O menino é pai do homem

Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. […] Prudencio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia; algumas vezes gemendo, mas obedecia sem dizer palavra ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” ao que, eu retorquia: – “Cala a boca, besta!” Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; esse às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.

Trecho retirado do capítulo “O menino é pai do homem” do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis (1839-1908)

Eduardo Pazuello comandava havia quatro meses o quartel do Depósito Central de Munições do Exército, em Paracambi, a 70 km do Rio, quando viu dois soldados passarem em uma carroça. Julgou que estavam velozes demais, que maltratavam o equino, e quis lhes dar uma lição. Mandou parar, desatrelar o animal, e determinou que o recruta Carlos Vitor de Souza Chagas, um jovem negro e evangélico de 19 anos, substituísse o cavalo. O soldado teve de puxar a carroça com o outro soldado em cima, enquanto o quartel assistia à cena, às gargalhadas.

Trecho retirado do artigo “O labirinto do general: da humilhação a um soldado a ’réu’ na CPI publicado no jornal o Estado de São Paulo em 30 de maio de 2021

    Prezados leitores, nunca esqueço das palavras de Gore Vidal em um dos ensaios publicados no Brasil sob o título “De fato e de ficção”, já citado aqui neste meu humilde espaço, de que a literatura, quando bem feita, é um exercício de imaginação dos mais verdadeiros.  Nada como uma história bem contada para iluminar a realidade e revelá-la em toda sua beleza ou torpeza, dando-lhe um sentido que, se ficássemos muito colados aos detalhes do cotidiano, não perceberíamos. Daí por que a literatura que se pretende ser algo além do entretenimento é uma poderosa arma de reflexão. O trecho que abre este artigo ilustra esse poder da literatura de recriar a realidade e torná-la inteligível para nós.

    No caso do livro de Machado de Assis as travessuras fictícias de Brás Cubas, um menino bem nascido no Rio de Janeiro do século XIX, mostram a insensibilidade de quem cresceu em um meio no qual os escravos negros eram tratados como objetos com os quais podia-se fazer o que quiser. Pior, tudo o que ele fazia de cruel, de desumano, de irresponsável era aplaudido pelo pai como manifestação de energia e de robustez, em suma de um espírito que nascera para mandar, para dar ordens do alto do cavalo real ou fictício aos negros que deveriam obedecer sempre, por mais que as ordens fossem absurdas. Prudencio comportava-se como um cavalo apesar de ser um ser humano porque assim queria Brás Cubas, que exercia assim sua autoridade e reforçava seu papel de senhor, com o beneplácito do pai, que via neste mandonismo, neste capricho de um menino mimado e mal acostumado, sinal de liderança.

    Este famoso trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas ilustra o comportamento dos nossos nhonhôs de duzentos anos atrás e infelizmente continua a revelar traços que persistem, como mostra este episódio da carreira militar do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde de Jair Bolsonaro. Na época em que ele mandou o soldado negro puxar a carroça, em 2005, Pazuello era tenente-coronel e sua conduta foi submetida a um Inquérito Policial Militar que não levou a nenhuma punição porque a defesa conseguiu fazer valer sua versão de que o objetivo do comandante do quartel não era impor maus-tratos ao recruta, e sua atitude derivou do seu amor especial pelos cavalos. Um cavalo de tração como aquele deveria gozar sempre de boa saúde, e para isso deveria ser bem tratado e não ordenado a puxar mais peso do que poderia aguentar (no caso havia uma banheira na carroça).

    E assim, nosso querido general sempre estabeleceu suas prioridades valendo-se dos seus privilégios, tal como nosso querido Brás Cubas, que dedicava-se a exercícios equestres para treinar suas qualidades morais: humilhar um recruta para mostrar-lhe a necessidade de cuidar bem dos animais foi possível a Eduardo Pazuello porque ele tinha posição de mando àquela época e ficou impune porque aqueles que o julgaram comportaram-se como o pai do herói machadiano: assim como enforcar, chicotear Prudêncio era uma mera traquinagem,  que preparava o futuro líder político Brás Cubas para seu grande destino de mandar nas classes subalternas, fazer Carlos Vítor de Souza Chagas puxar uma carroça reforçou a autoridade de Pazuello, tanto que todos no quartel riram às custas do soldado de 19 anos e depois de sua experiência de comandante daquele quartel o futuro Ministro da Saúde comandou o 20º Batalhão Logístico da Brigada Paraquedista.

    A última façanha de Pazuello foi ter participado de uma carreata de motociclistas ou “motociata”, ao lado de Bolsonaro no Aterro do Flamengo no dia 23 de maio. Como ele ainda é general da ativa, pode ser submetido a punição por infringir o Regulamento Disciplinar do Exército que proíbe militares da ativa de comparecerem a atos políticos. O que fará o Comando do Exército? Bolsonaro, que chamou Pazuello carinhosamente de “gordinho” durante a manifestação no Rio de Janeiro, já pediu publicamente que ele não seja punido. Será que o Comando do Exército fará como o pai de Brás Cubas? Aplicará uma punição proforma para seguir as formalidades da lei, mas nos bastidores irá passar-lhe a mão na cabeça com condescendência e admiração? Será que a direção das nossas Forças Armadas quer os militares participando da política como uma forma de evitar os “excessos” da democracia? Será que na realidade consideram o ativismo político de certos militares como algo bom para manter a lei e a ordem? O mais provável é que cheguem a uma solução de consenso e obriguem Pazuello a ir para a reserva e pronto, sem grandes punições. Um tapinha nas mãos do voluntarioso general de divisão da ativa, talvez: afinal muitos dirão que o evento era dos motociclistas que convidaram Jair Bolsonaro e seus amigos a participarem e não um evento da campanha de reeleição de Bolsonaro. Há sempre uma explicação desde que haja boa vontade com pessoas que devem ser dignas de admiração pelo “espírito robusto”.

    Prezados leitores, convenceram-se de que a ficção da literatura às vezes é tão criativa e verdadeira que ela se faz presente na realidade? Entre Brás Cubas e Eduardo Pazuello, entre Prudencio e Carlos Vitor de Souza Chagas passaram-se dezenas e dezenas de anos, mudou-se o regime político de monarquia para república e no entanto, continuamos a tratar seres humanos como bestas de carga. O bruxo do Cosme Velho continua, como sempre foi, desde que escreveu suas principais obras, presciente das torpezas deste Brasil cuja herança escravista continua ainda presente nos pequenos detalhes do cotidiano.

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Liberdade x igualdade: ontem e hoje

A “tirania” de Pisístrato foi parte de um movimento geral nas cidades comercialmente ativas do século VI a.C. na Grécia de substituir o regime feudal da aristocracia proprietária das terras por uma dominação política pela classe média em uma aliança temporária com os pobres. Tais ditaduras tiveram sua origem na concentração patológica da riqueza e na incapacidade dos ricos de chegar a fazer um compromisso. Obrigados a escolher, os pobres, como os ricos amam mais o dinheiro do que a liberdade política; e a única liberdade política capaz de perdurar é aquela tão podada que impede os ricos de arrancar o couro dos pobres pela capacidade ou sutileza e os pobres de roubar os ricos pela violência ou pelos votos. […] Chegando ao poder, o ditador aboliu as dívidas ou confiscou grandes propriedades, taxou os ricos para financiar obras públicas ou redistribuiu a riqueza superconcentrada; e ao mesmo tempo que ganhava o apoio das massas por meio de tais medidas, assegurava o apoio da classe empresarial promovendo o comércio com a fabricação estatal de moedas e os tratados comerciais, e aumentando o prestígio social da burguesia.

Trecho retirado do livro “The Life of Greece”, de Will Durant (1885-1981), historiador e filósofo americano

 

Temos dificuldades graves no uso do dinheiro público. Não é apenas uma questão fiscal, mas de natureza política, ligada à incapacidade de arbitrar prioridades. Nossos representantes precisam dar mais ênfase aos grandes objetivos sociais, que representem avanços para a maioria das pessoas.

Trecho de entrevista de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, à revista VEJA de 26 de maio de 2021

 

    Prezados leitores, na semana passada eu mencionei a cidade de Esparta na Grécia antiga e seu sistema peculiar em que uma casta dominava a maioria trabalhadora pela sua total dedicação às artes militares. Continuando sua descrição da história das várias cidades gregas para contextualizar sua produção cultural e artística, Will Durant, no livro mencionado acima, explica-nos os problemas enfrentados ao final do século VII a.C. pela Ática, a região da Grécia onde fica Atenas. Abordar tais problemas de mais de dois mil anos permite-nos ver como os desafios dos vários sistemas econômicos e políticos surgidos ao longo da história apresentam certas características comuns.

    A situação dos camponeses da Ática tornou-se particularmente dramática em um determinado momento. Eles foram passando mais e mais para uma situação de destituição completa por dois fatores: a divisão das suas terras entre os descendentes tornava as propriedades cada vez menores e menos produtivas e o incremento do comércio pela fundação de colônias em todo o Mediterrâneo estimulou a importação de alimentos a preços com os quais os camponeses não conseguiam competir.

    O resultado era que os camponeses se tornavam endividados pela necessidade de hipotecar as terras e não conseguindo pagar as dívidas eram obrigados a trabalhar para os credores como servos. Nas cidades, os intercâmbios internacionais tornavam os escravos muito mais facilmente disponíveis e a classe média dispensava o uso dos trabalhadores livres que antes lhes prestavam serviços, levando tais trabalhadores a não ter emprego e a passar fome.

     Durant resume bem a situação descrevendo a dialética que está presente em toda a sociedade, aquela entre a liberdade e a igualdade. Com a liberdade pôde haver o aumento do comércio com as colônias gregas do Mediterrâneo, a troca de produtos, a produção de riquezas pela ampliação dos mercados. Por outro lado, isso causou devastação em certos grupos sociais, que perderam com esse dinamismo porque eram incapazes de fazer frente à nova situação e adaptarem-se.

    E assim acontece sempre: a ênfase na liberdade para que o talento e o mérito floresçam cria a oportunidade de inovação e de eficiência; ao mesmo tempo, cria-se um grupo de vencedores que transmitem sua riqueza aos descendentes e que com seu dinheiro passam a ter influência sobre como as leis são elaboradas e interpretadas. Na Ática do final do século VII a.C.  o camponês, incapaz de competir com os produtos importados, acabava eternamente preso às obrigações com os credores pela execução estrita das leis sobre execução de dívidas.  Dessa forma, a igualdade sai prejudicada, e a casta dos que prosperam pela habilidade de enfrentar o desafio das novas situações usa seu poder para aumentá-lo ainda mais moldando as leis aos seus próprios interesses.

    Cria-se assim um círculo virtuoso para os que estão em cima e um círculo vicioso para os que estão em baixo. O poder econômico cria poder político que reforça o poder econômico e a falta de poder econômico leva à perda de poder político que reforça a destituição material. Em última análise, chega-se ao estágio que Durant descreve como concentração patológica da riqueza, conforme o trecho que abre este artigo. Patológica porque o foco absoluto na liberdade em detrimento da igualdade torna os pobres tão destituídos e desesperados que eles não têm mais nada a perder e portanto, não tem mais nenhum interesse na lei e na ordem vigentes. Em suma, estão prontos para a revolução.

    O desafio em qualquer sociedade que chega a este estado radical de coisas é encontrar politicamente um meio de quebrar essa cadeia de eventos que torna os ricos capazes de esmagar os pobres e levar os pobres à violência, e tornar a dinâmica entre liberdade e igualdade pender um pouco menos para o lado da liberdade e um pouco mais para a igualdade, e assim preservar a paz social. Durant explica-nos que isso foi feito pelos tiranos, particularmente Sólon (630 a.C. – 560 a.C.) e Psístrato (início do século VI a.C. – 527 a.C.).

    Pertencentes à fina flor da aristocracia ateniense, eles foram capazes de estabelecer um novo pacto social aliviando o ônus financeiro dos pobres pelo perdão das dívidas e no caso de Psístrato pela taxação da renda dos abonados para financiar bens públicos e gerar empregos para os menos abonados. Durant conclui que esta nova lei e ordem, que impediu a explosão social, pela diminuição da concentração de renda, forneceu as bases do conforto e prosperidade que permitiram o florescimento da democracia em Atenas posteriormente.

    A lição deste panorama da vida de Atenas e das outras cidades da Ática na Grécia Antiga é que a desigualdade em demasia corre o risco de autodestruir-se. Ela é inevitável caso haja liberdade, pois as pessoas apresentam diferentes capacidades, mas ela pode chegar a um ponto tal que torna a vida na sociedade inviável pela criação de um grupo de pessoas que fica destituído, sem direito a nada pois tanto a realidade material como a realidade jurídica estão contra elas, e sem compromisso nenhum em manter o sistema. A saída é aquela encontrada pelos tiranos: deixar os ricos enriquecerem, mas sem lhes permitir arrancar o couro dos pobres e dar a estes certas benesses que os tornem interessados na manutenção do sistema, e não na sua destruição.

    Psístrato em sua época mandou construir templos, instituiu os Jogos Panatenaicos, em homenagem à deusa Atena, e assim deu um sentido de pertencimento a todos. Mais de 2000 anos depois, Arminio Fraga ao falar dos problemas do Brasil, toca num ponto importante que é na essência o mesmo desafio enfrentado pelos governantes atenienses: nosso sistema político é incapaz de enfrentar essa dialética liberdade x igualdade de modo que cada indivíduo se sinta parte do todo. Especificamente no caso do Brasil do século XXI, o desafio é fazer com que o dinheiro público seja investido para diminuir a desigualdade e oferecer bens sociais que beneficiem a grande maioria dos brasileiros, especialmente saúde e educação.

    De fato, estamos em um ponto de nossa história em que as desigualdades são reforçadas por um regime político e jurídico que cria privilegiados, os quais usam seu poder para barrar qualquer tipo de reforma que afete seus interesses. Em sua entrevista, Fraga explica que sem que esses bens sejam oferecidos, não teremos viabilidade econômica, pois não conseguiremos aumentar a produtividade e inovar e sem tais requisitos nenhuma economia consegue hoje crescer e gerar empregos. Qual será a saída para nosso impasse político, em pleno século XXI? Será que teremos déspotas esclarecidos à nossa disposição que estabeleçam um novo pacto social, doa a quem doer? Ou nosso sistema implodirá por sua extrema desigualdade e inviabilidade no momento da história em que o capital humano é que faz a diferença? Veremos.

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Pátria

Autocontrole, moderação, equanimidade na fortuna e na adversidade […]. Se é uma virtude obedecer às leis, os espartanos eram muito mais virtuosos do que maioria dos homens. Aqui foi, claro, onde Platão encontrou os esboços da sua utopia, um pouco obscurecida por uma estranha indiferença às Ideias. Cansados e amedrontados com a vulgaridade e o caos da democracia, muitos pensadores gregos refugiaram-se na idolatria da lei e da ordem de Esparta.

[…] os atenienses estavam construindo, a partir de mil injustiças e erros, uma civilização de amplo alcance e de atividade intensa, aberta a toda nova ideia e ávida por estabelecer interações com o mundo, tolerante variada, complexa, luxuosa, inovadora, cética, criativa, poética, turbulenta, livre.

Trechos retirados do livro “The Life of Greece”, de Will Durant (1885-1981), historiador e filósofo americano

Euskadi Ta Askatasua (em basco: Pátria Basca e Liberdade), mais conhecido pela sigla ETA, foi uma organização nacionalista basca armada. […] Foi fundado em 1959 como um grupo de promoção da cultura basca. No final da década de 1960 evoluiu para uma organização militar separatista, lutando pela independência da região histórica do País Basco, cujo antigo território atualmente se distribui entre a Espanha e França. Ao mesmo tempo, o ETA assumiu uma ideologia marxista-leninista revolucionária […] Desde 1968, o ETA foi responsabilizado pelas mortes de 829 pessoas e por ferimentos causados a milhares de outras, além de dezenas de sequestros. Estima-se que mais de 400 membros do ETA estejam em prisões da Espanha, França e outros países.

Trecho do verbete da Wikipedia sobre a organização terrorista que foi declarada oficialmente extinta em 2 de maio de 2018

    Prezados leitores, os dois primeiros trechos que abrem este artigo farão todos que o lerem lembrar-se das suas aulas de História Antiga em que se tratava da civilização grega. Invariavelmente havia a comparação dos dois modelos políticos e sociais, o ateniense e o espartano. A descrição detalhada de Will Durant sobre as duas cidades permite tirar lições sobre acontecimentos históricos muito posteriores ao tempo em que Esparta e Atenas eram vivas e faziam parte da Hélade, isto é, dos valores e ideais da civilização grega. Nesta semana, meu foco será na primeira, por razões que ficarão claras ao final.

   Esparta era uma sociedade em que todo cidadão do sexo masculino era retirado da sua família aos sete anos para ser educado com outros homens até a idade dos 30 anos, quando então era-lhe permitido constituir família. A educação constituía-se basicamente de treinamento militar, uma necessidade considerando que a elite dominante, dona das terras adquiridas pela conquista realizada pelos invasores dóricos da Lacedônia e da Messênia, era em número sete vezes menor do que a classe dos hilotas, os escravos encarregados do trabalho pesado. Durant  define de maneira sucinta que tipo de formação dava-se aos espartanos: não se tratava de colocá-los em contato com teorias abstratas sobre o que é a virtude ou o bem, mas de inculcar hábitos virtuosos pela repetição contínua de comportamentos que seguissem o padrão: comer de maneira frugal, vestir-se simplesmente, aprender a lutar, privar-se de confortos materiais, em suma violentar a carne de todas as maneiras para fazer dos homens a personificação de um ideal e prepará-los para a guerra seja para esmagar revoltas dos escravos ou para destruir os inimigos externos. E morrer lutando por Esparta era a honra suprema, cujo contraponto era a ignomínia de voltar vivo de uma guerra perdida.

    De acordo com Durant, essa ênfase no sacrifício do indivíduo em prol da Pátria foi facilitada e consolidada pela introdução do Código de Licurgo, lendário ou real rei de Esparta que foi responsável pela sistematização e harmonização de várias leis consuetudinárias que se tornaram sagradas ao serem codificadas. Os cidadãos obedeciam à lei estritamente, desempenhando seu papel na engrenagem que mantinha o controle de poucos sobre muitos. Daí a caracterização de Esparta como o império da lei, executada ao custo do corpo e do espírito do homem, já que as manifestações artísticas em sua maior parte, à exceção da música, eram consideradas nocivas aos objetivos militaristas, pois faziam o indivíduo desviar-se da norma.

    O balanço final do historiador e filósofo americano é claramente desfavorável a Esparta. Violentando a natureza humana, inclusive aquilo que ela tem de vicioso, o sistema do primado absoluto da lei e da ordem acabou sendo um fim em si mesmo que cegou a sociedade espartana, fazendo-a concentrar-se em sua própria sobrevivência como ente coletivo, à custa de tudo e de todos, o que levou à sua destruição pelos que ressentiam sua arrogância. Nesse sentido, em que pese Esparta ter sido alvo de admiração por parte de pensadores gregos, seu legado foi nulo, porque como afirma Durant no segundo trecho deste artigo, o espírito humano alimenta-se dos erros, dos vícios, da liberdade, do caos: perfeição corporificada só leva à estagnação.

    É impossível não ler sobre Esparta e a ideologia de Estado que ela colocava em prática, sem traçar paralelos, aliás essas comparações são uma das utilidades do estudo da História. Humildemente ofereço-lhes uma referência à trajetória do grupo separatista ETA que atuou entre 1959 e 2018 em prol da independência do País Basco, tal como retratada em uma minissérie da HBO chamada Pátria.

    Os personagens são todos bascos, mas dividem-se em turmas distintas: há aqueles que valorizam suas especificidades culturais e linguísticas, diferentes do resto da Espanha, mas que querem viver sua vida normal como cidadãos do país e trabalhar casar e ter filhos; há outros para os quais isso não basta e é preciso lutar pela independência do pequeno enclave, custe o que custar. Quem defende a entente com o Estado espanhol é considerado pelos membros do segundo grupo traidores, covardes, dignos de pena e até de morte, por serem obstáculos à causa. Assim é que na minissérie, Jesús Maria “Txato” Lertxundi Altuna, dono de uma transportadora no vilarejo onde se desenrola a ação, depois de passar semanas vendo seu nome sendo pichado nas ruas com insultos, e ser ostracizado por seus amigos por ser considerado inimigo da causa independentista, é assassinado por Joxe Mari Garmendia Uzkudun, que abandona sua família para tornar-se membro do ETA, e a quem Txato conhecia desde a infância do seu algoz. Para Joxe Mari tais relações pessoais não importam, e o principal critério de avaliação de uma pessoa não são suas qualidades morais, mas sua utilidade ou não para a criação do País Basco como entidade política autônoma.

    Esse assassinato de um basco por outro acaba servindo como emblema do dilema enfrentado pelo ETA e que talvez explique em parte sua derrocada. A morte ou a mutilação de pessoas inocentes acabaram alijando uma parte da população do País Basco, que embora se identificasse com a língua e a cultura, não considerava a independência política um ideal absoluto que devesse ser colocado em prática de qualquer maneira. No final das contas, hoje em dia o ETA é conhecido como sendo uma organização terrorista, com todas as conotações negativas que essa palavra tem. Será que o sacrifício de milhares de vítimas ao longo de quase 60 anos valeu a pena em termos daquilo que foi conquistado? Afinal a autonomia concedida pelo governo espanhol a três províncias da região basca – Álava, Biscaia e Guipúscoa – também foi concedida à Catalunha, que embora tenha desejos de separar-se nunca teve uma organização que tenha trilhado a rota radical do ETA.

    Prezados leitores, recomendo-lhes nestes tempos de falta de convívio pessoal assistir a Pátria.  Sob a luz da história de Esparta, que se consumiu no fogo da sua própria obtusidade ideológica, o destino infeliz do ETA e de seus membros torna-se mais inteligível.

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Levantados do chão ou presos a ele?

Ao apuramento do saldo importa pouco que tenham morrido aos milhões por inundação natural, revolvimento de enxada ou desafio de micções: quem viveu, comeu, quem morreu deixou aos outros. A natureza não conta mortos, conta vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade.

Trecho retirado do livro Levantando do Chão, do escritor português José Saramago (1922-2010)

Para o homem aqueu, a vida humana vale pouco; tirá-la não é grave; um momento de prazer pode substituí-la. Quando uma cidade é capturada os homens são mortos ou vendidos como escravos; as mulheres tornam-se concubinas se são atraentes, ou escravas se não são. […] Ele mora em um mundo em desordem, assediado, faminto, onde cada homem tem que ser seu próprio policial, de prontidão com uma flecha e uma lança e com a capacidade de olhar de maneira calma para o sangue que escorre. “Uma barriga vazia,” como explica Ulisses, “nenhum homem pode esconder… Por causa dela os navios são feitos que levam o mal aos inimigos no mar revolto.”

Trecho retirado do livro “The Life of Greece”, de Will Durant (1885-1981), historiador e filósofo americano

 

    Prezados leitores, a vida da Grécia Antiga, tal como contada por Will Durant, passa por várias etapas em que a história se mistura aos mitos. Na semana passada, mencionei a figura mítica do Minotauro, ligada à civilização minoica que se desenvolveu em Creta. Nesta semana, cabe menção aos aqueus, que Durant define como os gregos da Idade Heroica, isto é, os gregos que lutaram contra os troianos e cuja epopeia foi narrada na Ilíada de Homero. Graças às escavações de Heinrich Schliemann (1822-1890) no que hoje é a região da Anatolia, na Turquia, sabe-se que Troia realmente existiu. Nesse sentido, considera-se que os acontecimentos e os personagens da Ilíada – Aquiles, Menelau, Príamo, Helena, Agamenon dentre outros – têm um fundo de verdade histórica recontada ao longo dos séculos pelos gregos para criarem sua própria narrativa e assim consolidar seus próprios valores.

    A Guerra de Troia, para além da versão homérica de que foi desencadeada pelo rapto de Helena, é a disputa pelo Helesponto, que atualmente tem o nome de estreito de Dardanelos e cuja localização era estratégica, pois dava acesso às terras do Mar Negro.  E eram de terras que os gregos precisavam, premidos pelo excesso populacional, pela fome, pela inconstância da produção agrícola. Pobres homens que ainda não viviam sob o signo da tecnologia como nós, que dela podemos depender para que a Natureza não nos pegue de surpresa com secas, inundações, terremotos, epidemias.

    E o que fazer nessas terras? No longo prazo colonizá-las, no curto prazo certamente saqueá-las, aproveitar a riqueza já produzida por aqueles que estavam lá antes e que foram subjugados na conquista. Aos perdedores, cabe a morte, a escravidão, e na melhor das sortes para as mulheres bonitas, tornar-se parte de um harém.

    Nessa luta pelo pão de cada dia, vale tudo. Ao comentar em linhas gerais os episódios narrados nos 24 capítulos da Ilíada, Durant realça o que era considerado pecado e virtude neste mundo hostil: ser gentil, perdoar ofensas, ser fiel, trabalhador e honesto é contraproducente, pois a possibilidade constante de guerras pela disputa de territórios faz com que aquilo que ajuda o homem a prosperar em tempos de paz certamente lhe será fatal no momento de uma invasão por um povo inimigo. Por isso é preciso saber lutar, mentir, matar, trair, tudo para garantir sua sobrevivência e da sua família. A Ilíada tem versos cuja beleza foi uma das matrizes da literatura ocidental (aliás, a título de curiosidade, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, recita-os em grego no original, confiram no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=VzJQ0TcBmqU), mas ela não deixa de ser uma obra que faz do terror algo bonito: o terror da opressão pela força, do destino infeliz, da humilhação infligida pelos vencedores, dos caprichos insondáveis da Natureza.

    E assim, os gregos, ouvindo a bela poesia da Ilíada, forjaram seus mitos e seu modo de ser, levando-os a lançarem-se na exploração do Mediterrâneo e a fundarem cidades ao longo da costa que se transformaram na Magna Grécia. Quando estive no Museu do Parthenon, em Antenas, o que saltou aos meus olhos foi a estética da guerra: como aqueles homens e seus  cavalos, no calor da refrega, são belos porque são fortes, porque lutam e porque o fazem com orgulho e com dignidade, altaneiros. A narrativa da vida como luta incessante em um mundo hostil impulsionou o povo grego em seu brilhante percurso histórico, em que a necessidade de conquista misturou-se à curiosidade pelo novo e lhes permitiu lançar as bases da civilização ocidental. Afinal, como aponta Durant, em nossa época “grandes nações conquistam e subjugam povos indefesos sem perder a dignidade ou a retidão moral”. Em suma, o Império Romano, o Império Napoleônico, o Império Britânico, o Império Americano, têm todos como origem espiritual a narrativa homérica da Guerra de Troia.

    Se a concepção da natureza hostil foi fonte de inspiração para os gregos lutarem e vencerem, ela adquire uma conotação totalmente diferente na obra de José Saramago, escritor já citado neste meu humilde espaço inúmeras vezes. Em Levantado do Chão, obra em que ele conta a saga de uma família de lavradores portugueses, os Mau-Tempo, no início do século XX, tal concepção não é fonte de transcendência, de sublimação: a natureza indiferente ao destino dos indivíduos, tal como retratada no trecho citado acima, serve para que Saramago narre a antiepopeia. Os desafios do mundo não fazem o homem superar-se, heroificar-se, ao contrário: torna-o preso às condições materiais adversas, preso num círculo vicioso de exploração pelos poderosos em que não se pode contar com proteção nenhuma: Deus não ajuda os pobres porque a religião acoberta a vileza dos ricos permitindo que eles permaneçam impunes, e a Natureza, quando resolve manifestar-se, trucida os pobres como moscas, vulneráveis que estão pela fome e pela ignorância. Uma visão pessimista, certamente, mas que não deixa de ser bela, pois revela uma verdade fundamental da vida a respeito de como o sistema econômico transforma o homem em besta de carga dócil e dispensável, pois que pode ser substituída facilmente. Independentemente das convicções marxistas ou comunistas de Saramago, não há como negar-lhe a capacidade que ele tem de nos mostrar como os pobres se encaixam no esquema geral das coisas, tornando-se invisíveis aos olhos dos privilegiados: sem alma, sem sentimentos, reduzidos a sua utilidade ou não para o trabalho.

    Prezados leitores, a perspectiva histórica sempre nos permite lançar luz sobre nossos próprios problemas contemporâneos. As guerras contínuas nos primórdios da civilização grega e a exploração agrícola baseada no latifúndio que ainda vigorava no Portugal do começo do século XX mostram que a luta do homem, gloriosa ou inglória, continua mais viva do que nunca. Nós, que há dois anos achávamos que o mundo era cheio de oportunidades de consumo, de viagens, de trabalho, vimo-nos sermos vítimas de uma peça pregada pela Natureza, que fez surgir de repente uma peste até agora incurável, uma legião de miseráveis que perambulam pelas ruas procurando no lixo restos de comida e uma grande insegurança em relação ao futuro. O que faremos? Consideraremos tudo isso um desafio que nos levará a olhar para o céu ou um fado que nos levará a olhar para o chão?

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Destruição

Nosso cérebro consegue formar uma ideia somente a partir dos dados que circulam em um determinado momento; e os dados disponíveis são criados pelos poderosos atuais, pelas modas em voga e pela opinião aceita. Se continuamos a negligenciar outras áreas do passado, os espaços em branco em nossa mente são reforçados e amontoamos cada vez mais conhecimento naqueles compartimentos dos quais já sabemos. O conhecimento parcial torna-se cada vez mais parcial e a ignorância perpetua-se a si mesma.

Trecho retirado do livro “Vanished Kingdoms – The History of Half-Forgotten Europe”, do historiador inglês Norman Davies

Talvez lá também, como em todas as culturas em decadência, o controle populacional tenha ido muito longe e a reprodução foi deixada a cargo dos fracassados. Talvez, à medida que a riqueza e o luxo aumentavam, a busca do prazer físico minou a vitalidade da raça e diminuiu sua vontade de viver ou de defender-se; uma nação nasce estoica e morre epicurista. Possivelmente o colapso do Egito, depois da queda de Akhenaton, afetou o comércio entre Creta e o Egito, diminuindo a riqueza dos reis minoicos. Creta não tinha grandes recursos internos; sua prosperidade exigia o comércio e mercados para suas indústrias; como a Inglaterra moderna, ela tinha se tornado perigosamente dependente do controle dos mares. Talvez guerras internas dizimaram a população masculina da ilha, deixando-a desunida frente a um ataque estrangeiro. Talvez um terremoto fez o palácio tremer até virar uma ruína ou uma revolução raivosa vingou-se em um ano de terror as opressões acumuladas ao longo de séculos.

Trecho retirado do livro “The Life of Greece”, de Will Durant (1885-1981), historiador e filósofo americano

    Prezados leitores, na semana passada eu falei sobre um fictício proprietário de terras na Rússia do século XIX, Kostanjoglo, para quem a pessoa que não trabalha, que não consegue realizar nada porque não segue sua vocação natural, presta um desserviço à humanidade e a Deus, principalmente, que criou tudo e deve ser imitado. Nesta semana, meu enfoque será no polo oposto, o da destruição e para tanto citarei dois historiadores.

    O primeiro já é conhecido daqueles que me acompanham regularmente, Will Durant, pois em vários artigos eu comentei trechos de seu livro sobre o Renascimento. Will Durant é autor de uma História da Civilização juntamente com sua esposa, Ariel Durant. No volume aqui citado, seus olhos se voltam para a civilização grega, e para começar seu percurso ele descreve Creta, que foi a primeira civilização europeia, a qual deixou muitas contribuições no reino da pintura, da escultura, da produção de cerâmicas, da arquitetura e da criação do sistema de coleta e descarte de efluentes mais sofisticado da Antiguidade, que depois de 4.000 anos ainda funciona. Para situar o cidadão do século XXI, basta dizer que a ilha de Creta é a terra do Minotauro, um ser mítico, filho de Parsífae, esposa do rei Minos, e de um touro por quem a rainha se apaixonou. O rei manda prender este bastardo, metade homem, metade touro, no labirinto, que nada mais é do que o Palácio do rei Minos em Knossos, cujas ruínas, reveladas pelas escavações comandadas pelo arqueólogo britânico Arthur Evans (1851-1941), ainda podem ser vistas naquela ilha que hoje em dia faz parte da Grécia. Eu mesma estive lá e pude ver um afresco representando o Minotauro. Aliás, não faltam exuberantes representações artísticas do touro no Museu Arqueológico de Heraklion, a capital, já que o animal era cultuado como símbolo de fertilidade. As mulheres de Creta eram famosas por usarem jaquetas curtas, deixando os seios à mostra. Usando colares e pulseiras eram o cúmulo da elegância, podem crer!

    Infelizmente a escrita minoica ainda não foi decifrada, então não se sabe ao certo da história de Creta e o que causou o incêndio e a destruição do palácio em Knossos. Durant tece hipóteses, conforme o trecho citado na abertura deste artigo, tecendo paralelos com outras épocas e outros povos, que ele apenas sugere ao leitor informado, o que faz com que a descrição das vicissitudes da civilização minoica adquiram um sentido para nós em pleno século XXI da Grande Transformação que está sendo causada pela epidemia de COVID.

    Terá Creta vivido um colapso populacional, em que as pessoas produtivas deixaram de se reproduzir porque não consideravam valer mais a pena? Será que o exaurimento dos recursos naturais da ilha pela superexploração – Durant menciona que à época do auge de Creta a ilha era repleta de bosques de cedros e ciprestes e hoje só sobraram as pedras – tornou a sociedade vulnerável? Será que Creta, que construíra um império no Mar Egeu, sofreu a sina de todos os impérios e acabou vítima do seu próprio sucesso devido à dependência exagerada de uma única fonte de riquezas, no caso o comércio marítimo? Será que as pessoas perderam fé nos valores que antes as uniam e deixaram de ver-se como um só povo e foram facilmente conquistadas? Será que houve uma revolução das classes baixas contra a elite como houve na França no século XVIII, que levou a um regime de terror? Ou simplesmente a destruição deveu-se a uma calamidade natural?

    Nunca saberemos, claro, pois os minoicos deixaram rastros materiais da sua capacidade criativa, mas não suficientes para que pudéssemos ter acesso a sua versão dos fatos, que acaba assim caindo para sempre em um buraco negro de esquecimento e não existência. Para Norman Davies, o outro historiador citado na abertura deste artigo, esta é a grande lição da História: a história que conhecemos é aquele mísero pedaço que sobrou da destruição da existência e portanto da narrativa da vida de tantos outros povos, reinos, países, impérios que tiveram sua própria língua e cultura, seus próprios sucessos e fracassos. Contudo, por terem sido derrotados, tiveram sua sobrevivência na memória coletiva da humanidade inviabilizada.

    Nesse sentido, o destino de Creta, não foi de todo cruel, ao menos por enquanto. A Grécia, como herdeira material e intelectual da civilização minoica, ao menos preservou a lenda do Minotauro vagando pelo palácio de Knossos até ser morto por Teseu com a ajuda de Ariadne. E sendo a Grécia uma das fontes da civilização ocidental, enquanto esta perdurar, ao menos haverá museus e sítios arqueológicos que preservarão o que resta do legado minoico. Mas quando a civilização ocidental for destruída, o patrimônio material e espiritual tanto de uma quanto de outra cairão inevitavelmente no buraco negro que engole tudo aquilo que um dia teve um significado para um determinado povo, em uma determinada localização geográfica num certo momento da história do homo sapiens na Terra.

    Prezados leitores, nós brasileiros somos produto desses trágicos esquecimentos que a História reserva aos perdedores. As civilizações que surgiram em solo brasileiro foram tragadas pelo clima tropical e pela morte dos habitantes causada pelo contato com os brancos. Temos todos que aqui nascemos um patrimônio genético que é em grande parte indígena, mas o que nos sobrou em termos de memória coletiva incorporada à ideia de que temos de nós mesmos?  Em momentos de crise como este, em que a comunhão de esforços é de suma importância, o sentimento de termos todos uma identidade comum faz falta. Quem sabe, surja por aí um Arthur Evans que se embrenhará nos rincões da Amazônia e trará à luz os vestígios materiais de povos que aqui habitaram? Talvez então tenhamos uma noção mais bem definida do que significa ter nascido e habitado em um local chamado Brasil.

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