O livre-pensamento de Bertrand Russell

Fica claro que o pensamento não é livre se a defesa de determinadas opiniões torna impossível à pessoa sustentar-se. Também está claro que o pensamento não é livre se todos os argumentos de um lado só podem ser descobertos por meio de uma busca diligente. […] A credibilidade é um mal maior nos dias atuais do que nunca foi antes, porque devido à expansão da educação, é muito mais fácil do que costumava ser espalhar a desinformação, e devido à democracia, a divulgação de desinformações é mais importante do que antes para os detentores do poder. Daí o aumento na circulação de jornais.

Trecho retirado de “O Livre Pensamento e a Propaganda Oficial” do filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970), incluído em “Ensaios Céticos”, publicado em 1928

    Prezados leitores, já abordei aqui neste meu humilde espaço a eclosão do livre-pensamento na Europa no século XVII e inclusive os perigos que muitos viam em tal eclosão. Naquele contexto histórico, livre-pensamento significava o pensamento que não aceitava os dogmas da religião tradicional e por isso repudiava uma interpretação literal da Bíblia. Nesta semana, meu foco será em um outro sentido de livre-pensamento, explorado por Bertrand Russell no ensaio cujo trecho é aqui citado: o sentido de que o livre-pensamento é aquele que está exposto à livre concorrência das diferentes crenças, porque todas elas conseguem expor suas razões, não havendo nenhuma vantagem ou desvantagem legal ou pecuniária a elas atrelada.

    Para o filósofo britânico, esse é um ideal que nunca será atingido plenamente, mas que deve ser perseguido de toda forma, para que nós, seres humanos, fiquemos o mais próximo dele que pudermos, pensando o mais livremente possível e assim chegando à verdade possível. E para fazê-lo a receita é simples: ouvir todos os lados da questão, tentar estabelecer todos os fatos relevantes, controlar nosso viés discutindo com pessoas que tenham um viés oposto e cultivar a prontidão em descartar qualquer hipótese que revelou ser inadequada. Mas seguir tal receita simples é algo complexo, pois requer que enfrentemos obstáculos que Russell em seu ensaio divide em três categorias: educação, propaganda e pressão econômica.

    A educação, tal como ela é praticada, é um impedimento ao livre-pensamento porque ela não compre suas funções básicas de transmitir conhecimento e de inculcar bons hábitos mentais nas pessoas. Pois não basta ensinar às crianças a ler e a escrever, a falar outras línguas e a fazer operações matemáticas. É preciso ensinar-lhes a adquirir conhecimento ao longo da vida, quando estiverem fora dos bancos escolares e a fazer seus próprios julgamentos. Russell dá um exemplo prático de como fomentar essa proatividade cognitiva, por meio da leitura de jornais. O professor seleciona um acontecimento passado que suscitou polêmica e paixões na época em que ocorreu e apresenta a narrativa dele dada por um jornal, aquela dada por outro jornal de tendência oposta e uma terceira narrativa mais imparcial. Os alunos comparam as versões dos fatos, sopesando as evidências apresentadas pelas diferentes correntes, e chegando assim a uma depuração do que realmente aconteceu sob a premissa de que não podemos concordar plenamente com nenhuma proposição que não temos razão de acreditar ser verdadeira. Essa confrontação de narrativas com diferentes vieses estimularia no aluno um ceticismo que o tornaria imune ao apelo a grandes ideais pelo qual pessoas decentes são levadas a viabilizar os esquemas corruptos de pilantras. Assim, a educação que não dá ferramentas para o aluno adquirir por si mesmo o conhecimento por meio da reflexão não permite a ele pensar livremente e o torna escravo dos donos do poder que querem levá-lo a agir de certa forma, inclusive morrer feliz nos campos de batalha.

    Já a propaganda é ofensiva ao livre-pensamento por dois motivos: ela apela a crenças irracionais e não a argumentos sólidos, de modo que possa estimular as pessoas a agir com base na emoção; e ela dá uma vantagem desmedida àqueles que conseguem fazer sua mensagem ser repetida mais vezes, por meio da riqueza ou do poder. Uma mensagem simples, repetida inúmeras vezes, e que tenha como objetivo dar vazão aos instintos e sentimentos do homem, como o medo, o amor, o ódio, a inveja, consolidará nossos preconceitos e vieses, impedindo a prática da reflexão ponderada indispensável para que o livre-pensamento floresça.

    Por último, a pressão econômica impede o livre-pensamento porque ela premia com empregos e meios de sustentar-se aqueles que se conformam com a ortodoxia dominante e pune com desemprego e penúria material os recalcitrantes. Russell observa que com a industrialização acelerada haverá uma maior concentração econômica e as corporações tornar-se-ão mais onipresentes, o que lhes dará poder de vida e morte sobre o pool de possíveis trabalhadores.

    E qual o risco de não haver livre-pensamento pela educação ruim, pela a propaganda onipresente e pela pressão econômica exercida pelas grandes corporações? O risco é o incentivo à credulidade, isto é, à crença em proposições que não foram submetidas ao teste da verdade proposto por Russell com base na análise das evidências disponíveis. E conforme o trecho escolhido para abrir este artigo, a credulidade é mais presente e mais malévola nos regimes democráticos, já que a educação não reflexiva, fundada na absorção passiva de conhecimentos, e a propaganda tornam mais fácil aos poderosos de plantão imporem sem violência física, mas apenas pelo convencimento, seu modo de ver as coisas, e disfarçarem seu domínio econômico sob as vestes de verdades compartilhadas por todos.

    Prezados leitores, em tempos sinistramente interessantes como os que vivemos, de divisões das tribos nas mídias sociais com base nas paixões, o convite de Bertrand Russell ao exercício contínuo do ceticismo e da reflexão como forma de proteção contra a manipulação exercida sobre a população são mais atuais do que nunca. Poderíamos inclusive praticar as recomendações pedagógicas de Russell e lermos artigos na imprensa ocidental descrevendo o terrorismo bárbaro do Hamas e na imprensa árabe, iraniana, chinesa e russa sobre os crimes de guerra do Estado de Israel. Talvez pelo cotejamento das opiniões tão contrárias chegássemos a uma conclusão menos apaixonada do que a que prevalece hoje em dia e leva o mundo ao conflito generalizado. Aliás, o último escrito do filósofo, divulgado em julho de 1970, pouco depois de ele morrer em fevereiro daquele ano, falou sobre a disputa que hoje está mais viva do que nunca: “Nenhum povo em nenhum lugar do mundo aceitaria ser expulso em massa do seu próprio país: como alguém pode exigir que o povo da Palestina aceite uma punição que ninguém mais toleraria?”.

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Voltemos aos salons

Essa sociedade era brilhante porque as mulheres constituíam a vida dela. Elas eram as divindades que a sociedade adorava, e elas davam seu tom. De alguma forma, a despeito dos costumes e dos obstáculos, elas adquiriram educação suficiente para conversar de maneira inteligente com os gigantes intelectuais que elas adoravam entreter. Elas rivalizavam com os homens no comparecimento às palestras de cientistas. À medida que os homens viviam menos no campo, mais na capital e na corte, eles se tornaram extremamente sensíveis aos charmes inefáveis das mulheres – a graça dos movimentos, a melodia da voz, a vivacidade de espírito, o brilho dos olhos, a delicadeza do tato, a ternura da solicitude, a bondade da alma.

Trecho retirado do livro “A Era de Voltaire”, escrito por (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre os salões organizados por mulheres na primeira metade do século XVIII na França

As mulheres nos acostumam a discutir os assuntos mais áridos e espinhosos com charme e clareza. Falamos com elas sem parar; queremos que elas nos escutem; temos medo de cansá-las ou aborrecê-las. Assim, desenvolvemos um método particular de explicarmo-nos de maneira fácil, e esse método passa da conversa para o estilo.

Trecho retirado do livro “Diálogos” do escritor e filósofo francês Denis Diderot (1713-1784)

Nunca ocorreu aos chineses, como é o caso de todas as nações modernas compostas de brancos, de ter um sistema ético na teoria e outro na prática. Não quero dizer que eles sempre façam jus às suas próprias teorias, mas que eles tentam fazê-lo e espera-se deles que o façam, ao passo que há grandes partes da ética cristã que todos admitem ser boas demais para este mundo perverso. […] Espera-se [na China] que um homem respeite seus pais, seja bondoso com seus filhos, generoso com seus parentes pobres e cortês com todos. Essas obrigações não são muito difíceis de serem cumpridas, e o resultado talvez seja melhor do que aquele do nosso padrão mais alto, o qual a maioria das pessoas não consegue atingir.

Trecho retirado de “Ideais de Felicidade Ocidentais e Orientais” do filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970), incluído em “Ensaios Céticos”, publicado em 1928

Autocontrole moral e proibições externas de atos danosos não são métodos adequados de lidar com nossos instintos anárquicos. A razão pela qual são inadequados é que tais instintos são capazes de muitos disfarces como o Diabo das lendas medievais e alguns desses disfarces enganam mesmo os eleitos. O único método adequado é o de descobrir quais são as necessidades da nossa natureza instintiva e então procurar a maneira menos prejudicial possível de satisfazê-las.

Trecho retirado de “As Máquinas e as Emoções” do filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970), incluído em “Ensaios Céticos”, publicado em 1928

    Prezados leitores, na semana passada, ao explicar a figura das Moiras na mitologia grega, eu mencionei o destino infeliz do povo palestino, que tudo leva a crer será como o dos peles-vermelhas dos Estados Unidos, que viraram peça de museu. Não vou aqui me juntar ao coro dos analistas que estão explicando a nós as origens históricas do conflito, pois não tenho nada de mais criativo a dizer que já não tenham dito sobre o porquê de árabes e judeus brigarem. Vou simplesmente aventar uma teoria, a de que a convivência seria mais pacífica se as mulheres tivessem uma voz mais ativa nas respectivas sociedades, coisa que elas definitivamente não têm no mundo árabe e estão perdendo em Israel, que cada vez é mais politicamente dominado por judeus ortodoxos, como mostra a coalizão de extrema-direita que governa agora o país, sob a liderança de Benjamim Netanyahu. E para corroborar minha teoria, vou dar-lhes um exemplo de período histórico em que as mulheres reinavam, qual seja a primeira metade do século XVIII na França, especificamente em Paris, a cidade dos “salons”.

    Os salons eram reuniões de personalidades do mundo da arte, da literatura e da política na casa de alguma mulher da sociedade, entre as quais podemos citar Claudine Alexandrine de Tencin (1681-1749), mãe do filósofo Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783), Marie Thérèse Rodet Geoffrin (1699-1777) e Marie de Vichy-Chamrond Du Deffand (1697-1780). Conforme explica o trecho que abre este artigo, eram mulheres suficientemente educadas e de fino trato para oferecer lautos jantares e no entrementes manter discussões com Fontenelle, Montesquieu, Marivaux, Prévost, Helvétius, Astruc, Marmontel, Hénault, Duclos, Mably, Condorcet, Voltaire e até o Conde de Chesterfield, já mencionado anteriormente neste humilde espaço quando tratei da origem dos preceitos morais. Falava-se de tudo nessas reuniões: dos escândalos na corte, das novidades políticas, das fofocas sobre gente importante, mas também dos recentes lançamentos literários, das peças de teatro então encenadas e das ideias que pululavam com o fim do garrote intelectual da Igreja Católica, que fazia cada vez menos a cabeça das elites.

    A vantagem desses salons, em que as mulheres ditavam as regras de como proceder e os objetos de discussão, é que eles permitiam a homens que estavam se tornando cada vez mais citadinos e que passavam cada vez menos tempo no campo a realizar atividades masculinas, como a caça e a guerra, a tornarem-se mais civilizados. Isso significava estabelecer a polidez e a cortesia como princípio geral da vida em sociedade, seja para disputar com outros homens a respeito de ideias, seja para relacionar-se na corte em Versalhes. O filósofo Diderot, conforme o trecho que abre este artigo, explica a influência feminina sobre os homens sob o ponto de vista do funcionamento mental: à guisa de explicar às mulheres suas geniais teorias de maneira que pudessem se fazer entender e ser admirados por elas, eles se esforçavam em ser claros e simples, e isso acabava refletido no modo como escreviam.

    Assim é que o século XVIII na França ficou conhecido pela cortesia predominante e tal estado de coisas só foi suplantado com a Revolução em 1789, quando as mulheres saíram de cena, como observou a pintora Élisabeth Vigée-Lebrun (1755-1842), violentamente afastadas por homens fanáticos, que mataram milhões em nome de suas ideologias e iniciaram um ciclo de guerras que duraria até a queda definitiva de Napoleão, em 1821. Tanto assim que o filósofo Bertrand Russell, no ensaio “Ideais de Felicidade Ocidentais e Orientais” afirma que a China praticava a polidez no século XX, como se fazia na Europa no século XVIII.

    A respeito dessa característica chinesa, Russell não a associa à influência feminina, mas à de Confúcio (551 a.C.-479 a.C.). E essa ênfase na cortesia tem um aspecto positivo explicado pelo filósofo em seu ensaio. Ela revela uma moral mais prática e menos ambiciosa do que a moral cristã, predominante no Ocidente. O princípio básico dos ensinamentos de Jesus Cristo é o de amar aos outros como a si mesmo e que todo conflito deve ser evitado. Mas tal preceito foi raramente aplicado no Ocidente, como podemos ver pelo histórico de guerras em que os países deste lado do mundo se envolveram. Conforme explica o trecho que abre este artigo, os países cristãos adotam na teoria um código de ética da não violência e do amor ao próximo que na prática é letra morta, ao passo que os chineses adotaram, sob a influência de Confúcio, um código de ética mais fácil de ser concretizado porque não pede muito de cada um, ao contrário do ideal cristão: basta que o indivíduo trate a todos com respeito e polidez e ele já terá cumprido suas obrigações e já terá tido um impacto positivo sobre a sociedade.

    Para Russell, o perigo de uma ética sublime, mas de difícil execução, considerando a natureza humana, é que ela se manifesta de qualquer jeito, pois é instintiva. Conforme ele explica em “As Máquinas e as Emoções”, ao não reconhecermos a nossa propensão à anarquia e reprimi-la sob a inspiração de um ideal de conduta inexequível na maior parte das vezes, é que a mente humana acaba encontrando maneiras de dar vazão a ela sob os mais variados disfarces de racionalização. Russell refletia nos “Ensaios Céticos” sobre a Primeira Guerra Mundial, mas sua análise pode ser aplicada ao choque de civilizações que se prenuncia em pleno século XXI entre as religiões abraâmicas, o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, que se arvoram cada uma como a religião do Deus único e por isso apresentam-se como proponentes da verdade, trazendo em seu bojo a violência que penetra insidiosamente sob o disfarce das proposições metafísicas.

    Prezados leitores, oxalá que a ideia de organizar soirées regada a vinho, a conversas inteligentes e a disputas nos limites da decência, venha à cabeça de alguma mulher distinguée em algum possível palco da guerra que se anuncia neste ano de 2023.  Ela prestaria um grande serviço à humanidade se distraíssem com comida, bebida e espirituosidade os fanáticos que hoje reinam.

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O destino dos peles-vermelhas

Da mesma maneira, o Destino e as Moiras são os mestres universais do estaleiro, e você é suas brocas e enxadas; e me parece que em vez de render homenagens e fazer sacrifícios para você, os homens deveriam fazer sacrifícios para o Destino, e implorar-lhe favores; apesar de que mesmo isso não resolveria o problema, porque considero que as coisas estejam determinadas de uma vez por todas e que mesmo as Moiras não tenham liberdade para retalhar e mudar.

Fala do personagem Cyniscus no diálogo “A inquirição de Zeus” do escritor satírico romano Luciano de Samósata (125 d.C.-180 d.C.)

Diz-se que Zeus, que pesa a vida dos homens e informa as Moiras de suas decisões, pode mudar de ideia e intervir para salvar quem ele deseja salvar, quando o fio da vida, tecido no fuso de Cloto, e medido pela régua de Láquesis, está para ser cortado pela tesoura de Átropos. Outros sustentam, ao contrário, que o próprio Zeus está sujeito às Moiras, como as pitonisas uma vez confessaram em um oráculo; porque elas não são filhas dele, mas filhas partenogenéticas da Grande Deusa Necessidade. Com a qual nem mesmo os deuses lutam, e que é chamada de “A Grande Moira”.

Retirado do livro “Os mitos gregos” escrito pelo escritor britânico Robert Graves (1895-1985)

107 anos depois do Congresso Sionista da Basiléia, 90 anos depois do Tratado de Sykes-Picot, Israel não conseguiu nos eliminar. Estamos aqui, na Palestina, enfrentando-os. Não somos índios peles-vermelhas.

Trecho de entrevista de Yasser Arafat (1929-2004), líder da Autoridade Palestiniana na década de 1990 dada em 2004

    Prezados leitores, lembro que nos meus tempos de cursinho pré-vestibular, no começo da década de 1990, eu tinha uma apostila de geopolítica e um dos assuntos de maior destaque nela era o conflito judeu-palestino. Havia uma descrição das guerras lá travadas – a Guerra de 1948, a Guerra dos Seis Dias em 1967, a Guerra do Yom Kippur, em 1973, a Guerra do Líbano, em 1982. Nossos professores nos davam as chaves para entendermos o conflito e assim podermos dar a resposta certa no exame e éramos sempre alertados sobre a grande probabilidade de haver alguma questão sobre a disputa entre árabes e judeus sobre o território da Palestina.

    Passou o tempo e no derradeiro cursinho pré-vestibular que frequentei, em 2008, o assunto era mencionado, mas não com a ênfase de outrora. O problema não havia sido resolvido, estava dormente, mas não havia ocorrido uma grande guerra que justificasse uma expansão da narrativa já consolidada sobre o conflito e os interesses geopolíticos envolvidos. Eis que em 7 de outubro de 2023 o ataque sinistramente espetacular do Hamas nos fez lembrar que os palestinos continuam a morar na Faixa de Gaza. Provavelmente no material didático do ano que vem a ser entregue aos estudantes do ensino médio haverá um tópico “Segunda Guerra do Yom Kippur”. Quanto ela durará e quais impactos ela terá no mundo nenhum ser humano sensato se atreve a prever.

    Para responder a essas duas perguntas, em vez de consultar os cientistas políticos, os geopolitólogos, os especialistas militares, os ex-agentes da CIA, os ex-marines, os ex-juízes e os membros aposentados do exército americano que nos brindam com sua expertise no YouTube,  poderíamos pedir a ajuda das Moiras da mitologia grega, Cloto, Láquesis e Átropos que tecem, medem e cortam o fio da vida humana e portanto, sabem quem nascerá, o que cada indivíduo fará e quando morrerá. Conforme o trecho que abre este artigo, há duas versões contadas sobre o poder dessas três irmãs. Em uma delas o seu poder é relativo, porque Zeus, o mais poderoso dos deuses do Olimpo, pode intervir no destino trançado pelas Moiras por sua atividade têxtil se quiser favorecer alguém que lhe agrada. Na outra versão, o poder das Moiras é absoluto porque não são filhas de Zeus e portanto, não se submetem a seus ditames.

    Entre uma versão e outra o escritor Luciano de Samósata, citado na abertura deste artigo, prefere a versão absoluta do poder das Moiras, o que fica evidenciado na primeira pergunta que o personagem Cyniscus faz ao onipotente Zeus: “Você tem conhecimento de Homero e Hesíodo, claro? É verdade que tudo que eles cantam sobre o Destino e as Moiras – que tudo que elas tecem para o homem em seu nascimento deve inevitavelmente ocorrer?”. A resposta de Zeus “Inquestionavelmente” é o mote para Cyniscus fazer uma crítica ácida ao macho alfa do Olimpo.

    De fato, se tudo é decidido pelo Destino e pelas Moiras, qual é a utilidade de os seres humanos renderem homenagens aos deuses, fazer sacrifícios para obterem alguma benesse? Zeus responde que tais rituais de respeito e de oferenda são expressão do reconhecimento pelos pobres mortais da superioridade dos imortais. Ao que Cyniscus retruca que não há superioridade nenhuma em seres submetidos à mesma força superior das Moiras e pior, de uma maneira permanente porque não morrem como os seres humanos.

    Seguindo seu raciocínio, Cyniscus defende a ideia de que seria melhor praticar atos religiosos em prol de quem de fato têm poder para decidir sobre a vida dos mortais. De qualquer forma, como está tudo inapelavelmente decidido, nem vale a pena perder tempo com esses rituais porque nem as Moiras podem deixar de fazer o que tem de ser feito. A conclusão de Cyniscus, acusado de ser um sofista por Zeus, é que o homem não tem livre-arbítrio, não decide nada e está submetido a impulsos irresistíveis ditados pelo Destino e pelas Moiras. Aliás, tal conclusão obtida pelas vias da mitologia é a mesma conclusão obtida pelas vias filosóficas por Baruch Spinoza no século XVII e David Hume no século XVIII e pelas vias da neurociência por Sam Harris no século XXI, conforme explicado anteriormente neste humilde espaço.

    E no entanto, argumentos sobre a impossibilidade de livre-arbítrio não são um guia para o indivíduo conduzir sua vida na prática. Pode até ser em última análise que não tenhamos poder de decisão, mas para sobrevivermos como animais que somos, precisamos crer que podemos influir sobre o rumo dos acontecimentos por nossa ação, do contrário cairíamos na letargia destruidora do corpo e da mente. Nesse sentido, a afirmação de Yasser Arafat, de que os palestinos não terão o mesmo destino dos peles-vermelhas americanos de virarem peças de museu, uma tênue lembrança de um povo expulso de sua terra e aniquilado fisicamente, é uma manifestação de fé. Pode ser que as Moiras já tenham tecido o fio da vida do povo palestino e eles estejam destinados a fazer parte de alguma coleção etnológica futura, mas no aqui e no agora, ninguém sabe o que vai acontecer e é preciso agir. Oxalá que os homens de boa vontade judeus e árabes ajam em prol do melhor destino possível para ambos os povos.

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Preconceito para quê?

[…]já que a opulência da capital francesa resulta dos defeitos do seu governo e da sua religião. Na ausência de Luís XIV e de seus sucessores, o Louvre permaneceu inacabado mas os milhões que foram esbanjados nas areias de Versalhes e no pântano de Marly não poderiam ser proporcionados pelo estipêndio aprovado pelo Parlamento para um rei britânico. […] Todo ornamento supérfluo é rejeitado pela fria frugalidade dos protestantes, mas a superstição católica, que é sempre a inimiga da razão, é frequentemente a mãe das artes.

Trecho retirado da “Autobiografia” do historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794), autor de “A História do Declínio e Queda do Império Romano”

Estereótipos negativos em particular dão origem a um sentimento de culpa: ninguém se preocuparia muito se pensasse que é improvável que velhinhas com artrose e cabelo lavado de azul o roubasse na rua. São os estereótipos negativos que nos incomodam e fazem com que nossos pensamentos deem voltas. Houve tantos estereótipos negativos que eram falsos, degradantes e cruéis que foram usados como justificativa para injustiças ou barbáries que a própria ideia de criar estereótipos para um grupo de maneira negativa foi desacreditada.

Trecho retirado do livro “Em defesa do preconceito – A necessidade de se ter ideias pré-concebidas, do médico, psiquiatra e escritor inglês Theodore Dalrymple (1949- )

Foi necessário colocar sobre uma peça grande, sobre uns tapetes e lonas todos os relicários e cofres, para reparti-los de maneira ordenada e transferi-los dos cofres de seda em que tinham vindo para os vasos e custódias preciosas, onde todos pudessem vê-los, gozar deles e adorá-los. O Rei subia até ali vindo dos seus aposentos, algumas vezes sozinho, outras vezes acompanhado dos seus filhos.  Estando ali, me pedia algumas e ainda muitas vezes (eu tinha então sob meu encargo todos aqueles santos tesouros) que me mostrasse tal ou qual relíquia; quando eu a colocava nas mãos, antes que pudesse me valer de algum tafetá ou lona, o piedosíssimo Rei se inclinava e tirando seu chapéu ou gorro, beijava a relíquia com sua boca e com os olhos, nas minhas próprias mãos e pelo fato de algumas serem pequenas era forçoso também beijá-las mil vezes e creio que com isso queria fazer duas obras santas de um caminho, mostrando não estimar menos as mãos pelas quais se consagrava Jesus Cristo que aqueles ossos […]

Trecho retirado do livro “Como viveu e morreu Felipe II”, escrito pelo frei espanhol José de Siguenza (1544-1606)

    Prezados leitores, na semana passada eu lhes apresentei algumas das ideias do filósofo escocês David Hume (1711-1776), um dos pais do Iluminismo tanto na sua Grã-Bretanha natal quanto no continente europeu. Além de ser filósofo, Hume aventurou-se no campo da historiografia, escrevendo uma história da Inglaterra. Nesta semana, tratarei de um historiador que leu a “Investigação sobre o Entendimento Humano” e “A História da Inglaterra” e foi fortemente influenciado pelo ceticismo e empirismo de Hume. Trata-se de Edward Gibbon. A influência do filósofo escocês pode ser detectada na Autobiografia que Gibbon escreveu no fim de sua vida, ao narrar sua atitude cambiante em relação à religião.

    Aos 16 anos de idade, tendo sido enviado a Oxford para estudar, Gibbon converte-se ao catolicismo, para desespero do seu pai, de quem o futuro historiador era o único filho. Não sendo conveniente deserdar seu único rebento que carregava o mesmo nome, Edward pai resolve mandá-lo para Lausanne, na Suíça, para ser educado por um pastor calvinista. E lá a cura foi conseguida: a doença do catolicismo foi definitivamente superada e Edward Filho passa a achar toda sorte de defeitos na religião dos papas, associando-a uma forma de governo e a uma cultura e mentalidade específicas.

    Conforme o trecho que abre este artigo, para Edward Gibbon o catolicismo é a religião de reis absolutistas como Luís XIV, que tinham a seu dispor todo o dinheiro que pudessem arrancar dos súditos para construir obras monumentais, como o Palácio de Versalhes e o castelo de Marly-le-Roi. A religião protestante é a religião daqueles governantes que viviam sob controle do parlamento e, portanto, dependiam financeiramente daquilo que os representantes do povo estavam dispostos a lhes dar. É assim a religião da frugalidade, da sobriedade não muito amiga das artes, porque estas requerem um apego à ornamentação a que só reis todo-poderosos poderiam se dar ao luxo.

    E não é só isso, o catolicismo é a religião da superstição, contrária à razão desassombrada de Hume. Afinal, católicos acreditam na transubstanciação, isto é, na transformação do vinho e da hóstia da missa no sangue e no corpo de Jesus Cristo, uma ocorrência que, como diria o filósofo escocês sobre os milagres, é pouco provável que ocorra porque não atestada por um número suficiente de homens que pudesse dar substância à alegação que tal transformação ocorreu. E o que falar do culto aos santos e mártires? A superstição neste caso atinge os píncaros da irracionalidade, como atesta o trecho que abre este artigo, retirado da biografia escrita pelo frei José de Siguenza sobre o rei da Espanha Felipe II (1527-1598).

     Ao final do décimo-terceiro capítulo do seu livro, o frei conta como o rei adorava relíquias que nada mais eram do que partes do corpo de santos da Igreja Católica, normalmente ossos que eram colocados em relicários. Felipe II seguia o ritual diário de beijá-las inúmeras vezes, como se aquilo pudesse dar-lhe mais saúde ou torná-lo mais virtuoso. Quem visita o Palácio do Escorial em pleno século XXI poderá ver a coleção de relíquias do rei da Espanha, que quando esteve doente para morrer não as largava nunca, o que não adiantou muito para sua recuperação. Considerando essa adoração macabra e inútil de um dos governantes mais poderosos do mundo no século XVI, Gibbon não tem razão quando diz que o catolicismo é refratário ao pensamento racional e está mais afeito ao irracionalismo e ao absolutismo?

    O preconceito que Gibbon adquiriu contra a religião da sua adolescência, à qual passou a associar uma série de más qualidades, respaldou seu ponto de vista de historiador, permitindo-lhe contrapor a visão de mundo dos romanos, donos de um império que durou mais ou menos de 27 a.C. a 1453 d.C., mas que foi solapado pelo cristianismo, a uma visão de mundo baseada em uma religião monoteísta que provou ser refratária a qualquer tentativa de assimilação ao panteísmo então em voga. É razoável supor que se Gibbon não tivesse tido suas ideias negativas em relação ao catolicismo romano, cujas origens remontam aos apóstolos de Jesus no primeiro século da era cristã, ele não teria tido a sensibilidade de apreciar tais diferenças de mentalidade entre romanos e cristãos que lhe permitiu estabelecer as causas da queda de uma civilização que durou quase 1.500 anos.

    E, no entanto, conforme explica Theodore Dalrymple no trecho que abre este artigo, atualmente temos um sentimento de culpa em relação a cultivar estereótipos, pelas consequências nefastas que tiveram. No caso de Gibbon, equacionar o catolicismo ao irracionalismo e ao despotismo foi profícuo como ponto de partida para sua narrativa histórica, mas na primeira metade do século XX na Europa as ideais pré-concebidas sobre certos grupos sociais levou à matança indiscriminada dos membros daqueles grupos, sejam eles ciganos, judeus, comunistas, deficientes mentais ou físicos.

    O que fazer? Deixar os preconceitos totalmente de lado para que a tragédia da Segunda Guerra Mundial não se repita? Ou tentar fazer como Edward Gibbon fez no século XVIII, e torná-los um modo de apreensão da realidade por meio de certos princípios e valores básicos? Preconceitos para quê em pleno século XXI? Cada um que ache sua resposta.

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Razão para quê?

A razão, ele afirma, não consegue nunca explicar o mundo ou provar a existência de Deus. “Que privilégio peculiar tem essa pequena agitação do cérebro chamada pensamento, que devemos fazê-lo o modelo do universo como um todo?” […] A respeito do desenho, a adaptação de órgãos para determinados objetivos pode ter resultado não da orientação divina, mas dos experimentos lentos e malfeitos ao longo de milhares de anos. (Aqui está a “seleção natural” 1.800 anos depois de Lucrécio, 108 anos antes de Darwin.) E mesmo que admitamos um desenho sobrenatural, a imperfeição das adaptações e a miríade de sofrimentos no mundo humano e animal revelam na melhor das hipóteses um deus com poderes e inteligência limitados, ou um deus bem indiferente ao ser humano.

Trecho retirado do livro “A Era de Voltaire”, escrito por (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre o filósofo empiricista escocês David Hume (1711-1776)

 

Assim, o cético continua a pensar e a acreditar, em que pese ele não poder defender sua razão pela razão; e de acordo com a mesma regra, ele deve concordar com o princípio relativo à existência do corpo, em que pese ele não poder pretender com base em nenhum argumento filosófico manter sua veracidade.

Trecho retirado do “Tratado sobre a Natureza Humana”, de David Hume, citado no livro “A Era de Voltaire”, escrito por (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981)

    Prezados leitores, na semana passada eu lhes apresentei a teoria alternativa à teoria da evolução, a teoria do design inteligente, a qual não é aceita na comunidade científica, mas que pretende ser um meio de explicar aquilo que o darwinismo não consegue explicar muito bem, isto é, como a vida é criada na Terra com base na codificação de informação genética no DNA. Naquele texto eu disse que aventar a hipótese de que exista uma mente brilhante por trás da criação da vida pode servir de contraponto ao materialismo que predomina na ciência desde o século XVII. Nesta semana, meu objetivo será o de me debruçar sobre um dos pais do Iluminismo britânico, David Hume. Em assim fazendo, trarei um terceiro ponto de vista à discussão, pelo fato de Hume não ser nem materialista e nem idealista, mas um cético e um empiricista.

David Hume é empiricista porque para ele todas as nossas ideias são derivadas da experiência por meio das impressões que aquela causa em nossos sentidos, produzindo as sensações de luz, som, calor, pressão, cheiro, gosto. A sensação interpretada pelo cérebro se transforma em percepção e assim em um processo de elaboração mental chega-se às ideias. A ideia de espaço é a ideia de pontos tangíveis e visíveis distribuídos em uma determinada ordem, a ideia de tempo é a percepção da sequência das nossas impressões. Nesse sentido, Hume não é materialista porque para ele não percebemos matéria nenhuma e a única coisa que sabemos é o nosso mundo mental de ideias, sentimentos, desejos, impressões e percepções. E Hume também não é idealista porque não considera que exista uma mente independente dos estados mentais transitórios que variam conforme o conteúdo que esteja ocupando a consciência no momento.

    Daí que seu antimaterialismo e seu anti-idealismo levam o filósofo escocês a ser um cético. Não se pode sobrestimar os poderes da razão humana porque em última análise ela atua sobre a experiência que é contingente e variável. As leis da natureza que estabelecem relações de causa e efeito entre os fenômenos na verdade são meras sequências frequentes de eventos em nossa experiência, que se repetem ao longo do tempo e que nos fazem acreditar que se manterão assim. No entanto, por serem obtidas empiricamente, essas conexões entre sequências de eventos não são invariáveis nem necessárias, não havendo garantia de que elas se repetirão amanhã ou continuarão a repetir-se infinitamente. Sob esse aspecto, a ciência é um acúmulo de probabilidades sujeitas a mudanças sem aviso prévio.

    E o que dizer da realidade última aventada pelos metafísicos? Se não podemos conhecer a matéria por trás das nossas sensações, que são os únicos meios de contato de que dispomos com o mundo exterior, se não podemos conhecer as operações causais por trás das sequências de eventos que percebemos no tempo e no espaço e se não podemos conhecer a mente por trás das ideias, as quais são o produto de estados mentais, não há como propor uma cadeia retroativa de causas e efeitos que levasse ao Ser Supremo da metafísica aristotélica, ao ente não movido que deu o pontapé inicial no mundo.

    Não é de surpreender então que Hume rejeite totalmente a ideia de uma mente brilhante por trás das engrenagens dos fenômenos, conforme o trecho que abre este artigo. Não é possível supor com base em nosso conhecimento que haja uma mente além dos estados mentais que se sucedem enquanto o ser humano está vivo. E esses estados mentais só produzem ideias fundadas em experiências transitórias e contingentes, de forma que elas não podem servir de modelo para explicar o universo como um todo. Projetista inteligente por trás da criação? Não, apenas uma série infinita de tentativas, muitos erros e alguns acertos que levaram a um mundo em que o sofrimento, a dor e a calamidade são por demais onipresentes para pressupormos uma inteligência perfeita que os tivesse criado.

    E no entanto, apesar de todos esses argumentos céticos quanto aos poderes da razão humana, o próprio filósofo, no segundo trecho que abre este artigo, adota outro guia para sua vida. Em vez de abandonar a razão de todo, ele adota a crença de que a realidade é racional e permeada pelo princípio da causalidade. O tempo, o espaço e a causalidade são construções mentais derivadas da experiência contingencial do homem, mas isso é suficiente para continuarmos a fazer ciência e filosofia, embora não seja suficiente para postular uma mente brilhante que deu vida a tudo da melhor maneira possível.

    Prezados leitores, para um cético empiricista como David Hume a razão não faz milagres, não cria coisas do nada e, no entanto, ela serve para continuarmos vivendo e aprendendo com nossas experiências, cautelosamente, sem grandes pretensões, mas também sem grandes desilusões. A falta de entusiasmo de Hume pela infalibilidade das construções racionais inspirou um ambiente intelectual inédito de tolerância que na Europa do século XVIII influenciou intelectuais como Voltaire e Diderot, na França e Immanuel Kant na Prússia, preparando o terreno para o Iluminismo.

    Razão para quê? Para, entre outras coisas, do alto do nosso ceticismo, concordarmos em discordar, porque sabemos não podermos ter certeza de nada.

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