Condenados

Provavelmente foi ao longo de séculos de escravidão que nossa raça adquiriu as tradições e os hábitos da labuta. Ninguém faria nenhum trabalho duro ou persistente se pudesse evitá-lo sem alguma punição física, econômica ou social. A escravidão tornou-se parte da disciplina pela qual o homem foi preparado para a indústria. De maneira indireta ela fez avançar a civilização, pelo fato de ter aumentado a riqueza e – para uma minoria – ter criado o lazer.

Trecho retirado do livro “Our Oriental Heritage” de Will Durant (1885-1981), historiador e filósofo americano

 

Parece-nos que aí está um dos aspectos menos fraternos entre as classes dos dominadores e dominados. Os que ainda hoje lamentam, no Brasil, a expulsão dos holandeses do Nordeste talvez não tenham reparado convenientemente para esse aspecto. As antigas colônias portuguesas eram bem uma mostra do que teríamos que suportar dos flamengos: uma minoria de louros explorando e dominando um proletariado de gente de cor, ao contrário do que nos legaram os portugueses: uma terra de brancos confraternizando-se com negros e índios.

Trecho retirado do livro “Holandeses em Pernambuco: 1630-1654”, de Leonardo Dantas Silva, citando o historiador recifense José Antônio Gonsalves de Mello (1916-2002)

 

Mas o principal elemento para melhorar o PIB per capita, aponta a OCDE, é o avanço da produtividade do trabalho. Os países que melhoraram nos aspectos sociais e econômicos nas últimas décadas mostraram grandes ganhos na produtividade do trabalho, associados a altas taxas de investimentos. Não se observou isso no Brasil.

Trecho do editorial intitulado “Não somos um país condenado ao atraso” publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 24 de outubro

 

    Prezados leitores, a Grécia ficou para trás e agora os convido a compartilhar comigo as ideias elaboradas por Will Durant em um outro livro de sua série sobre a História das Civilizações. Em “Our Oriental Heritage”, Durant discorrer sobre as civilizações que se desenvolveram no Oriente Médio, no Egito, na Índia, na China e no Japão. E como entre elas estão as primeiras civilizações que o homem criou, Durant tenta estabelecer alguns princípios gerais para que houvesse a passagem da vida primitiva para a vida civilizada. Para ele os três fatores que devem estar presentes para este salto qualitativo são a fala articulada, a agricultura e a escrita. Meu humilde objetivo neste humilde artigo é deter-me sobre o papel da agricultura e suas implicações econômicas, sociais e culturais.

    A prática da agricultura permitiu ao homem mudar de patamar e ter condições de criar cultura, pelo fato de que deu à vida previsibilidade e segurança por meio da geração de excedentes alimentares, permitindo fazer planos para o futuro, o que não era possível quando o homo sapiens dedicava-se exclusivamente à caça e à coleta. A vida do caçador é incerta e insegura: ele pode voltar com um belo animal morto que será compartilhado com os membros da tribo, ou pode voltar de mãos vazias, ou pode mesmo não voltar, tendo sido vencido pelo alvo da sua caçada. Seu trabalho é exaustivo e feito de espasmos: ele precisa correr, cobrir grandes espaços, subir em árvores e observar, aguardar o melhor momento, estar sempre alerta aos perigos. A agricultura, ao contrário, requer um outro tipo de trabalho: o trabalho metódico e regular de preparar o solo para o plantio, semear e colher.

    E é por isso que a agricultura causa um grande impacto econômico e social, de acordo com Durant. Para ele, o cultivo de plantas leva necessariamente à instituição da escravidão, pois o trabalho ininterrupto de sol a sol contando unicamente com a força dos músculos não seria feito de bom grado por ninguém, a não ser se lhe fosse imposto. Apesar do risco de morte envolvido na caça, ela implica uma atividade física variada e cheia de surpresas agradáveis e desagradáveis, ao passo que a agricultura é sempre a rotina monótona que mói o corpo.

    Assim, a necessidade de forçar as pessoas a tornarem-se trabalhadores agrícolas cria as primeiras divisões de classe entre os que eram forçados ao ingrato trabalho agrícola e os que forçavam outros a ele. Com o aumento da riqueza proporcionada pela produção agrícola que podia ser armazenada, surgem mais oportunidades para aqueles livres do trabalho no campo e naturalmente dotados de mostrarem suas habilidades, levando a uma maior divisão de tarefas e a um aumento ainda maior da distância entre os que trabalhavam a terra e aqueles que usufruíam da garantia de suprimentos alimentares para dedicar-se à criação da cultura.

    Agricultura e escravidão juntas levam à destruição do antigo modelo comunista normalmente encontrado nas sociedades caçadoras-coletoras, em que tudo era dividido irmanamente, rumo à especialização, à criação de riquezas e à apropriação dessa riqueza pela instituição da propriedade privada. De acordo com a explicação de Durant, não teria sido possível a civilização sem a escravidão. Nesse sentido, no mundo de hoje, em que muitos pensam, por falta de conhecimento histórico ou por motivos ideológicos, que a escravidão foi instituída pelos brancos contra os negros no quadro do desenvolvimento inicial do capitalismo, a lição de Durant mostra que o homem estava condenado a criar a escravidão para criar riqueza e com isso a cultura e a civilização.

    Sob essa perspectiva, nosso Brasil tropical, quente e úmido na maior parte do ano, também estava condenado a ter a escravidão instituída aqui. Não nos iludamos: não teria havido produção agrícola em larga escala no que hoje é o Brasil se os portugueses não tivessem importado os africanos subsaarianos, geneticamente adaptados ao calor, para serem imolados no altar das plantations. Como mencionei aqui há duas semanas, João Maurício de Nassau-Siegen (1604-1679), capitão e almirante-geral do Brasil Holandês, tratou logo de capturar possessões portuguesas na África para poder ter acesso a negros africanos escravizados e garantir que as lavouras de cana de açúcar, a principal riqueza da terra, fossem devidamente abastecidas com mão de obra.

    Sem escravos o Brasil não teria sido viável economicamente e José Antônio Goncalves de Mello nos ensina que tanto portugueses quanto os holandeses sabiam disso. Os flamengos podiam estar no século XVII na vanguarda do comércio internacional, Amsterdã certamente era uma cidade mais rica, mais tolerante e mais cosmopolita que Lisboa, os portugueses dependiam dos flamengos para comercializar o açúcar e, no entanto, uns e outros fizeram a mesma coisa em cá chegando: trataram de arranjar mão de obra escrava.

    Considerando que a invenção da agricultura condenou uma grande parte da humanidade à escravidão e à exploração ao mesmo tempo que liberou uma minoria para a criação da civilização, ela teve influências sobre a economia, na produção e alocação de excedentes, na sociedade, criando as classes sociais e na cultura, viabilizando o tempo livre necessário à criação intelectual. Sob essa perspectiva, o Brasil, fundado há pouco mais de 500 anos sobre a base da escravidão necessária ao estabelecimento das monoculturas de exportação, também sofreu tais impactos.

    Entre eles está aquele tratado no editorial do Estadão, que descreve as conclusões de um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. O Brasil condena seus habitantes a uma baixa qualidade de vida porque não consegue aumentar a produtividade do trabalho e não investe, fazendo com que não haja crescimento econômico, geração de empregos e aumento real de salários.

    Prezados leitores, não será o círculo vicioso de baixa formação, baixo capital intelectual, pouca inovação, baixa produtividade, pouco crescimento e pouca renda em que vira e mexe estamos metidos um resquício dos séculos em que a maioria da população brasileira era de escravos? Será que nossa mentalidade e nossas práticas sociais não estão impregnadas dos valores da escravidão que nos condenam ao atraso? Será que o mal necessário que foi a escravidão para que o Brasil existisse sempre fará parte do nosso comportamento individual e social?

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O pequeno jardim de Epicuro

A glória do estado ateniense tinha acabado, e a filosofia teve que enfrentar o que para os gregos era um divórcio sem precedentes entre a política e a ética. Ela tinha que encontrar um modo de vida que fosse ao mesmo tempo aceitável para a filosofia e compatível com a impotência política. Assim, ela concebeu seu problema não mais como o de construir um Estado justo, mas o de formar um indivíduo satisfeito e auto-suficiente.

Trecho retirado do livro “The Life of Greece”, de Will Durant (1885-1981), historiador e filósofo americano

Não é possível viver de maneira prazerosa sem viver de maneira prudente, honrada e justa; nem viver de maneira prudente, honrada e justa sem viver de maneira prazerosa

Máxima atribuída a Epicuro (341-270 a.C.), filósofo nascido em Samos

Que o epicurismo tenha se tornado sinônimo de uma vida luxuosa deve-se ao fato de que Epicuro foi bastante vilificado pelos seus contemporâneos estoicos e por seus sucessores, que desprezavam o que lhes parecia uma visão grosseiramente materialista da doutrina epicurista. Isso é ainda mais enganador considerando a circunstância de que o círculo de Epicuro realmente levava uma vida frugal.

Trecho retirado do livro “Wisdom of the West” do matemático e filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970)

    Prezados leitores, “The Life of Greece” descreve as transformações por que passam as cidades gregas devido ao domínio por elas exercido pelo reino da Macedônia, primeiramente por Felipe II (359 a.C.-336 a.C.) e depois por seu filho, Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.). Sem entrar nos detalhes dos motivos, o fato é que Atenas, a pioneira da democracia e da filosofia, deixa de ser o império marítimo que era, que ditava regras às outras cidades-Estado que tinham feito parte da Confederação de Delos, formada em 476 a.C. para enfrentar o império persa. No final das contas, a democracia ateniense havia falhado em garantir a prosperidade, a paz e a estabilidade e não restavam opções em termos de regimes políticos para serem testados: a grande ideia do governo pelos cidadãos reunidos na Ágora e escolhidos por sorteio para exercer cargo público tinha se exaurido. Tal desilusão teve reflexos na mentalidade dos intelectuais da época, como mostra Durant em seu livro. Um dos reflexos deste cair das nuvens é a corrente filosófica do epicurismo.

    Se Sócrates e Platão haviam se preocupado com a questão de como criar um Estado bom e justo, isso não é mais um problema para os filósofos da época helenista, inaugurada pelo breve reinado de Alexandre. As disputas políticas entre democratas e aristocratas, entre populistas e tiranos eram coisa do passado e não tinham levado a nada. Se o indivíduo não podia realizar-se como animal político, o que restava a ele? E com o questionamento da religião e das histórias sobre os Deuses por Sócrates, passando pelos sofistas e cínicos nos séculos V e IV a.C., como era possível estabelecer regras morais que não tivessem respaldo em um legislador sobrenatural que estabelecesse o que era virtude e o que era vício ou em um regime político que definisse o que era justo e o que era injusto?

    A saída para alguns filósofos foi adotar como foco não a busca pela verdade nem pela justiça, mas a busca da felicidade individual. Se não havia como fundar a moral em fontes externas, porque a religião tradicional e o regime político haviam sido desacreditados, então que ela fosse fundada no próprio homem enquanto indivíduo, enquanto ser que experimenta sensações a partir das emanações dos objetos do mundo material e que raciocina com base naquilo que os seus sentidos lhe apresentam do mundo exterior. Uma moral não transcendental, mas natural, sem grandes aspirações metafísicas sobre chegar ao Bem supremo, inatingível pelo homem, que nunca conseguirá sair do seu quadrado de experiências sensoriais.

    Essa moral natural conjuga o corpo e a alma do homem para estabelecer as regras do bem viver. A chave reside em tornar a virtude não um fim em si mesmo, algo a ser perseguido com paixão dogmática, mas um instrumento para a vida feliz. A vida feliz é aquela em que a moderação e a prudência dão o tom, de modo a evitar os extremos que causam o sofrimento e a dor. Conforme a máxima de Epicuro, o fundador dessa corrente filosófica, a razão e a emoção devem temperar-se mutuamente.

    Entregar-se à paixão e ao desejo é prejudicial porque uma vez satisfeitos eles levam ao entorpecimento da saciedade. Considerando que a saciedade tem curta duração, o indivíduo passa a sentir-se insatisfeito de novo e vai atrás de outros desejos, numa perseguição febril de um horizonte que foge sempre e que só causa perturbação na alma.

    O ideal assim é um prazer passivo, que não seja fruto do desejo, mas da contemplação sóbria por parte do indivíduo dotado de razão que decide o que evitar e o que escolher em prol da felicidade, isto é, da ausência de dor e de sofrimento, em prol da tranquilidade do corpo e do espírito. Nada de lascívia, de cupidez, de gulodice: como descreve Bertrand Russell em sua história da filosofia ocidental, a transformação do epicurismo em sinônimo de vida luxuosa é uma conspurcação do ideário de Epicuro, cuja moral, focada no indivíduo e não na comunidade, faz do homem em si e por si mesmo sua própria bússola, valendo-se de sua capacidade de raciocinar com base em suas experiências e de decidir que rumo tomar para evitar os perigos.

    Daí a imagem de jardineiro de Epicuro. Ele cuida do seu pequeno jardim individual, evita entrar em disputas políticas que dão em nada, evita engajar-se na vida de maneira muito ativa, para proteger-se contra as incertezas de um mundo exterior cujos fundamentos religiosos e políticos viraram pó. É uma boa receita a ser seguida por alguém que está protegido pela cerca do jardim e que consegue manter as condições objetivas da sua vida controladas, mas para quem é atingido pela pobreza, pelo infortúnio, pelo luto de maneira inapelável, ela não vale de nada pois não dá esperança, nem consolo quando as cercas do jardim são destruídas e as plantas pisoteadas. Não admira que o epicurismo, conforme informa Russell, tenha sido adotado pelas classes altas de Roma no início do Império. No entanto, conforme denunciou Herégias de Cirene, considerando que para a maior parte dos pobres mortais a vida tem mais dor que prazer, mais sofrimento do que alegria, levada às últimas consequência uma filosofia moral naturalista como o epicurismo tinha como consequência lógica o suicídio.

    Prezados leitores, nesses tempos turbulentos de nossa democracia tropical, em que as disputas se tornam cada vez mais acirradas, rasteiras e destituídas de qualquer senso do bem comum, feitas de intrigas, fofocas e disputas pelo poder pelos membros da mesma patota de donos das prebendas e sinecuras, não é tentador refugiar-se no jardim de Epicuro? Ou será que de nada adianta cultivar o jardim se ele está rodeado pelos hipopótamos?

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Boas e más vontades

Não penses que o castelo do governo consiste de fortalezas, muralhas e trincheiras: ele se encontra no interior das consciências. […] A grandeza dos Estados não pode ser medida pelas extensões territoriais e latifúndios, mas pela lealdade, benevolência e respeito dos habitantes.

Trecho do discurso de despedida do Brasil pronunciado em 1644 por João Maurício de Nassau-Siegen (1604-1679), capitão e almirante-geral do Brasil Holandês e citado no livro Holandeses em Pernambuco: 1630-1654 de Leonardo Dantas Silva

Decadentes com a guerra, endividados pelas altas taxas de juros que lhes eram cobradas, mas com o controle da produção do açúcar, esses senhores vieram a ser os responsáveis pelo declínio e perda do Brasil Holandês.

Trecho retirado do livro Holandeses em Pernambuco: 1630-1654 de Leonardo Dantas Silva

[…] na esteira de regimes escancaradamente brutais, como o nazismo, ou dissimulados mas também cruelmente eficazes, como os autoritarismos do Terceiro Mundo, requer-se certo esforço de reflexão para conceber a simbiose entre a carreira militar e o humanismo que caracterizava a antiga cultura aristocrática.

Trecho retirado do livro Nassau de Evaldo Cabral de Melo, escrito para a série Perfis Brasileiros

    Prezados leitores, na semana passada eu expus a ideia do que seria um regime político estável para Aristóteles, citando uma passagem do filósofo grego em que ele defende que a dominação da administração dos negócios públicos seja pelos mais ricos seja pelos mais pobres leva à tirania: no primeiro caso haverá concentração de riqueza e poder nas mãos de uma minoria, que se utilizará do seu poder de fogo para organizar a sociedade de acordo com seus próprios interesses, e no segundo caso a maioria de pobres fará valer sua voz por meio das instituições democráticas para vingar-se dos ricos e distribuir o dinheiro destes à força, levando à destruição da estrutura econômica. Assim, a estabilidade de qualquer regime político exige que haja uma classe média suficientemente robusta para servir de contrapeso às tendências de radicalização nos polos extremos da sociedade.

    Nesta semana meu objetivo é abordar um outro aspecto da estabilidade, qual seja, a adesão dos habitantes ao regime político, manifestada na boa vontade que mostram em fazer com que o sistema funcione. Para tanto, chamo a atenção para certos aspectos da breve passagem de João Maurício de Nassau pelo Brasil (1637-1644), como governador do Brasil Holandês, que compreendia desde o rio São Francisco na Bahia, até o Maranhão.

    Não há dúvida de que Nassau, depois de consolidar o controle militar holandês após a guerra de conquista das áreas produtoras de açúcar, procurou fazer com que a economia da colônia voltasse a funcionar. Para tanto, conforme explica Leonardo Silva em seu livro que reconta a história da presença holandesa no Brasil, João Maurício de Nassau colocou à venda engenhos pertencentes a luso-brasileiros que haviam sido abandonados e estavam em ruínas. Concedeu empréstimos aos produtores de açúcar para a recuperação das fábricas e dos campos e para a compra de escravos que repusessem a mão de obra perdida com fugas e mortes. Para garantir o suprimento de escravos aos engenhos, empreendeu expedições militares em possessões portuguesas na África (São Jorge da Mina, Golfo da Guiné, São Paulo de Luanda), levando a um aumento na importação de negros pela Companhia das Índias Ocidentais, que monopolizava tal comércio e que havia nomeado Nassau para o cargo de governador, capitão e almirante-geral das terras conquistadas no Brasil.

    Como mostra Evaldo Cabral de Melo em sua biografia deste conde nascido em Dillenburg que nos governou por sete anos, Nassau tinha uma formação humanista e cultivou ao longo da vida uma paixão pela jardinagem e pela paisagem, de acordo com o ideal de subordinação das armas à contemplação da natureza. Em 1642, Nassau fez plantar um jardim no Recife com pomar, açudes para a criação de peixes em cativeiro e animais. Tal jardim serviu de laboratório para membros da comitiva que o acompanhou ao Brasil, como o médico Willem Piso (1611-1678), o botânico, cartógrafo e astrônomo George Marcgrave (1610-1644) e o artista Albert Eckhout (1610-1664). Como resultado surgiram o Historia naturalis Brasiliae, o Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae, os Manuais e o Miscellanea Cleyeri com desenhos de animais, plantas, flores, frutos e figuras humanas. O Theatrum encontra-se atualmente na Biblioteca Jagelônica de Cracóvia, na Polônia.

     Esses valores humanistas também transparecem em muitas das obras que Nassau legou ao Brasil, a começar pela Cidade Maurícia ou Mauritstaad, na ilha de Antônio Vaz, projetada por Pier Post e que abrigava várias construções: o palácio de Friburgo ou palácio das Torres (construído em 1643 demolido no final do século XVIII em 1787, do qual hoje resta uma placa em uma praça em frente ao Palácio do Campo das Princesas, sede do governo do Estado de Pernambuco); o Palácio da Boa Vista (construído em 1643 e do qual hoje há restos) e o primeiro observatório das Américas. Para a população de baixa renda o governador fez construir a Nova Maurícia ou Nieuw Mauritsstad, entre a atual Igreja do Divino Espírito Santo, no Recife, e o forte das Cinco Pontas.

    Tantas realizações, típicas de um homem com sólida formação intelectual que colocou em prática aquilo para o qual havia sido educado, realizando assim suas aspirações humanistas. E no entanto, como ele mesmo reconheceu em sua despedida do Brasil, a estabilidade e a prosperidade de um Estado requer que os governantes conquistem o coração dos habitantes e isso os holandeses não souberam fazer. Os senhores de engenho nunca aceitaram a presença estrangeira no país, seja porque deviam muito dinheiro à Companhia das Índias Ocidentais, seja porque os luso-brasileiros e neerlandeses nutriam aversão mútua. Se a princípio os luso-brasileiros recuaram e fugiram para outras regiões onde não havia a presença holandesa, o fato é que eles continuaram a controlar a principal atividade econômica, a produção de açúcar, o que na prática colocou os conquistadores em uma posição isolada econômica e geograficamente: os neerlandeses concentravam-se no Recife, a cidade reurbanizada e embelezada por João Maurício, e dedicavam-se ao comércio. Com o tempo, o ressentimento criado pela exigência da Companhia das Índias Ocidentais de receber cada tostão emprestado aos senhores de engenho e o fato de os habitantes da terra terem uma presença em todo o interior do território deu aos luso-brasileiros o ímpeto para iniciar uma guerrilha nativista e aos poucos desafiar a supremacia militar holandesa, o que culminou com a expulsão definitiva dos holandeses em 1654, dez anos depois da saída de Nassau, descontente que estava com os rumos puramente mercantilistas que a WIC dava ao empreendimento colonial no Brasil, que para João Maurício, inviabilizava qualquer possibilidade de ganhar a adesão dos habitantes e portanto uma presença de longo prazo.

    Prezados leitores, a lição que fica para nós que estamos em pleno século XXI tentando manter nosso regime político em meio à inflação, ao desemprego e ao aumento da pobreza é que há uma dimensão da estabilidade que vai além das condições materiais da vida: sem a boa vontade dos governados para acatar as decisões dos governantes, para colaborar em prol daquilo que foi decidido como o rumo a ser seguido, resta aos que estão no poder lidar com o comportamento de guerrilha daqueles que não têm compromisso nenhum com o que está sendo proposto e que com sua má vontade sistemática acabam minando as bases do regime vigente. Será que nós brasileiros conseguiremos ser benevolentes, leais e respeitosos com quem quer que seja eleito no ano que vem ou continuaremos com má vontade e empregando nossas táticas de guerrilha, entre elas o uso do Judiciário para tentar ganhar disputas políticas por outros meios? Aguardemos.

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1% x 99%: onde fica a democracia?

O verdadeiro patriota em uma democracia deve tomar cuidado para que a maioria não fique muito pobre… ele deve envidar esforços para que eles possam usufruir prosperidade eterna; e pelo fato de isso ser vantajoso para os ricos, o que pode ser salvo do dinheiro público deve ser dividido entre os pobres em tal quantidade que possa permitir-lhes comprar um pequeno lote de terra. […]Sempre que o número daqueles no estrato médio da sociedade tornou-se pequeno demais, aqueles que eram mais numerosos, sejam os ricos ou os pobres, sempre os subjugaram e assumiram eles mesmos a administração dos negócios públicos … Sempre que ou os ricos dominam os pobres ou os pobres dominam os ricos, nenhum deles estabelecerá um estado livre.

Trechos retirados do livro “The Life of Greece”, de Will Durant (1885-1981), historiador e filósofo americano, citando o filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.)

Basicamente a filosofia americana é que a maneira de impedir o desenvolvimento de uma classe média independente é mantê-la tão endividada que ela tem que trabalhar e fazer dívidas ou então abandonar uma educação cara, não ser contratado e passar fome.

Trecho da fala sobre os empréstimos estudantis nos Estados Unidos de autoria de Michael Hudson (1939-), economista americano e professor da Universidade de Missouri, em sua conversa com Thomas Piketty (1971-), economista francês autor do livro “O Capitalismo no Século XXI”

    Prezados leitores, para uma pessoa que como eu foi criança na década de 1980, passou por n planos econômicos e lembra da pasta que Ernane Galvêas (1922-), Ministro da Fazenda do Brasil de 1980 a 1985, carregava nas suas idas a Washington para negociar novos empréstimos com o FMI, é difícil acreditar em economistas. Nós seguimos muitas receitas de economistas ao longo das última quatro décadas: planos ortodoxos, planos heterodoxos, desindexações, paridade cambial, arrochos salariais, aumento de impostos, alta das taxas de juros, limitações à aposentadoria, teto fiscal.

    Os magos da economia e seus defensores na imprensa nunca deixaram de prometer o caminho da prosperidade e do desenvolvimento se nós fizéssemos os sacrifícios que eles nos propunham e agíssemos com o bom senso que eles nos mostravam com condescendência. No mais das vezes, o que nos foi entregue foram períodos de prosperidade seguidos de grandes ressacas. Assim ocorreu com o milagre econômico de 1969-1973, que foi seguido por dois choques do petróleo, em 1973 e 1979; e mais recentemente, no boom das commodities de 2000 a 2014, que foi seguido por um período de recessão econômica entre 2014 e 2016 e agora pela crise da pandemia de COVID-19.

    No entanto, há um economista que não deixo de ler e de ouvir justamente porque o que ele propõe nunca será executado, a não ser que a situação chegue ao extremo que descreveu Aristóteles há mais de 2.000 anos, conforme o trecho que abre este artigo: quando a classe média se tornar tão inexpressiva que só restará o radicalismo, seja dos ricos concentrando toda a riqueza, seja dos pobres, tomando dos outros por meio da revolução. Refiro-me a Michael Hudson, que no dia 26 de setembro trocou ideias com Thomas Piketty sobre a desigualdade e os impactos dela no mundo. O foco de Hudson são os Estados Unidos, mas as lições que ele dá podem ser muito bem aproveitadas por nós brasileiros, como tentarei mostrar aqui explicando as ideias dele.

    Foi-se o tempo do capitalismo industrial, que gerava empregos, consumo e renda, num círculo virtuoso de aumento do bolo para todos, conforme ocorreu nos Estados Unidos desde o século XIX até a década de 60 do século XX. Agora o que predomina, mais acentuadamente desde as duas últimas décadas do século XX,  é o capitalismo financeiro, isto é, o cerne da atividade econômica sai da produção para a intermediação financeira, que como antípoda do primeiro tem seu próprio círculo vicioso: desemprego, perda do poder de compra e dívida, para compensar a perda do poder de compra. A intermediação financeira está em toda parte: quem quer comprar uma casa ou carro pega um empréstimo no banco e dá como garantia a casa ou carro financiado; quem quer comprar bens de consumo não duráveis usa o cartão de crédito e vai pagando as prestações a perder de vista, com os juros embutidos; quem quer frequentar o ensino superior contrata um empréstimo e ao terminar a faculdade já sai endividado e a única maneira de honrar a dívida é conseguir um emprego, sendo obrigado a comprometer uma parte da renda do salário com o pagamento do principal e dos juros por anos a fio.

    A predominância desse tipo de capitalismo é possível porque o governo, dominado pela agenda do 1% da população mais rica, viabiliza essa ciranda financeira. Os bens públicos, como serviços de água, eletricidade, esgoto, transporte, são vendidos a bem do enxugamento da máquina estatal e viram monopólios privados, que cobram as tarifas altas o suficiente para cobrir o custo dos empréstimos que as empresas tomam para adquirir tais monopólios. Quando o Banco Central americano atua para estimular a economia com juros baixos, esse excesso de liquidez é capturado pelas instituições financeiras, que reciclam esse dinheiro para empresas comprarem outras empresas ou para fecharem o seu próprio capital, comprando suas próprias ações na bolsa para aumentar o lucro dos executivos que são remunerados em parte com bônus de ações. Quando tais instituições emprestam para indivíduos, elas o fazem sempre mediante garantia de algum ativo, o que leva ao aumento do preço dos imóveis, criando uma falsa sensação de riqueza, pois que o valor do imóvel será sempre proporcional à hipoteca que recai sobre ele.

    Não havendo investimentos na produção de bens reais, não há geração de empregos que agregam valor ao longo da cadeia industrial. A classe média consegue manter-se à tona unicamente na base dos empréstimos que são eternamente rolados. Assim, tem-se uma divisão clara entre o 1% credor que concentra o capital e ganha dinheiro pela multiplicação do capital emprestado devido aos juros compostos que incidem sobre os empréstimos, e os 99% que concentram as dívidas e têm pouca ou nenhuma renda disponível quando descontadas as despesas obrigatórias com amortização de dívidas e pagamentos por serviços não fornecidos pelo Estado, como saúde e educação.

    Tanto Hudson quanto Piketty concordam que há uma desigualdade cada vez maior devido a esse círculo vicioso financeiro. Eles divergem, no entanto, sobre o que fazer. Para Piketty, é preciso taxar a riqueza e distribui-la, tal como preconizou Aristóteles em sua receita para um regime estável de governo. Hudson considera ser isso inviável, pois os ricos sabem esconder seus proventos: eles criam empresas em paraísos fiscais e recebem dividendos como acionistas e conseguem camuflar o lucro por meio de esquemas de preços de transferência pelos quais a receita da pessoa jurídica é gerada para fins contábeis em jurisdições em que a renda é pouco taxada. Para ele, a única maneira de fazer com que a classe média dos Estados Unidos possa ser colocada de novo de pé, livrando-a dos grilhões que a encerram, é um cancelamento unilateral das dívidas, sejam hipotecas, empréstimos estudantis, financiamento de veículo. É claro que no atual sistema político americano, em que os interesses da maioria da população não são levados em conta, não há chances de isso ocorrer: o resultado será mais desigualdade, mais concentração de poder nas mãos dos ricos e, como ensinou Aristóteles, mais tirania e menos liberdade.

    Nesse sentido, o filósofo grego considerava que o sistema ideal era aquele em que os membros da classe média fossem em um número tal que fizesse com que a maioria da população tivesse interesse em manter a paz e a prosperidade pelo fato de que cada um dos cidadãos tinha algo a perder se houvesse violência e revolução. Numa situação em que uns têm tudo a perder e outros têm tudo a ganhar se as coisas forem mantidas exatamente como estão ou se forem modificadas totalmente, a instabilidade torna-se uma constante e com ela a tendência ao radicalismo dos poucos privilegiados ou dos muitos oprimidos.

    Prezados leitores, considerando que por aqui no Brasil estamos aparentemente voltando à época da estagflação dos anos 80, com alto desemprego, corrosão do valor da moeda e do poder de compra, a descrição dos problemas econômicos dos Estados Unidos por Michael Hudson e as lições de Aristóteles sobre os desafios de qualquer regime político levam-nos a perguntar: o que será da nossa democracia nos próximos anos? Será que ela sobreviverá incólume a uma ou talvez mais de uma década perdida?

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Mnemosine e as Musas

Despertando nossos sentimentos mais profundos e depois acalmando-os por meio de um desenlace apaziguador, o drama trágico nos oferece uma expressão, inofensiva e ao mesmo tempo capaz de atingir as profundezas da nossa alma, de emoções que de outra forma se acumulariam como neurose ou violência; ele mostra dores e tristezas maiores que as nossas e nos manda para casa de alma limpa e purificada.

Trecho retirado do livro “The Life of Greece”, de Will Durant (1885-1981), historiador e filósofo americano, explicando o pensamento estético de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.)

Um mundo inteiramente sem arte seria pior do que invisível, inaudível, inefável e intangível. Seria um mundo sem a dimensão temporal, seria um mundo do qual a mente humana não conseguiria lembrar. A memória do homem é única na sua capacidade não somente de recordar, mas também de utilizar o passado e aplicá-lo; e melhor ainda, recriá-lo, de forma a tornar-se parte do momento presente, o que é o mais perto da eternidade a que podemos chegar. A memória humana é nada menos do que a origem da arte.

Trecho retirado do artigo “The World of Art”, escrito por Mark Van Doren (1894-1972), poeta e crítico literário americano, para a edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

    Prezados leitores, na semana passada eu lhes apresentei a personagem Lukéria de Turguêniev, uma camponesa de destino trágico que enfrenta o sofrimento e a solidão criando para si um ambiente de paz e de beleza em que a fruição dos sons e das cores ao seu redor lhe permitia não cair no desespero. A sabedoria e resignação da moça eram instintivas, fruto da fé cristã e da vivência cotidiana de opressão e injustiça dos servos na Rússia do século XIX. Devo neste momento acrescentar uma informação que será pertinente para meu tema de hoje, qual seja, a função da arte na vida do homem enquanto indivíduo. Quando li o conto “Relíquia Viva” chorei copiosamente, passando pelo rito de catarse detalhado há mais de dois mil anos por Aristóteles na sua obra “Poética”.

    Conforme o trecho que abre este humilde artigo, explicando o modo de funcionamento da tragédia, a dor e a injustiça do amor e da vida perdidos por Lukéria devido ao seu acidente reavivaram em mim experiências passadas. Não que eu tenha sido algum dia uma camponesa trabalhando de sol a sol e sem acesso a nenhuma assistência médica como era o caso da heroína de Turguêniev. Longe disso. Tive o privilégio de nascer no século XX e ter tido anos de estudo que me permitiram ter um emprego que não me leva à exaustão física. Por outro lado, a descrição do autor é tal que, apesar dos quase duzentos anos que me separam de Lukéria, eu consigo me identificar com ela porque como ser humano que sou, guardadas as devidas proporções, já sofri e me senti injustiçada.

    Daí que quando a descrição que Lukéria faz da sua humilde vida ao seu patrão, fechada em um galpão sem poder movimentar-se e definhando aos poucos, foi despertando em mim uma emoção profunda, que culminou no choro. Eu qualifico essa experiência como catártica porque, como explica Aristóteles, o receptor da arte, seja o leitor, o ouvinte, o espectador, sai dela melhor do que entrou: ele aprende algo novo sobre si mesmo que o tranquiliza, pois o conecta à experiência de outros indivíduos que partilham a mesma natureza. A moral da história é que meus dissabores são colocados no seu devido lugar: não são nem maiores nem piores do que aqueles vividos por outros homens e mulheres antes de mim.

    Sob essa perspectiva, não é de estranhar que os gregos fizeram a Memória, a deusa Mnemosine, por meio de sua conjunção com Zeus, a mãe das Musas, as nove deusas que presidiam as artes liberais na mitologia, conforme explica Mark Van Doren em seu artigo. Criar e experimentar a arte são ambos atos de rememoração de um momento, de uma situação, de um sentimento que já foram vividos, e que recebendo uma expressão artística renascem a cada vez que tal expressão é capaz de despertá-los no receptor. Portanto, sem memória para inspirar a produção da arte pelo autor e sua fruição pelo receptor não há obra artística e sem obras artísticas o mundo não se tornaria presente para o homem. Nossa experiência da realidade seria uma impressão fugaz que jamais se consolidaria na nossa mente, pois seria desprovida do sentido dado por sua expressão formal e do valor dado pelas emoções que atribuímos a ela e que a expressão formal permite sejam gravadas para sempre em nossa memória.

    A função da arte, independentemente do seu papel na conscientização sobre o cenário político, econômico e social, foi lembrada em um artigo publicado na revista The Economist, edição de 21-27 de agosto, que menciona o livro escrito por Joseph Luzzi “In a Dark Wood”, publicado em 2015, que conta como a Divina Comédia de Dante Alighieri (1265-1321) ajudou o autor a lidar com a morte da esposa, Katherine Mester, grávida de oito meses e atropelada por uma van quando saía de um posto de gasolina.

    Assim como o poeta italiano teve a vida despedaçada quando foi exilado de Florença em 1301, devido a disputas políticas, Joseph se viu de repente um viúvo e pai de uma bebê que nasceu de uma cesariana de emergência realizada em Katherine. A dor de Dante em perder tudo que lhe era caro, expressa nos versos da Divina Comédia, é a dor do professor do Bard College ao perder sua mulher. Desse modo, o luto vivido por Dante e recriado por meio de usa obra-prima é relembrado e presentificado por Joseph ao lê-la quase 700 anos depois. E nesse rito a experiência humana ao longo dos séculos e das diferentes civilizações que foram criadas e destruídas no curso da História se torna sempre única a cada nova presentificação e ao mesmo tempo universal pela sua eterna rememoração. Mnemosine e as Musas, mãe e filhas, inseparáveis.

    Prezados leitores, para Aristóteles “a natureza exige que devamos ser adequadamente empregados, mas que sejamos capazes de aproveitar o lazer de maneira honrosa”. Se Lukéria o fazia contemplando a Natureza até onde lhe era possível, dadas suas limitações físicas, hoje na nossa realidade urbana reencenar o mito de Mnemosine engendrando as Musas, a Memória originando a Arte, e assim nos conectar à humanidade como um todo por meio da beleza é o meio mais factível de viver uma vida feliz, como pregava o filósofo grego. Que esses tempos de ansiedade e angústia causadas pela pandemia da covid-19 sirvam para que possamos perceber a função da arte na nossa vida.

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