A Sabesp se solidariza com as vítimas da ocorrência registrada na região e informa que realizava, no local, uma obra de remanejamento de tubulação de água, previamente alinhada e acompanhada pela concessionária responsável pela rede de gás. Durante a execução dos trabalhos, uma tubulação de gás foi atingida, momento em que a atividade foi imediatamente paralisada, para adoção dos protocolos técnicos cabíveis pela concessionária de gás.
Trecho da nota divulgada pela SABESP, a companhia de saneamento que atende o estado de São Paulo, após explosão de gás que deixou um morto e quatro feridos no Jaraguá, bairro da zona oeste de São Paulo e ainda comprometeu a estrutura de ao menos 10 casas
Os sistemas também podem variar, a depender da quantidade de julgamento humano que entra na operação. Há claro, sistemas como os circuitos elétricos ou os equipamentos de produção automatizada que podem operar de uma maneira totalmente determinada. No outro extremo, há sistemas de controle e de gerenciamento, tanto para fins comerciais quanto para fins militares, nos quais as máquinas fazem a maior parte do trabalho, mas sob a supervisão humana e mediante a tomada de decisões por seres humanos em pontos críticos. Obviamente, esses sistemas mistos homem-máquina oferecem a maior variedade tanto de possibilidades quanto de problemas para o engenheiro de sistemas.
Trecho retirado do verbete sobre Engenharia de Sistemas da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica
Prezados leitores, correm por aí muitos ditos apócrifos, que acabam colando à imagem de uma pessoa e caracterizando-a para a eternidade. A frase “Não tem pão, comam brioches!” foi atribuída à rainha da França Maria Antonieta (1755-1793) para caracterizá-la como uma mulher indiferente ao sofrimento do povo francês, que passava fome e foi ao Palácio das Tulherias, onde estavam Maria Antonieta e o rei Luís XVI (1754-1793), para protestar. Outros ditos são provavelmente autênticos. Um dia, o treinador do Botafogo virou-se para Garrincha (1933-1983) e disse tintim por tintim tudo o que tinham que fazer para ganhar o jogo. Ao final, Garrincha perguntou:
– Mas combinaram com eles? A inocente pergunta do anjo das pernas tortas, considerado o melhor driblador da história do futebol, se nos faz rir, aponta para um problema que está presente em nossa vida cotidiana, qual seja, o modo de funcionamento dos sistemas.
Garrincha referia-se ao jogo de futebol e aos desafios enfrentados pelo técnico para treinar o time e prepará-lo para vencer. Era preciso definir um esquema de jogo, defensivo ou ofensivo, o posicionamento dos jogadores em campo, a tarefa de cada jogador ao longo da partida. Mas nenhuma instrução do técnico aos seus comandados seria de grande valia se não fosse levado em conta o fato de que aquelas 11 pessoas estariam durante 90 minutos interagindo com as 11 pessoas do time adversário, as quais estariam seguindo elas mesmas as diretivas do seu técnico. Afinal, o jogo e seu resultado, vitória de um dos times ou empate, é fruto das ações individuais de cada um dos 22 homens em campo e das interações entre eles, isto é, do modo como cada um reage à ação do outro, para não falar do modo como cada um reage a fatores externos ao campo, como o comportamento da torcida nas arquibancadas, o clima no dia (quente, chuvoso, frio), as condições do estádio de futebol (gramado, iluminação). Ou seja, as ordens do técnico sobre o que fazer seriam cumpridas total ou parcialmente ou totalmente descumpridas a depender da combinação de de uma série de fatores, mais ou menos sob o controle do gestor da equipe.
Em suma, um jogo de futebol é um singelo exemplo de um sistema complexo, isto é um sistema feito pelo homem, cujas partes componentes interagem de maneira tão abrangente que uma mudança em uma parte afetará muitas outras. Outra importante característica dos sistemas é que os inputs que os alimentam são aleatórios, de maneira que ninguém pode prever exatamente a que o sistema estará exposto quando estiver em funcionamento. A única coisa que é possível fazer é tentar estabelecer uma gama de possíveis inputs e a probabilidade das respostas que o sistema dará na sua interação com esses inputs, resposta esta que determinará seu desempenho. O esquema de jogo do técnico do Garrincha operava no contexto de uma partida de futebol em que a atuação dos jogadores do time adversário não podia ser prevista de antemão. Nesse sentido, Garrincha estava certíssimo em dizer que não era possível combinar com eles o que fazer, mas cabia ao técnico estudar as partidas anteriores do time contra o qual jogariam para tentar estabelecer um padrão de jogo e as possibilidades sobre o modo como atuariam de forma a responder a elas.
Para passarmos a um nível mais relevante de discussão do desafio que sistemas complexos colocam, tomemos uma cidade. A cidade é um sistema urbano de infinita complexidade, porque as interações são muito maiores do que em um jogo de futebol e a gama de dados nos quais o sistema se baseia para funcionar é imensa. Em suma, as partes do sistema urbano, que incluem equipamentos e pessoas, influenciam umas às outras não só durante os 90 minutos de uma partida, mas o tempo todo, 24 horas por dia e 365 dias por ano, e além disso elas estão submetidas à atuação de n fatores externos, não só as condições meteorológicas e físicas de uma partida em um estádio, mas as condições sociais, econômicos, culturais e políticas predominantes. Um sistema urbano não pode ser gerenciado por um técnico de futebol com sua prancheta e seus desenhos da movimentação dos jogadores em campo, mas por engenheiros de sistema que são capazes de construir modelos matemáticos consistentes em um conjunto de equações que descrevem as interações possíveis em termos quantitativos. E é aqui que mora o problema.
De acordo com os números do City Globe Tour, disponíveis no YouTube, a China ocupa o primeiro lugar no mundo em número de engenheiros, com 530.000, a Rússia vem em segundo lugar com 432.000, a Índia, em terceiro com 337.000, os Estados Unidos em quarto com 283.000, o Irã em quinto lugar com 254.000, o Japão em sexto lugar com 194.000, a Coréia do Sul em sétimo lugar com 177.000 e o Brasil vem em oitavo lugar com 166.000. Ou seja, um país como a Rússia, que tem metade da nossa população, tem quase três vezes mais engenheiros do que nós. Essa falta de profissionais suficientes para atender as necessidades de um país de oito milhões de quilômetros quadrados fica patente quando temos acidentes como a explosão de gás que matou pessoas e destruiu várias casas em São Paulo depois de uma obra realizada pela companhia de abastecimento de água de São Paulo, a SABESP, que acabou perfurando a tubulação de gás.
De acordo com o trecho que abre este artigo, a SABESP diz que avisou a concessionária de gás e estava alinhada com ela. O que significa avisar e estar alinhada? É simplesmente notificar a concessionária de gás que obras serão feitas em tal local e obter a aprovação para isso? Ou é realizar a obra em verdadeira parceria, compartilhando informações e pessoal para que a tubulação de água e a tubulação de gás possam ser consertadas sem que haja danos nem a uma nem a outra? O fato de ter havido um acidente mostra que se houve tal compartilhamento ou alinhamento ele foi falho. De quem é a culpa? Da SABESP que foi recentemente privatizada, da COMGÁS, que já explora o serviço de fornecimento de gás em São Paulo há décadas? Vemos aqui que se a cidade fosse tratada como um sistema complexo e a prefeitura tivesse um departamento de engenharia que fosse responsável pelo planejamento desse sistema, acidentes desses poderiam ser ao menos mitigados.
Tal departamento estabeleceria diretrizes para obras de infraestrutura na cidade de maneira que trabalhos em um subsistema, como o do gás ou da eletricidade, não prejudicasse outro subsistema, como o da água. Conforme o trecho que abre este artigo, o fato de sistemas dependerem de julgamentos humanos apresenta desafios aos gestores, porque havendo decisões a serem tomadas nas interações do homem com as máquinas e equipamentos, os gestores precisam levar em conta quem tomará tais decisões, para estimar a resposta que o sistema dará em termos de resultado. No caso do acidente da SABESP os funcionários usaram equipamento para mexer na tubulação da água e acabaram perfurando o cano do gás. Como eles tomaram a decisão? Quem lhes instruiu sobre o que fazer tinha um mapa da infraestrutura de encanamentos no local para saber o que poderia acontecer? Se a cidade de São Paulo tivesse uma equipe responsável pela gestão do sistema urbano, nenhuma empresa ou concessionária de serviços públicos trabalharia isoladamente, mas sempre sob a coordenação de alguém que tivesse a visão do todo e das possíveis interações entre as partes.
Prezados leitores, infelizmente as atividades da SABESP não serão tratadas e saneadas por engenheiros de sistema, mas por advogados das vítimas da explosão que procurarão indenização e pelos juízes que decidirão o valor com base na extensão dos danos. Oxalá um dia cheguemos a um nível de organização da cidade que nos permita impedir que a derrubada de galhos de árvores por uma ventania não cause apagão geral na cidade, como já ocorreu antes. Enquanto os engenheiros não chegam e não combinamos com eles como realizar obras de infraestrutura no meio urbano, ficaremos nas eternas disputas entre privatistas e não privatistas, direita e esquerda e ninguém terá razão.