Aprendendo a jogar

[…] Wittgenstein mostrou como todo o mundo do homem é constituído por sua experiência linguística e sugeriu que “toda a filosofia é uma crítica da linguagem”. Wittgenstein pensava que perguntar “Por que usamos esta determinada palavra ou expressão?” era a pergunta filosófica crucial, já que o foco da filosofia não no mundo, mas nos mecanismos de uso linguístico, resolveria a maior parte das perplexidades que constitu o flagelo da filosofia.

Trecho retirado do verbete “História da Filosofia Ocidental” na edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

A filosofia, [o empiricismo lógico] alegava, precisava então ser científica. Ela deveria procurar menos um conteúdo do que uma função: ela deveria produzir não retratos complicados do mundo, mas um pensamento claro

Trecho retirado do verbete “História da Filosofia Ocidental” na edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

 

– Cidade maravilhosa fiquei na paz curtindo a beleza da vegetação, dos parques, da limpeza das ruas

– Legal – tudo tem um lado positivo. A impressão que tenho, posso estar totalmente enganada, é que é cheia de bolsonaristas… Para isso não tem limpeza…

Troca de mensagens no WhatsApp entre mim e uma amiga sobre Curitiba, onde passei alguns dias

 

    Prezados leitores, passei 15 dias em Curitiba como nômade digital, trabalhando durante o horário comercial e passeando pela cidade. Conforme mostra a mensagem que enviei para uma amiga e que reproduzi acima, tive uma impressão muito boa da cidade, na qual tive paz de espírito. Tal estado mental surgiu do fato de eu ter visto algo que me é estranho em São Paulo: o espaço público sendo usufruído por jovens, crianças, idosos, homens, mulheres, cachorros: vi curitibanos curtindo o sol no gramado que rodeia o Museu Oscar Niemeyer, quer deitados na relva verde e bem aparada ou em cima de alguma toalha, bebendo cerveja, água ou comendo, vi outros sentados em cadeiras de pano conversando e contemplando o pôr-do-sol em meio aos pinheiros-do-paraná. Aquilo passou para mim a impressão de ser uma cidade democrática, em que não é preciso dinheiro para divertir-se, para relaxar a mente: basta pegar uma bicicleta e serpentear pelas ciclovias que muitas vezes margeiam córregos, ou então andar pelos parques e apreciar a vegetação exuberante.

    E, no entanto, minha amiga vê algo diferente em Curitiba: uma cidade infestada de bolsonaristas e portanto tudo o que vi de bonito, limpo e ordeiro aos olhos dela toma a forma de exclusão, fascismo, privilégio, racismo estrutural. De fato, nas eleições de 2018, Jair Bolsonaro teve 76,5% dos votos válidos no segundo turno, enquanto Fernando Haddad teve 23,5%. Então, ao menos em 2018 a cidade era bolsonarista. Sob esse ponto de vista, minha impressão de que seja democrática porque as pessoas têm acesso a lazer de graça, sem que precisem frequentar um shopping center, pagar pelo estacionamento e pela comida na praça de alimentação, como ocorre na minha cidade natal, é equivocada: afinal se considerarmos que quem vota em Bolsonaro não tem apreço pela democracia e tem nostalgia pela ditadura militar, então Curitiba não é democrática, porque habitada por pessoas que não cultuam a democracia. Como resolver esse dilema? Será que é possível estabelecer com certeza a natureza da capital do Paraná?

    Recorro a Wittgenstein para tentar elucidar a questão ou ao menos estabelecer os termos do problema. Para o filósofo austríaco, era preciso formular as perguntas certas para que tenhamos respostas claras e precisas. O conteúdo da filosofia tinha sido poluído, ao longo dos séculos, pela utilização inadequada e desleixada da linguagem. Era tarefa do filósofo mostrar que muitas perguntas filosóficas para as quais não havia resposta eram simplesmente desprovidas de sentido e se dissolviam no ar à luz da análise dos termos linguísticos em que eram postas. Vou dar-lhes um exemplo para esclarecer esse método de análise.

    Uma velha questão é sobre a origem do mundo. O que deu início ao mundo que experimentamos? De qual início o mundo começou sua jornada? Ao invés de tentarmos inutilmente procurar uma resposta recorrendo a um ou outro filósofo grego, medieval, renascentista, iluminista ou moderno, devemos analisar a palavra central da pergunta, qual seja, “início”. Qual o sentido usual da palavra início na língua? Início é um momento determinado que marca uma fase de algo que ocorre no tempo e implica a noção de que algo veio antes e virá depois desse marco inicial. Por outro lado, o sentido de início dado pela pergunta filosófica sobre o princípio do mundo não tem a intenção de realizar questionamentos sobre o que veio antes de tudo, afinal pretende justamente estabelecer um marco zero a partir do qual tudo é explicado. Mas ao estabelecer um marco zero, o filósofo questionador deturpa o sentido usual de início pois falar de princípio sem nada que o preceda subverte o processo no tempo do qual o início é apenas um dos limites. Portanto, o melhor a fazer é descartar especulações sobre a origem do mundo porque tais perguntas não fazem sentido.

    O objetivo de Wittgenstein no início de sua carreira era depurar a linguagem de tal forma a chegar a uma linguagem perfeita, livre das teias de conceitos metafísicos há muito estabelecidos e utilizados a torto e a direito sem que os usuários da língua se deem conta. A linguagem perfeita de Wittgenstein, mediante a análise do discurso, seria reduzida aos seus elementos constituintes mais básicos e finais. Mais tarde, ele calibrou intelectualmente essa esperança de que a confusão pudesse ser eliminada de maneira completa e passou a ver o uso da língua como um jogo, sobre o qual os falantes precisam saber as regras para aprender a jogar. Uma vez tais regras sendo introjetadas, os problemas metafísicos, como aquele explicado no parágrafo anterior, seriam eliminados porque tais perguntas sem sentido não mais seriam feitas. A terapia linguística curaria a angústia metafísica.

    Será que posso aplicar tal terapia para estabelecer os atributos de Curitiba? Assim como a palavra início pode ter um sentido metafísico e um sentido de marco no tempo, democracia também pode ter uma dupla significação. De um lado, uma zeladoria eficaz de uma cidade, tornando-a segura, limpa e aprazível pode estimular seus habitantes a frequentar os espaços públicos por não se sentirem ameaçados por ladrões, assaltantes e moradores de rua. A ocupação da paisagem urbana por pessoas de classe média, que têm tempo disponível de lazer para passear, passa a impressão de que a cidade é democrática porque as praças, os parques, as ruas, os jardins não ficam vazios ou ocupados por aqueles que não têm onde morar e que usam os locais públicos como dormitórios. Mas, por outro lado, como as autoridades municipais conseguem manter os espaços públicos em ordem? Vigiando constantemente para que pobres e sem-teto lá não se instalem? E onde eles são colocados? São varridos para debaixo do tapete?

    Democracia assim pode ser definida como algo a ser usufruído por uma parte da população que tem acesso aos bens públicos porque se encaixa nos critérios de ordem, limpeza e beleza. Quem tem o potencial de poluir a paisagem idílica por seus andrajos ou por sua compleição física tem acesso negado a esses espaços urbanos. É uma democracia para os que já têm algo, inacessível para quem não têm emprego, não tem moradia e portanto não têm tempo de lazer que possa ser despendido nos cartões postais da cidade. Seria uma democracia censitária que não tem vergonha de assumir-se excludente? Ou será que a democracia excludente é a única forma possível de haver ordem, limpeza e beleza que torne os espaços urbanos do público?

    Prezados leitores, temo que a lição de Wittgenstein sobre garantir a limpidez da linguagem para que o pensamento seja claro não deu certo neste caso. Esclarecer o termo democracia a partir de um exemplo concreto implica sempre um julgamento moral que, de acordo com o positivismo lógico, corrente da qual Wittgenstein fez parte por algum tempo, é inverificável na prática e, portanto, é inútil tentar estabelecer um sentido unívoco. Para minha amiga os atributos positivos da cidade significam simplesmente que ela exclui aquelas pessoas que não se enquadram no perfil étnico e social preferido daqueles que votam em Bolsonaro, e portanto Curitiba não tem nada de belo e limpo. Para mim, bastou que eu pudesse passear tranquilamente pela cidade sem me sentir amedrontada ou assediada pela pobreza e pela sujeira tão onipresente em São Paulo que eu considerei que aqueles bens públicos estavam acessíveis a todos os habitantes da cidade.  E assim continuaremos eu e minha amiga, separadas pela linguagem, cada uma de nós jogando seu próprio jogo linguístico. Quem sabe um dia aprendamos a jogar usando as mesmas regras?

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , , , , , , | Leave a comment

Requiescat in pace?

Ele é muito sensível ao sofrimento e à matança envolvidos no processo biológico para supor que tenham sido desejados de maneira consciente por uma divindade pessoal; esses erros cósmicos, em sua opinião, suplantam os indícios de algum desígnio. Nesse cenário de ordem e confusão, do bem e do mal, ele não encontra nenhum princípio de permanência, nenhum centro de uma realidade eterna, mas somente o torvelinho e o fluxo da vida obstinada, nos quais a entidade metafísica última é a mudança.

Trecho retirado do livro “Our Oriental Heritage”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981) explicando as ideais de Sidarta Gautama, conhecido como Buda (563 a.C.-483 a.C.)

Foi uma história desanimadora, pois sua moral evidente é que a civilização é algo precário, cujo complexo delicado de ordem e liberdade, cultura e paz pode a qualquer momento ser destruído pelos bárbaros invadindo de fora ou multiplicando-se internamente. Os hindus haviam permitido que sua força fosse desperdiçada em divisões internas e guerras; eles haviam adotado religiões como o budismo e o jainismo, que os desestabilizou e impediu que realizassem as tarefas da vida; eles haviam falhado na organização das suas forças para a proteção das fronteiras e das capitais, da sua riqueza e da sua liberdade, contra as hordas de citas, hunos, afegãos e turcos que pairavam nas fronteiras da Índia e que esperavam a fraqueza da nação que os deixaria entrar. Por 400 anos (600 d.C.-1000 d.C.), a Índia pediu para ser conquistada; e ao final isso ocorreu.

Trecho retirado do livro “Our Oriental Heritage”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981) sobre a conquista muçulmana da Índia, iniciada em (664 d.C.) no Punjab

    Prezados leitores, na semana passada tratei do zoroastrismo e tentei explicar sua visão maniqueísta da luta do bem contra o mal. Nesta semana, terei como foco outra religião criada no Oriente, o budismo, tal como explicada por Will Durant e humildemente tentarei enxergar alguns reflexos das concepções budistas em nosso mundo ocidental pós-cristão, no qual muitos dos seus membros veem os ensinamentos de Sidarta Gautama como superiores ao cristianismo.

    Durant nos conta a história da vida de Sidarta Gautama, ou ao menos a lenda que se consolidou como a história da vida do fundador do Budismo. Sidarta era filho de Shuddohodhana, rei de Kapilavastu, aos pés do Himalaia, e pertencia à casta dos xátrias, dos guerreiros. Já casado e com um filho, Rahula, Sidarta abandona a família e o seu país natal em busca de resposta à seguinte pergunta existencial: por que há tanto sofrimento no mundo? Sem entrar nos detalhes das peripécias de Sidarta ao longo de seus 80 anos de vida, a conclusão a que ele chega é que o sofrimento deriva do nascimento: viver é sofrer por que ao longo de nossa existência experimentamos muito mais a dor, o desespero, a solidão do que a felicidade.

    Conforme o trecho que abre este artigo, se o saldo negativo da vida é a única certeza, o melhor a fazer é não nascer, e para os que já nasceram o ideal é suprimir o desejo: o desejo é a fonte da dor, já que inicia o ciclo de busca da satisfação e da frustração que é a essência da vida: praticar o auto-controle, manter-se calmo e alegre, ser generoso e não infligir mal a ninguém são o caminho para o homem livrar-se da intensidade das paixões mórbidas. Considerando que nenhuma divindade digna do nome teria por objetivo criar uma vida cheia de mal e miséria, Buda não acredita que haja um Deus e considera qualquer especulação metafísica uma perda de tempo: inquirir sobre se o mundo sempre existiu ou se teve um criador, se há uma alma eterna, se há um logos universal que dá sentido a tudo, é um exercício fútil, pois o homem é apenas uma sucessão de estados  físicos e mentais, ditada pela hereditariedade, pelo meio ambiente e pelas circunstâncias, um fluxo eterno de mudanças em que cada momento ele tem determinadas percepções e sensações, as quais não podem ser reunidas em um todo coerente. Nesse sentido, não havendo uma razão transcendente que coloque ordem no fluxo caótico e chegue à verdade, o estado de beatitude do Nirvana só pode ser atingido durante a vida quando o homem se livra de todos os sentimentos, desejos, pensamentos, interrompendo a sucessão de mudanças, ao menos internamente.

    Buda pregou então uma ética de como viver, sem rituais, sem metafísica, sem teologia, sem veneração a algum Deus. É verdade que seus discípulos acabaram desvirtuando muitos dos seus ensinamentos e foram criados monastérios habitados por monges que cultuam Buda na prática como uma divindade. Mas comparativamente às religiões monoteístas como o judaísmo, o islamismo e o cristianismo, o budismo não exige muitas obrigações dos seus fiéis e, negando a existência de Deus, acaba retirando o caráter punitivo que aquelas outras religiões infligem aos pecadores que não seguem os preceitos sobre como bem agir ditados pela suprema divindade. Daí a atratividade do budismo aos que, no mundo pós-cristão, estão à procura de uma espiritualidade que não faz grandes exigências morais, além de não matar, buscar a convivência pacífica e não se deixar dominar pela ânsia de ter e de saber.

     Apesar de o budismo parecer benéfico à primeira vista, por não preconizar nenhuma verdade revelada por Deus, em detrimento de qualquer outra, como fazem as três religiões monoteístas, Durant via um lado negro no agnosticismo niilista criado por Sidarta Gautama. Conforme explica no trecho que abre este artigo, o historiador e filósofo americano considerava que o pacifismo engendrado pelo budismo tornou os hindus indefesos ante a militância monoteísta dos muçulmanos, cheios de ardor militar na luta contra os infiéis que não acreditavam no único Deus verdadeiro, Alá. E sob uma perspectiva histórica, a invasão muçulmana da Índia foi ruim para os hindus. Impôs uma religião exclusivista e causou a destruição material de sua civilização: um dos imperadores muçulmanos, Aurangzeb (1618-1707), um fanático religioso, proibiu qualquer culto público das religiões hindus nativas e em um único ano, entre 1679 e 1680, ordenou a destruição de 66 templos em Amber, 63 em Chitor, 123 em Uidapur, além de fazer construir uma mesquita onde antes havia um templo sagrado para os hindus em Benares. O que vemos hoje de arquitetura e arte da Índia é o que restou da destruição de 1000 anos de civilização que havia florescido antes da chegada dos muçulmanos, imbuídos de uma certeza moral que lhes dava a justificativa para a guerra santa de conquista da população nativa.

    Prezados leitores, para Durant a lição que fica é que o preço da civilização é a eterna vigilância. Uma sociedade deve amar a guerra, mas manter a pólvora seca, pronta para ser usada para defender aquilo que construiu. A fascinação que o budismo exerce hoje no mundo ocidental talvez se deva ao seguinte: uma vez perdidos os ideais religiosos de disseminação da palavra de Cristo no mundo todo, e que deu origem ao colonialismo europeu nas Américas, na África e na Ásia, semelhantes aos ideais muçulmanos que foram disseminados na Europa, África, e Ásia  a partir da expansão muçulmana que teve início em 622 a.C. e durou até a criação do Império Otomano, em 1299, a espiritualidade tornou-se um assunto individual, que se limita ao desejo de paz a qualquer custo, para evitar o sofrimento e a garantir um bem-estar moderado, sem qualquer ardor militante de propagar os verdadeiros valores à Humanidade, quaisquer que eles sejam. Será que o Ocidente pós-cristão cairá como a Índia caiu em face de fanáticos do outro lado do mundo? Os futuros historiadores se encarregarão da narrativa, como Will Durant encarregou-se de contar a trágica história do Hindustão.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , , , , , , , , , | Leave a comment

A alma do homem e da política, segundo Zaratustra

A alma do homem, como o universo, era representada como o campo de batalha dos espíritos benéficos e maléficos; cada homem era um guerreiro, gostasse ele ou não, no exército ou do Senhor ou do Diabo; cada ato ou omissão apoiava a causa de Ahura-Mazda ou de Ahriman. Era uma ética ainda mais admirável do que a teologia – se o homem precisa ter apoios sobrenaturais para sua moralidade; ele [o zoroastrismo] dava à vida comum uma dignidade e uma significância maiores do qualquer uma que poderia advir de uma visão de mundo que via o homem (na expressão medieval) como um verme miserável ou (nos tempos modernos) como um autômato mecânico.

Trecho retirado do livro “Our Oriental Heritage”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981) explicando a religião fundada por Zaratustra, profeta persa do século VII a.C.

Se tudo fosse tão simples! Quem dera que houvesse pessoas más em algum lugar cometendo atos malévolos insidiosamente, e fosse necessário apenas separá-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal passa pelo coração de cada ser humano. E quem está disposto a destruir uma parte do seu próprio coração?

Trecho retirado do Arquipélago Gulag do escritor russo Aleksander Solzhenitsyn (1918-2008)

 

    Prezados leitores, na semana passada foi meu humilde intento mostrar como há muitos elementos religiosos no movimento ambientalista, no sentido de considerar que aquecimento climático é uma punição da Natureza pelos pecados do homem que só será resolvido quando este corrigir seu comportamento e praticar a virtude ambiental. Citando Konstantin Sakkas, filósofo e historiador, quis apontar que o tempo da Terra e o tempo do Homo Sapiens são totalmente diferentes, pois um se mede em bilhões de anos e o outro em milhares de anos. Assim, nossa capacidade de influenciar para o bem ou para o mal a vida na Terra é infinitesimal e a continuidade ou o perecimento dela acontecerão independentemente dos esforços de redenção do nosso comportamento pecador. Nesta semana, meu objetivo é enfocar um outro elemento religioso presente em nós, indivíduos do século XXI que temos como uma das principais características não mais partilharmos uma religião como outrora era praxe no mundo ocidental. Falo dessa luta entre o bem e o mal, a qual foi exemplificada na teologia do zoroastrismo, conforme explica Will Durant em seu livro ao falar sobre a Pérsia.

    Não se sabe se Zaratustra realmente existiu ou não, mas o fato é que ele cultuava o Senhor da Luz, Ahura-Mazda, que ao final dos tempos derrotaria Ahriman, o Príncipe das Trevas. Como lhe é típico Durant, analisa os pontos positivos e negativos do zoroastrismo. Comparando-o com o Cristianismo medieval e com a modernidade ocidental pós-cristã, ele vê nele, conforme o trecho que abre este artigo, uma grande qualidade: a de dar um sentido à vida do homem e não só isso, mas um sentido heroico, pois cada indivíduo é um soldado nas hostes do exército da luz ou das trevas, e cabe a cada um, dotado de livre arbítrio, escolher em qual vai se alistar.

    É preciso ter em mente que na Idade Média o homem era considerado um mísero pecador e que na época em que Will Durant escreveu seu livro, na década de 1930, a visão materialista predominava, segundo a qual o homem era uma partícula de matéria que se relacionava com outras, mas que não tinha sentido transcendente nenhum, pois tais relações eram contingentes. Assim, não admira que para o historiador e filósofo americano ver-se como participante de uma luta entre duas forças antagônicas era algo mais digno, na medida em que colocava a existência individual no epicentro de um drama e não como um fenômeno aleatório e desconectado do grande esquema das coisas. Na teologia do zoroastrismo o homem existia para desempenhar um papel definido que determinaria o sentido último do universo.

    Implicitamente, Durant aponta a grande falha da civilização ocidental tal como ela se apresentava na primeira metade do século XX, qual seja, se reduzirmos o homem à sua vida física, o que resta para ele em termos de ideias, de motivação de vida, de dignidade intrínseca, de sentido de pertencimento a algo maior do que ele? Tal ceticismo está a um passo da desintegração social, pois torna mais difícil que o homem forme laços com o passado e o futuro se ele vive eternamente na materialidade do presente.

    Segundo a descrição de Durant, o zoroastrismo chegou a ser a religião oficial do império persa sob Dario I (550 a.C. – 486 a.C.), mas sua ênfase em um deus único, Ahura-Mazda, ia contra a tradição politeísta do povo que cultuava entre outros o Deus do Sol, Mithra e a Deusa da Lua, Anaita. Depois da morte de Zaratustra, os antigos sacerdotes, chamados de Magos, reassumiram o controle de maneira sutil, incorporando o profeta da nova religião às suas práticas de cura, adivinhação, repetição de fórmulas mágicas e feitiçaria, fazendo na prática com que o combate de Zaratustra à idolatria e à superstição virasse letra morta. De qualquer forma, por mais que a influência histórica do zoroastrismo tenha sido de pouca importância e seus preceitos tenham sido logo esquecidos, ele ainda sobrevive hoje cultuado pelos parses na Índia e no Irã, principalmente em Teerã, Iázide e Carmânia.

    Diferente da visão da luta das forças do bem e do mal, Aleksander Solzhenitsyn, conforme o trecho que abre este artigo, tirado do seu relato sobre sua experiência nos campos de trabalhos forçados do stalinismo, considera que o bem e o mal se digladiam no coração de cada homem, em cada ato que o homem pratica. Não basta apenas que cada indivíduo faça uma única e definitiva escolha de que lado estará na refrega moral. Em cada passo que o homem dá, em cada decisão que toma sobre que rumo tomar, o homem confronta-se com a luta entre seus bons e maus instintos e o desenlace nunca é previsível, pois as circunstâncias mudam, os desejos e paixões são diferentes de um momento para o outro.

    Prezados leitores, quem poderá negar que a visão escatológica do zoroastrismo não influencia nossa cultura ainda que nem saibamos a origem histórica dela? A luta entre heróis e vilões em séries e filmes, as disputas entre figuras políticas polêmicas que tem seus seguidores e seus detratores, ambos ferozes na defesa e no ataque? Pois em 2022, não teremos no Brasil a luta entre o bem e o mal, representados por Lula e por Bolsonaro, a depender da opinião política de cada um?

    Por outro lado, uma pitada de Solzhenitsyn não faria mal ao nosso debate político. Nem monstros nem santos, cada homem é santo num momento e monstro no outro, de forma que os rótulos, as estigmatizações, como “hostes bolsonaristas” e “hostes lulistas”, “negacionistas”, “tiozão do pavê”, “petelhos”, “terraplanistas”, “comunistas” que se preparam para se digladiar neste ano servem mais para confundir do que para explicar. Os epítetos colados a um ou outro grupo fazem da disputa política uma luta entre o bem e o mal que não serve para solucionar problemas pois não permite consensos nem denominadores comuns, apensa visa a derrota do inimigo. Oxalá que o povo brasileiro saia desse belicismo insuflado pela mídia e as pesquisas eleitorais incessantes e saiba perceber que o buraco é mais embaixo do que o nós versus eles.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , , , , , , , | Leave a comment

Pecado e virtude

Isaías e Amós iniciaram, em uma época militarista, a exaltação daquelas virtudes de simplicidade e gentileza, de cooperação e amizade, que Jesus tornaria um elemento crucial do seu credo. Foram eles que, quando a Bíblia foi impressa na Europa, incendiaram a mente dos alemães com um cristianismo rejuvenescido e iluminaram a tocha da Reforma Protestante; foram suas virtudes ferozes e intolerantes que formaram os puritanos. Sua filosofia moral foi baseada na teoria que requer melhor comprovação – a de que o homem justo irá prosperar, e o homem mal será destruído; mas mesmo que isso seja uma ilusão é a fraqueza de uma mente nobre.

Trecho retirado do livro “Nossa Herança Oriental”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

 

Mas não devemos sucumbir à fantasia protestante secular da grandeza de que controlamos o sistema terrestre através de processos físicos desencadeados por nós e que podemos  ou devemos agora, generosamente, parar de fazê-lo. É normal que os seres vivos intervenham na natureza, mas é improvável que a própria natureza possa ser extinta. A própria natureza, a Mãe Terra, tão doce e tão-pseudo gentilmente invocada pelo movimento climático, cuidará de uma correção; nossa existência continuada como espécie animal está em suas mãos mais do que em nossas. Mas “culpa” e “apocalipse” não são categorias da história natural.

Trecho de artigo de Konstantin Sakkas, filósofo e historiador, intitulado Apocalipse Agora, publicado em 31 de dezembro de 2021

    Prezados leitores, na semana passada eu chamei a atenção para a comparação que Will Durant faz entre o método assírio de escolher seus governantes, assassinando os antigos e os substituindo pelos seus carrascos, e o método americano de escolher os governantes, por meio de eleições em que o poder corruptor do dinheiro determina em grande parte quem será o escolhido. Cada um deles tem suas vantagens e desvantagens, mas o fato é que o conhecimento do percurso histórico das civilizações oferecido por um livro como o de Durant permite-nos perceber a real dimensão dos nossos valores relativizando-os, e ao mesmo tempo perceber como eles são universais, isto é, como as nossas opções sobre a organização da sociedade e suas leis já foram tentadas em outras épocas e em outros lugares em que se enfrentaram os mesmos dilemas que nós enfrentamos.

    Pois se a violência política tem a vantagem de resolver de maneira rápida uma situação, permitindo que haja uma escolha clara por determinado caminho, os compromissos que a democracia representativa requer para que não haja violência e todos participarem do processo pode levar a um descrédito do processo pela corrupção que está geralmente associada às trocas de favores necessárias aos compromissos. Violência e eficácia, seguindo a prática dos assírios ou paz e tergiversação, seguindo a prática dos modernos ocidentais? Nesta semana, meu foco será nas comparações que Durant faz das práticas religiosas ao longo da história das civilizações e como isso pode lançar luz sobre nossas próprias escolhas no século XXI.

    Como mostra o trecho que abre este artigo, Will Durant nos fornece um retrato da religião judaica descrevendo as ideias de dois dos maiores profetas do Antigo Testamento, Amós, que morreu em 745 a.C., no reino de Judá, e Isaías (de 765 a.C. a 681 a.C.). A Palestina era então dividida, depois do reinado do rei Salomão (que teria durado de 966 a.C. a 926 a.C.), em dois reinos, o reino do norte, Israel, cuja capital era Samaria, e o reino do sul, Judá, cuja capital era Jerusalém. As disputas entre as várias tribos levam ao enfraquecimento da Palestina, que tem que enfrentar vários inimigos sucessivamente, os babilônios, os assírios, os egípcios e os persas e é nesse clima de incertezas e debilidade que Amós e Isaías apresentam ideias religiosas radicais.

    Para que o país pudesse ser unificado e pudesse fazer frente aos que tentavam destruí-lo, era preciso que a religião deixasse de ser uma prática ritualística de oferecimento de sacrifícios e de orações e se tornasse uma prática de virtudes, isto é, menos cobiça e avareza, menos crueldade com os fracos e menos opressão dos pobres com impostos, confiscos e trabalhos forçados. Só se os homens fossem justos em seus atos cotidianos é que Deus ficaria satisfeito, pois os rituais só serviam para enriquecer mercadores e sacerdotes. Se Deus ficasse feliz com o bom comportamento dos homens ELE os beneficiaria com paz e prosperidade. Se ele ficasse descontente com a insistência nos pecados, Deus castigaria os homens por não terem ouvido suas admoestações contra a soberba, a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça e lhes infligiria fome, escravidão, peste, exílio como justa paga das falhas morais.

    Pecado, mudança de comportamento, castigo pela incapacidade de mudar. Durant descreve como essa mudança de ênfase da religião em prol do conceito abstrato de justiça representa um passo à frente para indivíduos que rezavam e faziam sacrifícios para seus deuses para conquistar o favor das divindades e assim conseguir derrotar seus inimigos. Esse fervor dos profetas pela prática virtuosa acima de tudo foi retomado pelo Cristianismo e depois de séculos de institucionalização da Igreja Católica, que acabara se transformando em uma instituição muito mais política do que religiosa, pelos Protestantes. Estes denunciaram a corrupção moral dos membros da Igreja, focados que estavam no poder em detrimento do amor, da fé, da caridade e da esperança pregados por Jesus Cristo e pregaram a primazia da consciência individua na relação direta com Deus independentemente de intermediários que cobravam um alto preço pelos serviços.

    É neste ponto que extrapolo as comparações de Durant entre o fervor dos profetas do antigo Testamento e o fervor dos Protestantes e Puritanos para abordar o fervor dos arautos do apocalipse climático em pleno século XXI. O esquema de pensamento é o mesmo: o homem pecou ao explorar a Terra em demasia, ao submetê-la aos seus caprichos e as suas necessidades, em detrimento dos outros seres vivos. Se o homem continuar a pecar, o resultado será a mudança climática irreversível: o aquecimento da Terra e a inviabilização da vida como a conhecemos atualmente. A solução é o Homem emendar-se moralmente e agir de maneira ética para com a Natureza, restabelecendo o equilíbrio perdido.

    Conforme mostra Konstantin Sakkas em seu artigo, cujo trecho é transcrito acima e em que ele faz um breve percurso sobre os eventos cataclísmicos que moldaram a história da Terra ao longo de milhões de anos, a atividade do homem sem dúvida tem influência sobre a vida das plantas e dos animais. No entanto, isso não é suficiente para que pretendamos ter uma importância fundamental na história da vida da Terra de forma que possamos escolher preservá-la ou destruí-la. Nosso sentimento de culpa ou falta dele é irrelevante em face dos bilhões de anos do planeta azul, dos vários períodos de glaciação e de aquecimento já ocorridos muito antes que o Homo Sapiens estivesse no planeta, do tempo ínfimo em que nós atuamos em face da imensidão da história natural e das extinções em massa de seres vivos causadas por essa alternância de períodos. Em suma, sobrestimamos tanto nossa capacidade de destruir a natureza quanto nossa capacidade de regenerá-la por uma escolha do que é certo, porque ela tem seus próprios ritmos e complexidades, ditados por bilhões de anos de transformações.

    Em suma, esse fervor moralista de redenção dos pecados pela prática da virtude, que desde os grandes profetas do Antigo Testamento até a Reforma Protestante focava nas relações dos homens entre si, e de como elas poderiam ser melhoradas em prol da justiça, paz e harmonia, na era pós-cristã da civilização ocidental ficou como resquício da religião perdida transposto para as relações do Homem com a Natureza. O equilíbrio será restaurado quando os seres humanos passarem a ter um comportamento eticamente responsável com o meio ambiente e a Mãe Terra nos recompensará com bonança duradoura. No entanto, à luz da história da vida na Terra, será que Gaia se importa com nosso destino como o Deus da Bíblia se importa com o povo que o escolheu como a única divindade? Essa é a dúvida plantada pela descrição objetiva de Sakkas sobre a história do nosso planeta.

    O sangue da violência ou dinheiro da corrupção no campo da política, o pecado ou a virtude no campo religioso: conforme ensina Durant em sua História das Civilizações, os dilemas enfrentados ao longo das épocas tendem a repetir-se adaptando-se às circunstâncias de lugar e de tempo, mas sempre nos obrigando, enquanto seres sociais, a fazermos nossa opção coletiva em prol de como queremos organizar nossas relações mútuas. Mas não envolvamos Gaia: ela não tem nada a ver com nossas escolhas morais.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , , , , , , , , , , , , | Leave a comment

Entre o sangue e as moedas

A fraqueza das monarquias orientais estava relacionada ao seu vício na violência. Não somente as províncias assujeitadas revoltavam-se frequentemente, mas dentro do próprio palácio ou família real a violência vira e mexe tentava destruir o que a violência havia estabelecido e mantido. As nações do Oriente Próximo preferiam revoltas violentas a eleições corruptas, e sua forma de livrar-se de governantes indesejáveis era o assassinato.

Trecho retirado do livro “Nossa Herança Oriental”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

A mais medíocre democracia é preferível à mais perfeita ditadura, seja ela encabeçada por Pinochet ou Fidel Castro. Esta é minha bandeira e por isso defendo as imperfeitas democracias contra todas as ditaduras, sem exceção. […]Agora, o Chile acaba de celebrar eleições e, para mim, não há dúvida que, no momento presente, a maioria dos eleitores chilenos cometeu um grave equívoco.

Trecho retirado do artigo “Os ditadores e o erro do Chile”, do escritor peruano Mario Vargas Llosa

O Chile caiu e só resta o Brasil

Título da última live do ano de Rodrigo Constantino, economista e jornalista de direita brasileiro que mora nos Estados Unidos

    Prezados leitores, em sua descrição das civilizações que floresceram nas regiões que são atualmente conhecidas como a Ásia Menor e o Oriente Médio, Will Durant chama a atenção para o fato de que na conquista de um reino por outro, a destruição das obras arquitetônicas e artísticas, a profanação dos templos religiosos, a escravização e o assassinato de populações inteiras eram a regra. Babilônios, assírios, hititas, armênios, frígios, lídios, árabes, fenícios, sírios e judeus, ameaçados em suas fronteiras por povos nômades, recorriam ao derramamento do sangue dos inimigos como forma de vingar-se de injúrias passadas e de garantir a sobrevivência das suas próprias sociedades. As páginas de “Nossa Herança Oriental” estão recheadas de descrições do que era feito quando a batalha era ganha: pessoas eram queimadas vivas, incluindo crianças, ou eram escalpeladas ou tinham os olhos arrancados.

    Como é característico de um autor que, ao contar a história das diferentes civilizações, procura tirar lições sobre os pontos positivos e negativos de cada uma delas e fazer comparações com a própria civilização da qual ele fazia parte, o trecho que abre este humilde artigo contém uma nota irônica em relação ao modus operandi das monarquias orientais: eles preferiam a ruptura radical com o status quo, por meio do aniquilamento físico da sociedade anterior, incluindo seus recursos humanos, econômicos e artísticos, ao invés da escolha dos governantes por meio de eleições corruptas, influenciadas pelo dinheiro dos mais ricos, como era a praxe na democracia americana da década de 1930, época em que Durant lançou seu livro. A ironia contida na comparação entre o sangue derramado pelos déspotas orientais e o dinheiro distribuído pelos poderosos para eleger aqueles que serviriam seus interesses no regime democrático realça um problema enfrentado no Ocidente em pleno século XXI: a decepção dos eleitores com o sistema político e a rejeição à participação no processo, fenômeno exemplificado nas recentes eleições presidenciais no Chile, vencidas por Gabriel Boric contra José Antonio Kast. Em que pese o candidato da esquerda ter obtido no segundo turno 8,3 milhões de votos, um recorde no país, o fato é que no primeiro turno houve uma abstenção de 53%.

    Tais resultados mostram que todos os eleitores estão descontentes: a maioria não teve interesse em votar num primeiro momento e só o fez no último round da disputa para livrar-se de um candidato que muitos chilenos consideravam seria um desastre, no caso o advogado de 55 anos que era contra a imigração, contra o aborto e contra o casamento gay. O voto de 55,9% dos eleitores que compareceram às urnas em Boric não foi porque acreditavam particularmente em um deputado de 35 anos que ganhou proeminência ao liderar os protestos de 2019 em prol de uma ampliação dos direitos sociais, particularmente da educação, da saúde e da previdência. Afinal, se assim fosse, eles já teriam comparecido já no primeiro turno.

    Será que esse desinteresse se deve ao fato sugerido por Durant a respeito dos Estados Unidos de que o método de seleção por meio de eleições não escolhe os que representarão de fato os interesses do povo, mas os que recebem dinheiro para defender pautas particulares? Caso seja essa a percepção dos eleitores, qual será o efeito desse desencanto generalizado com a corrupção? Jogaremos a democracia pela janela e optaremos por soluções mais rápidas ou permaneceremos com ela a despeito dos seus defeitos, porque não há nada melhor?

    Há diferentes perspectivas a esse respeito. Mário Vargas Llosa, como bom liberal que é, faz uma opção radical pela democracia. Em seu artigo, citado acima, ele declara considerar um erro os chilenos elegerem uma pessoa sem experiência que pode fazer desandar a receita de sucesso econômico do Chile.  No entanto, o povo tem direito de errar e se Boric cometer erros o mesmo povo que o elegeu livrar-se-á dele nas próximas eleições, sem violência e sem traumas. Já expoentes da direita no Brasil, como Rodrigo Constantino, tem uma visão menos otimista do processo democrático na América Latina.

    Na sua live natalina, o jornalista e economista radicado nos Estados Unidos desde a reeleição de Dilma Rousseff em 2014, manifesta a opinião de que a desigualdade social e as características culturais do povo fazem com que a democracia ofereça surpresas desagradáveis aqui em nossas terras, fazendo com que esquerdistas que têm como foco fazer justiça social transferindo renda dos que produzem para os que não produzem sejam eleitos, impedindo o desenvolvimento saudável do capitalismo. Ele é categórico em dizer que o Chile vai certamente piorar, em que pese vislumbrar a possibilidade de que não seja tão ruim quanto se pode supor pelo perfil esquerdista de Gustavo Boric. Tanto assim que Constantino recomenda aos chilenos de terem um plano B de emigrar se a vida sob Boric tornar-se insuportável pelo peso da sanha redistributiva.

    Qual a saída para que a democracia permaneça como o regime vigente em países com grandes disparidades sociais e econômicas como ocorre na América Latina? Que os candidatos de esquerda ou direita esqueçam os ideais que inspiram seus eleitores a votar neles e quando se elejam governem de maneira a contemporizar com os diferentes interesses ou favorecer os interesses dos que têm influência econômica para manter o status quo? Ou as polarizações ideológicas serão cada vez mais intensas de modo que o homem da esquerda ou da direita eleito que trair sua base eleitoral será deposto violentamente como vingança tanto pelo grupo antagônico quanto pelo grupo de fiéis decepcionados com sua atuação?

    Enfim, o dilema colocado por Durant na sua caracterização das engrenagens do poder na Ásia Menor e no Oriente Médio há três mil anos repete-se agora. A opção entre a ditadura e a democracia, entre o sangue da violência e as moedas que lubrificam o sistema de troca de favores que caracterizam sistemas políticos como a democracia, em que a contemporização faz parte do jogo, está sempre colocada, seja como ameaça, seja como esperança. Quem acredita em determinados princípios sobre a organização da sociedade o toma lá dá cá democrático é asqueroso. Quem acredita mais na caminhada do que no fim dela, a democracia é cheia de percalços e moedas, mas este é o preço a pagar para que seu caminho não tenha uma gota de sangue.

Categories: Politica | Tags: , , , , , , , , , , , , | Leave a comment