquei neste meu humilde espaço em tempos passados, Peter Jones utiliza seu conhecimento sobre a Antiguidade clássica (ele escreveu uma tese de doutorado sobre Homero, defendida na Universidade de Cambridge) para lançar luz sobre o presente, estabelecendo semelhanças e diferenças entre um e outro. No caso da coluna citada acima, Jones critica a técnica de entrevista de Nick Robinson, apresentador do programa Today na BBC, que reclama que não consegue obter nada dos políticos, ao contrário dos cientistas que ele entrevista sobre a COVID. O que ele quer dizer é que os políticos fogem das questões e não respondem diretamente, em que pese ele insistir e tentar o mais possível encurralá-los e tirar-lhes uma resposta clara.

    Para Peter Jones, o erro é de Robinson, não dos políticos que ele entrevista. Seguindo a lição dos diálogos platônicos tais como conduzidos por Sócrates, para discutir um assunto é preciso fazer perguntas ao interlocutor de maneira que ele elabore seus próprios argumentos respondendo às questões e assim entenda o que ele mesmo pensa e as premissas que sustentam seus argumentos, reveladas pelo esforço ao longo do diálogo de obtenção de uma definição dos conceitos. Sem que esse percurso seja feito, um tentará adivinhar aquilo que o outro pensa, as palavras, mal definidas, serão usadas com os mais diferentes significados. No verdadeiro diálogo, os interlocutores contribuem mutuamente para o aumento do conhecimento um do outro, sem que tenham necessariamente que concordar sobre tudo e chegar a uma conclusão infalível sobre o tema da discussão.

    O canadense Jordan Peterson mostra uma formação acadêmica sólida quando tenta seguir esse roteiro sempre que é convidado a dar entrevistas em algum programa de TV. Ele começou a tornar-se conhecido em 2016 quando foi aprovada a BILL C-16, uma lei surgida no Canadá para proteger os indivíduos de discriminação ou para não serem alvo de propaganda de ódio por sua identidade de gênero ou por sua expressão de gênero. Peterson criticou o modo como a lei foi redigida, alegando que um indivíduo poderia ser enquadrado nesta lei, e, portanto, ser acusado de praticar um crime, caso não utilizasse o pronome preferido por uma pessoa transgênera para fazer referência a ela. O uso do pronome errado poderia ser categorizado como discurso de ódio e isso para Peterson era uma limitação à liberdade de expressão.

    O trecho citado acima, ilustra bem que Peterson absorveu a lição socrática ao entabular um diálogo. A entrevistadora lhe pergunta se ele é feminista e quer uma resposta clara para poder categorizá-lo e colocá-lo num campo ou noutro. No entanto, antes de respondê-la, Peterson toma o cuidado de definir o que ele entende por feminismo de acordo com as premissas que ele já estabeleceu anteriormente, quando falou à entrevistadora sobre sua oposição à lei canadense elaborada para o combate à discriminação de gênero. Considerando que há diferenças biológicas e de personalidade entre homens e mulheres, o professor da Universidade de Toronto não considera que seja possível garantir igualdade prática, pois as pessoas têm diferentes inclinações, o que determina em considerável medida sua escolha de profissão e de carreira.

    Assim, para Peterson o movimento de emancipação feminina deve ter como objetivo garantir que qualquer mulher possa ter acesso às oportunidades que lhe permitam desenvolver seus talentos, o que é bom para a sociedade como um todo, pois quanto mais as pessoas puderem concretizar suas capacidades, mais produtivas serão elas e mais benefícios gerarão aos outros. Sob essa ótica, querer garantir que homens e mulheres obtenham os mesmos resultados em quaisquer circunstâncias, que é o que a vertente mais radical do movimento preconiza, exige uma intervenção em termos de cotas de emprego e de equalização salarial muito grande, dadas as diferenças entre os sexos, e é por isso que ele define o feminismo atual como ferramenta ideológica, pois há um projeto de poder, de transferência de renda e de organização da sociedade nele embutido.

    Enfocando primeiro a definição do conceito para desenvolver seus argumentos, Jordan Peterson procura evitar a armadilha de ser tachado como antifeminista pela entrevistadora, mesmo que a primeira pergunta dela deixe claro que a resposta sim ou não que ele der vai colocá-lo a favor ou contra o movimento. Independentemente se ele chegou ou não a um acordo sobre o que é feminismo com sua interlocutora, e se ele compartilha com ela a mesma posição no espectro ideológico, importante é que ele esclareceu onde ele se situa a respeito do assunto e pôde estabelecer algum tipo de senso comum, como o de que desperdiçar o talento de mulheres só pelo fato de elas serem mulheres é prejudicial à sociedade.

    Prezados leitores, seria bom que nas discussões travadas nas mídias sociais as pessoas tivessem a oportunidade e a capacidade de estabelecer os pressupostos básicos de sua linha de raciocínio e desenvolvê-la antes de usarem termos polêmicos, como fascismo, comunismo, racismo sistêmico, racismo estrutural, diversidade e tantos outros que, por falta de definição adequada, acabam sendo usados para estigmatizar os interlocutores, colocando-os em categorias estanques nas batalhas ideológicas que vemos todos os dias.

    De fato, um pouco da maiêutica socrática permitiria que pudéssemos ter verdadeiras trocas, em que reconhecêssemos e respeitássemos as diferenças de pensamento entre nós, e ao mesmo tempo que esclarecêssemos para nós mesmos o que de fato pensamos e em que termos o que pensamos é diferente daquilo que pensam nossos interlocutores. Os desentendimentos, os mal-entendidos diminuiriam porque a transparência sobre a origem e o desenvolvimento das respectivas ideias aumentaria.

    Para os que se interessarem pelo diálogo de Jordan Peterson com a jornalista da BBC, ele está aqui.

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Correntes imprevisíveis?

Para ele, os conceitos de Idade Média e Renascimento são formas vazias. Ele sabe muito bem que o problema não reside nessa divisão abstrata do tempo. Quando atingimos as camadas profundas da história, o que vemos são continuidades. Algumas correntes prosseguem se exacerbando, enquanto outras se tornam debilitadas. Outras nascem lentamente, e mal se veem suas fontes. Nesse nível de profundidade, a periodização é impossível.

Trecho da entrevista dada pelo historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014) a Claude Mettera sobre o livro de Johan Huizinga (1872-1945), “O Outono da Idade Média”

[…] o termo “renascimento” é apropriado para o campo artístico e literário, o que chamamos de Renascimento com um “R” maiúsculo, só se aplica a esse campo das artes, renovando ainda mais grandiosamente aquilo que no coração da Idade Média havia sido o renascimento carolíngio e o renascimento do século XII. […] A revolução inglesa do século XVII é só uma última peripécia medieval, e será preciso esperar pelo século XVIII, com a Enciclopédia, o desenvolvimento a partir da Inglaterra das ciências e da indústria, o nascimento do capitalismo sublinhado por Adam Smith, e finalmente a convulsão política fundamental da Revolução Francesa, para que finde a longa Idade Média, que restringi aqui, para não chocar os hábitos sobreviventes que limitam essa denominação ao período inconteste dos séculos IV-XV.

Trecho do livro “Homens e mulheres da Idade Média” organizado pelo historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014)

  Prezados leitores, os trechos de livros que abrem este humilde artigo ilustram uma determinada concepção de História tanto de Huizinga quando de Le Goff, os quais enfatizam os padrões de cultura vigentes, as condições espirituais de uma época. Adotando essa premissa, para eles o Renascimento foi a adoção de uma nova forma, a forma redescoberta da Antiguidade clássica, mas tal forma foi adaptada a um conteúdo cristão que estava consolidado há séculos ao longo de toda a Idade Média, a qual estava longe de terminar no século XV, quando surge aquele movimento artístico. Le Goff vai mais além em sua caracterização daquele período, afirmando que a representação que o homem fazia de si e do mundo só deixou de ser substancialmente medieval quando surgiu o movimento Iluminista, o capitalismo desenvolveu-se na vertente industrial e os direitos humanos foram declarados e divulgados no bojo da Revolução Francesa.

    É uma visão que o próprio historiador francês admite ser minoritária, mas será que é possível refutá-la e desacreditá-la com base nos fatos? Se pudéssemos entrevistar nomes como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rafael, Boticelli para sabermos de suas reais convicções, talvez alguns deles diriam que não acreditavam em Deus ou que ao menos tinham sérias dúvidas sobre alguns dos dogmas do Cristianismo. No entanto, é provável também que todos eles não deixassem de se identificar como cristãos. Qual o fato relevante aqui? Aquilo que a pessoa diz que pensa ou aquilo que ela demonstra na sua obra artística, criada em um determinado meio social, econômico e cultural? Os que defendem que o Renascimento foi mais uma manifestação do espírito medieval renovado enfatizarão o conteúdo religioso que pode ser vislumbrado nas criações daquele movimento. Os que defendem que o Renascimento foi uma ruptura com os cânones medievais enfatizarão a nova linguagem utilizada na pintura, na escultura e na arquitetura, a busca incessante e deliberada das fontes clássicas como inspiração para a criação. E no final das contas, tanto uma abordagem quanto a outra podem ser sustentadas simultaneamente, porque o ser humano é intrinsecamente ambíguo e assim será tudo aquilo que ele realiza no domínio da arte, em um esforço de produção de significado. Em suma o homem renascentista que pintou as Madonnas, esculpiu as Pietàs e ergueu os duomos era um homem cristão, embora não necessariamente devoto.

    Assim é que a História nunca poderá ser ciência como a física o é, porque o indivíduo que dedicar-se ao ofício de historiador nunca lidará com fatos que possam ser enquadrados em linguagem formal e objetiva (isto é, em fórmulas matemáticas) e por isso nunca poderão ser definidos unicamente em dimensões quantitativas. Daí que fica difícil aos historiadores, ao contrário dos físicos, fazer previsões que tenham razoáveis chances de se tornarem realidade e emprestarem credibilidade à ciência histórica, que na verdade é arte histórica. Se os fatos históricos são fruto da ação de indivíduos que têm uma intenção, e que pretendem saber a razão pela qual estão fazendo algo, mas que ao mesmo tempo são determinados por condições econômicas, sociais e culturais, essa interação entre as duas dimensões torna o produto do espirito humano imprevisível, porque nunca poderemos saber de antemão a maneira com os diferentes fatores irão interrelacionar-se.

    E no entanto, nunca deixamos de tentar prever o futuro dos acontecimentos. O momento em que estamos ilustra essa tendência à perfeição. Quem já não leu algum artigo sobre o mundo pós-crise do COVID? Quem já não leu ou ouviu a expressão em inglês “The Great Reset,  empregada para designar o estado de coisas que advirá depois que tivermos atingido a imunidade de rebanho que impedirá que o vírus se propague, seja porque grande parte da população mundial terá sido contaminada ou terá sido vacinada? Quem já não terá ouvido algum especialista falar que o home office veio para ficar, que os prédios de escritórios serão coisa do passado porque as empresas, pelo menos as que atuam como prestadoras de serviços, precisarão apenas de espaço para encontrar com clientes e nada mais? Quem já não ouviu dizer que as lojas físicas, os restaurantes de rua tornar-se-ão obsoletos pela onipresença do comércio on-line e da entrega de produtos em domicílio, como faz a superpoderosa Amazon? Quem já não ouviu dizer que o mundo do trabalho jamais será o mesmo, pois todos descobriram que a tecnologia resolve muitos problemas sem a necessidade do trabalho humano para mostrar produtos ao cliente, para marcar reuniões com várias pessoas, para aprontar o espaço físico de tais reuniões? Adeus, vendedores, secretárias, auxiliares de limpeza, garçons.

    Em suma, quem não terá se deparado com a opinião de algum partidário das rupturas, que considera que há fatos na história que são pontos de inflexão que mudam tudo de uma hora para outra? Assim como houve o mundo pré-Renascentista e o mundo pós-Renascentista, os defensores dessa visão dirão que haverá o mundo pós-Covid e o mundo pré-Covid. E assim como a visão do Renascimento como um fenômeno único era compartilhada por aqueles cuja visão ideológica os levava a considerar a Idade Média como época de atraso e obscurantismo determinados pela religião, os que consideram que o mundo pós-COVID será outro também têm um viés que respalda seu retrato do mundo.

    Esse viés diz respeito à concepção do progresso como inevitável e desejável: o novo sempre vem e o novo traz oportunidades. A digitalização da economia, o desaparecimento de determinados tipos de trabalho por causa da automatização de processos são justificados em nome da eficiência que criará riquezas porque permitirá a alocação de recursos em novas áreas, criando novos tipos de trabalho. É a tal da Destruição Criativa do economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950). Os destruídos pelo mundo novo, ou seja, aqueles destituídos de trabalho terão que se reciclar ou pelo menos receberão uma renda mínima básica garantida com os excedentes produzidos pela nova economia.

    E se adotássemos a abordagem continuísta de Huizinga e de Le Goff explicada acima, e considerássemos que a crise da COVID-19 não é o arauto de um tempo novo, mas uma manifestação de correntes profundas que vêm se desenvolvendo há décadas? A precarização dos empregos, a autonomia cada vez maior dos trabalhadores em um mundo em que eles devem assumir cada vez mais os riscos da atividade e dos rumos da sua carreira e não podem mais contar com a proteção da empresa como provedora de rumos e de recursos. Será que o home office não é apenas uma escala a mais nesse percurso em que o patrão se desvencilha de mais uma responsabilidade, qual seja providenciar a infraestrutura física para a realização do trabalho em prol da diminuição dos custos? Se virmos o mundo pós-COVID inserido numa sucessão de eventos e não como uma ruptura causada por um acontecimento meteórico por acaso não colocaremos tais desdobramentos em uma perspectiva mais comparativa e, portanto, mais crítica do estado de coisas atual, sem deslumbramentos com um futuro brilhante? Talvez percebamos que os grupos privilegiados de sempre aproveitarão a oportunidade da crise sanitária para aumentar ainda mais seu domínio sobre a economia, diminuir suas obrigações e aumentar seus lucros.

    Prezados leitores, conforme tentei explicar acima, nenhuma abordagem histórica pode pretender-se ser correta, porque no final das contas ela é sempre subjetiva e vai enfatizar alguns fatos e desprezar outros e vai interpretar os fatos de acordo com os valores que a respaldam. Caso eu tenha sido clara, percebe-se que tendo a preferir a abordagem da história como o movimento lento das placas tectônicas que impulsionam as camadas  profundas da história, para usar a expressão de Jacques Le Goff. Uma coisa é certa: as previsões fundam-se sempre em bases infirmes na exata medida em que refletem muito mais a concepção do mundo de quem as faz do que uma constatação de fatos objetivos. Por isso, tenham cuidado tanto com os profetas de um admirável mundo novo quanto com os pessimistas inveterados para quem nada muda e tudo é ruim. Em todo caso, lembrem-se sempre de que a história não é feita pela tecnologia ou pelas máquinas, mas pelos homens que têm boas ou más intenções.

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