Você decide

Em suma, caso um novo candidato a paradigma tivesse que ser julgado deste o início por pessoas objetivas que examinassem somente a capacidade relativa de solução de problemas, as ciências passariam por muito poucas grandes revoluções. […] O homem que adota um novo paradigma logo no início frequentemente o faz a despeito das evidências proporcionadas pela solução de problemas. Ele deve, isso sim, ter fé que o novo paradigma será bem-sucedido com os muitos problemas que o confrontam, sabendo somente que o paradigma mais antigo falhou na solução de uns poucos problemas.

Trecho retirado do livro A Estrutura das Revoluções Científicas, do físico e filósofo americano Thomas Kuhn (1922-1996)

Foto retirada pelo site UOL de um prédio no Rio Grande do Sul.

    Prezados leitores, nas duas últimas semanas eu tenho aproveitado as lições de Thomas Kuhn sobre como a ciência se desenrola na prática para fazer uma analogia com o processo democrático. A razão de eu ter traçado tal paralelo é que, conforme expliquei no artigo “Circularidades”, o próprio autor faz uso do conceito de revolução da ciência política para explicar a revolução na prática científica: tanto na política quanto na ciência, ocorre a introdução de uma nova ordem que assenta sobre princípios totalmente diferentes dos da ordem antiga, tornando-as incompatíveis e inviabilizando que elas coexistam.  Nesta semana, meu objetivo é explorar o modo como à luz da “A Estrutura das Revoluções Científicas”, a nova ordem é estabelecida, isto é, como os novos paradigmas se introduzem na comunidade científica e se impõem como consenso. Novamente, seguirei a trilha de me utilizar dos conceitos de Kuhn para iluminar o momento político pelo qual o Brasil passa.

    Até que o novo paradigma atinja o status de estrutura conceitual amplamente aceita que permita aos cientistas praticarem a ciência normal, é preciso que haja um movimento de adoção por parte de cientistas normalmente mais novos e não tão adeptos dos paradigmas da ciência normal, porque desprovidos da experiência dos cientistas veteranos em fazer uso da estrutura vigente para produzir resultados. Essa falta de apego ao consenso vigente faz com que esses revolucionários estejam mais dispostos a adotar abordagens disruptivas para dar conta das anomalias que a ciência normal não consegue resolver. No entanto, essa disrupção não é uma opção clara e por isso, é cheia de perigos.

    Conforme explica Kuhn no trecho que abre este artigo, o caminho da disrupção é perigoso porque não há critérios objetivos que permitam decidir de maneira unívoca em prol de um paradigma em detrimento de outro. Isso porque raramente ocorre de o novo paradigma resolver muito mais problemas do que o paradigma antigo. Ao contrário, apesar de ele ter sido pensado como uma resposta aos problemas criados pelo paradigma antigo, o novo paradigma frequentemente resolve alguns problemas e cria outros, os quais eram mais bem tratados pelo paradigma antigo e, portanto, sua utilidade não é flagrante desde o primeiro momento. Kuhn fornece o exemplo da teoria de Newton para ilustrar esse ponto: ela foi rejeitada por muitos porque colocava a gravidade como uma força de atração entre partículas de matéria sem tentar explicar a razão de tal atração, como haviam feito Aristóteles e Descartes antes dele. Newton tornava assim a gravidade um conceito metafísico: ela existia e pronto, não havia na estrutura da física Newtoniana espaço para questionamentos sobre o porquê de ela existir.

    Em última análise, a adoção de um novo paradigma é uma questão de fé: o proponente da revolução crê que no longo prazo ela dará frutos em termos de solução de problemas, mesmo que no momento em que ela é proposta não haja como escolhê-la com base em sua eficiência ou o grau de aproximação da verdade que ela traz. Aliás, nenhum cientista adota um paradigma em seus estágios iniciais porque ele considera que assim a verdade estará mais próxima, afinal tal alegação, segundo Kuhn, está fora do escopo de questões científicas válidas. O que é pertinente questionar a respeito de um novo conjunto de paradigmas é se, passado algum tempo de sua adoção, ele foi capaz de ser útil, isto é, se ele foi capaz de estruturar a operação da ciência normal, aquela, que faz medições e consegue fazer previsões corretas a respeito do que ocorrerá no mundo dos fenômenos, aquela que estabelece padrões de ocorrência e melhor ainda aquela que consegue, baseando-se nos novos paradigmas, revelar fenômenos inesperados que iluminam uma nova faceta da realidade jamais prevista antes.

    Daí porque podemos dizer que o percurso de um conjunto de paradigmas até ele se transformar em consenso aceito e utilizado pela comunidade científica para fazer ciência requer um movimento de coragem da parte dos que, não tendo sólidas bases para defender sua adoção, mesmo assim o fazem por acreditarem que a nova estrutura conceitual revelará suas qualidades epistemológicas no longo prazo. É neste ponto que traço o paralelo entre os paradigmas científicos e os paradigmas políticos, por meio da foto que abre este humilde artigo. Ela mostra à esquerda o paradigma do que é considerado como posições ideológicas da direita, e mostra à direita o paradigma da esquerda, tal como ela se apresenta atualmente no Brasil na visão dos que se colocam à direita no espectro político.  E convida o leitor a decidir entre um paradigma e outro, entre o verde e amarelo dos patriotas e o vermelho dos comunistas, cujo símbolo tradicional são a foice e o martelo.

    Será que devemos lamentar que as eleições presidenciais de 2022 tenham chegado a esse estágio de polarização? Se é para decidir, significa que a resposta à pergunta que eu coloquei na semana passada – sobre em que estágio do esquema de Kuhn estamos em nosso processo político – já tem resposta. Não temos consenso nenhum que nos permita operar na mesma estrutura conceitual. No mundo da ciência isso significa que a produção científica emperra: nada é mensurado, previsto ou descoberto. No mundo da política, isso significa que as políticas públicas emperram: não são formuladas porque não há premissas sobre as quais elas possam ser criadas. Um exemplo gritante disso é na área da educação: enquanto ainda não decidimos se queremos ou não que a escola aborde temas como multiplicidade de gêneros, diferenças entre sexo e gênero, o papel da religião na escola, o papel dos pais no conteúdo curricular, a validade do ensino em casa, não temos como unir esforços para estabelecer e implementar os melhores métodos de ensinar a ler, a entender um texto, a compreender conceitos matemáticos e a colocá-los em prática.

    Já que é inquestionável que estamos em um momento de grande falta de consenso e de disputa entre paradigmas, uma nova questão se coloca: como resolveremos a disputa dos paradigmas políticos? Denunciando-os como uma mera disputa ideológica que faz nós perdermos tempo que poderia ser mais bem utilizado pelo foco na solução dos problemas práticos da população – como gerar emprego, como diminuir os juros, como melhorar os serviços públicos? Ou tornando a decisão sobre que paradigma adotar algo fundamental para que possamos passar às questões que afetam a vida cotidiana dos cidadãos? Se adotarmos a segunda opção, como introduziremos o novo paradigma: pela força da convicção dos revolucionários, tal como ocorreu ao longo da história da ciência? Ou pelo voto da maioria dos eleitores, que em outubro de 2022 terão de escolher o lado esquerdo ou o lado direito da empena do edifício gaúcho? Você decide.

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Circularidades

Quando os paradigmas são introduzidos, como devem ser, em uma discussão sobre a escolha de paradigmas, o papel deles é necessariamente circular. Cada grupo utiliza seus próprios paradigmas para argumentar na defesa dos seu paradigma. […] No entanto, qualquer que seja sua força, o status do argumento circular limita-se à força da persuasão. Ele não pode tornar-se convincente do ponto de vista lógico ou mesmo probabilístico para aqueles que se recusam a entrar no círculo.  As premissas e valores compartilhados pelas duas partes no debate sobre os paradigmas não são suficientemente abrangentes para isso.

Trecho retirado do livro A Estrutura das Revoluções Científicas, do físico e filósofo americano Thomas Kuhn (1922-1996)

O perigo em uma democracia é este: do que depende a democracia? A democracia depende de o eleitor individualmente tomar uma decisão inteligente e racional sobre o que ele considera seu interesse próprio esclarecido em todas as circunstâncias.

Trecho retirado de uma entrevista dada em 1958 pelo escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) ao jornalista americano Mike Wallace (1918-2012), em que Huxley compartilha suas visões e apreensões sobre o admirável mundo novo do aumento da população, das comunicações e da tecnologia e os impactos disso sobre a liberdade dos cidadãos

    Prezados leitores, na semana passada eu tentei explicar o modo como a ciência se desenrola na prática à luz da descrição feita por Thomas Kuhn, que em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, faz uso do seu conhecimento da história da ciência, particularmente da química, da física e da astronomia, para ilustrar seu ponto. Estabelecem-se paradigmas que permitem que a ciência normal se desenvolva. O desenvolvimento das pesquisas e das experimentações levam ao surgimento de exceções às teorias pressupostas pela ciência normal, o que leva a um estado de crise, que só é superado quando novos paradigmas surgem e se consolidam que dão conta das exceções e as normalizam, abrindo novos caminhos para o empreendimento científico. Nesta semana, meu objetivo é explorar um pouco mais a etapa em que há uma disputa entre diferentes paradigmas sobre os quais a comunidade científica ainda não chegou a um consenso, de modo a traçar uma analogia com outro campo da atividade humana.

    Conforme explica Thomas Kuhn, quando a crise se instala e há um mal-estar sobre a inadequação dos paradigmas vigentes para lidar com as anomalias que surgem, o advento de um novo arcabouço teórico, que permita aos cientistas estabelecer os problemas a serem resolvidos e o modo como resolvê-los, não é simples. Há uma disputa entre paradigmas, que não pode ser resolvida pelas partes envolvidas recorrendo a uma instância superior que decida qual é o melhor paradigma. E a razão de não haver tal órgão adjudicatório, segundo o filósofo americano, reside na própria natureza desses paradigmas em choque, conforme explicada no trecho que abre este artigo: eles têm uma natureza circular, pois para aceitá-los e deixar-se convencer, não é suficiente recorrermos aos dados experimentais e à probabilidade de uma ou outra proposição, porque tanto os dados experimentais quanto as proposições existem no próprio seio da estrutura teórica estabelecida pelos paradigmas em conflito. As premissas e valores propostos por um paradigma determinam aquilo que o cientista enxerga no mundo, aquilo que ele colocará como questões a serem respondidas, os métodos que ele utilizará para responder a tais questões e proporcionar resultados.

    Para ilustrar essa disputa entre paradigmas, Kuhn descreve os conceitos diferentes de Galileu Galilei, físico e astrônomo italiano (1564-1642) e de Aristóteles, o filósofo grego (384 a.C. – 322 a.C.), para explicar um corpo que balança. Para Aristóteles, que considerava que todo corpo tem uma tendência inerente à sua própria natureza de mover-se de uma posição mais alta para um estado de repouso em uma posição mais baixa, tal corpo estava simplesmente caindo com dificuldade e com base nesse conceito, as propriedades que deveriam ser pesquisadas diziam respeito ao seu peso, ao seu tamanho, à distância que faltava para chegar ao seu destino final, que era local da interrupção do movimento e à velocidade média da trajetória. Galileu, por seu turno, partia de outra hipótese teórica, surgida na Idade Média em função do trabalho dos filósofos escolásticos Jean Buridan (1301-1358) e Nicolau de Oresme (1323-1382): todo corpo tinha um poder interno nele implantado pelo agente que iniciou o movimento, de forma que o corpo apresentaria movimento contínuo. Inspirado por essa teoria do ímpeto, Galileu via um corpo que balança como um pêndulo, e tal pêndulo apresentava certos atributos, como amplitude, aceleração, distância em relação à origem e velocidade instantânea.

    Sob essa perspectiva, a escolha de um paradigma e não de outro tem implicações surpreendentes: ela determina aquilo que o cientista pressupõe como existente, e o mundo em que ele se insere como pesquisador. À luz de como a ciência é realmente praticada e como ela se desenvolve, a ideia de que os cientistas divergem apenas quanto à interpretação de dados objetivos não é verdadeira sempre. Nos momentos de crise e de disputa a respeito dos princípios que nortearão a prática da ciência normal, a divergência é mais profunda,  porque a depender do paradigma utilizado, os dados serão outros, pois o método de obtê-los depende das perguntas e dos instrumentos utilizados, e tais perguntas e instrumentos dependem de certos conceitos básicos que devem simplesmente ser aceitos para que a roda do empreendimento científico possa girar: para Aristóteles, o mundo era formado por corpos que tinham a tendência inerente a chegar ao repouso, para Galileu o mundo era formado por corpos que eram impulsionados por uma força que os levava a se movimentar.

    Pelo fato de a ciência apresentar essas premissas irredutíveis, Thomas Kuhn compara o processo de advento dos paradigmas necessários à prática da ciência normal a uma revolução política: toda mudança política requer uma mudança nos pressupostos básicos de funcionamento da sociedade, mudança essa que não surge no seio da estrutura institucional vigente, ao contrário ela surge quando a estrutura institucional está em crise e visões incompatíveis entre si disputam a proeminência sem que seja possível estabelecer critérios compartilhados por todos os membros da sociedade para escolher uma outra forma de organização. Assim como uma revolução política destrói os fundamentos sobre os quais a sociedade se organizava, a revolução científica destrói o arcabouço conceitual antigo e introduz um novo modo pelo qual os cientistas veem o mundo.

    Se a analogia entre o mundo da política e o mundo da ciência feita por Kuhn for levada às últimas consequências, teremos uma situação em que o estabelecimento de uma estrutura que permita o funcionamento de uma e de outra só é possível quando se atinge um consenso, isto é, chega-se a um acordo sobre os princípios fundamentais e as coisas podem voltar a funcionar de maneira normal porque cessam as disputas. Nesse momento, a ciência pode ser objetiva no sentido de que haverá procedimentos estabelecidos que darão resultados previsíveis e aceitos pela maioria dos seus praticantes, e a política pode ser racional, tal como vislumbrou Aldous Huxley em sua entrevista sobre as condições para o exercício de escolhas livres pelo cidadão em um regime democrático, conforme o trecho que abre este artigo. De posse de informações críveis, isto é, não manipuladas pela propaganda, e de posse de seu intelecto, o indivíduo em uma democracia escolhe quem irá lhe representar respondendo à pergunta: quem poderá atender melhor meus interesses, isto é, quem dentre os candidatos apresenta propostas de organização da sociedade que permitam que eu tenha uma vida próspera e segura no longo prazo?

    Prezados leitores, em que estágio estaremos no Brasil à luz do esquema proposto por Thomas Kuhn? Estaremos na fase da disputa feroz sobre os paradigmas, na qual as pessoas não se entendem porque falam de coisas diferentes? Ou já estamos sob a égide do consenso necessário à organização da sociedade? Será que a polarização nas eleições presidenciais deste ano entre um candidato de direita e de esquerda não é indício de que ainda não chegamos ao estágio de decidirmos racionalmente porque ainda não chegamos a um acordo sobre certos valores fundamentais? Que nível de consenso é necessário para que uma democracia funcione bem? Que nível de conflito pode ser tolerado em uma democracia para que ela não se desestruture? Talvez tenhamos essa resposta aqui no Brasil ao fim do ciclo eleitoral. Aguardemos.

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A revolução dos astros e dos filósofos

Se a consciência da existência de anomalias desempenha um papel na emergência de novos tipos de fenômenos, não deveria ser surpresa para ninguém que uma conscientização similar mas mais profunda é um pré-requisito para todas as mudanças aceitáveis na teoria. […] a consciência da anomalia havia durado tanto tempo e havia penetrado de maneira tão profunda que os campos por ela afetados podem ser descritos de maneira apropriada como estando em um estado de crise crescente. Pelo fato de exigir a destruição de paradigmas em larga escala e grandes mudanças nos problemas e nas técnicas da ciência normal, a emergência de novas teorias normalmente é precedida por um período de grande insegurança profissional.

Trecho retirado do livro A Estrutura das Revoluções Científicas, do físico e filósofo americano Thomas Kuhn (1922-1996)

Porque é a tarefa do astrônomo contar a história dos movimentos celestes por meio do estudo especializado e cuidadoso. Depois ele deve conceber e elaborar as causas desses movimentos ou hipóteses sobre eles. Pelo fato de ele não poder de jeito nenhum chegar às verdadeiras causas, ele adotará quaisquer suposições que permitam que movimentos sejam calculados de maneira correta de acordo com os princípios da geometria no futuro e no passado. […] Porque essas hipóteses não precisam ser verdadeiras nem mesmo prováveis. Ao contrário, caso elas proporcionem um cálculo consistente com as observações, isso já é suficiente.

Trecho retirado do prefácio da obra De Revolutionibus do astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543)

A definição da ciência é incompatível com a pretensão de autoridade da ciência. Se a ciência é uma atividade continuamente autocrítica, ela não pode proclamar nada como verdade definitiva.

Trecho retirado do áudio denominado “Você acredita na opinião da ciência”, gravado por Olavo de Carvalho (1947-2022), escritor e professor de filosofia brasileiro

    Prezados leitores, perdoem-me a menção a Olavo de Carvalho como professor de filosofia, pois bem sei que isso fere a sensibilidades de muitos. Considerado o guru intelectual de Jair Bolsonaro, Olavo era considerado um negacionista, por “não acreditar no aquecimento global, mesmo com todas as evidências científicas”, como afirmou a revista VEJA no seu obituário publicado em 29 de janeiro de 2022. Meu objetivo aqui não é emitir um julgamento sobre o pensamento do “autoproclamado filósofo”, mesmo porque nunca li nada do que ele escreveu.

   No entanto, como eu me incomodo com esses epítetos que são usados a torto e a direito para estigmatizar as pessoas, e negacionista é um deles, eu quis fazer uma investigação sobre a opinião que Olavo tinha da ciência e para isso eu ouvi um áudio no YouTube em que ele fala a respeito da natureza do conhecimento científico. E para julgar se a opinião dele é negacionista ou não, isto é, se ele é anticiência ou não, como seus detratores o descrevem, eu fiz uso da concepção de ciência que surge da leitura do livro de Thomas Kuhn, que abre este artigo.

    Para o físico e filósofo americano, a ciência se desenvolve em algumas etapas: na primeira etapa são estabelecidos os paradigmas, que são as fundações da atividade, os pressupostos sem os quais nada é possível ser colocado em prática: o modo de agir e de trabalhar, certas concepções sobre como as coisas funcionam, as questões a serem respondidas, como fazer experimentos, como pensar o mundo. Tais paradigmas são mais implícitos do que explícitos, sendo compartilhados pela comunidade. Uma vez havendo a consolidação desses paradigmas, a segunda fase, a da ciência normal, pode ocorrer: a ciência normal é aquela praticada pelo profissional que, de posse das técnicas e das teorias amplamente aceitas, gera resultados, seja confirmando as teorias e respondendo às questões propostas ou reformulando as teorias de modo que elas possam continuar tendo poder de explicação e de previsão. Na prática da ciência, a teoria e a prática se confundem: quando o cientista encontra elementos que fogem da ordem que ele presume teoricamente, seus paradigmas teóricos lhe permitem refinar as técnicas de observação e com observações mais precisas, o cientista consegue elaborar teorias mais abrangentes, calibrando os paradigmas que são a base do seu trabalho.

    Na terceira fase há uma quebra no círculo virtuoso pelo qual a teoria e a prática se alimentam mutuamente: a prática começa a gerar resultados que não podem ser compatibilizados de maneira nenhuma com os paradigmas vigentes, surgindo as anomalias. Com o tempo as anomalias se tornam tantas e tão profundas que os cientistas sabem que há algo tremendamente errado com as teorias e elas perdem a capacidade de previsão: não é mais uma questão simplesmente de novos fenômenos inesperados, mas de inconsistências tão profundas com a teoria vigente que esta deixa de ser útil, pois já passou do ponto em que uma pequena correção ou ajuste seriam suficientes para que ela desse conta das descobertas. É o tempo da crise: é unânime a percepção de que os antigos paradigmas precisam ser abandonados porque eles não trarão nenhum fruto, mas ao mesmo tempo não se chegou ao estabelecimento de novas fundações para o empreendimento científico. Somente quando isso ocorrer é que os cientistas poderão a voltar a praticas a ciência normal, que consegue explicar o passado e prever o futuro num todo consistente.

    Kuhn exemplifica esse processo explicando, dentre outras crises na história da ciência, aquela da concepção geocêntrica do sistema solar, que foi elaborada por Ptolomeu, um astrônomo greco-egípcio que viveu no segundo século a.C., presumindo que o Sol e os outros planetas giravam em torno da Terra, descrevendo órbitas circulares. Houve astrônomos gregos, dentre eles Aristarco de Samos (280-264 a.C.), que aventaram a ideia de que era a Terra que girava em torno do Sol, mas naquela época as observações disponíveis e a predileção dos gregos pelos círculos faziam com que a teoria geocêntrica fosse mais conveniente porque se coadunavam melhor com os dados até então coletados e não precisavam pressupor uma órbita elíptica da Terra em torno do Sol, como a teoria heliocêntrica exigia.

    E assim o geocentrismo dominou as mentes por mais de 1.500 anos até que no século XV a crise era evidente. A necessidade de ajustes e correções na teoria de Ptolomeu, em vista das observações acumuladas, haviam-na transformado em um monstro disforme, cheio de remendos e exceções, que precisava ser abatido, pois causava mais mal do que bem, impedindo o progresso na explicação do Universo. A revolução de Copérnico estabeleceu um novo paradigma, mas no próprio prefácio ao De Revolutionibus que abre este artigo, o autor não pretende ter descoberto as causas verdadeiras do movimento dos astros. A teoria heliocêntrica é melhor não por ser mais verdadeira e nem mesmo por ser mais provável, mas porque faz cálculos melhores que a teoria geocêntrica, permitindo encaixar os dados disponíveis num todo consistente e fazer previsões sobre o futuro, dando assim aos cientistas um mapa seguro sobre como fazer experimentações e chegar à descoberta de novos fenômenos que ilustrarão e enriquecerão a teoria.

    À luz  das explicações de Kuhn sobre como a ciência é praticada e da modéstia com que Copérnico apresenta sua teoria heliocêntrica,  será que a afirmação de Olavo de Carvalho de que a ciência não pode se proclamar como verdade definitiva é descabida? Certamente que não, e ele toca num ponto importante a respeito daqueles que invocam a ciência como argumento de autoridade, e portanto, inquestionável, pois a própria natureza da ciência requer um desafio constante à autoridade. Talvez o guru de Bolsonaro peque ao enfatizar demais o desacordo entre os cientistas quando menciona em seu áudio um livro de autoria da historiadora da ciência Milena Wazeck, que relaciona todos os ataques que eram feitos à Teoria da Relatividade até 1940. Aos mais desavisados, isso pode ser evidência de que a ciência é uma disputa sem fim entre teorias. No entanto, a aplicação dos conceitos de Kuhn nos permite encaixar esses desafios aos postulados de Albert Einstein (1879-1955) como parte do processo de elaboração e consolidação de novos paradigmas. Uma vez a Teoria da Relatividade tendo começado a produzir resultados, na forma de previsões e explicações mais consistentes para os fenômenos, ela deixou de ser ferozmente combatida e por enquanto ainda é o paradigma, que claro, um dia será destruído e substituído por outro.

    Prezados leitores, essa minha breve exposição de uma pequena faceta do pensamento de Olavo de Carvalho, pela comparação com os ensinamentos de Kuhn e Copérnico, permite ver que ele não é o aloprado obscurantista que a imprensa descreve. Por outro lado, seu desejo de ser politicamente incorreto às vezes o levava a fazer afirmações polêmicas que poderiam reduzir seu pensamento. A ciência não é uma verdade, mas também ela não é uma simples opinião: o método científico, autodepurativo e em constante evolução, cônscio de suas próprias limitações e por isso capaz de livrar-se dos erros, é o meio mais seguro encontrado até hoje para elaborarmos proposições que representam de alguma forma o mundo que nos cerca.

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A semântica dos direitos

O jusnaturalismo, no sentido da afirmação de uma ordem de normas para a conduta humana que transcende o arbítrio humano, à qual a validade do direito positivo está sujeita, certamente viveu um renascimento no século XX. […] A violação dessas normas causa desordem social e um movimento espontâneo por uma readequação. Mesmo um legislador supremo estava vinculado (Diguit afirmava) pela noção de estado de direito, de modo que os atos dele que o violam são nulos, mesmo independentemente de qualquer restrição constitucional. Tudo isso carrega a marca distintiva da imanência presumida nos fatos observados e uma ordem transcendente e prevalente.

Trecho retirado do verbete “Filosofia do Direito Ocidental” do volume 10 da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

Primeiramente, ao tentar entender a natureza do discurso moral e do discurso estético, alguns autores sugeriram que palavras como “bom” e “bonito” têm um significado emotivo em vez de (ou além de) um significado descritivo que outras palavras têm: ao usá-las o falante expressa aprovação ou recomendação. Se alguém diz, por exemplo, que ajudar os pobres é bom, ele não está descrevendo uma ação, mas na realidade algo como “Eu aprovo a ajuda aos pobres, faça isso também.” Tal é a função dessas palavras, de acordo com tais pensadores, e o entendimento dessa função leva ao conhecimento do sentido.

Trecho retirado do verbete “Semântica” do volume 10 da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

Em Calais, milhares de migrantes (homens, mulheres e crianças) esperam desesperadamente poder fazer a travessia rumo à Inglaterra. Eles sobrevivem em condições indignas, perseguidos pelas forças policiais, apoiados pelas únicas associações humanitárias. Uma investigação desses campos de fortuna, no coração dessas vidas estragadas, fragilizadas, despedaçadas.

Anúncio do programa de reportagem intitulado “Migrantes, vidas por um fio”, retirado do site da TV francesa TV5 e que foi ao ar em 24 de julho

    Prezados leitores, em meu humilde artigo publicado em 28 de março passado, denominado, “Obviedades ostensivas”, eu chamei atenção para o fato de que a definição ostensiva de certas palavras, isto é a definição por meio da referência a um grupo de objetos no mundo sensível, está sendo desafiada nos Estados Unidos no âmbito da disputa ideológica em torno do sexo e do gênero. A palavra que foi objeto das minhas reflexões foi “mulher”, cuja definição não é mais tão cristalina quanto costumava ser, pois para um número cada vez maior de pessoas o sexo biológico não determina o gênero do ser humano. Dessa forma, mesmo um campo da língua que costumava ser objeto de poucas polêmicas, o do significado de substantivos que nomeiam coisas visíveis a olho nu, objetos animados e inanimados, passou a ser problemático. Nesta semana, meu foco será em outro tipo de palavra na língua, aquele que nunca deixou de ser alvo de disputas pela sua própria natureza.

    Conforme o trecho sobre semântica que abre este artigo, há palavras que não descrevem algo que possa ser testemunhado ou experimentado no mundo exterior à nossa consciência, mas embutem em si um julgamento moral ou estético. Por causa disso, o significado delas não pode ser estabelecido por seu vínculo com um referente, como “mulher”, antes das batalhas ideológicas sobre a identidade de gênero, com era identificado com pessoas que tinham nascido com cromossomos sexuais XX e, portanto, eram genética e biologicamente do sexo feminino. O trecho fala do apelo emocional de palavras como bom e bonito. Quando as utilizamos, estamos pressupondo uma aprovação que surge da emoção positiva que é despertada no falante por aquilo que é objeto do julgamento de valor.

    A prova de que há um julgamento de valor ligado a uma determinada emoção experimentada pelo falante está no fato de que o significado de palavras como “bom” e “bonito” não é unívoco. Uma pessoa de esquerda pode achar bom ajudar os pobres, uma pessoa de direita pode achar que bom é ajudar as pessoas consideradas produtivas a enriquecerem. Quanto à beleza, ela é sempre uma experiência individual, intransferível e indefinível: ver algo bonito cala fundo justamente porque o motivo de algo ser belo não pode ser expresso em um argumento racional que descreva as condições da beleza, que é ou não percebida pelo falante e pronto. Se houvesse critério objetivo para definir o que é belo não teríamos pessoas que consideram a arte modernista das primeiras décadas do século XX como uma arte degenerada, como os fascistas a consideravam e outros que a enalteceram como uma erupção de criatividade ímpar que chacoalhou os fundamentos da arte ocidental, estabelecidos desde a Antiguidade clássica.

    É neste ponto que faço referência à expressão “direitos humanos”, que compartilha da mesma ambiguidade de palavras como “bom” e bonito”. “Direitos humanos” são utilizados em vários contextos e para os mais variados objetivos.  No contexto que me interessa, qual seja a reportagem mencionada na abertura deste artigo sobre os migrantes que estão em Calais, na França, para atravessarem o Canal da Mancha, quem usa “direitos humanos” é o membro de uma associação humanitária francesa que fornece comida aos migrantes e aconselhamento sobre o que fazer para conseguir chegar à Inglaterra. Ele reclama ao jornalista que no país que inventou os direitos humanos eles estão sendo desrespeitados de maneira flagrante. Estes migrantes, que há cinco anos ficavam em um acampamento improvisado a 14 quilômetros do centro de Calais, hoje não têm mais um lugar fixo. O acampamento, que chegou a abrigar 4.000 pessoas, foi desmontado pela polícia francesa, a qual impede que qualquer outro seja montado. E ela o faz confiscando os pertences de quem quer que se atreva a montar uma barraca com outras pessoas, incluindo os documentos desses migrantes, o que lhes dificulta ainda mais a vida.

    Alguns dirão que é óbvio o significado da expressão “direitos humanos” e que portanto, em Calais os direitos dos migrantes estão sendo cotidianamente desrespeitados. No entanto, a dúvida sobre o que são direitos humanos é pertinente. Para o voluntário francês, indignado com o fato de os migrantes não terem onde se hospedar, onde comer e como ir à Inglaterra de maneira segura, os direitos humanos têm a conotação jusnaturalista explicada no trecho que abre este artigo: são direitos imanentes e transcendentes, independentes da lei local e das condições sociais e econômicas. Não importa que os migrantes tenham entrado na França de forma ilegal, não importa que ocupem terrenos que não lhes pertencem, não importa que estimulem a atuação de grupos criminosos que praticam o tráfico de pessoas pagando largas somas àqueles que lhes prometem colocá-los em um bote rumo a Dover ou qualquer outra cidade na costa inglesa. Para os partidários da concepção jusnaturalista de direitos humanos, a França deve tratar os migrantes com a mesma dignidade com que trata seus cidadãos, em todos os momentos, simplesmente porque os direitos humanos são universais e se sobrepõem a qualquer norma restritiva que algum governo possa impor.

    Será que essa visão de direitos humanos prevalecerá no século XXI, como prevaleceu no século XX, século marcado pelos regimes totalitários de esquerda e de direita que mataram milhões de pessoas em nome de suas respectivas ideologias? Ou será que a guerra na Ucrânia, iniciada em 22 de fevereiro e que aparentemente está longe de acabar, provocará uma tal penúria material em termos de falta de alimentos e falta de energia que os direitos humanos na prática serão os direitos daqueles que são considerados legitimados a pedir algo porque são cidadãos do país? Quais serão os direitos humanos dos refugiados que prometem começar seu fluxo rumo a países mais prósperos quando a fome e a inflação galopante, fruto da alta no preço dos combustíveis, começarem a produzir seus efeitos? Aguardemos setembro e a chegada do outono na Europa para vermos quem será considerado “humano” titular de direitos, e quem não terá esse status.

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De Pitágoras a Jung

À medida que resumimos agora a ciência, a pedagogia e a filosofia da Europa Ocidental nos séculos catorze e quinze, devemos lembrar que os estudos racionais tinham que lutar por espaço e oxigênio em uma floresta de superstições, intolerância e medo.

Treco retirado do livro “A Reforma” do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

A biologia, a física e a geologia, eles [alguns críticos da religião] afirmaram, somente fizeram o rápido progresso que fizeram quando foram libertados de um contexto de crença religiosa pelo filósofo do século XVII René Descartes, que formulou um mito metafísico da separação entre a mente e o corpo.

Trecho retirado do verbete sobre Filosofia da Religião da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

De acordo com Aristóteles, a especulação sobre os números é a característica mais marcante do pitagorismo. As coisas “são” números, ou se “parecem” com números. Para muitos pitagóricos, esse conceito significava que as coisas são mensuráveis e comensuráveis ou proporcionais em termos de número – uma ideia de considerável importância para a civilização ocidental.

Trecho retirado do verbete sobre pitagorismo da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

Ao mesmo tempo, ele considerava o reino espiritual como detentor de uma realidade psicológica que não pode ser minimizada e certamente não da maneira sugerida por Freud. Jung postulava, além do inconsciente pessoal (mais ou menos da mesma maneira que Freud), o inconsciente coletivo, que é o repositório da experiência humana e que contém “arquétipos” (isto é, imagens básicas que são universais pelo visto de serem recorrentes em culturas independentes). A irrupção dessas imagens do inconsciente na consciência ele considerava como a base da experiência religiosa e frequentemente da criatividade artística.

Trecho retirado do verbete sobre o Estudo da Religião da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

    Prezados leitores, no seu esforço de descrever o contexto cultural em que ocorreu a Reforma Protestante, Will Durant tem um capítulo dedicado aos mágicos, em que ele dá detalhes sobre a mentalidade pouco propícia à investigação da natureza com base nas evidências, o que basicamente caracteriza a ciência praticada atualmente. Conforme mostra o primeiro trecho que abre este artigo, o uso desassombrado da razão para explicar os fenômenos era muito prejudicado pela precariedade da vida em uma época de pouca tecnologia: as fomes, as pragas e as guerras que surgiam e desapareciam de maneira inesperada levavam o homem a encarar a Natureza com medo e para diminuir seus temores e achar uma solução para os problemas, recorria à explicação de que forças ocultas precisavam ser aplacadas de forma que o homem pudesse ter algum alívio existencial. Aplacar essas forças significava recorrer a expedientes mágicos que pudessem fazer frente, pelo poder que colocavam em marcha, ao poder misterioso delas. Eles incluíam a necromancia, a leitura das mãos, a observação do movimento dos astros, a numerologia, a bruxaria, as profecias, adivinhações, as conjunções estelares portentosas, as curas miraculosas, as transmutações químicas. Todos esses expedientes pressupunham a crença absoluta na sua eficácia, crença essa incólume às evidências factuais, justamente porque respaldada em uma concepção religiosa do mundo, em que o bem lutava contra o mal.

    Daí que foi preciso que essas superstições e crendices fossem abandonadas para que as ciências pudessem se desenvolver, tal como descrito no segundo trecho que abre este artigo. Só livre dessa estrutura mental, em que tudo estava conectado por uma narrativa religiosa, é que o homem ocidental cristão começou a utilizar sua razão de maneira científica, isto é, de maneira a ver os fenômenos naturais em si mesmos e a tentar explicá-los em si mesmos sem recorrer a forças sobrenaturais onipresentes. E assim, rebelando-se contra os pré-conceitos derivados da religião, ele embarcou na jornada científica que causou uma revolução tecnológica e nos colocou em um nível inédito de conforto material, jamais visto na história da Humanidade. Como disse o físico americano Lawrence Krauss (1954-) em uma palestra dada em abril de 2012 na Universidade Nacional da Austrália juntamente com o biólogo britânico Richard Dawkins (1941- ), ambos ateus militantes, a diferença entre a religião e a ciência é que a ciência funciona: ela nos dá carros que andam e – acrescentaria eu – fogões que cozinham e celulares que transmitem mensagens. Os benefícios da religião definitivamente não são tão palpáveis.

    E no entanto, não foi sempre que religião e ciência estiveram em campos opostos. A investigação para achar a causa dos fenômenos naturais e explicá-los foi feita antes do advento do cristianismo na Grécia por homens que tinham um pé na razão e outro nos mistérios do mundo. Um deles é Pitágoras de Samos (570 a.C. – 495 a.C.), a quem conhecemos por ter dado nome ao teorema da geometria que estabelece uma relação matemática entre os lados de um triângulo retângulo. Conforme o terceiro trecho que abre este artigo, Pitágoras introduziu uma noção que seria de fundamental importância para o desenvolvimento da ciência ocidental, a de que o mundo só pode ser entendido se acharmos os números nas coisas e uma vez revelada a estrutura numérica nós adquirimos controle sobre o mundo. De acordo com Bertrand Russell, a concepção moderna de ciência é fundada na ideia de que as coisas são números. Sem ela, não teríamos a física e suas equações.

    Por outro lado, ainda segundo o mesmo Russell, Pitágoras diferenciou-se pelo fato de mostrar um interesse puro na matemática, não ditado por necessidades práticas, como ocorria no Egito, por exemplo. E aqui revela-se a outra dimensão dos esforços intelectuais do filósofo grego. A escola pitagórica era também uma seita religiosa, cujos membros praticavam rituais de iniciação, seguiam regras de vida e tomavam alucinógenos para terem experiências religiosas que os colocavam em contato com a unidade do cosmos. Sob essa perspectiva, os números não eram simplesmente instrumentos para descrever e entender a realidade, mas símbolos que, ao estabelecer relações numéricas, permitiam aos iniciados no culto abrir-se à harmonia e à ordem transcendentes. Os pitagóricos elaboraram a primeira escala musical no Ocidente usando a ferramenta da matemática para terem acesso a uma experiencia mística por meio da música tocada da maneira ditada pela escala proporcional que haviam inventado.

    Essa união entre experiência religiosa e busca da verdade acabou perdendo-se no Ocidente depois do advento do cristianismo. A forma como os dogmas da Igreja Católica foram estabelecidos e impostos pelas autoridades eclesiásticas, por meio do medo e da coação típicos do exercício do poder absoluto, fez com que a investigação do mundo só pudesse ocorrer pelo uso do argumento de autoridades sancionadas pela Igreja, ou de superstições que serviam para encher as pessoas de temor reverencial e fazê-las render-se ao poder da religião para consolar o homem do sofrimento e da miséria onipresentes. No entanto, não ajudavam muito para tornar essa investigação eficaz e fazê-la funcionar da maneira como a ciência é capaz atualmente, produzindo resultados concretos pela tecnologia. E assim foi preciso que para a ciência florescer a religião teve que perecer, ao menos para pessoas com curiosidade intelectual, como Lawrence Krauss e Richard Dawkins.

    Se formos tirar lições do pensamento do psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) tal separação entre ciência e religião é algo a se lamentar. Conforme mostrado no quarto trecho que abre este artigo, as investigações de Jung sobre a psiquê humana o levaram a desenvolver a ideia de que todos nós, enquanto homo sapiens, compartilhamos imagens arquetípicas que desempenham um papel fundamental na mente: carregadas de significados, essas imagens viabilizam a constituição da personalidade do indivíduo, pois lhe oferecem símbolos que remetem ao mistério da condição humana e ao significado das coisas. Nesse sentido, os arquétipos desempenham um papel religioso, estabelecendo uma narrativa que explica a origem e a criação do mundo, e um papel artístico, pois permitem ao homem usar símbolos para chegar a significados profundos sobre a natureza da existência.

    Prezados leitores, será que a recuperação por Jung da dimensão espiritual do homem por meio dos arquétipos algum dia permitirá uma nova síntese de religião e ciência? Ou será que elas estarão sempre em campos opostos no Ocidente com os ateístas defendendo-se das religiões monoteístas, como ocorre atualmente? Diante da possibilidade de que a humanidade não consiga sobreviver ao século XXI devido ao esgotamento dos recursos naturais e ao perigo nuclear seria bom que os investigadores da alma e os investigadores da natureza chegassem a uma entente, porque a salvação material do homo sapiens só poderá vir da boa vontade de todos em prol do bem comum, o que requer um compartilhamento de valores éticos e um comprometimento sincero em colocá-los em prática. Aguardemos.

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