O círculo

O círculo é o convívio preguiçoso e indolente ao qual se dá significado e aspecto de algo racional; o círculo substitui a conversa pelo debate, acostuma à tagarelice infrutífera, distrai do trabalho solitário e benéfico, inculca a sarna da literatura; e é claro que priva do frescor e da força virgem da alma. O círculo é torpeza e tédio sob o nome de fraternidade e amizade, a união do equívoco e da pretensão sob pretexto de franqueza e colaboração; no círculo, graças ao direito dado a todo participante de enfiar os dedos sujos no interior de seu camarada em qualquer hora ou ocasião, não sobra lugar limpo ou intacto na alma de ninguém; no círculo são reverenciados os de lábia vazia, os sabichões cheios de si, os velhos antes do tempo, elevam os versejadores sem talento, mas com ideais “ocultas”; no círculo, jovenzinhos de dezessete anos falam de mulheres e de amor com astúcia e sofisticação, mas quando estão diante delas, ficam calados, ou se expressam como nos livros – e do que falam! No círculo floresce a eloquência artificial; no círculo um vigia o outro como policial…

Trecho retirado do conto “Hamlet do distrito de Schigrí” incluído no livro de contos Memórias de um caçador, do escritor russo Ivan Turguêniev (1818-1883)

Em 1879, Turgueniêv foi chamado de “paladino da liberdade” ao receber o título de doutor honoris causa, em Oxford. Em ensaio do mesmo ano, Henry James saúda-o como ”the novelist’s novelist” e, para compreensão do leitor norte-americano, equipara-o a um senhor de escravos da Virgínia ou da Carolina que tivesse adotado pontos de vista “nortistas”. James compara a relevância das Memórias para o fim da servidão na Rússia cm o papel de A cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe (1852), na abolição da escravidão no EUA, “com a diferença, contudo, de não ter produzido agitação na época – de ter, em vez disso, apresentado o caso como uma arte insidiosa demais para reconhecimento imediato, uma arte que mexia mais com as profundezas que com a superfície”.

Trecho retirado do posfácio da edição brasileira de Memórias de um caçador, escrito pelo tradutor, Irineu Franco Perpétuo

    Prezados leitores, na semana passada eu falei sobre os sofistas gregos e seu papel fundamental no desenvolvimento da democracia grega, para o bem e para o mal, isto é, tanto contribuindo para dar uma voz articulada e convincente aos que defendiam os interesses do povo na Assembleia, quanto para dar a oportunidade a políticos ambiciosos e imorais de apresentar seus interesses particulares com um verniz de racionalidade que acabava levando os cidadãos a fazer escolhas que em última análise contrariavam seus interesses. Para o filósofo Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), o problema da democracia é que ela acaba sendo dominada pelos políticos, e não pelo povo.

    Nesta semana, meu foco não será na influência da filosofia, mas da literatura, sobre a vida política. O livro do qual foi retirado o trecho acima foi considerado tão subversivo que o autor ficou um mês preso em São Petersburgo e depois foi mandado para Spasskoye, em uma espécie de exílio interno como punição por ter criticado a servidão. Meu objetivo aqui será humildemente mostrar porque Memórias de um Caçador tem esse poder.

    Turguêniev não expõe em nenhum dos 25 contos do livro uma filosofia política ou econômica, quer seja a defesa de uma maior participação do povo nas decisões sobre o destino da nação, ou a defesa de uma redistribuição da riqueza. Longe disso, como bem define Henry James no trecho que abre este artigo, o caçador, que narra suas experiências de vida e seus encontros com mujiques e com outros proprietários de terras e donos de mujiques como ele, é um nobre que vive a vida de um membro da sua classe: diverte-se caçando no verão, compra cavalos, frequenta a casa de outros nobres, participa de festas e banquetes.

    Por outro lado, embora legítimo representante do círculo de bem nascidos, o caçador-narrador é um observador que sai da sua redoma, vê o que acontece com as pessoas, as ouve e tem uma profunda simpatia por elas como seres humanos, simpatia esta que ele demonstra rememorando seu encontro com elas, os desejos, frustrações e sentimentos que elas expressaram ou que elas mostraram em determinado momento.

    Assim é que em “O encontro”, o caçador flagra uma bonita camponesa colhendo flores para dar ao seu amado. Seu nome é Akulina e ela é apaixonada por um mordomo, Viktor Aleksándritch, que a trata com arrogância e desprezo. Viktor recebe o humilde presente de mal grado, e como as flores só têm valor estético e não monetário, ele as joga fora, pois não quer identificar-se com a pobreza de Akulina. O narrador, testemunha involuntária da interação do casal por estar no campo descansando, percebe o quanto a moça sofre com a indiferença do mordomo, que está prestes a seguir seu patrão para Moscou. Ele vê beleza e pureza de sentimentos na camponesa e quando Viktor vai embora, surdo às súplicas da amada, o caçador colhe flores e as oferece à moça, para consolá-la.

    Em outro conto, o narrador serve de confessor a um homem que se encontra em uma casa de posta, Piotr Petróvitch Karataíev, que vive durante um tempo em mancebia com Matriona Fiódorovna. Ele tenta comprá-la de sua patroa, Mária Ilínitchna mas esta, uma velha rabugenta, não admite vendê-la porque para ela alforriar servos é “indecoroso”, “é a desordem”. Depois de frustrada sua tentativa e incapaz de tomar a decisão de casar com a moça, Piotr vive com Matriona às escondidas até que a serva é descoberta e levada de volta à patroa. Cabe ao leitor do conto imaginar o que deve ter sido a vingança de Mária Ilínitchna contra a moça que tentou ser dona do seu humilde destino. Piotr conta sua história ao narrador porque a culpa lhe pesa, mas fica claro que se a história se repetisse ele seria o mesmo covarde e desastrado e causaria a ruína da mujique novamente, porque essa é a sua personalidade.

    O primeiro trecho que abre este artigo é de autoria de um nobre falido, cujo nome não é mencionado, mas que calha de estar hospedado na mesma casa que o narrador e de estar dormindo no mesmo quarto de hóspedes. Ele precisa desabafar com alguém e mais uma vez o narrador é escolhido para escutar um drama humano: herdeiro de uma propriedade, o Hamlet do conto frequenta a universidade em Moscou e lá entra no grupo de membros da elite que adquirem um verniz de educação que lhes serve para pertencer ao círculo, isto é, para distingui-los da massa de servos porque conseguem citar um ou outro autor importante e falam sobre literatura mostrando que são refinados. Ao mesmo tempo, pertencer ao círculo é pertencer a um grupo de pessoas que se perde em argumentos retóricos tirados de pensadores europeus que elas sabem – conforme o próprio nobre confessa ao caçador-narrador, jamais serão aplicados para analisar a realidade da Rússia e aplicar o conhecimento e a ciência à vida dos russos.

    Daí o caráter insidioso da arte de Turguêniev: ao mostrar um momento na vida de mujiques e senhores de terra, ele expõe as injustiças sociais de maneira flagrante, porque recorta da rotina de ambas as classes um instante em que a verdade sobre a natureza das relações sociais em uma sociedade de senhores e servos é revelada: aquele em que o servo é tratado como objeto do qual o patrão põe e dispõe, aprisionando-o e destruindo-lhe os sonhos, como no caso de Matriona, ou aquele em que o nobre se compraz em depreciar-se como o Hamlet de Schigrín, que sabe ter nascido em berço esplêndido, e que desperdiçou sua vida por preguiça e indolência não fazendo nada nem por si nem pelos outros, mas consegue ir vivendo porque suas faltas lhe são facilmente perdoadas.

    Não é de estranhar que aquele cotidiano retratado por Turguêniev, feito de pequenas crueldades, covardias, gestos prepotentes, condescendência e racionalizações sobre a ordem e o amor do pai aos filhos, tenha tido o efeito de chamar a atenção da sociedade russa sobre a servidão e suas mazelas. A descrição do autor de Memórias de um Caçador da vida como ela era prescindia de grandiosos discursos políticos ou econômicos sobre as virtudes da liberdade. Bastava que o gênio do autor fizesse o leitor sentir o que sentiu Akulina ao ser preterida pelo amor da sua vida por ser serva ou o que Matriona sentiu ao ser devolvida à patroa para que a literatura fosse mais do que sinal distintivo de pertencimento ao círculo dos privilegiados e se transformasse em instrumento de conscientização moral.

    Prezados leitores, nem só de ideias se fazem as transformações sociais e políticas. Como mostra a influência da obra de Turguêniev sobre o movimento de emancipação dos servos na Rússia do final do século XIX, basta romper a bolha do círculo e fazer cada indivíduo encontrar-se com a humanidade que há em todos nós.

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Rupturas

[…] e a Igreja Cristã considerou prudente, no quinto século de nossa era, associar os resquícios desse culto a Maria, e transformar o festival da colheita que celebrava a deusa Ártemis e era realizado em meados de agosto na festa da Assunção. Dessa maneira, o velho é preservado no novo, e tudo muda, exceto a essência. A história, como a vida, deve ser contínua, sob pena de morrer; o caráter e as instituições podem ser alterados, mas de maneira lenta; uma grave interrupção do seu desenvolvimento joga-as na amnésia e na insanidade nacionais.  

Trecho retirado do livro “The Life of Greece”, de Will Durant (1885-1981), historiador e filósofo americano

Em 18 de setembro, d. Pedro e José Bonifácio assinaram e rubricaram diversos decretos instituindo a nova bandeira e o novo brasão de armas, que levava as cores verde, da casa de Bragança, e amarela, da casa dos Habsburgo. O desmonte histórico praticado pelos republicanos recodificaria essas cores e as transformaria no verde de nossas matas e no amarelo de nosso ouro, nossa riqueza.

Trecho retirado do livro “D. Pedro – A História não Contada” de Paulo Rezzutti

 

“Se fôssemos um país institucionalmente maduro, aprimoraríamos o modelo,” afirma Lazzarini. “Ao invés disso nós o jogamos fora.”

Trecho retirado do artigo sobre corrupção e crime no Brasil intitulado “Voltando Atrás”, publicado na revista The Economist de 5 de junho de 2021

    Prezados leitores, uma característica marcante da história da civilização escrita por Will Durant da qual “The Life of Greece” é o segundo volume, é que na parte final de um capítulo sobre alguma corrente política ou religiosa, sobre algum artista, filósofo ou estadista, sobre um tema qualquer Durant sempre faz uma avaliação do legado deixado na história de tal corrente, pessoa ou tema, fazendo uso do conhecimento que ele tem do que aconteceu depois, especialmente na parte Ocidental do mundo, seu foco pelo fato de a ela pertencer não só ele mesmo como a maior parte de seus leitores. O seu capítulo sobre a religião na Grécia concretiza tal método, pois nele o historiador e filósofo americano dá inúmeros exemplos de como as práticas religiosas gregas foram sub-repticiamente incorporadas ao Cristianismo, que acabou se tornando a religião dominante no Ocidente.

    Conforme explicado no trecho que abre este artigo, o culto da fertilidade e do poder da fêmea reprodutora estava presente na Grécia em festivais que celebravam Ártemis ou Diana, a Deusa da caça. De maneira muito hábil, a igreja incorporou esses rituais que se repetiam desde tempos imemoriais dando-lhes uma nova roupagem na figura da mãe de Cristo, tornando assim a nova religião mais aceitável a pessoas que pertenciam a sociedades não judaicas.

    A própria história de Jesus Cristo, do filho de Deus que é ele mesmo divino e que é sacrificado e renasce, deve muito às concepções da seita filosófico-religiosa do Orfismo. Na descrição de Durant, Cristo é o herdeiro místico do Deus Dionísio, pois este também morreu e ressuscitou: filho de Zeus e de sua filha Perséfone, Dionísio, que em sua primeira vida era chamado de Zagreus, foi esquartejado e fervido pelos Titãs. Atenas salvou o coração de Dionísio e o entregou a Zeus que o deu a Semele, a qual o gestou e deu-lhe uma segunda vida, na qual ele passou a ter o nome pelo qual nós o conhecemos em contraposição a Apolo, o Deus da luz e da razão.

    A lição que fica é que o Cristianismo foi tão bem-sucedido porque os Pais da Igreja souberam amalgamar as várias concepções filosóficas então correntes no mundo do Mediterrâneo dando-lhes nova roupagem para adaptá-las às condições do momento, em que a civilização grega tinha se tornado coisa do passado, mas ao mesmo tempo preservando a continuidade cultural de modo que a nova religião não fosse uma violência contra práticas arraigadas. Em suma, construir o novo sobre as bases do passado de modo que a história adquira um sentido para as pessoas que a estão fazendo no calor do momento.

    Sob essa perspectiva, longe de desmerecer o Cristianismo por tirar-lhe o ineditismo e relativizá-lo, a contextualização feita por Durant serve para realçar o fio condutor da história da civilização, qual seja, a necessidade do homem de lidar com os mistérios do mundo por meio de mitos, rituais e sacrifícios e em fazendo-o achar um senso de direção para seu próprio percurso individual. Ao vislumbrar um fim para a jornada, com base na experiência dos que viveram antes dele, o homem, enquanto ser social, consegue criar a cultura e a civilização, conectando o passado, o presente e o futuro num todo consistente. Na visão de Durant, conforme explicada no trecho reproduzido acima, o perigo do esquecimento e da ruptura total é a insanidade e a destruição das instituições: a vida experimentada pelo homem perde o significado e as instituições que expressam esse significado tornam-se vazias de conteúdo.

    Prezados leitores, esse introito explicando o paralelismo traçado pelo filósofo americano entre a religião na Grécia e o Cristianismo serve para inspirar-me a tirar uma lição dessa ênfase na continuidade como pré-condição para a criação. Dois exemplos tirados da história do Brasil mostram nossa falha nesse quesito.

    O primeiro é o da ruptura que a República deliberadamente realizou em relação ao Período Monárquico do Brasil. O desmonte histórico a que Rezzutti refere-se não é simplesmente uma nova roupagem que se deu a uma instituição antiga, como Maria foi a nova versão de Ártemis, símbolo da feminilidade, e Jesus Cristo foi a nova versão do Deus imolado e ressuscitado Dionísio. A história que passou a ser contada após 1889 sobre a origem das cores da bandeira brasileira é simplesmente mentirosa e teve por objetivo fazer os brasileiros esquecerem que tiveram dois imperadores e que bem ou mal o Estado brasileiro havia sido fundado e tivera seu imenso território consolidado por um regime monárquico.

    O segundo exemplo é mais recente e diz respeito à Operação Lava-Jato de luta contra a corrupção engendrada pelas relações promíscuas entre os políticos e o empresariado. Conforme explicou Sérgio Lazzarini à revista The Economist, os excessos persecutórios dos procuradores e juízes da Lava-Jato levaram a muitas decisões injustas e ilegais. No entanto, ao invés de preservarmos o legado do esforço em punir as práticas de pagamento e recebimento de propina e fazermos correções de rumo, simplesmente optamos em jogar a Lava-Jato pela janela, como se tudo que ela tivesse feito tenha sido execrável.

    Num e noutro caso, nossa opção pela ruptura nos fez perder o senso de direção. Não reconhecendo os méritos da Monarquia, a República brasileira incorreu em erros, tais como o excesso de intervencionismo militar na vida política, que teriam sido evitados se os Republicanos tivessem tirado lições do exercício do Poder Moderador por D. Pedro II. Quanto ao desmonte da Lava-Jato, ainda é muito cedo para julgarmos os efeitos que isso trará para a vida pública brasileira, mas certamente a perda do efeito dissuasório que ela trouxe fará com que os políticos e empresários amigos do poder continuem realizando as práticas que tornam a democracia sinônimo de conchavos e de esquemas para a grande maioria da população brasileira.

    Prezados leitores, o resumo da ópera é este: preservar as instituições e atualizá-las para mais bem fazê-lo é garantir as bases para a construção da ordem social. Insistir sempre na ruptura sob o pressuposto de que o novo é sempre melhor só nos leva a dar passos em falso e ficar sem rumo. Oxalá um dia consigamos aprender a lição.

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Vanity Fair

Eu acredito que o remorso é o menos ativo de todos os sentidos morais do homem – o que mais facilmente pode ser morto quando despertado; e em algumas pessoas nunca é despertado. Nós lamentamos sermos descobertos e a ideia da vergonha ou da punição, mas o mero senso de transgressão faz muito poucas pessoas infelizes na Feira das Vaidades.

Trecho retirado do livro “Fogueira das Vaidades” de William Tackeray (1811-1863), jornalista e escritor nascido em Calcutá, Índia e radicado na Inglaterra

 

Se ele não fosse um grande príncipe, possivelmente muito poucos o teriam visitado, mas na Fogueira das Vaidades os pecados de grandes personagens são vistos com um olhar indulgente.

Trecho retirado do livro “Fogueira das Vaidades” de William Tackeray (1811-1863), jornalista e escritor nascido em Calcutá, Índia e radicado na Inglaterra

Vocês gostam é do bem duro, né? Ninguém é de ferro

Trecho de vídeo em que o médico e influenciador digital brasileiro Victor Sorrentino faz brincadeira com uma vendedora em Luxor, no Egito, comparando o papiro duro e comprido vendido na loja ao órgão sexual masculino

 

Eu estou gravando este vídeo para pedir desculpas […] Para deixar claro que tenho o maior respeito pelo povo egípcio em geral, especialmente as mulheres egípcias

Trecho de vídeo gravado pelo médico ao lado da vendedora que foi objeto da sua brincadeira depois de passar alguns dias na prisão no Egito, acusado de assédio sexual

 

   Prezados leitores, na semana passada eu usei um trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, para exemplificar o comportamento dos membros das nossas elites em relação aos negros. O objetivo era mostrar como os grandes escritores em seus exercícios de imaginação revelam a essência da realidade. Inspirada pela leitura do bruxo do Cosme Velho, eu fiz uma previsão errada: acreditei que Eduardo Pazuello, aquele que fez um soldado negro puxar uma carroça em 2005 e em 2021 participou de um ato político ao lado de Jair Bolsonaro em sendo general da ativa, seria de alguma forma punido, mesmo que fosse punição de fachada.

    Nem isso ocorreu: ao contrário de Brás Cubas que era repreendido pelo pai na frente de todos quando era cruel, sádico ou traquinas, e às escondidas recebia a admiração do pai por sua demonstração de energia, Pazuello foi oficial e escancaradamente perdoado em 2021 como havia sido perdoado em 2005, porque suas explicações foram aceitas de maneira benevolente pelo Exército tanto no passado como agora. Daí que nesta semana, procuro um outro escritor que explique para mim esses desdobramentos, porque talvez Machado de Assis não dê conta de todas as nuances da realidade brasileira do século XXI. E o escritor por mim escolhido é William Thackeray, que chegou a ser considerado pelos críticos melhor que Charles Dickens. Eu o escolho por causa de sua obra Vanity Fair, que ele publicou em capítulos entre 1847 e 1848 e o alçou à fama. Como mostram os trechos citados na abertura deste artigo, Tackeray usa Vanity Fair como uma expressão para referir-se à sociedade do seu tempo, seus usos e costumes, de maneira irônica e reveladora. À época em que se passa a história, no chamado período da Regência no Reino Unido, de 1795 a 1837, as relações sociais eram estabelecidas fisicamente em jantares, festas, passeios de carruagem no parque.

   Atualmente a Vanity Fair desenrola-se virtualmente nas mídias sociais: é lá que as pessoas se encontram, conversam, trocam elogios e insultos. Por isso, para adaptar as observações de Tackeray à nossa realidade do século XXI, é preciso voltar os olhos para o que se passa lá. Nesta semana que passou o incidente envolvendo o médico Victor Sorrentino, brasileiro que estava em férias no Egito e que tem mais de um milhão de seguidores, pode ser entendido aplicando o conceito de que somos seres sociais, participantes desta Feira das Vaidades e que estamos sempre desempenhando um papel.

    Para um médico as mídias sociais são um bom canal de divulgação: eles podem postar conteúdos sobre saúde e caso sejam seguidos recebem um dinheiro de acordo com o número de curtidas que recebem. E para manter a atenção dos seguidores é preciso postar novidades o tempo todo. Nada mais natural que estando num país exótico como o Egito das pirâmides, Victor Sorrentino procurasse explorar a oportunidade. Afinal, exagerar no conteúdo técnico sobre medicina pode cansar a mente dos internautas cuja capacidade de atenção é cada vez menor. É preciso variar. Por que não um vídeo em que o médico grava uma pegadinha com uma incauta vendedora que não fala nada de português – e portanto não entenderia as piadas – e deixaria que a historinha se desenrolasse de maneira autêntica?

   Assim o Sr. Sorrentino fez, com a ajuda de um amigo. Enquanto a vendedora, de lenço nos cabelos como boa muçulmana, fazia a demonstração do produto vendido, o papiro, Victor e seu colega de gravação comparavam o comprimento e a dureza do dito cujo com a preferência das mulheres por determinado tipo de órgão sexual masculino. Tudo muito engraçado, especialmente porque a vendedora desempenhava o seu papel de fazer a demonstração das qualidades do papiro sem saber que também demonstrava as qualidades que toda mulher, de acordo com os ensinamentos do médico brasileiro, procuram no homem.

    O que o doutor não podia prever é que haveria brasileiros que moram no Egito e que traduziram a pegadinha do papiro-pênis ou do pênis-papiro para o árabe, o que permitiu que as autoridades egípcias ficassem sabendo e enquadrassem a conduta de Victor como assédio sexual, o que o levou à prisão, já que ele mesmo fez prova contra si. Depois de alguns dias, o médico gaúcho foi solto, provavelmente depois de pagar uma bela propina, considerando que o Egito está na posição 117 de 180 países relacionados no Índice de Corrupção da Transparency International, com 33 pontos, ao passo que o Brasil está na posição 94, com 38 pontos. E mais, ele seguiu o ritual da Vanity Fair do século e pediu desculpas às mulheres egípcias, a quem ele respeita muito.

    Aqui a sabedoria de Tackeray vem a calhar, conforme mostrada na abertura deste artigo. Será que a retratação e a gravação do vídeo fazem parte do acordo com as autoridades egípcias para ele ser solto ou ele realmente arrepende-se do que fez? E se ele se arrepende, será que é porque foi pego em flagrante delito e passou um medo danado em uma prisão egípcia? Ou será que esse respeito que ele afirma ter pelas mulheres faz apenas parte do ritual a ser cumprido para ele não ser defenestrado das redes sociais e perder sua fonte de receitas? O mínimo que se pode dizer sobre seu comportamento é que ele não tem sensibilidade nenhuma em relação às diferenças culturais e de costumes de países muçulmanos, ou talvez seja totalmente ignorante sobre o que significa ser uma mulher em um país muçulmano e sobre o que uma mulher muçulmana almeja na vida, o que é muito diferente do que uma mulher sexualmente liberada e empoderada do Ocidente almeja.

    No final das contas, o episódio pode ter sido vantajoso para Sorrentino para aumentar seu público de seguidores. Teve sorte de ter feito uma pegadinha no Egito, um país em que o turismo reponde por 11% do PIB e que emprega 12% da força de trabalho do país. Talvez se ele tivesse gravado esse vídeo em países do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita ou Emirados Árabes que nadam de braçada em petrodólares, a pena teria sido mais severa. Para voltar a ser membro atuante na Vanity Fair do século XXI bastou ao médico desempenhar em frente às câmeras o papel de homem contrito respeitador do povo egípcio e de suas mulheres. E como ensinou Tackeray há mais de 170 anos, perdoa-se mais facilmente a um indivíduo poderoso como ele, com um milhão de seguidores, assim como perdoou-se ao grande Pazuello os pecadilhos de humilhar um soldado negro e de servir de cabo eleitoral de Bolsonaro na qualidade de membro da ativa do Exército.

    Prezados leitores, tanto o general quanto o doutor continuarão a desfilar pela Feira das Vaidades, cada qual ao seu modo: Pazuello mostrando sua reconhecida competência em gestão e logística que demonstrou quando esteve à frente do Ministério da Saúde, Sorrentino sua reconhecida competência nos meandros da sexualidade feminina. Sejamos indulgentes com a fina flor das nossas elites porque elas têm muitos produtos a mostrar na Vanity Fair.

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O menino é pai do homem

Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. […] Prudencio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia; algumas vezes gemendo, mas obedecia sem dizer palavra ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” ao que, eu retorquia: – “Cala a boca, besta!” Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; esse às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.

Trecho retirado do capítulo “O menino é pai do homem” do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis (1839-1908)

Eduardo Pazuello comandava havia quatro meses o quartel do Depósito Central de Munições do Exército, em Paracambi, a 70 km do Rio, quando viu dois soldados passarem em uma carroça. Julgou que estavam velozes demais, que maltratavam o equino, e quis lhes dar uma lição. Mandou parar, desatrelar o animal, e determinou que o recruta Carlos Vitor de Souza Chagas, um jovem negro e evangélico de 19 anos, substituísse o cavalo. O soldado teve de puxar a carroça com o outro soldado em cima, enquanto o quartel assistia à cena, às gargalhadas.

Trecho retirado do artigo “O labirinto do general: da humilhação a um soldado a ’réu’ na CPI publicado no jornal o Estado de São Paulo em 30 de maio de 2021

    Prezados leitores, nunca esqueço das palavras de Gore Vidal em um dos ensaios publicados no Brasil sob o título “De fato e de ficção”, já citado aqui neste meu humilde espaço, de que a literatura, quando bem feita, é um exercício de imaginação dos mais verdadeiros.  Nada como uma história bem contada para iluminar a realidade e revelá-la em toda sua beleza ou torpeza, dando-lhe um sentido que, se ficássemos muito colados aos detalhes do cotidiano, não perceberíamos. Daí por que a literatura que se pretende ser algo além do entretenimento é uma poderosa arma de reflexão. O trecho que abre este artigo ilustra esse poder da literatura de recriar a realidade e torná-la inteligível para nós.

    No caso do livro de Machado de Assis as travessuras fictícias de Brás Cubas, um menino bem nascido no Rio de Janeiro do século XIX, mostram a insensibilidade de quem cresceu em um meio no qual os escravos negros eram tratados como objetos com os quais podia-se fazer o que quiser. Pior, tudo o que ele fazia de cruel, de desumano, de irresponsável era aplaudido pelo pai como manifestação de energia e de robustez, em suma de um espírito que nascera para mandar, para dar ordens do alto do cavalo real ou fictício aos negros que deveriam obedecer sempre, por mais que as ordens fossem absurdas. Prudencio comportava-se como um cavalo apesar de ser um ser humano porque assim queria Brás Cubas, que exercia assim sua autoridade e reforçava seu papel de senhor, com o beneplácito do pai, que via neste mandonismo, neste capricho de um menino mimado e mal acostumado, sinal de liderança.

    Este famoso trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas ilustra o comportamento dos nossos nhonhôs de duzentos anos atrás e infelizmente continua a revelar traços que persistem, como mostra este episódio da carreira militar do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde de Jair Bolsonaro. Na época em que ele mandou o soldado negro puxar a carroça, em 2005, Pazuello era tenente-coronel e sua conduta foi submetida a um Inquérito Policial Militar que não levou a nenhuma punição porque a defesa conseguiu fazer valer sua versão de que o objetivo do comandante do quartel não era impor maus-tratos ao recruta, e sua atitude derivou do seu amor especial pelos cavalos. Um cavalo de tração como aquele deveria gozar sempre de boa saúde, e para isso deveria ser bem tratado e não ordenado a puxar mais peso do que poderia aguentar (no caso havia uma banheira na carroça).

    E assim, nosso querido general sempre estabeleceu suas prioridades valendo-se dos seus privilégios, tal como nosso querido Brás Cubas, que dedicava-se a exercícios equestres para treinar suas qualidades morais: humilhar um recruta para mostrar-lhe a necessidade de cuidar bem dos animais foi possível a Eduardo Pazuello porque ele tinha posição de mando àquela época e ficou impune porque aqueles que o julgaram comportaram-se como o pai do herói machadiano: assim como enforcar, chicotear Prudêncio era uma mera traquinagem,  que preparava o futuro líder político Brás Cubas para seu grande destino de mandar nas classes subalternas, fazer Carlos Vítor de Souza Chagas puxar uma carroça reforçou a autoridade de Pazuello, tanto que todos no quartel riram às custas do soldado de 19 anos e depois de sua experiência de comandante daquele quartel o futuro Ministro da Saúde comandou o 20º Batalhão Logístico da Brigada Paraquedista.

    A última façanha de Pazuello foi ter participado de uma carreata de motociclistas ou “motociata”, ao lado de Bolsonaro no Aterro do Flamengo no dia 23 de maio. Como ele ainda é general da ativa, pode ser submetido a punição por infringir o Regulamento Disciplinar do Exército que proíbe militares da ativa de comparecerem a atos políticos. O que fará o Comando do Exército? Bolsonaro, que chamou Pazuello carinhosamente de “gordinho” durante a manifestação no Rio de Janeiro, já pediu publicamente que ele não seja punido. Será que o Comando do Exército fará como o pai de Brás Cubas? Aplicará uma punição proforma para seguir as formalidades da lei, mas nos bastidores irá passar-lhe a mão na cabeça com condescendência e admiração? Será que a direção das nossas Forças Armadas quer os militares participando da política como uma forma de evitar os “excessos” da democracia? Será que na realidade consideram o ativismo político de certos militares como algo bom para manter a lei e a ordem? O mais provável é que cheguem a uma solução de consenso e obriguem Pazuello a ir para a reserva e pronto, sem grandes punições. Um tapinha nas mãos do voluntarioso general de divisão da ativa, talvez: afinal muitos dirão que o evento era dos motociclistas que convidaram Jair Bolsonaro e seus amigos a participarem e não um evento da campanha de reeleição de Bolsonaro. Há sempre uma explicação desde que haja boa vontade com pessoas que devem ser dignas de admiração pelo “espírito robusto”.

    Prezados leitores, convenceram-se de que a ficção da literatura às vezes é tão criativa e verdadeira que ela se faz presente na realidade? Entre Brás Cubas e Eduardo Pazuello, entre Prudencio e Carlos Vitor de Souza Chagas passaram-se dezenas e dezenas de anos, mudou-se o regime político de monarquia para república e no entanto, continuamos a tratar seres humanos como bestas de carga. O bruxo do Cosme Velho continua, como sempre foi, desde que escreveu suas principais obras, presciente das torpezas deste Brasil cuja herança escravista continua ainda presente nos pequenos detalhes do cotidiano.

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