Novos obscurantismos

Aos obscurantistas verdes que fazem um grande comércio da idolatria, da culpabilidade e do apocalipse, ele opõe os fatos. E ao tribunal do bom senso e da lucidez, ele convoca suas testemunhas: a história da Terra, a grande aventura humana, as ciências e as tecnologias. […] Podemos viver em harmonia com a natureza sem dominá-la? Não. […] A ecologia? Yves Roucaute é a favor dela, mas uma ecologia não punitiva, alimentada pelo saber e voltada para o futuro.

Trecho retirado de um texto de apresentação do livro “O Obscurantismo Verde”, do filósofo e cientista político Yves Roucaute (1953- )

No Tratado sobre a Fé ele definitivamente colocou a razão acima da Bíblia como teste da verdade – uma posição que a Europa levaria 200 anos para conquistar de novo.

Trecho retirado do livro “A Reforma” do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) comentando sobre a obra de Reginald Pecock (1395-1461), bispo de Chichester nascido no País de Gales

A proteína cozida é mais digerível, explicou Wrangham, e as pessoas obtêm mais calorias da comida cozida do que da mesma quantidade de comida crua. Ele explicou que a energia extra que as pessoas obtiveram ao comer comida cozida permitiu que os seres humanos tivessem cérebros maiores.

Trecho retirado do artigo “Wrangham lança luz sobre a relação entre o fogo e a evolução”, sobre a palestra dada a alunos da Universidade Harvard em 11 de março de 2010 pelo professor de antropologia biológica Richard Wrangham (1948- )

    Prezados leitores já mencionei aqui neste meu humilde espaço a rádio francesa Sud Radio que conta como um dos seus apresentadores o jornalista André Bercoff. Bercoff realiza entrevistas com pessoas que escreveram algo interessante e as convida para falarem sobre sua obra. A qualidade do jornalista está no fato de que muitas vezes esses autores entrevistados têm ideias que desafiam a ortodoxia dominante e por isso não têm espaço em veículos de mídia mais tradicionais. Se alguma vez são convidados a expor suas ideias inusitadas precisam fazê-lo sob o fogo cerrado de entrevistadores que têm como principal objetivo derrotar o entrevistado, forçando-o por meio de perguntas que demandam uma resposta de sim ou não a comprometer-se com afirmações polêmicas, de forma que o jornalista possa mostrar o absurdo das ideias defendidas pelo entrevistado e reforçar o ponto de vista amplamente aceito.

    Em tal contexto, o fato de Bercoff dialogar com seus entrevistados de modo a que eles tenham a chance de expor seus argumentos sem serem atropelados por seguidas contestações permite que os ouvintes possam entender o que o autor do livro realmente pensa e tirar suas próprias conclusões. Assim é que semana passada Bercoff convidou o autor de “O Obscurantismo Verde”, o filósofo e cientista político Yves Roucaute, a falar sobre seu livro, o qual apresenta uma visão bem diferente da ecologia predominante nos meios intelectuais e jornalísticos do Ocidente na atualidade. Na ortodoxia ambientalista, o homem é o grande vilão, o depredador da natureza que ao longo de milhares de anos foi explorando os recursos naturais para satisfazer suas necessidades materiais e deixou atrás de si um rastro de destruição em termos de poluição do ar, da água e da terra, da extinção ou da drástica diminuição de espécies animais e vegetais e da exaustão dos recursos essenciais à vida como a água. Se o ser humano continuar neste caminho de consumo cada vez maior, chegaremos ao dia do apocalipse em que a Terra não mais será capaz de sustentar a vida porque nós teremos arruinado a capacidade de ela reabastecer-se. Haverá então fome, doenças, destruição e o colapso das civilizações.

    A abordagem de Roucaute é bem diferente do pessimismo e da estigmatização das atividades humanas. Para contrapor-se a essa mitologia do juízo final a que será submetido o Homo Sapiens pelos seus pecados ambientais o filósofo francês baseia-se nos fatos que conhecemos a respeito da história da Terra. O planeta azul não é este local idílico que foi conspurcado pela cupidez humana. Ao contrário, os desastres naturais são a regra e não a exceção na atribulada saga de mais ou menos 4,5 bilhões de anos que se passaram desde que a Terra foi formada: ciclones, terremotos, glaciações, aquecimentos, meteoros caindo e gerando explosões, destruição em massa de espécies animais e vegetais.

    Considerando tal cenário, o Homo Sapiens na verdade é um herói, porque conseguiu sobreviver inventando maneiras de proteger-se da Natureza e de utilizá-la em seu benefício. Caso o Homo Sapiens tivesse sido fatalista e deixado se levar pelo fluxo natural das coisas, a espécie humana já teria soçobrado há muito tempo ou mesmo sobrevivendo levaria uma existência precária, com baixa expectativa de vida. Rocaute reconhece os problemas ambientais que foram causados pela atividade humana na Terra, mas para ele a única saída para enfrentá-los é mais crescimento econômico que gere mais riqueza e os excedentes necessários para investir em ciência e tecnologia e assim achar soluções para a reciclagem de materiais, a geração de energia de maneira renovável e por aí vai, de maneira que a Terra continue a hospedar-nos por mais alguns milhares de anos.

    A capacidade única do homem de achar soluções que nenhuma outra espécie animal achou para reproduzir-se e sobreviver no ambiente natural também é enfatizada pelo primatologista inglês e professor na Universidade Harvard, Richard Wrangham. Conforme o treco que abre este artigo, em seu livro “Pegando Fogo – Por que cozinhar nos tornou humanos”, Wrangham defende a tese de que a descoberta pelo homem de como dominar o fogo e utilizá-lo para preparar comida deu-nos uma vantagem competitiva inigualável porque permitiu que despendêssemos muito menos tempo mastigando e digerindo alimentos e que obtivéssemos mais nutrientes da comida, ao contrário dos nosso primos chimpanzés, gorilas e orangotangos que gastam várias horas no dia mastigando plantas de pouco valor nutricional. Já foi verificado experimentalmente que todos os animais preferem a comida cozida à comida crua, mesmo porque ela é mais fácil de ser processada, mas só o ser humano foi capaz de inventar o cozimento que lhe permitiu alimentar-se melhor, ter mais energia disponível para que o cérebro pudesse aumentar em volume e ter mais tempo para que com um cérebro mais avantajado nós pudéssemos dedicar-se a outras atividades que não fossem a busca incessante por comida.

    Essa breve descrição das ideias defendidas por Rocaute e Wrangham permite-nos ver que ideologicamente eles se colocam ao lado dos que enfatizam o quanto o cérebro poderoso do Homo Sapiens nos tornou criaturas especiais que souberam achar mecanismos únicos de sobrevivência no meio natural hostil. Nesse sentido, ambos se colocam contra aqueles que enfatizam que somos gananciosos e destruidores e que nossa capacidade cerebral apenas torna nosso potencial de destruição maior.

    Que visão predominará neste século XXI em que enfrentamos os desafios de lidar com o impacto das nossas atividades sobre o meio ambiente? A visão pessimista de que o ser humano é irremediavelmente falho? Ou a visão otimista de que não há nenhum problema que nos tenha sido apresentado ao longo da história das civilizações que não tenhamos conseguido resolver usando o poder do nosso intelecto? Será que, conforme mostra o trecho na abertura deste artigo, estamos na mesma encruzilhada em que se encontrou Reginald Pecock no século XV, que de tanto estudar a Bíblia chegou à conclusão de que ela tinha muitas respostas erradas, muitas inconsistências e absurdos e que o melhor era recorrer à razão para investigar o mundo? Será que se quisermos que o percurso do homem na Terra ainda gere frutos culturais e civilizacionais teremos que abandonar a atitude pessimista e fatalista tão em voga hoje em dia e adotar uma atitude de confiança na capacidade do homem de reinventar-se e prosperar por meio da sua capacidade de pensar? Quem viver verá.

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A Peste

A epidemia teve efeitos em todas as esferas da vida. Pelo fato de os pobres morrerem em maior proporção que os ricos, ocorreu uma falta de mão de obra; milhares de acres deixaram de ser cultivados, milhões de peixes morreram de causas naturais. Os trabalhadores desfrutaram por um tempo de um poder maior de barganha; a epidemia aumentou os salários, extinguiu muitas obrigações feudais remanescentes, e levou a revoltas que mantiveram os nobres com medo por meio século; até os padres entraram em greve por melhores salários. Os servos deixaram as fazendas para irem às cidades, a indústria expandiu-se, a classe de comerciantes obteve ainda mais vantagens em relação à aristocracia fundiária.

Trecho retirado do livro “A Reforma” do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre a Peste Negra, que matou no século XIV entre 30% e 60% da população da Europa

Como a China é detentora de uma fatia de 15,4% do total das exportações comerciais globais, é natural que o país desperte a preocupação do resto do mundo. O mercado de alguns tipos de produto com alta dependência das fábricas chinesas, como chips e semicondutores, por exemplo, vive uma crise sem igual. Na semana passada, a Volkswagen do Brasil anunciou a paralisação das atividades de sua fábrica em São Bernardo do Campo por vinte dias em decorrência da falta desses dispositivos eletrônicos para instalar em seus automóveis.

Trecho retirado do artigo Caos no Mar, publicado na edição da revista VEJA de 11 de maio

Mas os economistas normalmente consideram que tal problema localizado [desaparecimento de indústrias locais e desemprego] é mais do que compensado pela disponibilidade de melhores automóveis ou toca CDs ao público consumidor. Essa conclusão se baseia em larga medida em modelos tradicionais e simples do comércio internacional. Esses modelos descrevem um mundo em que, pela troca irrestrita de bens, com todos os ganhos que ela ocasiona, cada país acaba produzindo os bens nos quais ele é naturalmente o melhor, comparativamente a outros países e produtos, e todos os países que participam do comércio beneficiam-se da troca de bens produzidos dessa maneira eficiente.

Trecho retirado do livro “O Comércio Global e os Interesses Nacionais Conflitantes” de Ralph E. Gomory e William J. Baumol

    Prezados leitores, além de descrever a decrepitude moral da Igreja Católica às vésperas do Cisma do Ocidente, conforme mencionei na semana passada ao falar sobre os cardeais, em seu livro “A Reforma” Durant descreve a mudança radical das condições econômicas na Europa que ocasionaram uma grande transferência de renda das mãos da aristocracia fundiária para a burguesia.

    Essa diminuição da importância da agricultura para a geração de riqueza em prol do comércio e da indústria contribuiu para solapar o poder da Igreja pelo fato de que tornou as pessoas menos propensas a tornar a religião parte do seu cotidiano, pois os moradores da cidade não mais dependiam dos caprichos do céu e da fertilidade imprevisível da terra para conseguir realizar seu trabalho. O citadino deixou de ter o temor reverencial que a natureza insondável e misteriosa despertava no camponês que arava o solo, semeava e realizava a colheita. Sua vida tornou-se mais previsível e isso teve um impacto sobre sua psiquê, livrando-o de muitos medos e também da necessidade de consolo dos infortúnios cotidianos por meio da religião.

    Tal êxodo do campo para a cidade, que mudou a relação do homem com a religião católica, teve como catalisador a Peste Negra, conforme é explicado no trecho que abre este artigo. Os pobres, que passavam fome quando a safra não era boa, tinham no geral menos condições físicas de sobreviver a uma epidemia e portanto, morriam muito mais do que os proprietários de terras, que podiam se isolar em seus castelos e eram muito mais bem alimentados, pois gozavam do privilégio da caça de animais e dos frutos dela. Morrendo como moscas, os camponeses deixavam não só de cultivar a terra como deixavam de pegar a talha, a corveia e as banalidades, privando o senhor dos proventos advindos da terra, que havia sido sua única e infalível fonte de riqueza há séculos. Os camponeses que sobreviveram à peste se tornaram parte da mão de obra escassa e gozaram de maior poder de barganha, que utilizaram para conseguir melhores condições de trabalho na agricultura ou simplesmente para livrar-se do fardo de uma vez e ir para a cidade em busca de uma nova vida, menos árdua do que a vida no campo, à mercê dos fenômenos climáticos.

    Em suma, o que era um mundo bucólico para os aristocratas rentistas e infernal para os que faziam o serviço agrícola transformou-se radicalmente com a Peste Negra, fazendo surgir um novo estado de coisas, em que novos modos de criação de riquezas tornaram quem era rico e poderoso incapaz de explorar o trabalho alheio, pois este passou a ser explorado pelos empreendedores nas cidades, responsáveis pela organização das primeiras indústrias, juntando trabalhadores com diferentes especialidades em um único lugar. É inevitável neste ponto traçar um paralelo com a situação que vivemos hoje depois da epidemia de COVID-19, que até hoje matou um pouco mais de 6 milhões de pessoas em todo o mundo, o que é risível, em face dos 75 milhões de indivíduos, no mínimo, que pereceram por causa da Peste Negra. Embora não tenhamos tido uma peste na acepção histórica do termo, a pandemia do século XXI promete ser um divisor de águas em termos econômicos como ocorreu no século XIV na Europa.

    A notícia objeto do artigo publicado na VEJA ilustra esse efeito disruptivo. O governo de Xi Jinping decretou um lockdown draconiano em 27 cidades chineses para combater um recrudescimento dos casos de COVID. Entre as cidades afetadas, encontram-se metrópoles costeiras, como Shenzen, Guangzhou e Xangai, cujo porto, o maior do mundo, movimenta anualmente 43 milhões de contêineres. O confinamento causou uma redução drástica nas atividades de embarque e desembarque, resultando em filas enormes de navios à espera de autorização para atracar. Considerando que, segundo dados da Divisão de Estatísticas das Nações Unidas, a China responde por 28,7% da produção manufatureira no mundo, a falta de movimentação de mercadorias no porto de Xangai afeta as cadeias de suprimento globais e causa efeitos perversos nos países que dependem dos produtos chineses, como é o caso do Brasil, conforme explicado no trecho que abre este humilde artigo.

    Várias perguntas surgem a respeito do que está ocorrendo na China. Será que o lockdown era mesmo necessário? Ou será que o governo chinês está usando a epidemia de COVID-19 como uma desculpa para usar o poder proporcionado ao país, por ser a fábrica do mundo, para afetar a produção e o comércio de países com os quais a China tem disputas? Será que tais disrupções logísticas levarão o mundo a abandonar os dogmas sobre o comércio internacional que prevaleceram durante toda a segunda metade do século XX, conforme explicados no trecho que abre este artigo? Será que a visão benevolente das trocas globais como a melhor maneira de criar eficiência e gerar riqueza para todos pela divisão internacional do trabalho de acordo com as vantagens competitivas naturais de cada país será suplantada pela visão de que o comércio internacional cria dependências perigosas de países que podem usar sua posição predominante como moeda de troca ou de chantagem? Será que a eficiência da China em produzir bens industriais a preços baixos continuará a ser vista como uma fonte de prosperidade para todos ou passará a ser vista como uma ameaça à soberania das nações?

    Prezados leitores, ainda é muito cedo para estabelecermos com certeza se haverá uma mudança de paradigmas econômicos, sociais e culturais causada pela pandemia do século XXI como a Peste Negra causou no século XIV. Pode ser que daqui a alguns anos a globalização volte a funcionar perfeitamente: os navios transportando as mercadorias singrem os mares de um país para o outro, regularmente e sem atropelos, para a prosperidade geral de todos. Ou pode ser que surja uma outra cortina de ferro, como aquela que dividiu o Ocidente depois da Segunda Guerra Mundial, e essa nova cortina separe os países alinhados a cada uma das superpotências mundiais, que são a China e os Estados Unidos, ao menos por enquanto. Aguardemos os desdobramentos.  A Peste Negra engendrou o capitalismo e a decadência da Igreja Católica. O que fará a epidemia da COVID?

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Sobre cardeais e banqueiros

Ela havia começado com a profunda sinceridade e a devoção de Pedro e Paulo; ela cresceu como um sistema majestoso de disciplina, ordem e moralidade familiar, escolástica, social e internacional; agora ela estava degenerando em um interesse arraigado, absorvido na autoperpetuação e no autofinanciamento. […] Os cardeais eram escolhidos raramente por sua devoção, normalmente por causa da sua riqueza ou conexões políticas ou capacidade administrativa; eles viam-se a si mesmos não como monges que carregavam o ônus dos votos, mas como senadores e diplomatas de um estado rico e poderoso; em muitos casos eles não eram padres; e eles não deixavam que seu chapéu vermelho impedisse que desfrutassem a vida. A Igreja esqueceu a pobreza dos Apóstolos diante das necessidades e das despesas do poder.

Trecho descrevendo a Igreja Católica no século XIV retirado do livro “A Reforma” do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

O Sr. Macron também às vezes afasta os eleitores com seu jeito indiferente e jupiteriano. Os críticos o denominam “o presidente dos ricos”. A alcunha cola, em parte porque ele cortou o impraticável imposto sobre a riqueza na França, mas em grande parte porque seu estilo é o do banqueiro pretensioso e ambicioso que ele era.

Trecho retirado do artigo “Por que Macron importa”, publicado na edição de 9 de abril da revista The Economist

    Prezados leitores, o que têm em comum a elite financeira global que dá as cartas no Ocidente neste início do século XXI e os príncipes da Igreja do século XIV, às vésperas da Reforma Protestante? Meu objetivo nesta semana é traçar alguns paralelos com as figuras cosmopolitas e poderosas de antes com as de agora, valendo-me da descrição que Will Durant faz do estado lamentável em que se encontrava a Igreja Católica quando começaram as críticas de intelectuais, devotos católicos e reis europeus que culminaram no cisma da Igreja no Ocidente, com o surgimento da Igreja Anglicana, da Igreja Calvinista e da Igreja Luterana no início da Idade Moderna.

    Em seu livro, A Reforma, que trata da história da civilização europeia fora da Itália no período entre 1300 e 1564,  Will Durant descreve a transformação por que passou a Igreja Católica, conforme o trecho que abre este artigo: uma instituição que foi fundada na ética dos apóstolos que seguiram os preceitos de Cristo e sacrificaram sua vida em prol deles chegou ao auge no século XI, quando desempenhava funções essenciais à sociedade: era a fonte da moral, permitindo a manutenção da ordem social, era a fonte do direito internacional, resolvendo em última instância disputas entre os soberanos europeus e era fonte de cultura, pois suas escolas formavam a elite intelectual que governava os países e os intelectuais católicos tiveram papel fundamental na preservação do legado da Antiguidade Clássica. À guisa de exemplo, São Tomás de Aquino (1225-1274), doutor da Igreja, utilizou a filosofia aristotélica para criar seu próprio sistema fundado no dogma cristão e elaborar seus cinco argumentos provando a existência de Deus. Em assim fazendo garantiu o predomínio da filosofia de Aristóteles no Ocidente de maneira completa e permanente até o advento do Humanismo no século XIV.

    Dotada do poder de ditar as normas éticas, as normas jurídicas e a maneira de pensar das pessoas, a Igreja Católica foi acumulando ao longo da Idade Média uma influência muito grande em todas as áreas que acabou levando-a por caminhos dúbios, pois como diz Durant, a proposta espiritual da instituição religiosa esbarrou na natureza dos homens que a administravam e que acabaram inebriados pelo poder que pertencer à Igreja lhes dava. O modo como os cardeais eram escolhidos e como se comportavam era emblemático a esse respeito: o que se procurava no indivíduo convocado a ser príncipe da Igreja não era sua devoção sincera aos preceitos de Cristo, mas sua capacidade de transitar bem no mundo das cortes europeias, celebrando alianças, negociando acordos de trégua e até comandando expedições militares financiadas pelas exações impostas pela Igreja aos fiéis. Cesare Borgia (1475-1507), foi nomeado cardeal aos 18 anos e ajudou seu pai, o Papa Alexandre VI (1431-1503), a aumentar a área dos Estados Papais, obtendo vitórias na Romanha, na península itálica. Enfim, a tarefa de um cardeal não era guiar seu rebanho rumo a uma vida de imitação de Cristo, mas a de agir para aumentar o poder da Igreja de forma que como instituição internacional que era, sua capacidade de ditar o rumo dos acontecimentos estivesse sempre acima daquela dos soberanos europeus.

    Assim, cultivando cardeais que benziam canhões e usufruíam da boa vida que a posição no topo da hierarquia católica lhes dava, a Igreja foi acumulando contra si ressentimentos. Ressentimento dos governantes do Norte da Europa, que viam que o dinheiro arrecadado ia todo para Roma e nada ficava nas Igrejas locais, sendo usado pelos papas para financiar suas ambições territoriais; ressentimento dos católicos devotos que se indignavam com o luxo e a vida de prazeres e lassidão moral vivida pela alta hierarquia da Igreja; ressentimento de filósofos como Guilherme de Ockham (1285-1347), que considerava que a Igreja não era o clero, mas a comunidade dos fiéis, e que esta comunidade tinha o poder soberano de delegar sua autoridade para um conselho geral de bispos e abades que escolheria, puniria ou deporia o papa.

    Esse acúmulo de ressentimentos ao longo de séculos diante dos abusos perpetrados pela Igreja Católica culminou com a Reforma do século XVI, o que abalou a instituição internacional que fundamentava seu poder político na autoridade moral e espiritual conferida por Jesus Cristo a Pedro, o primeiro papa. O surgimento de igrejas cristãs nacionais submetidas ao poder secular do governo dos respectivos países privou a Igreja Católica da sua primazia no Direito Internacional, pois o reconhecimento da soberania do governante local dava-lhe o poder discricionário de recusar a interferência da Igreja nas disputas entre Estados. Desse modo, a Reforma enfraqueceu a atuação supranacional da Igreja, privando-lhe do poder, exercido pelos seus príncipes, de ditar regras a todos e de impor consensos.

    É neste ponto que pretendo traçar um paralelo entre os agentes do internacionalismo no século XIV, conforme descritos por Durant, e os agentes do internacionalismo no século XXI, que atualmente não são os cardeais com seu chapéu púrpura, mas os banqueiros vestidos de ternos bem cortados como Emmanuel Macron, o presidente da França reeleito no dia 24 de abril que, antes de tornar-se político fez fortuna trabalhando na filial francesa do Banco Rothschild. Na qualidade de sócio do Rothschild, Macron foi responsável, entre outras operações societárias, pela aquisição bem-sucedida de uma filial da Pfizer pela Nestlé em 2012, no valor de 12 bilhões de euros.

    Macron, portanto, é um homem que transita bem nas altas esferas do poder das multinacionais e não é de admirar as medidas que tomou durante a pandemia de COVID, tornando a vacinação obrigatória na França por meio do passe vacinal e prometendo, em entrevista dada ao jornal Le Parisien em 4 de janeiro, de tornar a vida dos não vacinados um inferno, pois segundo o presidente francês eles não podem ter a liberdade de prejudicar os vacinados, colocando a saúde destes em risco.

    Será que a postura de Macron foi ditada pelo interesse dos franceses ou pelo interesse da indústria farmacêutica de garantir um mercado cativo para seus produtos, vendidos em toda a Europa? A dúvida é pertinente, considerando que hoje se sabe que os vacinados transmitem a doença da mesma maneira que os não vacinados (para que não me acusem de propagadora de fake news, consultem o artigo publicado na revista The Lancet em janeiro de 2022 e disponível na internet  intitulado “Transmissibility of SARS-CoV-2 among fully vaccinated individuals”. Considerando que quando Macron deixar a presidência da França ele terá míseros 50 anos, não é descabido pensar que ele possa voltar a ser sócio de algum banco de investimentos e portanto cultivar suas relações com grandes conglomerados internacionais pode ser uma acertada decisão para sua futura transição de carreira.

    Conforme mencionei neste humilde espaço na semana passada, o filósofo francês Michel Onfray define Macron como o executor do consenso de Masstricht na França, isto é, o líder político responsável por implantar os ideais globalistas da União Europeia no nível local, independentemente do interesse da população local. Um exemplo prático disso, conforme relatado pela The Economist, ocorreu durante a campanha presidencial de 2017, quando Macron reuniu-se em Amiens, sua cidade natal, com os trabalhadores da fábrica da Whirlpool que havia sido fechada e transferida para outro local na Europa com custos menores de produção.

    O banqueiro tornado político e acostumado ao grand monde das finanças internacionais nem fez questão de pretender ter uma solução para ajudar os franceses lá desempregados pelo encerramento das atividades da Whirlpool. Era preciso aceitar o fato inelutável da globalização e prometer salvar-lhes o emprego era demais, era populismo barato e Macron é um intelecto sofisticado demais para isso. Ele não pode dar conforto material e espiritual ao proletariado francês, viúvo da desindustrialização, pois a tarefa dele é maior, é garantir que as engrenagens da União Europeia, a promotora da livre circulação de produtos e serviços a bem da eficiência econômica, funcione sem atropelos no país o qual ele foi escolhido para governar.

    Prezados leitores, será que os príncipes do século XXI terão o mesmo destino dos seus congêneres do século XIV? Será que banqueiros como Emmanuel Macron que executam o projeto globalista da União Europeia terão o mesmo destino dos cardeais que zelavam pelo poder da grande instituição internacional de então, a Igreja Católica? Será que haverá uma reação dos governos nacionais como houve há 700 anos? Aguardemos, e enquanto isso, admiremos o aplomb, o cosmopolitismo e a sofisticação de figuras como o presidente francês.

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Entre a cólera e a peste

Eu não votei no primeiro turno porque eu considero que os dados estão viciados.

Trecho de entrevista dada por Michel Onfray, filósofo francês, à rádio RMC sobre as eleições presidenciais na França, vencidas por Emmanuel Macron

Toda abstenção reforça o poder

André Bercoff, jornalista, escritor e ensaísta franco-libanês e um dos apresentadores da rádio Sud Radio

    Prezados leitores, o voto deve ser obrigatório ou facultativo? No Brasil os bem pensantes consideram que o voto obrigatório é um contrassenso em um regime democrático, pois deveria ser um direito e não uma obrigação, além do que nos países desenvolvidos o voto é facultativo, o que reforça o argumento em favor de tornar o voto opcional. Como tem acontecido muito em nosso país, o Judiciário legisla sutilmente no lugar do Congresso Nacional também na seara do direito eleitoral. Na prática, ele tem flexibilizado a regra da obrigatoriedade do voto no Brasil, consagrada na Constituição, tornando o processo de justificação da abstenção cada vez mais fácil: nas últimas eleições, o Tribunal Superior Eleitoral colocou à disposição dos brasileiros um aplicativo para isso, que podia ser baixado no celular. Dessa forma, comendo pelas beiradas, nosso Judiciário está tornando o voto facultativo, porque seus membros consideram que essa é a visão que deve prevalecer em uma democracia moderna, em que a participação nas eleições deve ser um exercício de liberdade e não de coação.

    Tal liberdade de se abster foi exercida com bastante intensidade nas eleições presidenciais francesas, que neste domingo dia 24 de abril tiveram o segundo turno. O presidente Emmanuel Macron conseguiu um segundo mandato, a despeito do fato de que dos 48,7 milhões de franceses que têm o direito de voto, 14 milhões deles decidiram não exercê-lo, uma taxa de abstenção de 28,01%, maior que a verificada há cinco anos, quando os mesmos candidatos, Macron e Marine Le Pen, chegaram à disputa final. Esse direito de ignorar o acontecimento que seria o ápice da democracia é defendido na França por pessoas como Michel Onfray, citado na abertura deste artigo, recorrendo a uma metáfora sobre os dados viciados que requer uma explicação.

    Para Onfray, o atual regime político na França não oferece nenhuma opção real, pois desde 1992 quando foi assinado o Tratado de Maastricht, que instituiu a União Europeia e estabeleceu a livre circulação de pessoas e produtos, os países-membros da EU perderam sua soberania de forma que os líderes políticos que são escolhidos nos respectivos países têm um poder limitado àquilo que o Direito Comunitário lhes concede em termos de competência, que nada mais é do que implementar no nível nacional as diretivas federais que regulam a organização e o funcionamento da União Europeia. Na visão de Onfray, o presidente da França nada mais é do que um comissário da EU e é nesse sentido que os dados estão viciados: o povo percebe que o presidente que elegem pode prometer mundos e fundos, mas na prática não têm poder real nenhum, porque a política monetária é decidida pelo Banco Central Europeu e assim o orçamento público utilizado para concretizar aquilo que o líder eleito estabelece como seu programa de governo fica engessado por aquilo que o BCE estabelece em termos de taxas de juros, metas de inflação, valor da moeda e possibilidade de endividamento.

    Para que votar se qualquer candidato escolhido, à esquerda ou à direita terá de se submeter ao “consenso de Maastricht”, como define Onfray? Para que se dar ao trabalho de ir às urnas e na prática fazer o papel de palhaço que dá chancela democrática a escolhas que já foram feitas antes em Bruxelas e a portas fechadas pelo grupo de tecnocratas que dirige a União Europeia? Não é melhor abster-se a participar da farsa e mostrar aos donos do poder que o cidadão sabe o que está ocorrendo? Mostrar que o cidadão sabe que o jogo é de cartas marcadas ou de dados que ao serem jogados dão sempre o mesmo resultado, isto é, a supremacia do interesse supranacional sobre o interesse de cada país europeu?

    Onfray considera que o regime agora em vigor na França é totalitário, na medida em que não permite nenhuma deriva dos princípios dogmáticos e a trajetória de Marine Le Pen ilustra a camisa de força a que todos os políticos precisam se submeter se querem ter alguma viabilidade eleitoral: se em sua primeira campanha presidencial, em 2012, Marine colocava-se firmemente contra a moeda única e o projeto federalista da União Europeia, a cada derrota ela foi diluindo sua mensagem radical para se tornar palatável aos autores do consenso e provavelmente sua terceira derrota a fará abandonar ainda mais sua ideias mais radicais sobre a soberania francesa, com a esperança de que um dia ela se torne plenamente aceitável e mainstream.

    Onfray não votou nem no primeiro turno e nem no segundo turno e fez questão de dizer isso publicamente, expondo as razões da sua escolha, inclusive a quem é contra o abstencionismo e o voto em branco, como André Bercoff, citado na abertura deste artigo. Ao longo da campanha presidencial de 2022 Bercoff incitava seus ouvintes na Sud Radio a não deixar de votar, conclamando-os a escolher o menos pior, mas escolhendo de toda forma. Pois mesmo que as opções sejam entre a peste e a cólera, para o jornalista franco-libanês a não participação dos cidadãos no processo eleitoral só piora as coisas, porque facilita a manutenção do status quo, reforçando o poder dos empoderados, que sempre podem contar com o voto dos seus apoiadores mais extremados e assim conseguem se eleger com uma minoria de votos, por obterem a maioria dos votos válidos. Bercoff inclusive defende que a revitalização da democracia na França requer que o voto se torne obrigatório, pois do contrário o círculo vicioso não será quebrado: quanto mais abstencionismo houver, mais os líderes políticos se sentirão confortáveis por saberem poder contar com seu grupo de apoiadores para se eleger, e assim menos contas prestarão à população, que por sua vez ficará mais desencantada com os resultados da democracia e menos inclinada se mostrará a participar do processo eleitoral.

    Prezados leitores, desde 2002 quando Jean-Marie Le Pen, o pai de Marine Le Pen, disputou o segundo turno contra Jacques Chirac, os eleitores franceses vêm sendo submetidos à polarização, isto é, à escolha entre a peste a cólera, e a classe política está cada vez mais desacreditada, como mostram os protestos que se seguiram à reeleição de Macron em várias cidades do país. Será que nós no Brasil seguiremos o mesmo destino, e estaremos fadados a escolher por anos a fio entre extremos que de tão distantes acabam se juntando e se tornando iguais na qualidade do que oferecem ao povo? Será que estaremos submetidos eternamente ao consenso de Washington, conforme tenho humildemente explicado neste espaço a política de austeridade monetária e fiscal que é a única política aceita, da mesma forma que o consenso de Maastricht é a unanimidade na Europa? Ai de nós, eleitores empesteados ou encolerizados!

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A economia e suas falácias

Usar os juros contra surtos inflacionários é um remédio socialmente amargo. Primeiro, surto inflacionário é principalmente fruto de choques de oferta. Portanto, o remédio pode exigir uma profunda retração de demanda, da produção e do emprego […] Uma elevação da SELIC para dois dígitos poder á jogar o desemprego para além, dos atuais 12 milhões. Pode também restringir o consumo, num país em que quase cem milhões vivem o desespero da insegurança alimentar. E deverá aumentar o rendimento para os ricos, que parecem, a olho nu, ostensivamente mais ricos. […] Se minha análise estiver correta, a austeridade monetária não é só um remédio amargo; é ineficaz, concentradora de renda e politicamente irresponsável.

Trecho retirado do artigo “Juros e a morte súbita da democracia” escrito pelo economista Rogério Studart, associado sênior no Centro de Economia Política do Centro Brasileiro de Relações Internacionais e publicado no jornal O Globo em 17 de abril

 

O teto de gastos é a condição mais importante para se chegar ao crescimento sustentável. Porém, ele exige reformas, como a administrativa. […] O cumprimento do teto de gastos deve criar condição para que os juros caiam, permitindo aos concessionários se financiarem no mercado privado de capitais.

Trecho da entrevista dada pelo economista Affonso Celso Pastore ao jornal O Estado de São Paulo em 17 de abril sobre o documento que ele preparou para o candidato à presidência Sérgio Moro com diagnósticos e proposições econômicas

Falácias verbais – Essas falácias, chamadas de falácias da ambiguidade, surgem quando a conclusão é obtida por meio de um uso inapropriado das palavras. […] A falácia da figura de linguagem é o caso especial que decorre da confusão entre o sentido comum de uma palavra e seu emprego metafórico, figurativo ou técnico (exemplo: Na última semana, a Joana tem vivido nos píncaros do êxtase.” E qual é o endereço dela lá?”).

Trecho retirado do verbete sobre Lógica Aplicada sobre a edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

    Prezados leitores, na semana passada eu abordei as propostas audaciosas que Sergey Glazyev têm para colocar a Rússia no caminho virtuoso seguido pela China em termos de alta crescimento econômico e distribuição de renda e as contrapus à receita da presidente do Banco Central russo, Elvira Nabiullina, que segue a cartilha de austeridade monetária que o FMI preconiza. Nesta semana, continuarei a discorrer sobre esse tópico comparando a opinião do economista da terceira via, Affonso Celso Pastore, cujas sugestões, em suas próprias palavras, fogem dos extremos, que são extremos, que são “extremos populistas, tanto o Lula quanto o Bolsonaro.” Farei isso tentando analisar o conceito de crescimento sustentável preconizado por ele como um exemplo de falácia, tal como definida no trecho que abre este artigo.

    Para Pastore, só estabelecendo o teto de gastos e aderindo rigidamente a ele será possível controlar as despesas governamentais de forma que a dívida pública não aumente exponencialmente, exigindo que as autoridades monetárias subam os juros para atrair recursos de investidores que permitam a rolagem da dívida e a manutenção do valor da moeda. Com o controle das despesas e a menor necessidade de financiamento público, os juros podem diminuir e com juros menores os investidores privados poderão captar dinheiro mais facilmente para investirem em projetos de infraestrutura. Tais investimentos permitirão que o Brasil volte a crescer e se a dívida pública diminuir consistentemente por meio da diminuição constante das despesas governamentais, os juros poderão ser baixados, o que facilitará a concessão de empréstimos aos concessionários que continuarão tomando empréstimos e investindo e fazendo a roda da economia gerar. Nesse sentido, o crescimento será sustentável, pois permanecerá ao longo do tempo pela adesão à receita correta, isto é, à realização de sacrifícios no curto e no médio prazo para colher os frutos no longo prazo.

    Este é o mantra que sustenta o sentido positivo que tais economistas responsáveis, não populistas, dão à expressão crescimento sustentável. E no entanto, se tomarmos o sentido literal de sustentável, podemos nos perguntar: o crescimento pode ser sustentado por quem? Nos ombros de quem será colocado o sacrifício da austeridade fiscal que gerará prosperidade econômica? A resposta quem nos dá é Rogério Studart. É a parcela mais pobre da população que sofrerá em duas frentes: tanto com os juros altos necessários para que o governo possa continuar rolando a dívida pública sem causar a desvalorização excessiva da moeda e a inflação, quanto com o corte das despesas governamentais necessário para que os juros altos possam no futuro cair.

    De um lado, os juros altos fazem com que os capitais disponíveis sejam canalizados para financiar a dívida pública. Sem investimentos produtivos não há geração de empregos, nem oferta de produtos, portanto há alta de preços mesmo não havendo consumo. De outro lado, o corte de despesas governamentais é sentido na pele pelas parcelas mais pobres. Afinal, quando economistas como Pastore falam de reforma administrativa, no mais das vezes na prática o que se consegue fazer, considerando o jogo de forças políticas no Brasil, é cortar as despesas de maneira indiscriminada e os grupos de funcionários públicos que estão na elite conseguem de uma forma ou de outra livrar-se dos sacrifícios fazendo greves ou pressionando deputados e senadores no Congresso por aumentos de salários ou regalias na aposentadoria não disponíveis para os mortais comuns.

    No frigir dos ovos, cortam-se professores, agentes comunitários, médicos, enfermeiros, que não têm o poder de influência que têm a turma de cima dos fiscais da Receita Federal, dos policiais federais, dos membros do Ministério Público, diplomatas, membros de Tribunais de Contas e dos magistrados do Judiciário, consultores legislativos, advogados-gerais, defensores públicos e procuradores da Fazenda, em suma as ditas carreiras típicas de Estado. Assim, esses cortes afetam os serviços públicos utilizados pela população mais pobre, como saúde e educação, e não afetam os serviços públicos prestados ao andar de cima, no caso os serviços de prestação jurisdicional, fiscalização de contas e de obrigações tributárias.

    Os sacrifícios necessários para o crescimento sustentável tal como preconizado por economistas ortodoxos como Affonso Celso Pastore na verdade recaem sobre quem menos deveria pagar o pato, porque tem menos gordura para queimar em termos de renda disponível para absorver altas nos preços e diminuição de serviços públicos gratuitos. E nesse sentido, a austeridade monetária sustentada pela população mais pobre acaba não criando crescimento sustentável nenhum, porque ele nem ocorre conforme prometido por essa receita de sacrifícios e nem tem condições de perdurar.

    A taxa de inflação média entre 2010 e 2021, medida pelo IPCA, ficou em 6.09%, o que é algo a se comemorar, considerando nosso histórico de hiperinflação nas últimas décadas do século XX. Mas tal meta foi conseguida à custa do sacrifício do crescimento econômico, impossível em um ambiente de pouco investimento. Entre 2001 e 2019 o Brasil cresceu 26,3% de acordo com o Banco Mundial, uma média de menos de 1.5% ao ano. E de acordo com números do IBGE, nossa taxa de investimentos como porcentagem do PIB só vem diminuindo desde a década de 90: 18,8% no período entre 1991 e 2000, 18,2% entre 2001 e 2010 e 18% entre 2011 e 2019. Como crescer sustentavelmente sem investimentos? E como haver investimentos produtivos se todo o capital disponível é atraído pelos juros altos oferecidos pelos títulos públicos? Como diminuir tais juros? Impondo os sacrifícios aos mais pobres pelo corte de despesas públicas? É só isso que os economistas “responsáveis” têm a nos oferecer? Mais desemprego e maior concentração de renda? Como garantir crescimento ao longo de vários anos no século XXI sem investir para que a população seja educada e saudável? Afinal, é viável no longo prazo colocar o tipo de crescimento preconizado pelos não populistas nas costas dos brasileiros que não têm representação política para garantir que eles não sejam os principais sustentáculos da conta a ser paga em termos de falta de investimentos, tanto públicos quanto privados, falta de emprego, falta de oferta de bens públicos e privados a preços acessíveis?

    Prezados leitores, a falácia de que somente a austeridade fiscal garante crescimento sustentável está proposta como o único meio-termo entre a polarização à esquerda e à direita. Oxalá que encontremos uma Terceira Via que rechace tal receita fadada ao fracasso, como mostra o desempenho pífio do Brasil no século XXI, que nos torna presos na armadilha de baixos níveis de investimento, de produtividade, de emprego, de renda, de consumo, de oferta e impede que a inflação seja controlada por outros mecanismos que não os juros altos, como por exemplo, pelo choque da oferta. Se continuarmos nessa trilha, ninguém, nem mesmo aqueles que são sempre chamados a fazer sacrifícios, poderá sustentar nosso crescimento.

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