Almas mortas

D. Pedro II era brasileiro, carioca, mas fruto de uma cultura e educação europeias. O intelectual que morava dentro de um monarca, muitas vezes não era compreendido pelos brasileiros, mesmo os bacharéis, muitos dos quais ele assistiu aos exames de graduação. […] Ao mesmo tempo em que tentava entender o Brasil que governava, o monarca intelectual queria saber das literaturas, das línguas, das múmias, das invenções mais modernas, como a fotografia. Buscava conhecimento, a sua história, incentivava a busca por documentos da nossa história pelo mundo para conseguir compreender a nossa formação. Ele era dual, um intelectual dividido entre o país continental que governava e a sede de saber, de conhecer tudo, e buscar o espírito das luzes que jamais deixaria de procurar.  

Trecho retirado do livro “D. Pedro II, A história não contada” de Paulo Rezzutti

Conteúdos da sociedade russa tradicional sobreviveram nas formas sociais novas. Padrões de relações sociais nativos, e de raízes seculares, passaram a conviver com valores e padrões novos, gerando conflitos que se tornaram a substância de uma experiência histórica singular. Na literatura, os problemas da adaptação das formas importadas à experiência local concentravam as energias dos escritores, alimentavam os ricos debates intelectuais e atiçavam as expectativas do público.

Trecho retirado do prefácio escrito por Rubens Figueiredo para sua tradução de “Almas Mortas”, de Nikolai Gógol (1809-1852)

 

Tal capricho da natureza, aliás, ocorre em diversos quadros históricos, sem que se saiba em que tempo, de onde e por meio de quem foram trazidos para nós, na Rússia, se bem que às vezes nossos nobres, amantes da arte, comprem tais obras na Itália, a conselho de seus guias.

Trecho retirado de “Almas Mortas”, de Nikolai Gógol (1809-1852)

 

    Prezados leitores, na semana passada eu abordei neste meu humilde espaço a visão que Jorge Caldeira dá da politica econômica do Segundo Reinado em seu livro “História da Riqueza no Brasil”. Para ele, o governo central, comandado por D. Pedro II, condenou o Brasil à estagnação e a perder o bonde do capitalismo no século XIX por ter priorizado a austeridade fiscal e monetária, o pagamento da dívida pública, o balanço das contas do governo, em detrimento dos agentes econômicos privados, que não tinham acesso a crédito e nem tinham a sua disposição um arcabouço jurídico que viabilizasse a criação de empresas. O veredito negativo do autor é tão taxativo que na abertura do capítulo II do seu livro, para reforçá-lo, Caldeira coloca uma figura, retirada da Revista Ilustrada, mostrando D. Pedro II sentado em uma cadeira, rodeado de jornais, e cochilando, com a cabeça pendendo.

    É inegável que D. Pedro II tirava seus cochilos durante as reuniões do Conselho de Ministros e nas sessões do Parlamento em que estava presente, mas isso era devido aos seus problemas de saúde, notadamente ao diabetes, que se agravou com o avanço da idade do monarca. Por outro lado, como mostra Paulo Rezzutti em sua biografia do nosso segundo e último imperador, D. Pedro II era um homem culto, leitor compulsivo que falava várias línguas, que interagia com grandes artistas, escritores e cientistas da época, como o compositor alemão Richard Wagner, o romancista francês Victor Hugo e o cientista Louis Pasteur. Profundamente preocupado com a educação, ele inspecionava escolas e fazia alunos e professores prestarem contas de suas atividades. Se compararmos a curiosidade intelectual que o estimulou até os últimos dias de sua vida com a boçalidade arrogante dos que atualmente nos governam, houve definitivamente uma perda na nossa transição do Império para a República em termos de civilidade, de cultura, de padrões éticos.

    Em última análise, combinando a descrição que Jorge Caldeira faz da política econômica retrógrada de D. Pedro II com o retrato pintado por Paulo Rezzutti ao narrar a vida de um homem consciencioso, que cumpriu seu dever até o fim, que quando foi deposto pelo golpe de um punhado de militares decidiu não resistir para evitar o derramamento do sangue de brasileiros, o que fica é a ambiguidade de um brasileiro que do ponto de vista racial e cultural era um branco europeu, mas que viveu e atuou num país que foi constituído sob o signo da diversidade racial e cultural.

    O padrão-ouro de D. Pedro II, que ele adotou materialmente na política monetária e espiritualmente no seu modo de agir como homem e como governante, era a cultura de países como a França, a Itália, a Alemanha, a Inglaterra. Talvez seu maior erro, responsável por deixar uma má impressão geral de sua atuação como governante, tenha sido não perceber a impossibilidade de aplicar o molde europeu à realidade tropical sem fazer adaptações e até grandes concessões. Não percebendo tal discrepância essencial, o legado de D. Pedro II acabou sendo superficial, resumindo-se ao Colégio que leva seu nome, à cidade imperial, Petrópolis, em suma um verniz de resplandescência aplicado à realidade de um povo em sua maioria analfabeto, pobre e escravizado.  É neste ponto que introduzo o tema da literatura russa e a relevância específica que ela pode ter para nós, brasileiros, independentemente de suas qualidades universais, que eu já abordei aqui em outras ocasiões, ao falar, por exemplo, de Dostoiévski.

    Como descreve Rubens Figueiredo em seu prefácio, a Rússia sofreu ao longo de sua história do mesmo embate entre forças antagônicas, de um lado o desejo da elite de ter comportamento e gosto europeus e de tornar o país o mais parecido possível com os países da Europa Ocidental, e de outro lado o substrato étnico e cultural eslavo, além é claro da realidade material da servidão, que só foi abolida em 1861, um pouco antes de nós mesmos abolirmos nossa instituição igualmente vergonhosa, a escravidão. Essa dialética foi objeto de reflexão dos escritores russos, e cada um mostrou a inconsistência entre os sonhos europeizantes e a realidade local a seu modo. No caso de Nikolai Gógol, ele o faz em um tom irônico e satírico, como mostra o terceiro trecho que abre este artigo.

    No universo retratado em “Almas Mortas” há os senhores da elite que fazem rapapés uns aos outros, que viajam à Europa e fazem as coisas certas para absorverem a civilização-modelo, como por exemplo comprar obras de arte na Itália. Pável Ivánovitch Tchítchikov, o herói do livro, encaixa-se no molde do homem educado, que fala bem, que é agradável, mas debaixo do verniz que satisfaz todos os incautos sobre sua retidão de caráter, esconde-se um autêntico picareta, que dá um golpe nos senhores de terra de uma província valendo-se da falta de registro oficial da morte de servos. Esses servos falecidos que dão a Tchítchikov a possibilidade de locupletar-se dão nome ao livro de Gógol.

    Em suma, um personagem equivalente aos nossos bacharéis letrados, que como afirma Paulo Rezzutti, raramente estavam à altura intelectual de D. Pedro II mas que, considerando as circunstâncias da vida brasileira, eram o melhor que tínhamos a oferecer para nos habilitarmos a fazer parte do clube europeu. Tal anseio de pertencimento, compartilhado, tanto pela elite da Rússia quanto pela do Brasil, era minado lá e aqui pela realidade das almas mortas, da servidão e da escravidão que perenizavam a desigualdade, a exploração, a indignidade contrárias às luzes da civilização almejada.

    Prezados leitores, Pedro de Alcântara e Pável Ivánovitch Tchítchikov simbolizam, um no modo de governar, o outro no modo de enganar trouxas, as contradições de países como Brasil e Rússia, sempre envolvidos em relações de amor e ódio com o modelo ocidental que no século XXI acaba sendo corporificado pelos Estados Unidos. Felizes os russos que tiveram artistas que deram expressão a essas ambiguidades e felizes os brasileiros que podem ler a tradução de livros como “Almas Mortas” e ver o quão nossa elite que agora sonha com os Estados Unidos parece-se com a elite da época tsarista que sonhava com a Europa.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , , , , , , | Leave a comment

Do fiado ao crédito e agora?

Uma vez desembarcados no território brasileiro, os cativos africanos funcionavam como reguladores das trocas internas. Normalmente vendidos a crédito, obrigavam o comprador por prazos longos com o vendedor – vinculando os fazendeiros ao comerciante da cidade que lhes fornecia escravos. […] Essa longa cadeia fazia com que, na economia brasileira, os traficantes de escravos fossem, de longe e desde sempre, os empresários mais bem-sucedidos.

Trecho sobre o negócio do tráfico africano no Brasil retirado do livro História da Riqueza no Brasil, de Jorge Caldeira

Os libertos não ganharam um único tostão com a alforria, já que os senhores se tornaram mais pobres, porque tiveram cancelados os títulos de propriedade sobre os escravos, perdendo o valor total que esses títulos tinham até a véspera. […] Todavia, sem os títulos de propriedade de escravos, não conseguiam empréstimos para pagar salários – as leis a favor dos proprietários tornavam impossível cobrar empréstimos sobre fazendas, de modo que não conseguiam crédito nem mesmo oferecendo toda a propriedade como garantia.

Trecho sobre as consequências econômicas da abolição da escravidão no Brasil em 1888 retirado do livro História da Riqueza no Brasil, de Jorge Caldeira

 

A capital era o destino da maior parte da poupança nacional, em decorrência das ações do governo para captar impostos e emitir títulos de dívida.

Trecho retirado do livro História da Riqueza no Brasil, de Jorge Caldeira

    Prezados leitores, cada historiador adota uma chave para o entendimento do objeto da sua análise. Há os que preferem enfocar os líderes políticos e econômicos, considerando que eles moldam uma era pelas suas ações inovadoras que quebram paradigmas estabelecidos; há os que preferem enfatizar as estruturas econômicas, em uma visão materialista herdada do marxismo de que a superestrutura é determinada pela infraestrutura, isto é, a cultura, a política, as mentalidades, as relações sociais são determinadas pela maneira como as pessoas se organizam para produzir e trocar produtos e serviços; há aqueles para os quais a estrutura mental dos grupos sociais, seus símbolos, a maneira como enxergam o mundo determinam o modo como agem na realidade. Jorge Caldeira tem como foco entender como a sociedade brasileira organizou-se para sobreviver e tentar progredir materialmente desde a época colonial até nossos dias. Para isso ele faz uso de conhecimentos tirados de várias disciplinas como a antropologia, a sociologia, a política, a econometria. Nesse sentido, poderíamos considerá-lo como adepto dos preceitos da economia institucionalista. Explico-me com base em um conceito que ele utiliza em seu livro, o do fiado, como a “única instituição relevante na economia” que permite a Caldeira descrever o modo como produzia-se riqueza no Brasil até o fim do período monárquico.

    Todas as trocas de produtos em nosso país eram baseadas na palavra empenhada pelo comprador e pelo vendedor, sem que houvesse a intermediação de moeda, ao menos em um primeiro momento. Esse tipo de relação econômica remontava aos primeiros anos da colonização da Terra Brasilis, quando os portugueses tiveram contato com as tribos indígenas que viviam na costa: os tupinambás davam produtos da terra como o pau-brasil, que eram comercializados na Europa e até mulheres, em troca de armas com as quais os índios podiam lutar contra as tribos inimigas. O escambo assim, tinha um propósito tanto econômico, de obter gêneros que atendiam as necessidades materiais dos índios e dos europeus, quanto político, de forjar alianças militares pelo casamento. João Ramalho (1493-1580), o pai dos paulistas, foi um típico participante bem-sucedido desse tipo de troca: fundador de Santo André da Borda do Campo, onde hoje é São Bernardo do Campo, casou-se com Bartira, filha do cacique Tibiriçá, e tornou-se o principal líder das tribos dos índios tupiniquins em São Paulo, mas na prática vivia como um polígamo, graças às constantes transações com os nativos.

    Como mostra o primeiro trecho que abre este artigo, essa atividade permaneceu praticamente inalterada até o final do período monárquico: os traficantes traziam escravos da Europa e os vendiam aos fazendeiros que não pagavam à vista, mas prometiam pagar ao longo do tempo. Não havia no Brasil uma proteção institucional do crédito: quando o fazendeiro precisava de dinheiro, ele recorria a um banco, mas a única garantia de que o banco poderia dispor eram os títulos de propriedade dos escravos, pois o parco direito comercial em vigor na época não permitia que no caso de inadimplemento o credor tomasse a propriedade do fazendeiro. Então quem oferecesse crédito o faria em uma estrutura em que não havia meios jurídicos de executar a dívida e os dois instrumentos ao dispor de credores e devedores eram a confiança advinda de relações de longo prazo e a posse de escravos.

    Essa falta de leis que viabilizassem a cobrança de créditos compreendia outros aspectos, como a possibilidade de arrolar no inventário de um devedor bens que pertenciam à sua empresa, a não obrigatoriedade de registros contábeis separados da empresa e do indivíduo, a inexistência de fronteiras claras entre o patrimônio de um e de outro. O resultado era que só grandes fazendeiros e traficantes que podiam oferecer seus escravos com fiança tinham acesso ao crédito e sem crédito ficava difícil investir na produção de mercadorias e gerar riquezas.

    Somava-se a esse regime jurídico insuficiente a crônica penúria do governo imperial, que esteve sempre endividado desde nosso nascimento como país, quando D. Pedro I tomou um empréstimo na Inglaterra para indenizar Portugal pela nossa independência e também para de maneira secreta financiar o exército que ele organizou para tomar o poder das mãos de seu irmão mais novo em Portugal, Dom Miguel, e colocar no trono daquele país sua filha mais velha, Dona Maria da Glória. O eterno déficit público fazia com que o governo procurasse controlar o câmbio e diminuir a circulação monetária para não desvalorizar a moeda nacional e assim viabilizar o pagamento de dívida cotada em libras esterlinas. Necessitando sempre de recursos, o poder central sediado no Rio de Janeiro captava a poupança nacional por meio do aperto fiscal representado pelos impostos, especialmente sobre as importações, e pela apreciação da moeda.

    Assim, as trocas econômicas sem garantias reais, a penúria de crédito, a pouca oferta de moeda, tudo conspirava contra o desenvolvimento capitalista no Brasil, criando um quadro institucional de austeridade constante que inviabilizava os investimentos em empresas. Sob essa perspectiva, o fiado era o símbolo dessa produção de riqueza que, por não ter apoio de leis de proteção ao crédito, era medíocre e impedia que os produtores alçassem voos mais altos.

    Daí por que Jorge Caldeira tem um juízo negativo sobre o período monárquico, que falhou em não criar a infraestrutura necessária para dar o salto de qualidade do escambo mercantilista para a produção em massa do capitalismo industrial que então florescia nos Estados Unidos. Não é de estranhar que a Monarquia tenha caído um ano e meio depois da abolição da escravidão: os fazendeiros que não receberam apoio financeiro do governo para fazer a transição do trabalho escravo para o assalariado ficaram sem meio, de obter capital por não poderem oferecer garantias de empréstimos, e muitos foram à falência. Não havia porque apoiar um governo que lhes tinha deixado na mão, em nome do equilíbrio das contas públicas.

    Prezados leitores, as análises contidas em História da Riqueza do Brasil permitem-nos traçar vários paralelos com a situação atual do país. Tanto no século XIX como no século XXI as instituições brasileiras deixam a desejar na tarefa de apoiar a geração de riquezas no Brasil. O fiado foi superado, mas o endividamento público, o aperto fiscal, a falta de recursos para investimentos produtivos continuam, fazendo-nos chafurdar em um círculo vicioso de desemprego, baixo crescimento econômico e estagnação ou piora da qualidade de vida. A República de 1889 foi a saída encontrada àquela época. Qual poderá ser o truque agora?

Categories: Economia | Tags: , , , , , , , , | Leave a comment

Sobre cruzes e passarolas portuguesas

Devagar, a terra aproxima-se, Lisboa distingue-se melhor, o retângulo torto do Terreiro do Paço, o labirinto das ruas e travessas, o friso das varandas onde o padre morava, e onde agora estão entrando os familiares do Santo Ofício para o prenderem, gente tão escrupulosa dos interesses do céu e não se lembram de olhar para cima, […] e já saem a informar que fugiu o padre a quem iam buscar para o cárcere, e não advinham que o protege a grande abóbada celeste aonde eles nunca irão, é bem verdade que Deus escolhe os seus favoritos, doidos, defeituosos, excessivos, mas não familiares do Santo Ofício.

Trecho retirado do livro “Memorial do Convento”, do escritor português José Saramago (1922-2010), que descreve a demonstração do aeróstato, ou passarola, um invento voador do frade nascido em Santos Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), perseguido pela Inquisição

Nunca na sua breve vida será capaz de produzir parábola que se recorde, dito que merecesse ter ficado na memória das gentes de Nazaré e ser legado aos vindouros, menos ainda um daqueles certeiros remates em que a exemplaridade da lição se percebe logo à transparência das palavras, tão luminosa que no futuro rejeitará qualquer intrometida glosa, ou, pelo contrário, suficientemente obscura, ou ambígua, para tornar-se nos dias de amanhã em prato favorito de eruditos e outros especialistas.

Trecho retirado do livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, do mesmo José Saramago, em que o autor apresenta José, pai de Jesus, fazendo uma irônica comparação com o destino de seu filho

    Prezados leitores, na semana passada eu tentei humildemente mostrar-lhes por meio de dois pequenos exemplos como Dostoiévski dá voz ao mesmo tempo a um velhaco cínico que defende o poder institucionalizado da Igreja Católica e a Jesus Cristo, que não era inocente, pois sabia da maldade do mundo, mas tinha fé e esperança de que um outro mundo era possível. Apesar de o escritor russo mostrar os diferentes pontos de vista, fica claro ao longo de sua obra que ele acreditava no cristianismo, que poderia ser resgatado das mãos dos burocratas da Igreja e dos hipócritas e servir de bússola moral e espiritual do homem.

    Diferente é a perspectiva de José Saramago, que sempre foi um ateu empedernido e assim morreu. O trecho que abre este artigo mostra o frei Bartolomeu de Gusmão fazendo sua passarola voar nos céus de Lisboa enquanto o Santo Ofício vai à sua busca para prendê-lo. Tanto no autor russo quanto no autor português a Inquisição é vista com maus olhos, no primeiro caso porque o que para ela era herético na verdade era a verdadeira prática cristã, no segundo caso a Inquisição inibe o livre pensamento e a inovação científica. Mas Dostoiévski e Saramago diferem pelo fato de que este não consegue ver nenhum aspecto redentor da religião, porque o que lhe importa são as condições materiais das pessoas e a Igreja nunca atuou para melhorá-las de maneira substancial, pelo contrário foi sempre fator de manutenção do status quo.

    No Memorial do Convento há de um lado o rei Dom João V, a rainha Dona Maria Ana, os outros nobres e cortesãos que são todos excelentíssimos católicos, seguem todos os ritos, nos mínimos detalhes, mas tudo é uma fachada hipócrita que serve para explorar o povo e prometer-lhe um paraíso futuro para negar-lhe condições dignas no presente terreno. Do outro lado, há o povo, as Blimundas e os Baltasares, que têm vidas precárias, feitas de muito trabalho e pouca recompensa. Quando eles ousam ter suas próprias crenças, diferentes dos dogmas impostos pela ortodoxia, são punidos com a fogueira.

    No Evangelho Segundo Jesus Cristo, essa crítica à religião dominante aprofunda-se porque José Saramago propõe-se a ir atrás da origem do mito de Jesus Cristo, contando a história do filho de um carpinteiro que morava em Nazaré de uma maneira materialmente plausível, que possa sustentar-se na realidade fática, sem a necessidade de recorrer a ideias como a virgindade de Maria ou a descida do céu de um anjo que anuncia à simples mulher de 16 anos que teria um filho. Tentando colocar Jesus Cristo, seu pai José, sua mãe Maria e seus irmãos e irmãs no contexto histórico e social da época, em que os judeus viviam sob o jugo dos romanos, Saramago desconstrói o mito, mas tal desconstrução, ao tornar o personagem mais importante da civilização ocidental mais humano, não o torna mesmo digno de respeito.

    O trecho citado na abertura deste artigo demonstra esse jogo duplo do autor português. José é mostrado como um trabalhador manual que não tinha nenhuma qualidade especial, não era um carpinteiro particularmente habilidoso e também não tinha o dom de encantar multidões com parábolas, ou ditos como seu filho o faria na sua vida adulta. De um lado a ironia fina de Saramago mostra que o fato de as palavras que Jesus Cristo teoricamente proferiu ao longo de seu curto período de pregação terem se eternizado na história, alçando o autor delas a uma glória inimaginável para um ser medíocre como seu pai, deve-se mais ao fato de elas terem sido manipuladas para atender determinados interesses, interpretadas a torto e a direito de acordo com as circunstâncias do momento, consideradas como tendo uma qualidade intrínseca que elas estavam longe de ter, pois muitas vezes eram obscuras o suficiente para que qualquer sentido pudesse ser-lhes atribuído.

    De outro lado, se Jesus Cristo teve a sorte de ter virado um mito, algo que José só adquiriu de maneira reflexa por ser seu pai, ambos tiveram uma breve vida e criando um meio de abreviar a vida de José na mesma idade em que foi abreviada a de seu filho, aos 33 anos, Saramago resgata José da sua insignificância comparativa e o coloca como um homem das classes baixas que sofrem as injustiças cotidianas perpetradas pelos donos do poder. Quando Jesus tem 12 anos estouram revoltas lideradas por Judas da Galileia contra o domínio romano na forma de guerrilhas em vários locais de Israel. José não participa de combates, mas comete a imprudência de ir atrás de um vizinho, Ananias, que combateu, mas que está mortalmente ferido em Séforis, para trazê-lo de volta a Nazaré. José acha Ananias, mas este morre e José acaba sendo preso pelos romanos e crucificado como rebelde, mesmo não tendo participado de nenhum combate. Mas os romanos precisavam dar exemplo para demover os judeus de se rebelarem de novo, então José preenche a cota necessária.

    E assim José termina sua vida aos 33 anos crucificado não para ressuscitar e juntar-se à direita de Deus pai como ocorrerá anos depois com seu filho, mas servir de bode expiatório e atender os interesses de dominação dos romanos, que usavam a crueldade da morte por crucificação como arma psicológica para manipular os sobreviventes. Sob essa perspectiva, a cruz é destituída do seu aspecto teológico e inserida na materialidade das vidas desgraçadas dos que nascem pobres em uma sociedade dominada por uma potência estrangeira. Mesmo sendo uma cruz desmistificada pelo materialismo e ateísmo de Saramago, ela não deixa de tocar os leitores da mesma maneira que o beijo de Jesus Cristo nos lábios do Inquisidor: José quis ajudar um vizinho e quando percebe que está perdido resigna-se com seu azar, assim como tantos homens do povo, desprotegidos e desamparados antes e depois dele, aceitaram seu destino infeliz nessa terra.

    Prezados leitores, é uma pena que José Saramago tenha escrito em português em uma época em que não havia grandes escritores de língua portuguesa para que ele pudesse ter sido reconhecido como Dostoiévski foi escrevendo em russo, mas acompanhado de Gogol, de Tolstói, de Turguêniev, de Tchekhov e de outros escritores que consolidaram o impacto universal da literatura russa. Partindo das suas origens campesinas e da sua formação marxista, o autor português, ao desconstruir a Sagrada Família no Evangelho de Jesus Cristo e a ideologia da Igreja no Memorial do Convento, consegue transcender suas próprias ideias, certas ou não, morais ou imorais, e nos mostrar o cerne da condição humana. Nesse sentido, ele chega ao mesmo lugar que Dostoiévski, o qual parte de suas convicções cristãs profundas, o que mostra a grandeza dos dois. Para quem nunca leu José Saramago, para ateus, católicos, protestantes, recomendo que o faça, pois todo grande artista é muito maior do que as próprias ideias que ele tenta expressar.

Categories: Cultura | Tags: , , , , , , , , , | Leave a comment

Polifonias e Cacofonias

Sei perfeitamente o que irás dizer. Aliás, não tens nem direito de acrescentar nada ao que já tinhas dito. Por que vieste nos atrapalhar? Pois vieste nos atrapalhar e tu mesmo o sabes. Mas sabes o que vai acontecer amanhã? Não sei quem és e nem quero saber: és Ele ou apenas a semelhança d’Ele, mas amanhã mesmo eu te julgo e te queimo na fogueira como o mais perverso dos hereges, e aquele mesmo povo que hoje te beijou os pés, amanhã, ao meu primeiro sinal, se precipitará a trazer carvão para tua fogueira, sabias? É, é possível que o saibas.

Trecho retirado do Grande Inquisidor, capítulo do romance Os Irmãos Karamazov, publicado em 1880, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881)

 

As ideias elevadas definham em tempos de paz prolongada; no lugar delas aparecem o cinismo, a indiferença, o tédio e muito, muito escárnio maldoso, e isso como forma de entretenimento, não por algum motivo útil. É possível dizer com certeza que a paz prolongada torna as pessoas mais cruéis. Em tempos de paz prolongada a balança sempre pende para o que há de mais estúpido e grosseiro na humanidade, em especial para a riqueza e o capital.

Trecho retirado do conto “O Paradoxalista”, publicado em 1876, de Fiódor Dostoiévski

    Prezados leitores, já assisti a uma encenação de O Grande Inquisidor realizada pelo ator paulistano Celso Frateschi em uma sala de teatro minúscula. Mesmo que a Secretária de Cultura desse largos subsídios a produtores teatrais e permitisse que os ingressos fossem baratíssimos e que a peça tivesse à disposição cenários e figurinos para reproduzir uma prisão na Sevilha do século XVI, durante o auge do poder da Santa Inquisição, encarregada de eliminar o pensamento herético do seio das sociedades cristãs, seria difícil atrair muitas pessoas, dado o forte conteúdo filosófico desta parte dos Irmãos Karamazov. Trata-se de um diálogo entre o Grande Inquisidor e um Prisioneiro que é nada mais nada menos do que Jesus Cristo em carne e osso, como o autor do diálogo, Ivan, esclarece a seu irmão Aliocha.

    O trecho que abre este artigo é uma amostra do cerne da mensagem do Grande Inquisidor: Jesus em um hipotético retorno à Terra para salvar a humanidade atrapalha a bem montada estrutura da Igreja Católica que submete os homens pelo poder, pura e simplesmente. Como toda pessoa que exerce liderança política e sente-se à vontade em fazê-lo, o Grande Inquisidor é cínico em relação à natureza humana: os homens são débeis física e mentalmente, preferem o pão à liberdade, preferem renunciar a pensar por si próprios e seguir as ordens de um líder desde que suas necessidades materiais estejam satisfeitas, ao menos minimamente. É por isso que se Jesus voltar e começar a pregar ele será perseguido e trucidado como o foi em sua primeira vinda: os donos do poder, entre os quais àquela época a Igreja Católica Apostólica Romana, tratarão de manipular o povo para fazê-los crer que aquele sujeito esfarrapado que desafia os poderes constituídos com base na opressão e na violência, só trará miséria e ostracismo a quem aderir a ele.

    O Grande Inquisidor, que zela pela pureza ideológica da Igreja Católica,  dá uma lição de moral ao Prisioneiro, ele mesmo a fonte de toda ética cristã, ao menos oficialmente. Por que voltar? Cristo já cumpriu seu papel, permitindo que o mito criado em torno da sua pessoa levasse à criação e à consolidação da Igreja. Seu retorno, pregando e pior, exemplificando uma certa conduta de vida de quem não vive só de pão, só fará atrapalhar a ordem e a paz que reinam graças à atuação eficaz dos príncipes da Igreja. Ao mesmo tempo que desfia sua arenga sobre os males que este Prisioneiro que está disposto a sacrificar sua vida pelo bem de todos poderá causar, o Grande Inquisidor se irrita e se perturba com o olhar fixo e penetrante que o objeto de seu desprezo e da sua crítica mantém sobre ele.

    O final desse confronto entre dois personagens com visões de mundo tão diferentes deixa o leitor maravilhado. O Grande Inquisidor espera que Jesus reaja às suas injúrias e responda à altura, pregando ele mesmo as ideias do autêntico cristianismo deturpado pela Igreja representada pelo Grande Inquisidor. O Prisioneiro, submetido ao arbítrio da autoridade eclesiástica, que poderia tê-lo mandado à fogueira se assim o quisesse para se livrar do incômodo, simplesmente dá-lhe um beijo na boca. O velho cínico estremece pois não esperava aquele gesto. Ele abre a porta da cadeia e diz a Jesus “Vai e não voltes mais… Não voltes em hipótese nenhuma… nunca, nunca!”

    Quem venceu? Jesus Cristo ou O Grande Inquisidor? O prisioneiro que responde à violência com um beijo de amor ou o carcereiro que tem o poder de vida e morte, de prender e soltar? Quem Dostoiévski defende? O autêntico Salvador do Mundo contra a manipulação perpetrada pela Igreja de Roma? Ou Dostoiévski considera que a visão maquiavélica do Grande Inquisidor é mais realista e portanto, a que no final das contas deve triunfar? O autor russo dá voz a diferentes personalidades, mostrando diferentes pontos de vista cuja radicalidade nos faz refletir. O pragmatismo desabrido do príncipe da Igreja, que sabe como poucos conquistar e consolidar o poder, usufruir dos privilégios que ele lhes dá, sem ilusões sobre a pureza da natureza humana. A mensagem de amor, fé e esperança de um Cristo ressuscitado que não desiste jamais, apesar de todas as dificuldades, que persiste tentando angariar as almas, por mais perdidas que elas possam estar.

    Essa polifonia que desconcerta e ilumina é presente nas grandes e nas pequenas obras de Dostoiévski. O segundo trecho que abre este artigo faz parte da argumentação de um paradoxalista, como é definido o autor de uma defesa racional da guerra pelo narrador da história. A guerra não é uma calamidade, na verdade é uma benção porque ela foca a mente em prol de feitos grandiosos para a solução dos problemas de sobrevivência que surgem, molda o caráter pois define as prioridades do ser humano, permitindo que as pessoas se unam para garantir o bem comum, elevando o espírito pelo sacrifício da própria vida em prol do amor fraterno. A paz ao contrário, gera a indolência, a submissão aos prazeres, às veleidades, ao luxo, ao glamour, às ideais vãs e espetaculares que nada mais fazem do que preencher o vácuo imposto pela falta de propósito autêntico.

   Novamente cabe a série de perguntas colocada em relação ao Grande Inquisidor. Com quem Dostoiévski concorda? Com os pacifistas ou com os militaristas? Para o autor do conto a guerra pode ser justa? Qual o campo por ele escolhido? Ou ele não escolhe nenhum? Ter resposta a todas essas perguntas não é relevante, para o leitor importa que confrontado com visões antagônicas, ele aprenda com umas e outras e possa obter a sua própria, quer identificando-se com alguma dessas vozes, quer negando-as completamente, quer amalgamando-as em uma síntese criadora. Desse face-a-face com os múltiplos ângulos de uma questão, o leitor de Dostoiévski sai consciente da complexidade de fazer escolhas.

    Prezados leitores, ler o Grande Inquisidor era obrigatório em universidades americanas de elite, ao menos até a década de 90 do século XX, como me garante quem por lá passou então. Não é de se admirar, considerando que o ensino universitário tinha como objetivo dar aos alunos ferramentas para aprender a pensar por si próprios e formar suas próprias opiniões, pela exposição aos mais diversos pontos de vista. A polifonia universitária levaria à harmonia da consolidação das ideias. Talvez a falta de contato com autores complexos como Dostoiévski, cuja apreensão exige um esforço contínuo de lapidação da mente, seja responsável por tantas pessoas com grau universitário se perderem na cacofonia das redes sociais, palco de troca de insultos pessoais, de estigmatizações, de argumentação rasa.

    O Prisioneiro, o Paradoxalista, o Grande Inquisidor são personagens fictícios, mas que nos preparam para enfrentar mentalmente a ambiguidade da vida e suas difíceis escolhas, apresentando-nos as nuances, as zonas cinzentas, as luzes e as sombras. Enquanto houver seres humanos que estejam dispostos a olhar-se no espelho com franqueza e não necessariamente com admiração inocente e narcisista, haverá sempre quem cultue essas grandes figuras da literatura.

Categories: Cultura | Tags: , , , , , , , | Leave a comment

Arquétipos, lá e aqui

Em todas as coisas procurava-se pela “moralidade” como dizia o homem medieval, ou seja, a lição que dali se extraía, o significado moral mais essencial. Cada caso histórico ou literário tende a se cristalizar numa parábola, num exemplo moral, numa evidência; cada declaração, numa sentença, num texto, num dito. Assim como nas conexões simbólicas sagradas entre o Novo e o Velho Testamento, as conexões morais fazem com que cada incidente da vida possa imediatamente ser refletido num modelo, num arquétipo das Escrituras, da história ou da literatura. […] Num lugar em que para cada caso se encontra tão facilmente uma explicação, e, uma vez que esta foi aceita, se acredita nela com tanto fervor, reina uma extraordinária comodidade do falso juízo.

Trecho extraído do livro “O Outono da Idade Média” do historiador holandês Johan Huizinga (1872-1942)

   Prezados leitores, o trecho que abre este humilde artigo foi retirado do 17º capítulo do livro, intitulado “As formas do pensamento na vida prática”, em que Johan Huizinga explica como o homem medieval pensava centrando sua argumentação em torno de dois conceitos fundamentais, a casuística e o formalismo. Cada caso isolado da vida real, que suscitava uma pergunta a ser respondida com uma solução, era relacionado com as verdades eternas obtidas a partir da Bíblia ou de textos literários ou da narrativa histórica tal como se encontrava cristalizada.

    Uma vez estabelecida a conexão entre o caso e a verdade, estabelecia-se a solução ideal e o que era isolado passava a ser considerado como uma entidade delimitada por limites fixos que se encaixava na organização hierárquica das coisas. Essa solução transmuta-se então em regras formais rígidas, criadoras de formas dominantes, que servirão por sua vez para encaixar outros atos, os quais serão considerados com tendo características imutáveis independentemente das circunstâncias e da intenção dos agentes. Cria-se dessa forma a casuística, um rol de casos-modelo, que servirão de antecedentes para a abordagem de caso novos, pela aplicação automática das regras obtidas.

    As parábolas, os exemplos morais, os sermões, os juramentos são manifestações da aplicação simultânea desses dois conceitos, pois todos implicam a redução dos incidentes da vida a formas pré-definidas. As nuances, as peculiaridades da realidade concreta são deixadas de lado para enfatizar a reprodução eterna dos esquemas imutáveis. Esse formalismo tem consequências interessantes. Um indivíduo que cometesse um lapso ao prestar um juramento era punido pela falha em pronunciar as palavras sagrada, ao passo que um ato tentado, mas não consumado, mesmo no caso de um delito grave, não era punido. A forma era mais importante que o conteúdo, a repetição eterna das verdades consolidadas mais importante do que a investigação da realidade em si mesma, com toda sua complexidade, suas zonas obscuras, suas ambiguidades morais.

    Para Huizinga, esse formalismo geral do pensamento do homem medieval era responsável pelo caráter oco e superficial da mentalidade da época.

 

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , , , , , , | Leave a comment