Felicidade para quê?

A razão não é um “princípio ou uma faculdade independente”, “não tendo nenhuma tendência de nos estimular à ação; de maneira prática ela é simplesmente uma comparação de diferentes sentimentos. A razão … é calculada para regular nossa conduta de acordo com o valor comparativo que ela atribui a diferentes tipos de excitação” ou impulsos. “A moralidade nada mais é do que um cálculo das consequências,” incluindo as consequências para o grupo.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre o pensamento do filósofo e jornalista inglês William Godwin (1756-1836)

 

Existem em Paris muitas mulheres que, semelhantes à condessa Ferraud, vivem com um monstro moral dentro de si, ou ficam lado a lado com o abismo; elas fazem do lugar do mal um calo e ainda conseguem rir dele e se divertir com ele.

Trecho retirado do livro “Colonel Chabert”, do escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850)

 

Prezados leitores, a Batalha de Eylau, travada entre o exército francês de um lado e os exércitos russo e prussiano de outro, é considerada como uma grande carnificina em que o general francês Joaquim Murat (1767-1815) avançou com seus 10.000 cavaleiros sobre os russos, perdendo 1500 dentre eles. No total houve ao redor de 25.000 feridos e 15.000 mortos na batalha travada no que era então a Prússia Oriental. Entre os cavaleiros relacionados como mortos, está Hyacinthe, dito Chabert, marechal de campo e Grande-Oficial da Legião de Honra que comandava um regimento de cavalaria.

Sua esposa, Rose Chapotel, herda os bens do marido e uma polpuda pensão condizente com a patente militar daquele que era um dos queridos de Napoleão e casa-se com o conde Ferraud, com quem tem dois filhos. Ladina para os negócios, a condessa Ferraud multiplica seu patrimônio, enquanto o segundo marido sonha em ser nomeado para a Câmara dos Pares, criada pelo rei Luís XVIII (1755-1815). Para isso ele quer se livrar da esposa que não é mais conveniente para suas ambições políticas e casar com a filha de algum senador. Mas, por enquanto, Rose continua condessa, desfrutando do luxo proporcionado por seu dinheiro e do status social proporcionado pelo esposo aristocrata.

A situação muda com a chegada de um morto-vivo, seu marido que escapa da morte por ficar debaixo do seu cavalo e perambula por 10 anos, vivendo praticamente como um mendigo e tentando retomar o que é seu por direito. Suas cartas à esposa foram ignoradas durante todo esse tempo, mas Chabert acaba encontrando um advogado que acredita na história dele e consegue reunir a documentação necessária para provar que ele está vivo e para anular o óbito. Mais importante do que isso, Deville consegue descobrir o ponto fraco da mulher, que quer a todo custo ficar casada com o conde, mas sabe que este está ávido por encontrar um meio de se livrar dela dignamente. A volta do primeiro marido legítimo seria um meio perfeito.

É esse o monstro moral mencionado na abertura deste artigo. A fachada respeitável e feliz de Rose esconde o medo de o segundo marido repudiá-la sob qualquer pretexto e o medo de que sua vida pregressa de mulher de um militar do exército napoleônico venha à tona, em pleno período de restauração da monarquia dos Bourbon na França. Deville explora muito bem esses fantasmas em sua conversa com a condessa, convencendo-a a transacionar com o marido, isto é, concordando em dar-lhe algum dinheiro em troca do seu silêncio.

Deville então marca um encontro com Hyacinthe e Rose em seu escritório. A ideia é que ele sirva de mediador entre os dois, que ficarão em locais separados para viabilizar a transação. Deville propõe condições a Rose e ela diz se aceita ou não. Ao final, Deville espera que o casal chegue a um acordo satisfatório para ambos a respeito do dinheiro, de modo que Chabert possa viver sem passar por necessidades materiais, como tem ocorrido há anos e que a condessa continue sua vida glamourosa sem atropelos.

Plano sensato do advogado este de colocá-los apartados para não haver interferências emocionais em uma troca que deve ficar no mundo dos negócios para que ambas as partes saiam materialmente satisfeitas. E no entanto, Chabert não se contém: o desejo de conseguir o dinheiro da forma mais viável, que é a de arrancar uma concessão da mulher, ao invés de lançar-se em um processo judicial custoso, longo e de resultado incerto, coexiste com sua mágoa, seu despeito de a mulher estar rica e feliz sem ele, com outro homem, e ele ser um velho alquebrado com a cabeça marcada por uma grande cicatriz. Chabert entra na sala onde está Rose e a confronta, fazendo desandar as negociações.

O comportamento de Chabert ilustra a natureza da razão exposta pelo filósofo inglês William Godwin em seu livro intitulado  “Enquiry Concerning Political Justice and Its Influence on General Virtue and Happiness”. Conforme o trecho que abre este artigo, ela não existe como um princípio em abstrato, com uma vida independente. Ela na verdade serve para fazer uma ponderação sobre nossos diferentes desejos e inclinações e tomar uma decisão sobre como agir. Nesse sentido, a moralidade atua calculando as consequências de tal ou qual curso de ação. Para Godwin a moralidade é a ciência da felicidade humana: ela une o indivíduo ao grupo, criando estímulos para nos convencer, após essa ponderação das diferentes tendências, a atuar da maneira que melhor beneficia todos, pois uma das premissas da moral de Godwin é que não existe maior felicidade para o homem do que contribuir para a felicidade dos outros.

Godwin acredita na possibilidade de aperfeiçoamento da humanidade e isso só será possível pela educação individual: cada pessoa, alargando seu conhecimento e seu campo de visão, terá bases cada vez mais sólidas para considerar as diferentes inclinações que carrega dentro de si, colocando-as em perspectiva, relativizando-as e estabelecendo sua importância no contexto geral. Assim, a educação permitirá que a razão esteja mais bem equipada para fazer as ponderações necessárias sobre as consequências de determinada ação para o indivíduo e para o grupo, levando-o a tomar decisões cada vez mais acertadas, isto é, que tragam felicidade ao mesmo tempo para ele e para a sociedade como um todo.

Prezados leitores, hoje esquecido, em sua época William Godwin foi o mais influente filósofo inglês de sua geração. Se Chabert tivesse seguido sua receita da felicidade, ele teria percebido, depois de ponderar os prós e os contras de um acerto com a mulher, que o melhor a fazer era transigir, a despeito de todo o ressentimento que nutria por uma ingrata que usufruiu por anos de seu dinheiro e se recusou repetidamente a reconhecer que ele não morrera. Transigindo ele conseguiria um módico de felicidade para si, porque teria meios materiais para sustentar-se e para a esposa, que poderia seguir a vida que ela escolhera. E como ensinou Godwin, no final das contas, a felicidade só existe se for compartilhada, se a felicidade de um é a felicidade de todos. Este é o caminho da utopia de Godwin, que acabou sendo apagado pelas areias do tempo.

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Mídias sociais para quê?

Enquanto Orwell teme uma sociedade controlada pela falta de informação, Huxley desconfia de uma sociedade em que o excesso de diversão e de informações insignificantes leva à passividade.

Trecho do podcast “Voix Philosophiques” comentando as ideais do educador americano Neil Postman (1931-2003) veiculados em seu livro “Amusing Ourselves to Death” de 1985

Huxley mostrava uma sociedade do futuro em que a tecnologia reinava suprema, mantendo a humanidade em conforto físico sem conhecimento de nenhuma necessidade e de nenhuma dor, mas também sem liberdade, beleza ou criatividade, e privada a todo momento de uma experiência pessoal única.

Trecho do verbete “Concepções da tecnologia” da edição de 1975 da Enciclopédia Britânica

    Prezados leitores, felizmente as festas de fim de ano se foram. Não é preciso mais mandar mensagens de Feliz Natal e Feliz Ano Novo para ninguém e nem responder às mensagens ou criar algum cartão digital com sua foto e suas felicitações. Em um dos grupos do qual participo no WhatsApp, um dos membros postou uma mensagem budista em inglês. Ela quis ser original e refinada, mas a mensagem era tão longa que nem li. Também não assisto aos vídeos com palavras edificantes sobre o significado do novo ano e sobre a importância dos verdadeiros sentimentos e das verdadeiras riquezas, que claro, não são nunca os presentes trocados nesta época do ano, mas o amor, a amizade, a espiritualidade.

    Não importa que as pessoas que repetem esse blá blá blá todo muitas vezes lembrem do recipiente da mensagem apenas uma vez por ano. O importante é a maravilhosa intenção de se comunicar, de estabelecer o contato virtual, que cada vez mais substitui o contato físico das pessoas. Todo esse conteúdo transmitido em dezembro, cheio de clichês e de boas intenções toma um tempo enorme daqueles que criam e daqueles que recebem as mensagens. Quem não responde é grosso e indelicado. É preciso gravar um áudio, escrever alguma coisa para mostrar-se pertencente à mesma comunidade digital de arautos de todas as virtudes possíveis que possam ser expressas em palavras. Admirável mundo novo, em que as relações humanas são não só mediadas como viabilizadas pela tecnologia e por isso viram um simulacro.

    Admirável mundo novo é o nome do livro do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), que em pleno século XX mostrou-se profético sobre o lado negro da tecnologia. Conforme o trecho que abre este artigo, a tecnologia possibilitaria ao homem satisfazer suas necessidades físicas ao ponto de fazê-lo atingir um máximo de bem-estar material, isto é, estaria sempre aquecido, bem nutrido e livre de doenças. Ao mesmo tempo, a criação dessa zona de conforto permanente levaria a um embotamento dos sentidos e da consciência, pois privaria o ser humano da motivação para criar e atingir a transcendência como maneira de escapar de uma realidade material miserável. Para Huxley, a arte, a religião, a literatura, a ética eram todos empreendimentos que nasciam da insatisfação do homem com sua vida tal como ela era. Em não havendo motivo de queixa a respeito de uma vida confortável e tranquila, não haveria por que buscar alguma realização intelectual, estética ou moral.

    É por essa visão do que a tecnologia poderia proporcionar ao homem em termos de prazer material que Neil Postman considera Aldous Huxley muito mais relevante para explicar o mundo moderno do que George Orwell (1903-1950), o escritor inglês autor de 1984. Em seu livro sobre uma distopia totalitária em que a língua oficial, INGSOC, tem um vocabulário limitado para inviabilizar o pensamento das pessoas, George Orwell alertou sobre o perigo do totalitarismo. Privado de informações sobre a realidade e privado do instrumento do raciocínio pela imposição da INGSOC, o homem se torna incapaz de resistir à opressão do BIG BROTHER, que está sempre vigiando seus passos, controlando o que ele fala e faz.

    Ao contrário, na distopia hedonista mostrada em Admirável Mundo Novo, o controle é exercido não pela privação, mas pela abundância. Conforme o trecho que abre este artigo, a tecnologia proporciona uma abundância de prazeres e de informações ao ponto de levar o indivíduo à indiferença, pois o excesso prejudica a capacidade de discernimento, de separar o que é importante do que é irrelevante. Se tudo dá prazer, conforto e estamos sempre cientes de tudo porque nada nos é negado no mundo material então nada tem valor. Nesse sentido, Postman considera o alerta dado por uHuxleyHuxley sobre o uso da tecnologia para nos saciar mais premonitório da era da comunicação em massa e dos seus efeitos sobre a decadência cultural e civilizacional do que o alerta dado por George Orwell sobre o uso da tecnologia para nos reprimir.

    A história do século XX mostrou que o totalitarismo à la BIG BROTHER acaba desmoronando porque mais cedo ou mais tarde a realidade bate à porta dos regimes que procuram escondê-la, no caso a riqueza proporcionada pelo capitalismo de mercado em contraposição à escassez de bens de consumo proporcionada pelo socialismo. A história do século XXI tem mostrado até agora, por enquanto, que o excesso de prazeres e de informação acaba tirando o valor de tudo e nivelando tudo por baixo. As mensagens se tornam clichês, o conteúdo veiculado carece de sentido porque é repetido à exaustão e o mais importante é prender a atenção do receptor, fazê-lo rir ou chorar por uns instantes, entretê-lo, mais do que informá-lo de alguma maneira significativa, isto é, que o leve à ação.

    Os cortes de Pablo Marçal, produzidos intensamente na eleição à prefeitura de São Paulo em 2024 e que quase levaram o candidato ao segundo turno, são evidência desse mínimo denominador comum: já que nenhuma proposta política é séria no sentido de ser passível de implementação na prática, basta criar factóides a serem consumidos nas mídias sociais, como um insulto farsesco, uma cadeirada, um tapa na cara para sobressair-se e convencer o eleitor.

    Prezados leitores, Aldous Huxley previu que o homem iria chafurdar nos excessos proporcionados pela tecnologia. Aproveitemos os vídeos do TikTok, as mensagens inspiradoras, os desenhos engraçados para nos entretermos e vivermos o presente, porque nesse admirável mundo novo o amanhã é uma quimera e não tem valor nenhum. Sejamos felizes e se todos os vídeos, mensagens e desenhos forem destruídos por uma hecatombe nuclear ou por um meteorito, o que importa se não deixarmos traço da nossa presença na Terra? Com ou sem cultura, com ou sem legado civilizacional, o importante é que comemos bem, não passamos frio e passamos o tempo agradavelmente de olho na tela do celular.

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Empoderamento para quê?

“Vindication” então relacionava algumas falhas das mulheres daquela época: a afetação de fraqueza e de timidez, que alimenta e satisfaz a premissa masculina da sua superioridade; o vício nas cartas, na fofoca, na astrologia, na sentimentalidade e no lixo literário; a obsessão com a indumentártia e a autoadmiração.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon” escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), falando sobre as ideias contidas no livro “A Vindication of the Rights of Woman” da escritora e filósofa inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797)

 

E eu não podia deixar de pensar em seu modo de vida: uma esposa de quarenta anos para a cozinha, uma de quinze para outras coisas… sem dúvida ele tinha uma ou duas esposas de idade intermediária, mas eu me sentia mal em lhe perguntar.

Trecho retirado do livro “Soumission” do escritor francês Michel Houellebecq (1956- ), em que o narrador descreve sua visita à residência de um professor universitário belga convertido ao islamismo

    Prezados leitores, em algum ano do século XXI, Mohammed Ben Abbes, o candidato da Federação Muçulmana, é eleito presidente da França no segundo turno com apoio do Partido Socialista. No período imediatamente posterior a sua eleição, a Universidade Paris III (Sorbonne Nouvelle), onde o narrador de Soumission trabalha como professor, é fechada. Depois de algum tempo, a universidade é reaberta sob nova direção, dos sauditas, e passa a chamar-se Paris-Sorbonne. O narrador é desligado e começa a receber uma aposentadoria, que é suficiente para ele viver com um certo conforto.

    A situação prossegue assim até que ele é convidado por um professor que atualmente está trabalhando na universidade, Robert Reginger, a visitá-lo em sua casa. O objetivo de Reginger é convencer o narrador a voltar a ensinar na universidade, desde que ele se converta ao Islã. Os argumentos de Reginger em prol da existência de um deus pelo fato de o mundo apresentar evidências de um desenho inteligente não produzem um grande efeito no narrador, que em suas férias forçadas tentara em vão ter contato com o cristianismo visitando a abadia de Ligugé, fundada em 361.

     O que o impressiona mesmo no islamismo não é a teologia, mas a poligamia. Conforme o trecho que abre este artigo, o narrador nota que o professor universitário belga tem várias esposas, uma mais velha que cozinha muito bem, como o narrador pôde constatar, uma bem nova para manter acesa a paixão sexual. O narrador fica curioso em saber se Reginger tem outras esposas nem tão novas quanto a de 15 nem tão velhas como a de 40 para satisfazer outras de suas necessidades. Ter acesso a diferentes tipos de mulheres por meio da poligamia é certamente atraente a um homem como o narrador, que vive sozinho e não mais consegue mulheres a não ser pagando.

    Esta aí um sucesso dos homens: fazer as mulheres atenderem suas necessidades e institucionalizar isso através da religião, dando-lhe uma pátina moral pelo casamento, seja monogâmico ou poligâmico. No século XVIII na Inglaterra, uma mulher percebeu o modo como os homens conseguem isso moldando a mente das mulheres. Para Mary Wollstonecraft, os homens levam as mulheres, ao privá-las da educação que eles recebiam, a ver-se como brinquedos sexuais antes do casamento e como bibelôs, servas obedientes e máquinas de parir depois do casamento.

    Sem educação, as mulheres agem nos limites dos estereótipos cultivados pelos homens para sua satisfação. Conforme o trecho que abre este artigo, elas se mostram fracas e tímidas para reforçar o ego masculino e preenchem a mente com todo tipo de bobagem que as torna incapazes de pensar e de atuar de maneira independente no mundo. Sua única preocupação é a de embelezar-se e admirar-se no espelho, tornando-se assim atraentes o suficiente para fisgar um homem que as sustente e a de agradá-lo o mais longamente possível para que ele continue a sustentá-la.

    Mary Wollstonecraft considerava que essas fraquezas das mulheres, tanto do ponto de vista intelectual quanto de conduta, podiam ser resolvidas pela educação. Se às mulheres fosse dada a mesma chance de desenvolver o corpo e o espírito, elas se tornariam fortes fisicamente e competentes intelectualmente para ganharem sua própria vida e assim fugir dos estereótipos de fraqueza física, docilidade e incapacidade mental a que elas eram circunscritas. Enfim, a escritora e filósofa inglesa, que acabou morrendo de parto antes de completar 40 anos, era uma filha do Iluminismo, crente no poder do conhecimento e da razão para resolver os problemas da humanidade. Contra a opressão feminina pelos homens, contra a falta de liberdade das mulheres de gerir seu próprio destino, nada melhor do que colocá-las nas escolas ao lado dos homens.

    Considerando que, segundo a revista Forbes, a indústria da beleza movimentou 570 bilhões de dólares em 2023 no mundo todo e que se espera que ela cresça 8,4% ao ano até 2028, não parece que as mulheres tenham abandonado de todo a preocupação em mostrar-se atraentes fisicamente para serem objeto do desejo sexual masculino. Mesmo num país como os Estados Unidos, em que, segundo a mesma revista, 58% dos estudantes universitários são mulheres, as vendas de cosméticos e outros produtos de beleza atingiram 94 bilhões de dólares em 2023. Em suma, a educação tão ardentemente proposta por Mary Wollstonecraft, que mudaria a natureza feminina, talvez tenha simplesmente dado mais poder às mulheres para perseguir seus ideais de beleza. E a astrologia e a fofoca, por acaso desapareceram? Ou foram reciclados nas mídias sociais?

    Prezados leitores, talvez o verdadeiro empoderamento não esteja na possibilidade de destruir os estereótipos e construir uma nova mulher, como vislumbrava Mary Wollstonecraft, uma mulher de classe média que tinha condições materiais suficientes para devanear sobre outros mundos possíveis. Talvez o empoderamento seja simplesmente poder escolher entre as várias opções disponíveis. Quem quiser e puder ser símbolo sexual, ok, quem quiser arranjar um bom marido com poder de compra, vá em frente e quem quiser andar com as próprias pernas sempre, correndo o risco de ficar sozinha, sem problemas. Menos problema ainda terá uma mulher que reúna todas essas características. Nesse sentido, o empoderamento feminino serve para que toda e qualquer mulher, independentemente de seu peso, beleza, inteligência, classe social ou caráter moral tenha a oportunidade de perseguir sua própria felicidade no século XXI. A não ser claro, que o livro de Michel Houellebecq se revele uma profecia sinistra…

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Palavras para quê?

A edição 2024 da mais completa e aprofundada pesquisa sobre os hábitos de leitura do brasileiro foi lançada nesta terça (19) com a informação de que nos últimos quatro anos houve uma redução de 6,7 milhões de leitores no país. Pela primeira vez na série histórica da pesquisa, a proporção de não-leitores é maior do que a de leitores na população brasileira: 53% das pessoas não leram nem parte de um livro – impresso ou digital – de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos, nos três meses anteriores à pesquisa.

Trecho retirado do artigo “Mais da metade dos brasileiros não lê livros”, aponta pesquisa, publicado no site da Câmara Brasileira do Livro sobre a 6ª Edição da Pesquisa Retratos da Leitura

Senhor Inspetor, a cabeça de um escritor talvez seja diferente das cabeças que o senhor está acostumado a vasculhar. Para um escritor, a palavra escrita é a realidade. […] Nós, escritores, trabalhamos bem com estereótipos verbais, a realidade só existe se houver uma palavra que a defina.

Trecho retirado do romance Bufo & Spalllanzani, do escritor Rubem Fonseca (1925-2020)

Mais preciso do que Roscelin, ele observava que predicamos uma palavra não como uma ocorrência, mas como tendo significado. Os universais surgem das semelhanças entre as coisas, mas uma semelhança não é em si uma coisa, como o realismo suponha de maneira equivocada.

Trecho retirado do livro “The Wisdom of the West”, do filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970), discorrendo sobre as ideias de Pierre Abélard (1079-1142), teólogo e filósofo escolástico francês

A literatura atesta assim a realidade social e econômica por refração e por metáfora, registrando as repercussões dos acontecimentos históricos e dos grandes problemas sociais em um nível individual e mítico: é a maneira pela qual o testemunho literário vive e não se cristaliza como ideologia, isto é, como um esquema morto.

Trecho retirado do livro “La Utopía Arcaica”, do escritor peruano Mario Vargas Llosa (1936-)

    Prezados leitores, vocês conhecem a história de Abelardo e Heloísa? Professor em Paris, Abelardo dava aulas para a sobrinha do cônego Fulbert, vigário geral da Catedral de Notre Dame. Heloísa de Argenteuil (1090-1164) tinha 17 anos e seu professor era 20 anos mais velho. Pintou um clima entre os dois, que levou à consumação sexual e à gravidez de Heloísa. Conta a história que o tio da moça,  enfurecido, mandou castrar Abelardo e ordenou os dois a se recolherem em instituições religiosas. Heloísa teve um filho, Astrolábio (116-1171), tornando-se posteriormente abadessa do convento de Argenteuil. Abelardo tornou-se monge e continuou a dar aulas. Aparentemente nunca mais se viram, mas continuaram a trocar cartas, que hoje podem ser lidas. O quanto e em que partes foram adulteradas ninguém pode dizer com certeza. De qualquer forma, elas eternizam uma trágica história de amor.

    A razão por que menciono o casal francês da Idade Média é que Abelardo tomou parte em uma das principais polêmicas filosóficas da época, a disputa entre nominalistas e realistas. Seguindo o idealismo de Platão, os realistas defendiam que os universais, isto é, os termos gerais que representavam uma recorrência ou um princípio de agrupamento ou classificação, eram coisas. Já os nominalistas, invocando Aristóteles, postulavam que os universais eram simplesmente nomes. Conforme o trecho que abre este artigo, Abelardo filiava-se à corrente dos nominallstas: os universais expressam as semelhanças entre as coisas, mas não são coisas, os referentes desses termos gerais não existem no mundo exterior, apenas como conceitos mentais que ajudam o homem a entender o mundo. O que existe na realidade são coisas das quais extraímos características comuns, abstraindo a miríade de características individuais delas.

    À luz dessa explicação, fica mais fácil entender as palavras de Ivan Canabrava ditas ao inspetor Guedes, que investiga a morte de Delfina Delamare no livro Bufo & Spallanzani, citado na abertura deste artigo e escrito por Rubem Fonseca, ele próprio um policial na década de 1950 no Rio de Janeiro. Para um escritor, a palavra escrita é a realidade no sentido de que esta só se torna inteligível, isto é, presente na mente do indivíduo, se ela for classificada, categorizada, enquadrada, definida por uma palavra, do contrário, ela é um mero borrão, uma sombra indistinta, não perceptível pelo homem. Independentemente se a palavra é a coisa em si ou um conceito mental, ela presentifica a realidade para aquele que a utiliza, torna a realidade mais nítida, clara, livre dos infinitos detalhes que confundem e não explicam nada, como diria o outro Abelardo, o Barbosa, dito Chacrinha (1917-1988), cujo bordão era “eu vim para confundir, não para explicar”.

    Se o escritor usa a palavra para presentificar a realidade na sua mente, a palavra acaba substituindo a realidade. A palavra não é só usada para entender a realidade, mas para criar um mundo paralelo, daí que ela ascende à condição de mito, conforme explica Mario Vargas Llosa no trecho que abre este artigo. A literatura, palavra escrita, é antes de tudo uma narrativa mítica, uma história fictícia que em sendo inventada na mente do escritor descola-se da realidade social e econômica que lhe serviu de inspiração. Para o escritor peruano, se o literato permanecer muito preocupado em ser fiel à realidade social e econômica, atentando para todas as suas particularidades, ele vai se tornar um ideólogo, isto é um veiculador de ideias sobre como ele vê a realidade. A verdadeira literatura não explica a realidade, mesmo porque ela não consegue abarcá-la em sua totalidade, ela tece uma narrativa totalmente independente do mundo das coisas. Tal narrativa cria sua própria teia de significados pela relação das palavras entre si, o que acaba iluminando aquela realidade da qual ela se desprendeu, mostrando-a sob um novo prisma.

    Entendimento e desprendimento da realidade, logos e mito, a literatura, veiculada pelos livros, nos faz mais alertas sobre o mundo que nos cerca e ao mesmo tempo nos permite sonhar com outros mundos possíveis. Uma pena que nós, brasileiros, não atentemos para a utilidade dupla da literatura. Conforme o artigo citado na abertura deste artigo, nos últimos quatro anos houve uma diminuição no número de leitores entre os brasileiros alfabetizados, fato constatado pela pesquisa realizada em 208 municípios. O resultado parece mostrar que nós consideramos a palavra escrita enfadonha e ininteligível, independentemente do meio em que seja veiculada, digital ou físico.

    Prezados leitores, de Abelardo na França do século XI, ao Ivan Canabrava do século XX no Rio de Janeiro, passando por Vargas Llosa no Peru, todos celebraram a palavra em suas múltiplas dimensões, cognitiva, mítica, sensorial e por aí vai. Coisa ou construto mental, realidade ou ficção, ela é a nossa janela para o mundo, nosso meio de interface com ele. Oxalá que o ser humano possa explorar essa ferramenta até o final do nosso percurso na Terra, mesmo que não seja no Brasil, mas alhures. Nossa saúde mental e espiritual agradece.

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O que queremos?

Como a maior parte dos homens de negócios, ele não tinha respeito nenhum sobre pessoas que escreviam sobre economia ou sobre o governo; ele os considerava frasistas que tinham pouco do senso corretivo da realidade, ou da natureza e dos limites do homem. Ele tinha certeza de saber mais do que eles o que queria a população francesa e o que ela deveria ter: eficiência e integridade no governo, moderação dos impostos, livre iniciativa nos negócios, regularidade do provisionamento, segurança de emprego remunerado na indústria, propriedade campesina e um lugar de destaque para a França no concerto das nações; se isso fosse dado a eles as pessoas não insistiriam em determinar as medidas ou preencher cargos pela contagem de narizes depois de uma disputa verbal.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias que Napoleão Bonaparte (1769-1821), imperador da França de 1804 a 1814, tinha sobre a necessidade da censura.

Ele havia lido e aceito os princípios de governo de Maquiavel, sem sentir um amor comparável ao do filósofo florentino por seu país. A França não era realmente sua pátria, era apenas seu trampolim. A religião não era para ele a humilde aceitação de um ser supremo, mas um instrumento para a conquista do poder. Homens e mulheres não eram seres dotados de alma, mas instrumentos. Ele não era sanguinário, mas sempre indiferente à carnificina da vitória. Ele tinha a brutalidade de um condottiere, nunca os modos de um cavalheiro. E esse indivíduo vulgar e coroado arrogava-se juiz e censor do pensamento e de todas as manifestações orais, da imprensa, que era o último refúgio da liberdade, e dos salões, que eram cidadelas do livre pensamento da França.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as opiniões da escritora francesa Madame de Stael (1766-1817) sobre a personalidade de Napoleão Bonaparte (1769-1821).

    Prezados leitores, permitam-me relatar um episódio ocorrido comigo há vinte dias. Estava caminhando na rua, à noite, escutando música no meu aparelho celular quando de repente um ciclista veio, tomou-o e foi embora. Seguiram-se os passos esperados de uma vítima: correr para casa para bloquear o aparelho, ligar para o SAC do banco para bloquear senhas. Sabendo da localização do celular, desci à rua, parei uma viatura de polícia e disse a eles onde ele estava. Disseram que iriam passar por lá. Não sei se passaram.

    O engraçado é a reação quase unânime das pessoas quando ouvem sua história: é a de, com mais ou menos delicadeza, alertar sobre a imprudência de usar o celular na rua. Ou seja, a premissa básica em nossa sociedade é que o erro é seu se você ignora o fato de que um celular nas orelhas de um indivíduo na calçada será alvo de furto porque é assim que são as coisas nas grandes cidades brasileiras. O celular é um dispositivo concebido para facilitar a vida das pessoas, inclusive como instrumento de trabalho, mas na prática devido à violência ele deve ser usado dentro de casa ou do escritório, como o bom e velho telefone fixo. Por quê? Ora, porque há gangues de ciclistas e motociclistas atuando impunemente, há redes de receptadores de mercadorias roubadas ou furtadas e há um poder governamental que considera isso banal, a ponto de não dar prioridade ao combate a essa teia de criminalidade.

    Desculpem meu solipsismo. Certo, não sofri violência física, não levei um tiro na cabeça, não fui sequestrada nem estuprada. A subtração de celulares, perto dos outros problemas de segurança que existem em nosso país, é um assunto desimportante. E no entanto, a certeza de que se eu usar novamente o aparelho na rua correrei o mesmo risco me encheu de desânimo e raiva. Fiquei lembrando de que na campanha para a prefeitura, alguns candidatos falaram da questão dos celulares e propuseram medidas.

    O fato é que não há a mínima possibilidade de eu, como cidadã, exigir que alguma providência seja tomada. Posso votar nas próximas eleições no candidato da oposição que aborde o problema. Mas se ele ganhar e não fizer nada? Espero quatro anos para votar em outro candidato e vou alternando as escolhas até eleger um candidato que cumpra promessas? E se nenhum dos eleitos cumpre promessa nenhuma, o que fazer? Conformar-se com a mediocridade e incompetência e seguir em frente, lembrando sempre de jamais tirar o celular da bolsa estando na rua? Quero segurança e não tenho, mas tenho o direito de votar a cada dois anos no Brasil para cargos no Executivo e no Legislativo. De que me serve poder votar? É pecado priorizar a segurança em detrimento da liberdade?

    Napoleão Bonaparte tinha uma resposta definitiva a essa questão, conforme o trecho que abre este artigo. A maioria das pessoas quer ter emprego, quer que o governo seja eficiente e cumpra suas obrigações, quer poder ser proprietário, quer pagar a menor quantidade de impostos possível. Se as pessoas têm acesso a isso, elas não farão questão de ter o direito de escolher representantes e de ter sua voz ouvida em algum parlamento. Quem faz questão de discutir ideias são intelectuais que constroem castelos no ar em termos de sistemas econômicos, sociais e políticos sem levarem em conta a natureza humana, mesmo porque eles normalmente não têm experiência sobre as durezas da vida.

    Daí por que Napoleão se achava no direito de impor censura e concentrar o poder em suas mãos. Se ele sabia como administrar porque tinha conhecimento e experiência por que dar liberdade de expressão para que intelectuais usassem a imprensa como instrumento de crítica ao governo? Por que permitir críticas que desestabilizassem a ordem dominante e trouxessem o risco do caos que havia reinado durante a Revolução Francesa (1789-1799)? Melhor seria censurar para evitar problemas e dar plenas condições ao Imperador realizar sua obra prima, oferecendo paz, segurança e prosperidade aos franceses.

    Não era assim que pensava Madame de Stael, nascida Germaine Necker, filha de Jacques Necker (1732-1804), antigo Ministro das Finanças de Luís XVI. Entre a segurança e a liberdade, a escritora, herdeira da fortuna do seu pai banqueiro, apostava na liberdade de pensamento, mesmo porque Napoleão não era um líder perfeito, ao contrário, ele tinha vários defeitos. Conforme o trecho que abre este artigo, para Madame de Stael ele não seguia nenhum princípio moral, fazendo uso de todos os meios para realizar seus sonhos de poder e glória, inclusive à custa de milhares de vidas. O acordo com a Igreja Católica nada mais fora do que um estratagema para controlar o comportamento das pessoas e tornar o governo mais fácil, pois Napoleão era certamente um agnóstico. Diante de um homem vaidoso que tinha uma autoconfiança muito grande e não sabia quando parar, era preciso ter a liberdade de criticá-lo para que seu comportamento pudesse ser controlado e os franceses não fossem sacrificados no altar das suas conquistas militares.

    Alguns dirão que quando se tem a barriga cheia, e a certeza de que ela permanecerá assim por muito tempo, a liberdade de pensamento e de expressão tem muito mais importância do que para um camponês ou um trabalhador cuja vida era muito mais incerta e perigosa. Napoleão era o homem da segurança material e espiritual, mas ao mesmo tempo era um tirano opressor que não aceitava ser contrariado porque se achava mais inteligente e sábio do que todos. Enquanto seu governo proporcionasse meios de subsistência à maioria silenciosa, ela não se preocuparia com firulas libertárias e o valor da segurança era muito maior que o da liberdade. Só se a segurança fosse ameaçada por derrotas militares é que essa maioria iria prestar atenção à liberdade como direito de livrar-se de um governante que se transformara em um estorvo.

    Prezados leitores, está aí um osso duro de doer em termos de escolha moral. Gozo da liberdade de escrever e publicar meus humildes artigos na internet e ao mesmo tempo não gozo do direito de poder utilizar um celular na rua. O ideal seria que o problema das gangues de ciclistas fosse resolvido por um dos candidatos eleitos democraticamente. Mas e se não for? Será que se o Estado brasileiro continuar a ser incapaz de realizar suas funções mais básicas, proporcionando segurança em seu sentido mais amplo, nossas liberdades democráticas continuarão em pé? Será que, cheios de medo, angústia e ansiedade não acabaremos optando por alguém que nos pareça providente? Aguardemos e esperemos que nossa sociedade permita-nos fazer a síntese entre segurança e liberdade.

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