Que humilhação quando alguém colocou-se perto de mim e ouviu uma flauta à distância e eu não ouvi nada… Tias incidentes me levaram às portas do desespero; um pouco mais e eu teria dado cabo da minha vida – somente a arte me impediu de fazê-lo, ah, parecia impossível deixar o mundo até que eu tivesse produzido tudo a que eu me sentia chamado a produzir… foi a virtude que me sustentou na minha aflição, a ela e a minha arte devo o fato de que eu não tenha me suicidado.
Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), citando uma carta escrita por Ludwig von Beethoven (1770-1827) em 6 de outubro de 1802 a seus irmãos Karl e Nikolaus, que ficou conhecida pelo nome de Testamento de Heiligenstadt
um italianinho pálido, esbelto e franzino, mas com opiniões singularmente audaciosas
Descrição de Napoleão Bonaparte (1769-1821) feita por Boissy d’Anglas (1756-1826), escritor, advogado e político francês durante a Revolução em junho de 1795
Prezados leitores, imaginem um sujeito de 1,65, bexiguento, pobre, filho e neto de alcoólatras e escuro como um mouro, como se dizia à época. Este indivíduo pouco dotado começa a aprender música impelido pelo pai, tenor no coral do Príncipe-Eleitor de Colônia e que pretendia fazer do filho um prodígio que lhe permitisse ganhar uns trocados, assim como o pai de Michael Jackson fez com ele. O menino não era muito chegado às lições, mas o pai lhe aplicava umas bordoadas que o compeliam a conformar-se em aprender e ele acabou aprendendo e adquirindo um gosto por aquilo que havia sido forçado a fazer. Esse menino é Beethoven e é impossível que alguém com idade ao redor de 50 anos não tenha assistido pela TV à Queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989 e à unificação da Alemanha em 3 de outubro de 1990. Sendo assim, mesmo sendo roqueiro ou roqueira o cinquentão ou cinquentona terá ouvido a Ode à Alegria, a Nona Sinfonia do menino nascido em Bonn, tocada no Portão de Brandemburgo.
Além de todos os seus problemas vindos da sua herança genética, que o fazia chegado a uma bebida, e da sua modesta condição social, Beethoven padeceu de outro mal, este muito mais trágico, porque insuperável: a surdez, provavelmente resultado dos efeitos da sífilis em seu corpo. Conforme o trecho que abre este artigo, ao descobrir que está ficando surdo, o que ocorre por volta de 1801, Beethoven, que já era um músico profissional que vivia do seu trabalho, desespera-se e escreve seu testamento espiritual e uma apologia da sua vida. Ele não sabia o que seria dele, se conseguiria ainda compor as músicas que fervilhavam na sua mente ou se a surdez seria um impeditivo definitivo. Se assim o fosse, o Testamento de Heiligenstadt revelaria, após a morte do músico, suas melhores intenções, que eram a de continuar tentando, apegando-se ao seu ofício para não cair no niilismo e na tentação do suicídio. E assim Beethoven o fez, tanto que os estudiosos de sua obra consideram que o período de 1803 a 1816 é aquele de maior criatividade, em que ele mudou o sexo das sonatas e das sinfonias, tirando-lhes o sentimento e a delicadeza femininas e dando-lhes a assertividade e a vontade masculinas. Portanto, Beethoven compôs as obras que o imortalizaram – entre as quais a Sinfonia Eroica, a Quinta Sinfonia e a Sinfonia Pastoral, além do Concerto para Piano nº 5 – quando já estava surdo e não conseguia ouvir suas melodias com seus ouvidos físicos, apenas imaginá-las na sua mente e transpor a criação para o papel, para que alguém pudesse tocá-las e apreciar sua beleza.
Sob a ótica do que ocorreu depois com Beethoven, o Testamento de Heiligenstadt acabou servindo como um roteiro de vida, a enunciação de princípios que norteariam o modo como o músico iria encarar o grande infortúnio da surdez. Não desistir jamais da arte como antídoto contra a morte e como legado que Beethoven deixaria para a posteridade, que poderia usufruir das suas criações como ele jamais poderia fazê-lo. Certo de que tinha algo a oferecer à humanidade, ele perseverou e viveu para atingir seu objetivo de criar. Suas criações embalaram acontecimentos seminais na história do país onde nasceu mais de 150 anos depois da sua morte.
Há um outro personagem nascido no século XVIII que adentrou o século XIX e que também pensou seriamente em suicídio, pelo menos de acordo com o que ele conta em suas memórias. Este personagem é o arrivista da Córsega, Napoleão Bonaparte. Em dezembro de 1793, Napoleão, já oficial do Exército Francês, destacou-se na captura de Toulon e foi agraciado com a a patente de brigadeiro-general por Robespierre (1758-1794), então chefe do governo revolucionário. Um grande feito para um jovem de 24 anos chegar a general, mas o fato de a promoção ter sido concedida por um homem que seria apeado do poder e guilhotinado fez Napoleão ser considerado um partidário de Robespierre e ser preso em Antibes. Solto depois de 15 dias, Napoleão é aposentado compulsoriamente com soldos reduzidos.
O que fazer se ele não podia dedicar-se àquilo para o que havia se esforçado e estudado, tendo caído em desgraça aos olhos do novo governo francês? O italianinho de 1,67 descrito por Boissy d’Anglas, conforme o trecho que abre este artigo, pensou em ir para a Turquia e ajudar o sultão a reorganizar seu exército, o que lhe permitiria talvez conquistar algum reino para si que pudesse governar. Na prática, a falta de perspectivas em seu país de adoção, a França, o fez pensar em suicidar-se ao caminhar pelas margens do rio Sena, na primavera de 1795.
Napoleão foi salvo não por um testamento motivacional como Beethoven, mas pelos caprichos da história. Paul Barras (1755-1829), lembrando dos feitos de Napoleão em Toulon, o chamou para organizar a defesa da Convenção, a Assembleia Revolucionária que governou o país de 1792 a 1795. Cercada em 5 de outubro de 1795 por monarquistas e outros, a Convenção precisava de alguém que comandasse a artilharia e Napoleão o fez de maneira bem-sucedida. Daí ser nomeado comandante do exército francês na Itália passarem-se menos de cinco meses (2 de março de 1796). Começava então a carreira militar e política daquele que viria a ser cônsul e imperador e que em 20 anos lutou mais de 80 batalhas e perdeu 10 delas.
Prezados leitores, se trago esses dois exemplos de grandes homens que passaram por crises existenciais não é para fazê-los crer que podemos ser gênios da música, ou da guerra ou da política, bastando termos um roteiro de passos a seguir ou sermos agraciados com um golpe de sorte. Em tempos de mídias sociais em que vemos diariamente fotos de pessoas felizes, realizadas, bonitas, ricas e inteligentes a promoverem seus maravilhosos feitos, acabamos nos comparando a todo o mundo, isto é, ao mundo todo, e isso pode ser fonte de insatisfação com nossa própria mediocridade. A pergunta que se põe no século XIX ou no século XXI é a mesma: viver para quê? Beethoven viveu para a arte, Napoleão para o poder e a glória. Nós pobres mortais precisamos descobrir um caminho que nos motive a continuar andando, ao menos para apreciar a paisagem se não for para realizar grandes coisas. Cada um no seu ritmo. Afinal, a vida o que é? É a batida de um coração, como diria Gonzaguinha, e enquanto esse coração pulsar a vida sempre poderá ser bela.