Equilíbrio de poderes

Tão enredada na teia medieval, a Igreja encontrava-se na posição de uma instituição
política, econômica e militar, assim como religiosa; suas “temporalidades” ou possessões
materiais, suas “feudalidades,” ou direitos e obrigações feudais, tornou-se um escândalo
para os cristãos de moral estrita, um tópico de discussão para os heréticos, uma fonte de
controvérsias sem fim entre imperadores e papas. O feudalismo feudalizou a Igreja.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)

São Tomás de Aquino interpretava a escravidão como uma consequência do pecado de
Adão e como um expediente econômico em um mundo em que alguns deviam trabalhar de
modo que outros pudessem ser livres para defendê-los.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)

Prezados leitores, imaginem uma corte eclesiástica que condena sete mulheres a
serem enterradas vivas por roubo. Ou um mosteiro, como o de St. Gall na Suíça, que tinha
mais de 2.000 servos. Ou um funcionário da Santa Inquisição que em 1554 vangloriava-se
de que o Santo Ofício havia condenado à fogueira ao menos 30.000 bruxas nos 150 anos
precedentes. Ou bispos e abades que vestindo armadura e portando lança – estando assim
prontos para matar – participavam de guerras como qualquer senhor feudal que exercia
domínio sobre vastas extensões de terra.

Esta era a situação da Igreja Católica na Idade Média e começo da Idade Moderna.
Se na Idade Média a fonte do poder e da riqueza tornou-se a propriedade e a gestão da
terra, quem dispusesse desse ativo em abundância estava fadado a ocupar a posição de
liderança na sociedade. E liderança significa exercer o controle, isto é, realizar as atividades
típicas dos homens que geriam os homens que, por si sós, só conseguiam gerir coisas. Tais
atividades incluíam organizar a exploração da terra e sua defesa contra ataques de
inimigos. Não é de surpreender então que os membros da alta hierarquia da Igreja Católica
– papa, arcebispos, bispos e abades – supervisionassem o trabalho agrícola e participassem
de guerras. E que, em fazendo isso, acabassem realizando coisas que violavam os preceitos
da moral cristã.
A Igreja pregava a misericórdia, mas seus tribunais aplicavam as mesmas penas
brutais aplicadas por tribunais leigos, incluindo a pena de morte. Afinal, era tarefa dos
líderes da sociedade controlarem o comportamento das pessoas para que a ordem
predominante não fosse violada. A Igreja pregava a caridade e o compartilhamento do pão,
como fez Jesus Cristo na Santa Ceia, mas cobrava como qualquer senhor feudal os tributos
impostos aos camponeses, pelo direito que estes gozavam de tirar o seu sustento de glebas
sobre as quais a Igreja tinha diferentes tipos de propriedade. A Igreja pregava que todos
eram iguais perante Deus e que todo ser humano tinha uma dignidade intrínseca, mas
aceitava a escravidão como um mal necessário, conforme o trecho que abre este artigo nos
mostra: afinal, a tarefa de uns era arar a terra, a tarefa de outros era lutar para que as
plantações não fossem destruídas por tropas inimigas ou que os vilarejos não fossem
saqueados ou queimados. O mundo depois da queda do Império Romano na Europa
Ocidental era um mundo cheio de insegurança e sujeito às invasões dos povos bárbaros. O
medo e a expectativa do pior tornavam difícil aplicar a receita de paz e amor pregada no
Novo Testamento.
É nesse sentido que a Igreja se feudalizou ao participar da Idade Média na qualidade
de protagonista. Conforme o trecho que abre este artigo, ao gerir suas possessões
materiais, a Igreja tornou-se parte integrante da estrutura política, econômica e militar
daqueles tempos, exercendo um poder que ia além do poder espiritual para incluir os
atributos daqueles que geriam a atividade econômica mais importante da época, a
agricultura. Não é surpreendente que a Igreja Católica, acumulando rendimentos pela
cobrança de tributos e pela produção de alimentos, tenha se desviado daquela ética surgida
no Oriente Médio no primeiro século da nossa era a partir dos ensinamentos do filho de um
carpinteiro em uma longínqua e obscura província do Império Romano.
Assim, ao tornar-se a sucessora do Império Romano como fonte de poder, a Igreja
Católica, que pregava a fé, a esperança e a caridade propostas na periferia desse império,

acabou matando, confiscando e oprimindo como qualquer senhor feudal fazia à época. E
mesmo quando o feudalismo entrou em decadência, a Igreja Católica tinha se consolidado
de tal forma como instituição que tornou-se ferrenha defensora da ortodoxia, como
mostram as atividades da Inquisição, que se iniciaram na Europa a partir do século XII.
Prezados leitores, na semana passada conclamei Donald Trump a ir a Canossa pedir
perdão ao papa pela guerra contra o Irã e tomar alguns conselhos sobre como resolver
conflitos por meios diplomáticos. Mas que fique claro, o papa a ser consultado não é um
papa da Idade Média como o Gregório VII que disputou com Henrique IV. É o papa Leão
XIV do século XXI, que lidera uma igreja que não mais está no centro da atividade
econômica da sociedade, como era a Igreja da Idade Média, e portanto, não tem poder
material, apesar de ser ainda rica em ativos imobiliários, resquício da sua época de
esplendor.

Não tendo poder material e não estando envolvida com as coisas deste mundo, a
Igreja Católica pode enfocar a pregação cristã original e assim propor o fim das guerras e o
diálogo universal. Foram-se os tempos em que a Igreja precisava estralar o chicote para
gerir as pessoas sob seu controle. Nesse sentido, sua mensagem ética tem mais
credibilidade do que teria se ela ainda fosse um grande potentado econômico. Por outro
lado, para líderes como Trump que não acreditam em direito internacional e para quem a
força faz o direito, consistência ética é apenas uma firula sem consequência.
É forçoso notar que no frigir dos ovos, se Henrique IV foi a Canossa e Trump não vai
a Roma é porque o poder espiritual sem poder material é pouco eficaz. O excesso de poder
material foi um grande golpe para a Igreja Católica, tornando-a vulnerável aos ataques do
Protestantismo, o que acabou minando-lhe tanto o poder material quanto o espiritual. Por
outro lado, neste século XXI, em que o direito das gentes tem sido tão vilipendiado, como
tornar o poder espiritual relevante sem que haja um poder material que o respalde? E como
não deixar que o poder material se torne tão cheio de si de modo a levar à destruição do
mundo pela guerra? Oxalá encontremos uma solução de equilíbrio de poderes antes que
seja tarde demais.

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Quem irá a Canossa?

[…] estado deveria subordinar-se à Igreja – a Cidade dos Homens à Cidade
de Deus – em todos os assuntos envolvendo doutrina, educação, moral,
justiça ou organização eclesiástica. […] A Igreja, como instituição divina,
merecia ter autoridade universal; o papa, como o vice-rei de Deus, tinha o
direito e a obrigação de depor maus reis e confirmar ou rejeitar a escolha
dos governantes feita pelos homens ou pelas circunstâncias. […] Quem […]
podia ignorar que os reis e príncipes originavam-se daqueles que,
ignorantes de Deus e cobrindo-se de orgulho, violência e perfídia, de fato
cometendo praticamente todos os crimes – pretendiam governar seus pares
– isto é, os homens – em luxúria cega e arrogância intolerável?
Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano
Will Durant (1885-1981) sobre o pensamento do papa Gregório VII (1020-
1085) no contexto do episódio conhecido como a Querela das Investiduras

Não tenho medo do governo Trump e nem de bradar em alto e bom som a
mensagem dos Evangelhos.


Papa Leão XIV comentando em 13 de abril a crítica a ele dirigida pelo
presidente americano Donald Trump dizendo que ele deveria preocupar-se
em ser um Grande Papa e não um político

Prezados leitores imaginem a cena. Em 25 de janeiro de 1077, em
meio a um dos mais rigorosos invernos que a Itália já experimentara, chega
um homem com os pés descalços, vestido em roupas de lã grossa, que
feriam a pele, às portas do castelo da condessa da Toscana em Canossa.
Este homem é nada mais nada menos do que o imperador do Sacro Império
Romano Germânico, Henrique IV (1050-1106), que viera ali pedir perdão ao
papa Gregório VII por seus pecados. Depois de três dias esperando ao
relento, Henrique consegue que o papa revogue a excomunhão que lhe
havia imposto, permitindo que o imperador retorne ao seio da Igreja
Católica.

E que pecados eram esses? Como podem se lembrar aqueles que
estudaram História Geral no colégio na década de 1980, havia no século XI
uma disputa de prerrogativas entre o Papa e o Imperador sobre quem tinha
direito de escolher os bispos e abades. Conforme o trecho que abre este
artigo, Gregório VII considerava que a Igreja tinha mais legitimidade que
qualquer Estado em determinados assuntos. Sendo representante de Deus
na Terra, era ela quem deveria decidir sobre assuntos que envolvessem a
aplicação dos ensinamentos dos Evangelhos à vida prática, o que incluía
competência para ditar a moral, decidir quem estava certo e quem estava
errado em uma disputa e educar as crianças para que quando adultas se
transformassem em bons cristãos.
Além disso, havia outro elemento que lustrava a legitimidade da
Igreja, que era o modo como os reis e príncipes eram escolhidos. Esses
indivíduos ascendiam ao poder por meio da intriga, da violência, da mentira,

em suma pelo exercício daquelas qualidades que, conforme o
historiador e filósofo Maquiavel (1469-1527) iria descrever em plena
Renascença, eram fundamentais para conquistar e manter o poder, mas que
não tinham nada a ver com as virtudes associadas ao cristianismo, a saber:
humildade, paciência, bondade, obediência e misericórdia. Daí porque
Gregório VII insistisse na importância de reservar para a Igreja a
exclusividade na escolha daqueles que ocupariam os cargos eclesiásticos
mais elevados e assim comandariam a instituição. Considerando que os reis
e príncipes deste mundo não conquistavam o pode praticando virtudes
cristãs, se lhes fosse permitido escolher bispos e abades nas igrejas de seus
respectivos países eles tornariam a Igreja tão corrupta quanto eles eram,
pois a nomeação para cargos eclesiásticos seria uma moeda de troca em
disputas de poder.

Assim, para Gregório VII a autonomia da Igreja para escolher seus
próprios representantes era condição necessária para que ela exercesse o
poder espiritual sobre a Cristandade, servindo como a bússola moral que
teria a palavra final sobre quem agia certo e quem agia errado. A Cidade
dos Homens, povoada de pecadores, estaria subordinada à Cidade de Deus
descrita por Santo Agostinho (354-430), a fortaleza espiritual em que
predominaria o amor, a fé, a esperança, a sabedoria, a justiça. Caso os
líderes políticos de então escolhessem quem administraria a Igreja, haveria
uma inversão dos papeis e a Cidade de Deus ficaria subordinada à Cidade
dos Homens, levando à sua descaracterização.
O pecado de Henrique IV pelo qual ele foi em penitência pedir perdão
ao papa foi então este: o de ter insistido em nomear os bispos nas terras
sob a jurisdição do Sacro Império Romano Germânico, o que incluía o que é
hoje a Alemanha e o Norte da Itália. A chamada Querela das Investiduras
teve vários rounds: Henrique prostrou-se em Canossa em 1077, mas em
1084, à frente de um exército, ele invadiu Roma, obrigando Gregório a
refugiar-se no Castelo de Sant’Angelo. A vitória de Henrique foi efêmera:
pedindo a ajuda de Roberto Guiscardo (1015-1085), que governava o sul da
Itália, incluindo a Sicília, o papa conseguiu libertar-se do seu cativeiro, mas
o condottiere normando saqueou Roma e incendiou grande parte da cidade.
Gregório VII, tornando-se impopular com os romanos pela violência de
Guiscardo, acabou deixando a cidade e morreu em 1085, desgostoso com a
derrota para um homem a quem ele havia perdoado em Canossa.
Mais de 1.000 anos depois e temos agora em pleno século XXI, uma
disputa entre o papa e um líder político, no caso o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump. Tudo começou no Domingo de Páscoa, no dia 5 de
abril, quando o papa Leão XIV, em sua homilia, conclamou aqueles que
“têm poder para desencadear guerras a escolher a paz”. O papa voltou à
carga depois que Trump ameaçou em 7 de abril destruir uma civilização
inteira, dizendo que essa ameaça à população do Irã era absolutamente
inaceitável. Trump fez então várias críticas a Leão XIV, dizendo que ele era
leniente com o crime e que favorecia a esquerda radical. A última

manifestação do papa é aquela que abre este artigo, insistindo que não irá
parar de divulgar a mensagem dos Evangelhos, que é a paz, não a guerra.
Prezados leitores, na Idade Média, apesar de Gregório VII ter sido
vencido por Henrique, a Igreja acabou fazendo valer sua prerrogativa de
escolher seus próprios líderes sem interferências do poder temporal e com
isso conquistou um poder político que só seria questionado e abalado com a
Reforma Protestante. A Cidade de Deus, símbolo do poder espiritual,
conseguiu se sobrepor à Cidade dos Homens, símbolo do poder terreno, até
o início da Idade Moderna. Em pleno século XXI, a Igreja Católica não tem
nem o poder político nem o poder espiritual de que outrora gozou. Imaginar
qualquer governante ir prostrar-se contrito, aos pés do papa, para que este
lhe perdoe os pecados, está fora de cogitação. Mas bem que uma ida a
Canossa, com os pés descalços sobre a neve, poderia fazer bem para o
presidente americano refletir sobre seus atos e fazer uma autocrítica. Oxalá
que os americanos encontrem no futuro um chefe do Executivo que faça
isso para que o país possa ser mais bem gerido. O mundo com certeza
respirará aliviado.

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Dependências agora e outrora

A fotografia da dependência brasileira é reveladora. O diesel é o caso mais
crítico: as importações respondem por cerca de 25% do consumo interno.
[…] No caso do GLP, as importações também corresponderam a 25% das
vendas internas. O querosene de aviação apresenta dependência externa de
15%. […] O Brasil importa 85% dos fertilizantes que utiliza.
Trecho retirado do artigo “Os gargalos do planeta e os riscos ao
agronegócio”, de Marcos Jank, publicado na edição de 5 de abril do jornal O
Estado de São Paulo

Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido,
porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China
por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.
Trecho de discurso do candidato à presidência Flávio Bolsonaro em 28 de
março na Conferência da Ação Política Conservadora

Já levaram nossa prata, todo o nosso ouro, já levaram todo o diamante, já
levaram todo o nosso minério, o que mais querem levar? Quando é que a
gente vai aprender que Deus colocou toda essa riqueza pra nós, e nós
ficamos dando para outros?”, questionou Lula
Fala do presidente Lula durante encontro com o presidente da África do
Sul, Cyril Ramaphosa, no Palácio do Planalto, em 9 de março

A indústria, de seu lado, se obteve inesperados mercados para exportação,
devido ao colapso da produção nos países avançados, tornou-se ao mesmo
tempo ainda mais obsoleta do que já era pela impossibilidade de
importação de máquinas e equipamentos.
Trecho retirado do livro “A Capital da Vertigem – Uma história de São Paulo
de 1900 a 1954” de Roberto Pompeu de Toledo sobre os efeitos da Segunda
Guerra Mundial sobre a economia brasileira

Prezados leitores imaginem o cenário de penúria: preço do leite entre
Cr$ 1,80 e Cr$ 4,50, a depender da qualidade do produto, com mais ou
menos água. Falta de alimentos da cesta básica como feijão, arroz, batata e
milho, por impossibilidade de transportá-los do interior do Estado para a
capital. Falta do mero pãozinho, pela impossibilidade de importar trigo. 87%
do transporte rodoviário de mercadorias ameaçado pela falta de
combustível, devido à falta do petróleo importado.
Como explica Roberto Pompeu de Toledo em seu segundo volume da
história da cidade de São Paulo, essa era a situação no ano de 1944 na
cidade de São Paulo, em virtude da Segunda Guerra Mundial. Em que pese
o conflito ter se desenrolado na Ásia, Europa e África, longe do continente

americano, seus efeitos se fizeram sentir no Brasil em virtude de nossas
fragilidades estruturais: não produzíamos trigo suficiente para atender
nossas necessidades e a única fonte de energia alternativa ao petróleo
importado era o gasogênio, fruto da queima de carvão. E mesmo a
oportunidade de que o Brasil gozou durante a guerra de passar por um
surto de industrialização para substituição de importações corria o risco de
ser desperdiçada porque, conforme descrito no trecho que abre este artigo,
em que pese termos criado indústrias, elas se tornaram obsoletas pela
impossibilidade de importar máquinas e equipamentos que permitissem
modernizá-las.


O século XX, marcado pela Pax Americana passou e já estamos na
segunda década do século XXI. Americanos e israelenses travam uma
guerra contra o Irã que já teve vários impactos sobre a economia mundial.
O fechamento do Estreito de Ormuz pelos iranianos, o qual, diga-se de
passagem, já foi controlado outrora por nossos colonizadores portugueses,
é dramático. Na qualidade de um dos sete gargalos marítimos do planeta, o
estreito é a artéria mais sensível do sistema global de comércio. O artigo de
Marcos Junk mostra os números: 20% do consumo mundial de petróleo
passa por lá, assim como um terço do comércio marítimo de fertilizantes do
mundo e 19% de todo o gás natural liquefeito.


A interrupção quase que total do tráfego no Estreito de Ormuz pega o
Brasil de calças curtas por vários motivos, conforme descrito no trecho que
abre este artigo. Dependemos de fertilizantes para abastecer nosso
agronegócio, o setor mais pujante da nossa economia, representando quase
30% do PIB em 2025. Dependemos do diesel para movimentar os
equipamentos que fazem a roda da agricultura girar e para fazer rodar os
caminhões nas estradas que transportam 65% de todas as cargas
movimentadas no território brasileiro. E apesar de produzirmos gás
offshore, precisamos importar da Bolívia e dos países do Golfo Pérsico para
suprir nossas necessidades.


Talvez essa guerra no Irã realmente tenha terminado com o cessar-
fogo negociado entre os Estados Unidos e Irã após 40 dias de hostilidades e
o fluxo de navios no Estreito de Ormuz seja regularizado.
Independentemente disso, nós já havíamos notado nossa vulnerabilidade
em relação a um produto essencial para nossa economia há quatro anos,
em 2022, quando se iniciou a guerra na Ucrânia e houve o risco de
desabastecimento de fertilizantes, devido ao bloqueio de outro gargalo
marítimo do planeta, os Estreitos de Bósforo e Dardanelos, no Mar Negro.
Para não mencionarmos o fato de que vira e mexe há uma guerra no Oeste
da Ásia (nome mais politicamente correto do que o Oriente Médio
comumente utilizado), desde que o Estado de Israel foi criado, em 1948.
A despeito de todo esse risco que corremos, nunca fizemos nada para
mitigá-lo, quer seja incentivando a abertura de fábricas de fertilizantes ou
investindo em refinarias de petróleo que permitam um melhor
aproveitamento do petróleo bruto que temos agora em abundância.
Qualquer distúrbio geopolítico que afete as cadeias de suprimento mundiais

nos pega desprevenidos, encarecendo os preços dos insumos que utilizamos
para fazer girar nossa economia. E no entanto, nossos candidatos à
Presidência da República adoram falar das tais das terras raras, das quais
temos uma das maiores reservas do mundo. E como devemos seguir o
script da polarização, Flávio Bolsonaro, o candidato da direita e Lula, o
candidato da esquerda, têm ideias opostas sobre o assunto.


Conforme o trecho que abre este artigo, Flávio quer entregar nossas
reservas para os Estados Unidos, colocando o Brasil ao lado dos americanos
para servir de contrapeso à China, que não só tem grandes reservas, mas
também é responsável por quase 90% do processamento e refino dos
minérios raros. Lula, bem ao seu estilo de defensor retórico da soberania
nacional contra o colonialismo, não quer entregar nada, quer ficar com as
terras raras, já que já entregamos muito para os gringos. Ele quer que a
etapa de transformação industrial ocorra aqui pela implementação de uma
estratégia de exploração das terras raras como instrumento de
“desenvolvimento tecnológico e econômico”, conforme explicado no artigo
sobre a fala de Lula mencionada acima. Quem está com a razão? O
entreguista de direita ou o desenvolvimentista da esquerda?


O fato é que quer escolhamos ser parças da China ou dos Estados
Unidos, a depender se elegermos Lula ou Flávio Bolsonaro, precisaremos de
cooperação em termos de capital ou de tecnologia. Se Flávio Bolsonaro quis
nos vender ao Tio Sam, as belas palavras de Lula, sobre fazermos a coisa
nós mesmos, sem ajuda dos imperialistas, não servem de nada se não
tivermos dinheiro. Afinal, ele é necessário tanto para investirmos no
desenvolvimento da tecnologia de processamento de terras raras, quanto
para construirmos fábricas cuja produção seja viável economicamente, isto
é que seja mais vantajosa que a simples importação do produto pronto. E
quem nos dará o dinheiro? Alguém que queira algo em troca, simples
assim. Mesmo se estivermos com todas as ganas de sermos soberanos,
teremos que entregar algo, porque dependemos de capital estrangeiro.
Prezados leitores, enquanto aguardamos que as terras raras um dia
floresçam no Brasil, poderíamos começar com o objetivo mais modesto de
nos tornarmos autossuficientes em fertilizantes, um produto cuja fabricação
não requer tanta habilidade quanto o refino de nióbio ou tungstênio ou
grafite. Já seria um grande passo rumo à tão sonhada soberania, palavra
amplamente usada por essas plagas para efeitos retóricos, mas parcamente
concretizada, como vemos desde os nossos percalços na Segunda Guerra
Mundial até a atual Guerra no Irã.

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Fé para todos

Eu rezo por SUA graça e proteção das nossas tropas e de todos os homens
e mulheres que servem nas forças armadas.
Trecho de uma oração coletiva conduzida por pastores evangélicos no dia 6
de março de 2026 ao redor do Presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump dias depois od inpicio da guerra contra o Irã em 28 de fevereiro

Apesar de o filósofo não poder aceitar em seu sentido literal os dogmas do
“Alcorão, da Bíblia e de outros livros revelados”, ele percebe a necessidade
deles ao elaborar uma devoção e moralidade saudáveis entre a população,
que é tão assediada por inconveniências econômicas que ela não encontra
tempo para desenvolver nada melhor do que um raciocínio incidental,
superficial e perigoso sobre as primeiras coisas e as últimas coisas. Assim, o
filósofo maduro não pronunciará nem estimulará nenhuma palavra contra a
fé estabelecida.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano
Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo islâmico Averróis (1126-1198)

O estabelecimento do sentido verdadeiro e profundo das crenças e
convicções religiosas é o objetivo da filosofia em sua busca da verdade.
Este sentido profundo não deve ser divulgado às massas, que devem
aceitar o significado simples e externo da Escritura contido em histórias,
símiles e metáforas.
Trecho retirado verbete da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre o
filósofo islâmico Averróis (1126-1198)

          Prezados leitores, imaginem a cena: ao redor de 15 pastores
evangélicos rezando em torno de Donald Trump no Salão Oval da Casa
Branca, colocando as mãos sobre os ombros e o braço direito do presidente
americano, que mostra um rosto sério, contrito. Além de implorarem para
que Deus dê-lhe sabedoria para governar, os pastores também imploraram
que Deus protegesse as tropas americanas. Detalhe importante: a guerra
contra o Irã começara com o bombardeio no sábado dia 28 de fevereiro de
uma creche, causando a morte de 175 crianças e funcionários. Será que
esses pastores devem mesmo rogar a Deus que proteja o exército
americano que foi capaz de matar crianças em uma creche? Será que a
guerra contra o Irã é santa e justa e justifica o massacre de civis?
          Não pretendo aqui neste meu humilde espaço bater o martelo e
decidir se a guerra se justifica ou não do ponto de vista religioso,
considerando o sofrimento que causará à população de um país que não
atacou os Estados Unidos antes. Meu objetivo é lançar mão dos
ensinamentos de um filósofo que procurou combinar a fé e a razão e assim
separar o joio do trigo, isto é a religião verdadeira, que deveria ser apoiada
e cultivada por todos, independentemente do nível de educação e de

inteligência da pessoa, e a falsa religião, que só serve para semear a
discórdia e fomentar heresias e descrença. Falo de Averróis cujo verdadeiro
nome era Abu al Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Muhammad ibn Rushd.
Nascido em Córdoba e falecido em Marrakesh, Averróis foi médico, juiz e
estudioso de Aristóteles e de Platão. De Aristóteles, o filósofo islâmico
tomou emprestado o conceito dos três tipos de argumentos, para atribui-los
aos diferentes atores da sociedade. O primeiro é o demonstrativo,
empregado pelos filósofos, que com base em alguns axiomas e premissas
estabelecidas demonstram uma afirmação como consequência lógica
daqueles pontos de partida. O segundo tipo de argumento é o dialético,
utilizado pelos teólogos, que não cumpre os requisitos de uma
demonstração estrita e acaba sendo uma opinião não corroborada por
provas. O terceiro tipo de argumento é o persuasivo, isto é aquele
empregado na retórica e na poesia para convencer, para emocionar, para
encantar as massas. Portanto a dialética fica a meio caminho entre o rigor
da demonstração lógica e a liberdade de usar qualquer artifício para
arrebatar o coração do ouvinte ou leitor.
         Averróis não vê conflito entre a fé e a razão no sentido de que ele
acredita que a Sharia, baseada no Alcorão, é verdadeira, porque foi
revelada por Deus ao profeta Maomé. A fé na origem divina da Sharia, fonte
de todo conhecimento, não impede que Averróis atribua um papel à razão,
conforme o trecho que abre este artigo. O filósofo, praticante da
argumentação demonstrativa, é o único a poder revelar o sentido profundo
da revelação da Escritura, interpretando-a simbolicamente de maneira a
harmonizá-la com as descobertas da ciência e da filosofia.
         Tal interpretação não deve ser divulgada às massas, que não têm
capacidade de raciocinar neste nível de abstração. A fé da população deve
ser cultivada por meio de histórias de milagres, de homens excepcionais
como o Profeta, de histórias que antropomorfizam Deus. É só dessa
maneira persuasiva que ELE se torna acessível ao intelecto simples daqueles
que passam a vida a se preocupar com a sobrevivência cotidiana e que mais
sentem do que pensam.
         Dessa maneira, Averróis estabelece uma fé para todos, mas uma fé
praticada de maneira diferente pelos diferentes crentes. Ao indivíduo
comum cabe seguir as regras morais inspiradas pela Escritura sem
questionar sua origem ou seu conteúdo porque este é o melhor caminho a
seguir para uma vida saudável, sem grandes desastres causados pelo
comportamento desregrado. Ao filósofo cabe estudar a Escritura como fonte
da verdade para revelar seu sentido íntimo. A pior fé é aquela dos teólogos,
que raciocinam dialeticamente e portanto, de maneira não fundamentada,
colocando dúvidas na cabeça daqueles que não foram educados para pensar
direito e por isso são mais vulneráveis a sofismas.

Para Averróis, pior do que não refletir é refletir de maneira
equivocada, sem seguir as regras da lógica, pois isso leva ao
surgimento de versões conflitantes sobre o conteúdo da religião,
tirando a credibilidade da palavra revelada por Deus aos seus

escolhidos. Se os teólogos tiverem liberdade para tecerem
argumentos dialéticos ao sabor das suas conveniências e dos seus
interesses, isso acabará minando a sociedade, tirando-lhe o
sustentáculo da moral fundada na verdade da religião.

Prezados leitores, os ensinamentos do cordovês Averróis mostram
que para que possa haver fé para todos é preciso consideração às
especificidades de cada indivíduo. Para uns a literalidade da Escritura
alimenta a fé, para outros a simbologia do texto sagrado faz nascer o
sentimento da transcendência. De qualquer forma, fica o alerta para quem
quiser abordar a religião por meio da argumentação que justifica certos
comportamentos em nome de Deus: que o faça da maneira mais rigorosa
possível, demonstrando e não apenas lançando ideias como meros
expedientes para dar um verniz de respeitabilidade a atos que causam mal.
Do contrário, teremos teólogos como os pastores trumpistas que não estão
defendendo Deus e os preceitos morais que emanam DELE, mas apenas o
Império Americano. E isso não é a religião concebida por um filósofo como
Averróis, é simplesmente ideologia, isto é, teoria voltada à atuação no
mundo com vistas a um certo objetivo.

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Brigitte Bardot uma mulher livre

Pode-se argumentar, claro, que tal comportamento obviamente errado sempre ocorreu: porque quando se trata de desvios sexuais não há nada de novo neste mundo e a história mostra muitos exemplos de quase todas as perversões ou condutas desonrosas. Mas essa é a primeira vez na história que houve uma negação em massa de que as relações sexuais são um tópico adequado para reflexões morais ou que deve ser governado por restrições morais. […] A revolução sexual foi acima de tudo uma mudança na sensibilidade moral rumo a uma brutalização completa dos sentimentos, do pensamento e do comportamento.

Trecho retirado do ensaio “All Sex, All the Time” incluído na coletânea “Our Culture, What’s Left of It” do escritor Theodore Dalrymple, peseudônimo do médico psiquiatra britânico Anthony Malcolm Daniels (1949- )

“Era como um tumor que se alimentou de mim, que eu carreguei na minha carne entumescida, só esperando o momento abençoado em que eu finalmente me livraria dele », revela em seu livro. Ela inclui também a observação de que “teria preferido dar à luz a um cachorro”.

Treco retirado das memórias da atriz Brigitte Bardot (1934-2025), publicadas em 1996, a respeito do nascimento de seu filho Nicolas-Jacques Charrier, em 1960

Prezados leitores, eu sempre tive uma admiração pela atriz francesa Brigitte Bardot por causa do modo como ela encarou o envelhecimento. Nunca fez plástica, nunca fez preenchimento facial, nunca se mumificou para fingir que continuava nova. Elle était bien dans sa peau como se diz em francês, talvez porque não se sentisse insegura. Afinal, durante seu tempo de juventude, ela tinha sido idolatrada pelos homens por sua boca carnuda, sua cintura fina, seus seios generosos, seus olhos amendoados, seus cabelos longos e lisos, seu ar inocente, petulante e sensual. Provavelmente teve ao seu dispor todos os homens que quis e que não quis, de forma que pode passar com tranquilidade à idade em que a mulher deixa de ser atraente sexualmente para o sexo oposto. Não é fácil fazer tal transição, se fosse os cirurgiões plásticos, os médicos dermatologistas e as esteticistas não teriam serviço. Mas Brigitte Bardot tirou o envelhecimento de letra, pois achou uma motivação de vida que foi a luta pelo bem-estar animal. 

Por outro lado, minha admiração pela Lolita francesa, como Simone de Beauvoir (1908-1986) se referiu a ela aludindo à ninfeta que é a personagem do livro de Vladimir Nabokov (1899-1977), tem limites. Brigitte Bardot foi a epítome da liberação sexual dos anos 1960, época em que as sociedades ocidentais decidiram viver sob a premissa de que cada um deve ser livre para perseguir sua felicidade e que tal felicidade passa necessariamente pela satisfação dos nossos apetites e desejos. Ela foi a epítome dessa liberdade porque além de ter colecionado vários parceiros no seu período áureo de beleza e frescor, ela rebelou-se contra um dos tabus sagrados que ainda era um resquício da moralidade cristã que tinha prevalecido na Europa por mais de 1.000 anos, qual seja o da maternidade. 

Conforme o trecho que abre este artigo, experimentou a gravidez e o parto do seu filho como algo imposto a ela, algo que ela rejeitou desde o início, mas que foi obrigada a aturar por não ter conseguido fazer um aborto, como tinha feito antes. Seu desgosto foi tão grande que logo depois do parto ela decidiu se divorciar do marido e pai da criança Jacques Charrier (1936-2025) e dar-lhe a guarda do rebento. Em 1997, pai e filho entraram com um processo contra Brigitte depois da publicação das “Mémoires” por violação à vida privada do feto. A mulher que confessou não ter querido ser mãe foi condenada pela justiça francesa a pagar 22.900 euros a Jacques e 15245 euros a Nicolas a título de indenização.

Enfim, Brigitte queria desfrutar da liberdade sexual, poder dar vazão às suas paixões sem arcar com o ônus delas, que fosse a gravidez, o parto ou os cuidados de uma criança. E ao confessar seus reais sentimentos pelo petit Nicolas em suas memórias ela não se importou com o efeito que isso iria causar em um filho que já havia sido rejeitado logo ao vir ao mundo. Para ela, ser autêntica e ser livre para dizer o que pensava era mais importante do que preservar a higidez psicológica de um filho que embora tendo sido criado longe dela, não deixava de tê-la como mãe.

São esses efeitos colaterais da revolução dos costumes nas sociedades ocidentais que Theodore Dalrymple descreve em seu livro, fruto de sua experiência clínica como psiquiatra em prisões. Nicolas teve sorte, porque apesar de sua mãe ter-lhe abandonado, ele não foi dado em um orfanato, já que nasceu em um meio privilegiado da burguesia parisiense. O comportamento libertário de Brigitte, que não queria sacrificar sua carreira, sua individualidade, sua satisfação sexual em prol de uma criança, não fez os estragos que ocorrem quando esse comportamento livre de amarras é praticado pelos extratos mais baixos da sociedade. Neles, a sede de liberdade tem consequências como o vício, a violência, o crime. Filhos negligenciados e sem estrutura familiar recorrem às drogas ou às amizades com membros de gangues para preencher o vácuo da figural materna ou paterna, e tais amizades muitas vezes os levam a cometer crimes, incluindo assassinatos e estupros, perpetuando a fragilidade das famílias.

Theodore Dalrymple, além de dar exemplos práticos da desestruturação da unidade básica da sociedade, teoriza sobre o conjunto de valores que está por trás disso. A moralidade fundada na religião, que estabelecia proibições rígidas em nome da preservação da ordem social estabelecida por Deus para o bem da humanidade, não tem mais vez no mundo ocidental pós-cristão. A visão predominante é que o caminho da felicidade é ser livre para concretizar sua potencialidade enquanto indivíduo que tem certas paixões e inclinações. Reprimir esse conteúdo interior por meio de tabus religiosos e proibições costumeiras só dá ensejo à ansiedade, à angústia e à frustração. Daí ser terminantemente proibido fazer julgamentos morais sobre o comportamento de uma pessoa, principalmente o comportamento sexual, o qual segundo Freud nos ensinou, é a fonte da verdadeira felicidade.

Os obituários sobre Brigitte Bardot, morta em dezembro exemplificam essa atitude. Ela é descrita como uma figura polêmica, de vanguarda, que quebrou tabus arraigados sobre o papel da mulher. Mas julgá-la de um ponto de vista moral, em função do trauma que ela causou em seu filho rejeitado e em função do motivo fútil que a levou a deixá-lo para trás – por não estar a fim de ser mãe, apesar de ter plenas condições econômicas para criá-lo – nem pensar, pois julgamentos morais são considerados preconceituosos, arbitrários e tirânicos.

Prezados leitores, não me entendam mal. Consigo compreender perfeitamente que uma mulher não tenha aptidão para ser mãe e que prefira deixar a criança com alguém que fará um melhor trabalho do que ela. Mas a musa francesa poderia ter tido compaixão suficiente por seu filho para não revelar em um livro que vendeu mais de um milhão de exemplares que ela o considerava um câncer na sua vida. A autenticidade deve ter limites, porque como ensina Dalrymple, a suspensão da moralidade em nome dela leva à brutalização. Somos todos pecadores, e quem não tiver pecados que atire a primeira pedra, como pregou Jesus Cristo, mas isso não quer dizer que não devamos tentar perseguir um ideal de bom comportamento, em prol daqueles que nos cercam e em última análise em prol da melhor versão de nós mesmos. Espero que o filho de Brigitte tenha perdoado a mãe e que tenha estado presente em seu leito de morte. Espero também que ao final da vida BB tenha se dado conta do erro de ter exposto seu filho em um livro que escreveu para satisfazer sua ânsia de reconhecimento. 

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