Razão para quê?

A razão, ele afirma, não consegue nunca explicar o mundo ou provar a existência de Deus. “Que privilégio peculiar tem essa pequena agitação do cérebro chamada pensamento, que devemos fazê-lo o modelo do universo como um todo?” […] A respeito do desenho, a adaptação de órgãos para determinados objetivos pode ter resultado não da orientação divina, mas dos experimentos lentos e malfeitos ao longo de milhares de anos. (Aqui está a “seleção natural” 1.800 anos depois de Lucrécio, 108 anos antes de Darwin.) E mesmo que admitamos um desenho sobrenatural, a imperfeição das adaptações e a miríade de sofrimentos no mundo humano e animal revelam na melhor das hipóteses um deus com poderes e inteligência limitados, ou um deus bem indiferente ao ser humano.

Trecho retirado do livro “A Era de Voltaire”, escrito por (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre o filósofo empiricista escocês David Hume (1711-1776)

 

Assim, o cético continua a pensar e a acreditar, em que pese ele não poder defender sua razão pela razão; e de acordo com a mesma regra, ele deve concordar com o princípio relativo à existência do corpo, em que pese ele não poder pretender com base em nenhum argumento filosófico manter sua veracidade.

Trecho retirado do “Tratado sobre a Natureza Humana”, de David Hume, citado no livro “A Era de Voltaire”, escrito por (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981)

    Prezados leitores, na semana passada eu lhes apresentei a teoria alternativa à teoria da evolução, a teoria do design inteligente, a qual não é aceita na comunidade científica, mas que pretende ser um meio de explicar aquilo que o darwinismo não consegue explicar muito bem, isto é, como a vida é criada na Terra com base na codificação de informação genética no DNA. Naquele texto eu disse que aventar a hipótese de que exista uma mente brilhante por trás da criação da vida pode servir de contraponto ao materialismo que predomina na ciência desde o século XVII. Nesta semana, meu objetivo será o de me debruçar sobre um dos pais do Iluminismo britânico, David Hume. Em assim fazendo, trarei um terceiro ponto de vista à discussão, pelo fato de Hume não ser nem materialista e nem idealista, mas um cético e um empiricista.

David Hume é empiricista porque para ele todas as nossas ideias são derivadas da experiência por meio das impressões que aquela causa em nossos sentidos, produzindo as sensações de luz, som, calor, pressão, cheiro, gosto. A sensação interpretada pelo cérebro se transforma em percepção e assim em um processo de elaboração mental chega-se às ideias. A ideia de espaço é a ideia de pontos tangíveis e visíveis distribuídos em uma determinada ordem, a ideia de tempo é a percepção da sequência das nossas impressões. Nesse sentido, Hume não é materialista porque para ele não percebemos matéria nenhuma e a única coisa que sabemos é o nosso mundo mental de ideias, sentimentos, desejos, impressões e percepções. E Hume também não é idealista porque não considera que exista uma mente independente dos estados mentais transitórios que variam conforme o conteúdo que esteja ocupando a consciência no momento.

    Daí que seu antimaterialismo e seu anti-idealismo levam o filósofo escocês a ser um cético. Não se pode sobrestimar os poderes da razão humana porque em última análise ela atua sobre a experiência que é contingente e variável. As leis da natureza que estabelecem relações de causa e efeito entre os fenômenos na verdade são meras sequências frequentes de eventos em nossa experiência, que se repetem ao longo do tempo e que nos fazem acreditar que se manterão assim. No entanto, por serem obtidas empiricamente, essas conexões entre sequências de eventos não são invariáveis nem necessárias, não havendo garantia de que elas se repetirão amanhã ou continuarão a repetir-se infinitamente. Sob esse aspecto, a ciência é um acúmulo de probabilidades sujeitas a mudanças sem aviso prévio.

    E o que dizer da realidade última aventada pelos metafísicos? Se não podemos conhecer a matéria por trás das nossas sensações, que são os únicos meios de contato de que dispomos com o mundo exterior, se não podemos conhecer as operações causais por trás das sequências de eventos que percebemos no tempo e no espaço e se não podemos conhecer a mente por trás das ideias, as quais são o produto de estados mentais, não há como propor uma cadeia retroativa de causas e efeitos que levasse ao Ser Supremo da metafísica aristotélica, ao ente não movido que deu o pontapé inicial no mundo.

    Não é de surpreender então que Hume rejeite totalmente a ideia de uma mente brilhante por trás das engrenagens dos fenômenos, conforme o trecho que abre este artigo. Não é possível supor com base em nosso conhecimento que haja uma mente além dos estados mentais que se sucedem enquanto o ser humano está vivo. E esses estados mentais só produzem ideias fundadas em experiências transitórias e contingentes, de forma que elas não podem servir de modelo para explicar o universo como um todo. Projetista inteligente por trás da criação? Não, apenas uma série infinita de tentativas, muitos erros e alguns acertos que levaram a um mundo em que o sofrimento, a dor e a calamidade são por demais onipresentes para pressupormos uma inteligência perfeita que os tivesse criado.

    E no entanto, apesar de todos esses argumentos céticos quanto aos poderes da razão humana, o próprio filósofo, no segundo trecho que abre este artigo, adota outro guia para sua vida. Em vez de abandonar a razão de todo, ele adota a crença de que a realidade é racional e permeada pelo princípio da causalidade. O tempo, o espaço e a causalidade são construções mentais derivadas da experiência contingencial do homem, mas isso é suficiente para continuarmos a fazer ciência e filosofia, embora não seja suficiente para postular uma mente brilhante que deu vida a tudo da melhor maneira possível.

    Prezados leitores, para um cético empiricista como David Hume a razão não faz milagres, não cria coisas do nada e, no entanto, ela serve para continuarmos vivendo e aprendendo com nossas experiências, cautelosamente, sem grandes pretensões, mas também sem grandes desilusões. A falta de entusiasmo de Hume pela infalibilidade das construções racionais inspirou um ambiente intelectual inédito de tolerância que na Europa do século XVIII influenciou intelectuais como Voltaire e Diderot, na França e Immanuel Kant na Prússia, preparando o terreno para o Iluminismo.

    Razão para quê? Para, entre outras coisas, do alto do nosso ceticismo, concordarmos em discordar, porque sabemos não podermos ter certeza de nada.

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Materialismo para quê?

O materialismo mecânico é a teoria de que o mundo consiste inteiramente em objetos materiais e sólidos os quais, mesmo que sejam imperceptivelmente pequenos, são de outro modo coisas como as pedras. […]Esses objetos interagem da maneira que as pedras fazem: pelo impacto e possivelmente também pela atração gravitacional. A teoria nega que coisas imateriais ou aparentemente imateriais (tais como mentes) existam ou de outro modo as explicam como sendo coisas materiais ou movimentação de coisas materiais.

Trecho retirado do verbete sobre “Materialismo” da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

Darwin elaborou uma teoria da evolução com base nas mudanças aleatórias e na seleção natural … uma versão da evolução rigidamente materialista (e basicamente ateia).

Trecho retirado da palestra intitulada “A humanidade esqueceu-se de Deus? dada em Dallas, no Texas, em maio de 2023 por Stephen Meyer (1958-), doutor em filosofia da ciência americano e proponente da teoria do design inteligente, citando o paleontólogo e biólogo americano Stephen J. Gould (1941-2002)

 

Quero abordar hoje a falsa disputa entre design inteligente e as explicações da ciência biológica baseada na teoria da evolução”, afirma. […]O físico aponta que o principal argumento em defesa do design inteligente é que a complexidade dos seres vivos e de seus órgãos não poderia surgir do acaso, hipótese apresentada como complexidade irredutível: sem um “projetista” inteligente essas estruturas não poderiam existir. “A hipótese de que um criador ‘inteligente’ é responsável pelo surgimento da vida (e do próprio universo) não se presta a testes experimentais”, ressalta. “Portanto, não pode ser considerada científica.”

Trecho do artigo ”Design inteligente não é ciência e não deve ser ensinado nas escolas”, publicado no Jornal da USP de 12 de fevereiro de 2020, citando o professor do Departamento de Física Experimental da Universidade de São Paulo, Paulo Nussenzveig

 

Tanto em períodos pré-paradigmas quanto durante as crises que levam a mudanças de larga escala no paradigma, os cientistas normalmente elaboram muitas teorias especulativas e não articuladas que podem elas mesmas apontar o caminha para a descoberta. Frequentemente, no entanto, a descoberta não é exatamente aquela prevista pela hipótese especulativa e provisória. Somente à medida que os experimentos e a teoria provisória são articulados de modo a terem uma correspondência é que a descoberta emerge e a teoria torna-se um paradigma.

Trecho retirado do livro a “Estrutura das Revoluções Científicas” do físico e filósofo da ciência americano Thomas S. Kuhn (1922-1996)

 

    Prezados leitores, há algumas semanas tenho abordado a questão de como a religião começou a ser desafiada no Ocidente a partir da Reforma Protestante no século XVI e quanto esse desafio evoluiu ao longo dos séculos XVII e XVIII: deixou de ser um ataque meramente institucional à Igreja Católica e passou a ser um ataque intelectual e epistemológico. Intelectual porque a fé que acreditava em coisas inverossímeis, improváveis ou até impossíveis foi contraposta à razão que analisava o mundo natural. Epistemológico, porque a Bíblia deixou de ter a última palavra sobre assuntos como a origem do mundo e do homem, que podiam ter uma explicação baseada na premissa de que não era preciso recorrer a um Criador para que o ser humano entendesse como os fenômenos naturais se desenrolam de acordo com leis que descrevem os mecanismos de operação desses fenômenos.

    O resultado deste duplo ataque foi a ascensão do materialismo, isto é, a ideia, conforme explica o trecho que abre este artigo, que o mundo é composto unicamente por matéria que interage entre si. Conceitos como o Espírito Santo, a Santíssima Trindade e a Transubstanciação não tinham mais função explicativa, porque só objetos materiais poderiam ter efeito sobre outros objetos materiais. Não havia lugar para conceitos metafísicos que pudessem ser causa suficiente dos fenômenos observados no mundo fenomenológico. Sob essa perspectiva, a mente e a consciência não têm existência autônoma, como propõe o idealismo, a corrente filosófica que se opõe ao materialismo: elas são apenas manifestações de processos materiais que ocorrem no cérebro do homem e só atuam no mundo na medida em que tenham uma concretização material.

    Muitos foram os produtos deste materialismo filosófico triunfante. Neste meu humilde espaço já mencionei a física newtoniana, nesta semana meu objetivo será tratar da teoria da evolução do biólogo inglês Charles Darwin (1809-1882). A teoria da evolução foi a pá de cal na possibilidade de fé religiosa por parte dos intelectuais porque, conforme Stephen Mayer explica na palestra mencionada na abertura deste artigo, ela explica a vida não como uma dádiva divina, mas como um produto da evolução de seres mais simples aos mais complexos, por meio de mudanças biológicas graduais ao longo de longos períodos de tempo que permitem que os indivíduos se adaptem às condições ambientais e sobrevivam. Os neodarwinistas, entre os quais colocou-se Stephen Jay Gould, atualizaram a teoria de Darwin à luz das descobertas mais recentes sobre o DNA e as mutações dos genes, para esclarecer que essas mudanças graduais consistem em mutações genéticas que, se permitem uma melhor adaptação, serão preservadas para as próximas gerações porque permitirão aos seus portadores sobreviver e reproduzir-se; e se não facilitam a adaptação serão descartadas ou tornadas menos prováveis porque farão com que seus portadores ou morram ou não consigam reproduzir-se de maneira bem-sucedida, evitando a propagação dessa mutação genética maléfica.

    Assim, a teoria de Darwin parece ser a cereja do bolo dos materialistas, pois permite descartar Deus como agente causal de efeitos sobre o mundo material: bastam os objetos materiais eles mesmos, no caso os organismos vivos, para mudarem, evoluírem e propagar-se a depender do sucesso ou do fracasso da sua adaptação ao meio ambiente. E no entanto, eis que os próprios frutos científicos conquistados, notadamente o entendimento do papel do DNA na constituição dos organismos, abrem novas perspectivas neste século XXI, levando ao questionamento da teoria da evolução como suficiente para explicar a vida. Esse questionamento se materializa na teoria do desenho inteligente, que seus detratores como o físico Paulo Nussenzveig citado na abertura deste artigo, chamam de uma vertente do criacionismo, que vigorava antes de Darwin entrar em cena, sob a inspiração dos mitos bíblicos sobre a criação do mundo e do homem.

    Conforme Paulo Nussenzveig explica na conversa de rádio de 2020, reproduzida no Jornal da USP, os designers inteligentes propõem que a complexidade dos organismos vivos é muito grande para que sua constituição possa ser explicada por mutações aleatórias. É preciso haver uma mente brilhante que permite que os diferentes órgãos em uma célula, por exemplo, se organizem de forma que cada um desempenhe uma função e todos juntos em sintonia possam fazer com que a célula seja uma estrutura perfeita que existe como tal somente porque suas partes foram concatenadas em prol desse objetivo. Ora, para o físico da USP, propor a hipótese de um projetista que não pode ser testada devido à própria natureza etérea do projetista, é algo não científico.

    No entanto, há mais objeções que os proponentes da teoria do design inteligente, pessoas como Stephen Meyer e o químico orgânico americano James Tour (1959-) colocam à teoria da evolução. Darwin explicou como os organismos evoluem, mas não explicou como a vida surge. Até hoje ninguém nunca conseguiu criar vida em laboratório de maneira espontânea, sem a ajuda do pesquisador, e isso por uma razão fundamental: conforme Francis Crick e James Watson descobriram ao revelar a estrutura química do DNA, a vida requer instruções precisas: para que as proteínas que são os tijolos dos organismos vivos sejam produzidas, elas precisam ser codificadas, e tal codificação é feita pelo DNA, que é formado por letras químicas cuja ordem precisa determina o tipo de proteína que será produzido. Ora, se o DNA é uma instrução baseada em uma linguagem, não há como descartar uma mente que cria a linguagem e dá as instruções por meio dela.

    Assim, o ponto principal dos designers inteligentes é que, com base no nosso conhecimento atual sobre como a vida é possível, ela é baseada em informação química, e sem tal elemento mental, que dá as instruções para a síntese de proteínas, não é possível que a matéria inerte seja transformada de tal forma a ser considerada como tendo vida. Uma abordagem materialista que enfoca os impactos mútuos dos objetos materiais sem levar em conta a mente que atua sobre eles e lhes dá função e propósito não explica o aspecto mais fundamental da biologia, que por definição é a ciência que estuda a vida e os organismos vivos. Darwin pode ter explicado como os organismos vivos evoluem, mas sua teoria materialista e ateia não explica como a vida surge, pois a base da vida é a informação.

    Prezados leitores, pode ser que os designers inteligentes sejam derrotados pelos darwinistas e que no final das contas estes consigam chegar a uma explicação materialista satisfatória que dê conta da biologia como um todo. Ou conforme explica Thomas Kuhn em seu famoso livro, citado na abertura deste artigo, a tentativa incipiente de explicação alternativa proposta pelos ditos “criacionistas” leve a descobertas não vislumbradas por nenhuma das partes, mas robusta o suficiente para permitir a mudança do paradigma e a substituição da teoria darwinista por uma teoria que se adeque melhor ao que se sabe sobre a função do DNA como o código da vida. Aguardemos, com a mente aberta, sem pré-conceitos, se possível. Talvez o século XXI seja o momento em que a oposição dialética entre ciência e religião, entre materialismo e idealismo, seja superada por uma síntese revolucionária, quem sabe?

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Boas maneiras para quê?

“[…] você deve esperar encontrar [na corte] contatos sem amizade, inimigos sem ódio, honra sem virtude, aparências salvas e realidades sacrificadas, boas maneiras com comportamento ético ruim; e todos os vícios e virtudes tão disfarçados que quem quer que tenha refletido sobre um ou outro não conheceria nenhum deles quando os tivesse encontrado pela primeira vez na corte.”

Trecho retirado da obra “A Era de Voltaire”, escrita por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) citando Philip Dorner Stanhope (1694-1773), homem de Estado e diplomata inglês, autor que escreveu “Cartas ao seu Filho”

 

Aprenda a bajular, porque somente os grandes sábios e santos são imunes à bajulação; mas quanto mais ao alto você for, mais delicada e indireta deve ser sua bajulação.

Trecho retirado da obra “A Era de Voltaire”, escrita por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) citando Philip Dorner Stanhope (1694-1773), homem de Estado e diplomata inglês, autor que escreveu “Cartas ao seu Filho”

Uma “característica de um homem bem educado é a de conversar com quem lhe é inferior sem insolência, e conversar com quem lhe é superior com respeito e à vontade.”

Trecho retirado da obra “A Era de Voltaire”, escrita por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) citando Philip Dorner Stanhope (1694-1773), homem de Estado e diplomata inglês, autor que escreveu “Cartas ao seu Filho”

    Prezados leitores, na semana passada eu falei sobre algumas das iniciativas tomadas por Philippe d’Orléans (1674-1723) enquanto foi regente da França de 1715 a 1723, e usei o exemplo de sua vida para dar uma lição de moral, alegando que ele poderia ter feito muito mais pelo país e talvez tivesse contribuído para atenuar o desgaste da Monarquia francesa se tivesse vivido mais. E ele teria vivido mais se tivesse cultivado a virtude da temperança, isto é, se tivesse exercido um melhor controle sobre seus apetites. Afinal, a temperança é a sabedoria relativa à determinação do que é moderado e conveniente em relação aos prazeres do homem, o qual deve sopesar os efeitos benéficos e maléficos a curto e a longo prazo de dar vazão a seus apetites e tomar decisões com base na arte da medida do prazer e da dor que eles lhe causam.

    Nesta semana, meu foco não será na virtude, mas nas boas maneiras. Porque a verdade é que no ambiente cultural em que se vivia na Europa no século XVIII, com a proliferação de livre-pensadores e de libertinos que caçoavam da religião e das proibições que ela impunha, e se achavam muito inteligentes e criativos ao atacá-la enquanto instituição e enquanto prática, ficava difícil almejar a um comportamento cristão. Todos os preceitos das igrejas haviam perdido a credibilidade quando das repetidas guerras nos séculos XVI e XVII entre católicos e protestantes. Não era possível a homens do mundo, familiarizados com as descobertas científicas de Newton, com as mais recentes especulações filosóficas de Spinoza e Locke, serem criaturas morais que tomavam a Bíblia como a suprema autoridade para decidirem como se comportar. Na falta de rígidos padrões éticos, um homem de sensibilidade e inteligência inventou as boas maneiras e elaborou um manual dirigido a seu filho, como meio de educação do rebento, que ele esperava exercesse cargos no governo como Ministro ou diplomata.

    Este homem foi o 4º Conde de Chesterfield, Philip Dorner Stanhope, que foi membro da Câmara dos Lordes (1726), embaixador da Inglaterra na Holanda (1728) e governador-geral da Irlanda (1745-1746), onde criou escolas, estabeleceu indústrias, deu fim à perseguição aos católicos, acabou com a corrupção no governo e administrou com competência e imparcialidade. Apesar dessas realizações, seu principal legado ao mundo foram suas Cartas, publicadas depois de sua morte. Em que pese elas não terem atingido seu objetivo de formarem seu herdeiro para ser um membro da elite governante, já que o moço morreu antes do pai aos 36 anos, sem ter realizado nada digno de nota, as Cartas são uma coletânea de bons conselhos para quem quisesse ter sucesso em um mundo cujas instituições milenares, como a Igreja e a Monarquia, estavam sendo corroídas.

    Conforme o primeiro trecho que abre este artigo, o 4º Conde de Chesterfield tem uma visão equilibradas da Corte: não era nem um antro de homens degenerados e nem povoada por homens abnegados que tratavam da coisa pública com zelo e sacrifício pessoal. Não era preciso ter um comportamento moral ilibado e coerente, afinal o ideal do bom cristão tinha ficado para trás, mas era necessário sobretudo disfarçar seus vícios de modo que eles pudessem passar quase desapercebidos e que as aparências pudessem ser mantidas, para alívio de todos.

    O fato é que cada personagem na Corte tratava dos seus interesses da melhor maneira possível, o que muitas vezes significava moderação nas atitudes para conseguir ser bem-sucedido. Era preciso bajular as pessoas que tinham o poder para fazer nomeações, viabilizar contratos com o governo, mas não era de bom tom ser abertamente bajulador, porque isso poderia irritar o objeto dos elogios e torná-lo antipático aos desígnios do bajulador. Da mesma maneira, não era de bom tom tripudiar sobre aqueles que estavam abaixo na escala social, pois isso poderia nutrir o ressentimento e lembrar aos objetos do desprezo como a fortuna era arbitrária e injusta, o que poderia lhes inspirar a desígnios vingativos.

    Nesse sentido, os objetivos materiais imediatos tinham predominância sobre ideais de vida e as relações humanas não deveriam ser muito pessoais, calcadas nas emoções, nos valores em comum, o que sempre ofusca o raciocínio: eram relações baseadas nos interesses mútuos e todas as tratativas deveriam relevar as preferências ou antipatias pessoais em prol da obtenção de um acordo sobre um mínimo que fosse conveniente para ambas as partes. Adotando esse comportamento equilibrado, os homens da Corte poderiam satisfazer seus interesses egoístas sendo polidos, discretos e cautelosos no falar e no agir. Evitando excessos de insolência, desrespeito e bajulação, eles poderiam manter relações cordiais tanto com quem estava acima deles quanto como quem estava abaixo deles, viabilizando a consecução dos seus objetivos e em assim fazendo contribuindo para a paz social.

    Em suma, boas maneiras eram fundamentais, a despeito das ilusões perdidas em relação ao modo de vida cristão. E tais boas maneiras implicavam também uma atitude serena em relação à religião. Para Chesterfield, criticar abertamente a religião como libertinos e livre-pensadores faziam, fazer troça das suas proposições cientificamente absurdas, era algo vulgar e desrespeitoso. Vulgar porque com a profusão de obras anticlericais e antireligiosas, qualquer indivíduo de pouca inteligência e cultura poderia achar argumentos para lançar diatribes contra a Igreja, a Bíblia e Jesus Cristo. Desrespeitoso porque a religião era, afinal de contas, a garantia da moral. Sem a religião a moral se enfraquecia bastante, tornava-se um ativo desvalorizado. Tanto assim, que já em 1752 Chesterfield, observando na França como as pessoas criticavam livremente o governo e a religião, vislumbrou uma possibilidade cada vez maior de que houvesse uma revolução no país, tamanho era o desprezo mostrado ao Rei e à Igreja Católica.

    Prezados leitores, mesmo que a virtude e as boas maneiras não sejam a mesma coisa, o fato é que a falta de uma e de outra leva ao mesmo resultado catastrófico, de erosão da credibilidade das instituições que são o esteio da sociedade. Da mesma maneira que ocorreu com Philippe d’Orléans, cujo curto período no governo foi insuficiente para deixar um legado duradouro de boa governança do Estado para os sucessores de Luís XIV, talvez se mais pessoas da elite tivessem aderido ao manual de boas maneiras do 4º Conde de Chesterfield, os excessos de vulgaridade, desrespeito e arrogância teriam sido evitados e o povo francês não teria se rebelado da maneira violenta que o fez em 1789. Os franceses poderiam ter mantido sua monarquia, domesticando-a por meio da prevalência do Parlamento como na Inglaterra. Se faltam virtudes aos homens, imperfeitos que são, a lição das Carta ao seu Filho é que as boas maneiras são um substituto que pode contribuir para manter a sociedade organizada.

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Virtude para quê?

 O erro moral se deve exclusivamente a um equívoco de apreciação racional na relação quantitativa de prazeres e dores desenvolvida em cada escolha numa perspectiva diacrônica: ao optar por um determinado curso de ação, sendo-lhe possível fazer a escolha contrária, o agente estima equivocadamente a quantidade e/ou intensidade de prazer que ele pode obter imediatamente – pois ele é enganado pelo “poder da aparência”, causado pela expectativa de obtenção imediata desse prazer – em comparação à quantidade e/ou intensidade de prazer e dor que decorrem futuramente; no final das contas, ele acaba por contrair mais dores do que prazeres, ao contrário de sua estimativa no momento mesmo da escolha. Não se trata, portanto, de uma deficiência do poder do conhecimento na determinação do curso das ações humanas, como aventado inicialmente pela maioria dos homens, mas de ignorância do agente, que é enganado por uma falsa estimativa de prazeres e dores quando considerados no longo prazo, diante da expectativa de se obter uma quantidade de prazer imediatamente.

Trecho do ensaio “O argumento hedonista: a refutação final” escrito por Daniel R. N. Lopes como introdução à sua tradução do diálogo Protágoras, de Platão (427 a.C.- 347 a.C.)

É uma visão desoladora – um homem com uma mente brilhante, de ideias liberais, lutando para reparar os danos causados pela intolerância do Grande Rei, deixando que seus nobres propósitos se afogassem em bebedeiras sem sentido, e perdendo o amor em um redemoinho de devassidão.

Trecho retirado da obra “A Era de Voltaire”, escrita por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre Philippe d’Orléans (1674-1723) que foi regente da França de 1715 a 1723

    Prezados leitores, na semana passada eu tratei do desastre causado pelos anos de guerra que Luís XIV (1643-1715) impôs ao seu país. Na sua morte, considerando que o herdeiro direto do trono tinha 5 anos, o governo foi exercido interinamente por Philippe d’Orléans, sobrinho do rei-Sol. A herança era maldita: uma dívida de 2 bilhões e 400 milhões de livres, uma dívida flutuante de 590 milhões de livres, na forma de notas promissórias emitidas pelo Tesouro Real. Em 1715 as receitas líquidas do governo eram de 69 milhões de livres, as despesas eram de 147 milhões de livres, sendo que a maior parte das receitas de 1716 já tinham sido gastas. O que fazer? Nesta semana, meu objetivo é tratar de alguns dos aspectos da regência do duque de Orléans para descrever o que ele fez e o que ele poderia ter feito, se tivesse seguido as lições do personagem Sócrates expostas no diálogo Protágoras.

    Para debelar a crise financeira e econômica, o Regente nomeou como Ministro das Finanças o escocês John Law (1671-1729), que propôs lançar um sistema de incentivo à atividade econômica pelo estímulo ao crédito: o Estado emitiria papel moeda lastreado nas reservas de metais preciosos e terras do país e baixaria a taxa de juros e os impostos de modo que com mais capital disponível aos agentes privados, os empreendedores criassem negócios e gerassem empregos, fazendo girar a roda da economia. E assim foi feito. Em 1718 foi criado o Banque Royale, que ofereceu aos franceses que detinham títulos da dívida do governo trocá-los pelo valor de face por ações em uma Companhia das Índias cujo objetivo era a exploração da bacia da foz do rio Mississippi, onde foi fundada a cidade de Nova Orléans, em 1718, em homenagem ao regente. A chance de se livrar de títulos que valiam um terço do valor nominal fez com que houvesse uma corrida pela compra de ações na empresa e fomentou a especulação com essas ações.

    Além da criação desse sistema de crédito, Law diminuiu as tarifas aduaneiras que eram impostas no comércio interno, fez uma distribuição de terras de propriedade da Igreja e de corporações aos camponeses. Investiu na melhoria da infraestrutura do país, organizando a construção de pontes, rodovias e canais. Concretizou uma expansão industrial de 60% ao longo de 1719-1720, pela diminuição dos juros sobre os empréstimos.  Com mais dinheiro circulando na economia, devido não só ao frenesi causado pela negociação das ações da Companhia das Índias, mas pela diminuição do peso do Estado sobre os agentes privados, a agricultura, a indústria e o comércio floresceram.

    Por outro lado, a negociação das ações acabou tornando-se uma pirâmide financeira, e quando chegaram notícias das dificuldades enfrentadas pelos colonos na exploração da Luisiana todos quiseram ao mesmo tempo livrar-se das ações, garantidas pelas reservas nacionais. Os que chegaram primeiro e os bem conectados conseguiram trocar suas ações pelo ouro do Tesouro francês. Outros perderam muito dinheiro, já que as ações, que no seu auge valiam 12.000 livres, acabaram sendo negociadas ao final por 200 livres, e para diminuir os prejuízos o governo ofereceu em troca dos títulos podres direitos sobre as receitas governamentais mediante descontos do valor de face que variaram de 16 a 95%. Law, que também tinha investido todo seu dinheiro na Companhia, foi demitido pelo Regente em dezembro de 1720 e foi embora para Veneza, com sua mulher e filha, vivendo lá na pobreza e na obscuridade até sua morte.

    Dessa maneira, por mais que a expansão monetária criada pelo sistema de Law tenha causado depreciação da moeda, inflação e caos quando a bolha estourou, ela conseguiu fazer com que o Estado francês se livrasse da dívida herdada de Luís XIV, o que permite dizer que Philippe D’Orléans foi bem-sucedido em abordar o problema da falência em que se encontrava o Tesouro Público e houvesse uma recuperação econômica que superou a estagnação causada pelas guerras do rei-Sol e pela perseguição de grupos produtivos de pessoas, como os huguenotes. Isso é o que foi feito em termos financeiros e econômicos. Agora tratemos de falar sobre o que não foi feito.

    O Regente morreu de um ataque apoplético aos 49 anos, nos braços de uma amante, depois de Luís XV ter sido declarado maior aos 13 anos e ter manifestado seu desejo de que seu primo continuasse à frente dos negócios públicos. É de se supor que Philippe, que nos seus oito anos no poder sempre trabalhou para que a França não se envolvesse em guerras, tivesse tido uma influência benéfica sobre o reinado de Luís XV (1715-1774) que poderia ter evitado a participação da França na Guerra da Sucessão Austríaca (1740-1748) a qual, juntamente com a participação, já sob o reinado de Luís XVI (1774-1792), na Guerra de Independência dos Estados Unidos (1775-1783) contribuíram para que o Estado se tornasse novamente endividado e falido, o que foi um dos fatores que desencadearam a Revolução Francesa, em 1789.

    E qual o motivo dessa morte prematura, que teve tantas repercussões inesperadas sobre a história do país? Conforme o trecho que abre este artigo, Philippe, apesar de ser um homem preparado intelectualmente para governar, pois estava mais em sintonia com os novos tempos de livre-pensamento do que seu tio, limitado por seus preconceitos religiosos, entregou-se sempre aos excessos da bebida e do sexo. Nunca deu ouvidos aos médicos que diziam que se ele continuasse com sua vida desregrada iria morrer logo. A maioria de nós diria que foi um homem vencido pelo prazer, a despeito da sua capacidade de pensar e de formular soluções para os problemas que encontrou quando esteve à frente do governo francês. Sócrates tinha uma opinião diferente, a que Daniel R. N. Lopes, o tradutor do Protágoras, dá o nome de intelectualismo socrático.

    Conforme o trecho que abre este artigo, o conhecimento leva à virtude e mesmo que se adote a posição hedonista de que o prazer e o bem são a mesma coisa, o conhecimento permite ao homem evitar o erro de escolher o que é mal do ponto de vista ético por ser prazeroso porque o conhecimento nos dá a arte da medida: ele permite pesar os prós e os contras de uma determinada atitude, considerando o efeito que ela terá no curto e no longo prazo. Assim é que um beberrão inveterado e viciado em sexo como Philippe d’Orléans, estava sujeito, aos olhos de Sócrates, não ao domínio do prazer em detrimento da razão, mas ao domínio da ignorância que lhe impedia de chegar à verdade. Se ele soubesse dos efeitos acumulados do seu excesso de álcool, do seu excesso de doenças venéreas, do sofrimento físico que eles iriam lhe causar, do mal que sua morte precoce causaria em um menino de 13 anos que perdeu com ele o último membro da sua família, ele teria decidido que tais prazeres não eram prazeres autênticos, mas aparentes, que na verdade traziam dor no longo prazo, de forma que os malefícios eram maiores do que os benefícios. Sob essa perspectiva, mesmo um hedonista, regido pelo prazer, pode ter uma vida ética se ele tiver acesso ao conhecimento que lhe permite chegar à justa medida do que usufruir no presente e do que evitar no futuro e vice-versa.

    Prezados leitores, virtude para quê? O talento desperdiçado do Regente, que tanto fez falta depois na história do país, o que contribuiu para a queda da Monarquia e para a onda de violência e destruição que tomou conta do país por pelo menos 10 anos, até a ascensão de Napoleão em 1799, teria sido mais bem aproveitado se Philippe não tivesse se autodestruído em sua busca ignorante pela satisfação imediata. À luz das lições socráticas, a virtude serve para dar a correta medida do prazer, permitindo que aquele que dele desfruta tenha um efeito benéfico sobre si mesmo e sobre os que o rodeiam aqui e na eternidade.

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Glória para quê?

Boisguillebert foi um dos primeiros a rejeitar a ilusão mercantilista de que os metais preciosos constituíam riqueza por si sós, e que o propósito do comércio é o de acumular ouro. A riqueza, dizia ele, consiste na abundância de produtos e no poder de produzi-los. A riqueza essencial é a terra; o fazendeiro é a base da economia, e sua ruína implica a ruína de todos; em última análise, todas as classes estão unidas por uma comunhão de interesses.

Trecho retirado da obra “A Era de Luís XIV”, escrita por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), explicando o plano econômico de Pierre Le Pesant, Senhor de Boisguillebert (1646-1714), para mitigar o caos e a miséria durante o reinado de Luís XIV (1643-1715) na França

 

É a camada mais baixa da população que, pelo seu trabalho e indústria, e suas contribuições ao tesouro real, enriquecem o soberano e seu reino; no entanto, “é essa classe que agora, pelas exigências da guerra e a tributação de suas economias, está reduzida a viver em trapos e em cabanas em ruínas, ao mesmo tempo que suas terras permanecem não cultivadas”, na ausência de seus filhos recrutados para a guerra.

Trecho retirado da obra “A Era de Luís XIV”, escrita por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), explicando as propostas de reforma econômica do engenheiro militar Sébastien Le Prestre, senhor de Vauban (1633-1707) para a França de Luís XIV (1638-1715)

As pessoas acostumadas à bajulação consideram ressentimento, amargura ou excesso aquilo que é simplesmente a pura verdade […] Vossa Majestade não ama Deus, Vossa Majestade somente O teme e com um enorme temor. […] Sua única religião consiste de superstições, de observâncias superficiais e insignificantes […] Vossa Majestade ama somente sua glória e seu ganho.

Trecho de uma carta anônima escrita por François de Salignac de La Mothe-Fénelon (1651-1715), arcebispo de Cambrai, ao rei Luís XIV, citada na obra “A Era de Luís XIV”, escrita por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981)

 

    Prezados leitores, na semana passada eu expliquei aqui neste humilde espaço o alerta que o filósofo e matemático Leibniz (1646-1716) fez sobre os voos da mente humana que, livre das absurdas proposições da religião a respeito da realidade objetiva, poderia acabar também deixando de lado os valores éticos ancorados nos mitos religiosos. Leibniz temia a desordem, a violência e a destruição que o homem, submetendo-se somente à sua própria vontade, e não mais à vontade divina, poderia ocasionar. Ele não viveu o suficiente para ver Napoleão empreender guerras na Europa por mais de 20 anos ininterruptamente, mas em sua época pode ver o rei da França, Luíz XIV, atuar da mesma maneira desimpedida, própria dessa nova era de liberdade.

    Luís XIV construiu Versalhes, protegeu artistas como Molière (1622-1673) e Racine (1639-1699), mas ao longo do seu longo reinado de 72 anos ele cultivou a guerra como meio de aumentar o território do país e garantir que a França tivesse fronteiras mais naturais e defensáveis. Em 1672 invadiu a Holanda, em 1688 invadiu a Alemanha, em 1701 apoderou-se de cidades que serviam de defesa para os Países Baixos Espanhóis (que atualmente correspondem mais ou menos à Bélgica). Para montar seus exércitos, foi implacável na tributação dos franceses, não de maneira justa claro, pois os pobres arcavam com a maior parte dos impostos. Além disso, as classes baixas contribuíam com o esforço de guerra pelo recrutamento forçado de soldados e pelo aprovisionamento de víveres para as tropas, e sofriam mais diretamente as consequências do ativismo bélico do rei-Sol. Afinal, a França invadia os países vizinhos, mas estes revidavam, invadindo-a, pilhando-a, matando como os soldados franceses faziam alhures.

    O resultado de anos e anos de campanhas militares foi devastador para o comércio, para a indústria e para a agricultura, pois todos os recursos do país eram canalizados para custear os sonhos gloriosos de Luís XIV de aumentar o território do país. A agricultura foi prejudicada pela falta de mão de obra, recrutada para as guerras, e pela destruição das plantações pelos exércitos invasores. O comércio sofreu com as sanções impostas pelo governo francês à importação de produtos estrangeiros, com a consequente retaliação dos países objeto das sanções, que pagavam na mesma moeda, impondo barreiras alfandegárias. A indústria, por sua vez, viu-se sufocada por regulações que acabavam tendo um efeito confiscatório de punição na forma de multas impostas sobre aqueles que não seguissem as regras, sem que fossem criados estímulos para as pessoas empreenderem livremente.

    Não é de se admirar que a população tivesse diminuído de 23 milhões de pessoas em 1670 para 19 milhões em 1700 devido à obsessão com guerras que causavam fome, pobreza e doenças. E que o Estado estivesse falido: em 1697 a receita total do Tesouro francês foi de 81 milhões de livres e as despesas foram de 219 milhões. Por outro lado, como o livre-pensamento andava solto, para o bem e para o mal, surgiram vários críticos do modo de governar do rei-Sol e propostas para tirar a França da ruína material em que se encontrava no final do século XVII e começo do século XVIII. Como mostram os trechos que abrem este artigo, a receita da redenção do reinado de Luís XIV seria que o rei cuidasse das pessoas e não da conquista de territórios.

    O Marquês de Vauban defendia, com base em números cuidadosamente compilados, que era preciso diminuir a carga de impostos sobre aqueles que carregavam o país nas costas, isto é, os que trabalhavam na agricultura e na indústria. Diminuindo os impostos, haveria um florescimento da atividade econômica que criaria empregos, geraria renda e faria nascer consumidores, estabelecendo um ciclo virtuoso de produção e consumo, que se complementariam. Como o Senhor de Boisguillebert afirmava, não era o acúmulo de metais preciosos que fazia a riqueza de um país, pois se não houvesse produtos agrícolas e manufaturados à disposição, o valor relativo dos metais seria diminuído pela escassez da produção. A economia real, isto é, aquela que gerava riqueza sustentável, era a economia dos produtores e não dos acumuladores de dinheiro.

    Luís XIV acabou não seguindo o conselho de nenhum desses estudiosos que procuraram, à luz da observação do que acontecia no país em termos de destituição do povo, formular soluções que fizessem a França renascer das cinzas de anos a fio em que a organização das atividades girava em torno da guerra. Como afirmou Fénelon em sua carta anônima, o rei era rodeado de bajuladores e, cioso do seu próprio valor, considerava qualquer crítica atentado de lesa-majestade contra sua dignidade. Acrescentando-se à vaidade do rei sua falta de um verdadeiro espírito religioso, de humildade perante uma autoridade maior que a sua, e estava consolidado seu caminho de perseguição da glória a qualquer custo, o que significou principalmente o sangue do povo francês.

    Em seu leito de morte, o rei-Sol deu um conselho ao seu bisneto, o futuro Luís XV: “não me imite no gosto que tive pelas grandes obras e pela guerra”. Mas a nós, que temos o privilégio da visão retrospectiva, fica claro que os sonhos de grandeza do rei, que amava a si mesmo mais do que tudo, lançaram os germes da Revolução Francesa, que causaria ainda mais morte e destruição.  Prezados leitores, fica para nós, no século XXI, uma pergunta: glória para quê? Para a satisfação dos anseios narcisísticos de um tirano, como o rei-Sol, ou para a consecução de algo transcendente ao indivíduo como Leibniz e Fénelon propunham? O que é possível ou provável atualmente? Observem os líderes políticos atuais e julguem vocês mesmos.

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