Os entreguistas de ontem e de hoje

“O governo JK priorizou a atração de multinacionais em detrimento do fomento de marcas locais. O Brasil consolidou-se como um polo de montagem e adaptação, mas não de concepção e pesquisa e desenvolvimento (P&D)”, explica Pascoal. O campo de ação dos engenheiros brasileiros restringiu-se, principalmente, à adaptação de modelos europeus às condições de uso brasileiras – a chamada “tropicalização” […]

Trecho retirado do artigo “Obstáculos à frente do carro nacional”, publicado na edição de abril de 2026 da revista Pesquisa Fapesp

Dessa forma, a arrecadação aos cofres da Coroa portuguesa acabaria caindo, já que, com as taxas de importação baixas, as poucas indústrias locais não teriam como fazer frente aos produtos manufaturados ingleses. Além de retardar a indústria brasileira, as compensações para o equilíbrio fiscal acabariam incidindo, em algumas ocasiões, em impostos praticados sobre mercadorias brasileiras exportadas. 

Trecho retirado do livro “D. João VI – A história não contada” do historiador Paulo Rezzutti, sobre o Tratado de Comércio e Navegação assinado com a Inglaterra em 1810

Prezados leitores, às vésperas do início da Copa do Mundo de futebol de 2026 os brasileiros estão na expectativa sobre qual hexa será conquistado: o hexa campeonato ou o hexa da falta de campeonatos, pois se perdermos agora será a sexta Copa do Mundo em que ficaremos a ver navios, depois de 2002, quando obtivemos nossa quinta estrela. Eu pretendo assistir a algum dos jogos do Brasil se chegarmos às semifinais, do que duvido muito, mas mesmo ganhando, a seleção não vai me encher de orgulho patriótico como se fosse um feito marcante sermos os únicos hexacampeões de futebol. Confesso que o que me fez estufar o peito e até chorar foi ver a bandeira brasileira estampada em um avião da Swiss Air que me levou de Zurique a alguma outra cidade da Europa de que não lembro mais. Aquele pequeno retângulo verde com uma bola amarela no meio era a prova de que o avião era um modelo da Embraer, a única fabricante de aviões do Hemisfério Sul.

Em 2025, a empresa que é a minha fonte de orgulho por ser brasileira exportou bens no valor de R$ 42 bilhões de reais, um aumento de 18% em relação ao ano anterior. Infelizmente, exportar bens de alto valor agregado é a exceção, não a regra, para nós. Desde 2010, os produtos de média-baixa e baixa intensidade tecnológica ocupam cada vez mais espaço na balança comercial brasileira, ao passo que os produtos de alta e média-alta intensidade tecnológica vêm diminuindo sua presença. Como não produzimos os produtos farmacêuticos, as aeronaves (à exceção dos aviões executivos da Embraer) e equipamentos e os produtos do complexo eletrônico de alto valor agregado de que precisamos, precisamos importá-los. O resultado é que registramos um déficit dos bens típicos da indústria da transformação de 71,1 bilhões de dólares em 2025 (57,4 bilhões de 2024), que foi compensado pelo desempenho positivo dos produtos agropecuários e minerais, que registrou um saldo de 139,4 bilhões em 2025, levando a nosso superávit comercial de 2025, de 68,3 bilhões de dólares.

Esses números, retirados da revista Pesquisa Fapesp citada na abertura deste artigo, mostram que está ocorrendo uma intensificação da assimetria estrutural da balança comercial brasileira. Não inovamos, não conseguimos nos inserir nas cadeias globais de maior valor agregado e nos especializamos na produção de commodities, cujo preço é ditado pelos compradores que compram mais ou menos de algo que eles podem achar facilmente alhures 

De quem é a culpa por esse estado de coisas? Se olharmos para nossa história eu elegeria um bode expiatório, os entreguistas, ou seja, os partidários do entreguismo. Segundo a definição do dicionário Houaiss, entreguismo é “o preceito, mentalidade ou prática político-ideológica de entregar recursos naturais de uma nação à exploração por outro país ou entidades, empresas etc. de capital internacional. Ora, vou lhes mostrar dois exemplos de personagens históricos que colocaram isso em prática.

O primeiro deles foi Dom João VI (1767-1826), rei de Portugal, que entregou o mercado brasileiro aos ingleses, como compensação pelo fato de a Inglaterra ter-lhe salvado o trono, escoltando-o até o Brasil para fugir dos exércitos napoleônicos que invadiram a Península ibérica no final de 1807.  Dois anos depois de chegar ao Brasil, em março de 1808, Paulo Rezzutti nos conta que D. João VI concordou em estabelecer taxas alfandegárias de 15% para os produtos britânicos, ao passo que os produtos portugueses pagavam 16%. Isso era um golpe para a economia brasileira de duas formas: em primeiro lugar matava a possibilidade de a indústria local competir com um país como a Inglaterra que já estava desde a segunda metade do século 18 passando por uma revolução industrial; em segundo lugar, prejudicava as exportações brasileiras, porque para compensar a diminuição das rendas auferidas com impostos alfandegários, o governo português instalado no Rio de Janeiro taxou em até 8% as mercadorias brasileiras exportadas.

O segundo deles foi Juscelino Kubitschek (1902-1976), presidente do Brasil entre 1956 e 1961. Sim, prezados leitores, Juscelino sabemos agora, foi assassinado pelos militares no poder, mas ele com certeza era um entreguista. Para que montadoras multinacionais se instalassem no Brasil, ofereceu-lhes nosso mercado sem exigir em troca que houvesse desenvolvimento de tecnologia local, conforme explica Erik Telles Pascoal, engenheiro mecânico da Universidade de Alfenas, citado no trecho que abre este artigo. O resultado foi que a indústria automobilística no Brasil nasceu com o pecado original de ser uma maquiladora que montava as peças trazidas do exterior. 

Um raio de luz surgiu nesse setor em 1969, quando o engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (1926-2009) fundou a Gurgel Motores S/A, que se propunha como missão fabricar um carro 100% nacional. Gurgel tentou com galhardia. De 1987 a 1991 produziu o BR-800, que não resistiu à concorrência dos veículos importados que se beneficiaram em 1990 da redução do IPI sobre veículos com motorização abaixo de mil cilindradas. Entre 1981 e 1982, Gurgel fabricou o Itaipu E-400, o primeiro veículo elétrico produzido em série na América Latina, que acabou saindo de linha devido ao alto custo das baterias e ao elevado tempo de carga. A Gurgel Motores faliu em 1994, porque nas terras tropicais os não entreguistas enfrentam obstáculos em série, entre eles a falta de uma política industrial que seja uma política de Estado, de modo que possa ser perene e não flutuar ao sabor dos diversos governos, permitindo previsibilidade e investimentos.

No dia 1º de junho o Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, que afetarão, entre outros, os setores que agregam mais valor à nossa pauta de exportações: equipamentos de engenharia civil e construção, máquinas e componentes de energia elétrica, pneus, dormentes, motores de pistão e peças, geradores elétricos e peças, motores e máquinas não elétricos. O que podemos fazer para nos proteger? Retaliar e esperar que os Estados Unidos retrocedam? Procurar outros mercados? Esperar que a política Nova Indústria Brasil, lançada pelo governo federal em janeiro de 2024, dê frutos logo? 

Prezados leitores, se esse novo tarifaço do presidente americano Donald Trump diminuir ainda mais a presença de produtos de alta e média-alta intensidade tecnológica na nossa pauta de exportações, ficaremos ainda mais dependentes tecnologicamente do que já somos, pois as empresas que hoje exportam esses produtos não terão dinheiro para investir no futuro se perderem receitas. A culpa começou com Dom João VI, passou por Juscelino e por todos os governos que deixaram de implementar uma política industrial e tecnológica que aumentasse nossa capacidade doméstica de inovação. Pagaremos um preço cada vez mais alto por esta negligência em pleno século XXI, em que as transformações tecnológicas se aceleram pelo uso da IA. Os entreguistas ao longo da nossa história tiveram um grande impacto em nossa economia, como mostram os números aqui citados. Esperemos que surjam outros João Gurgéis por aqui, que não deixem de sonhar fazer do Brasil mais do que a terra do futebol e das commodities.

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Dívidas, juros, investimentos

Nossa dívida bate 80% do PIB e deve subir algo em torno de 10%, ao longo do atual governo. O déficit é crônico, houve um sistemático aumento de impostos e nenhuma reforma crível na estrutura do poder público. Em um estudo recente, os economistas Samuel Pessoa e Fábio Serrano alertam que as vinculações à receita dos pisos da saúde e educação, somadas à indexação da seguridade social ao aumento do salário mínimo, no atual governo, irão gerar um aumento acumulado de R$1,397 trilhões nas despesas federais entre 2027 e 2034.

Trecho retirado do artigo “A tentação populista” do cientista político Fernando Schüler, publicado no jornal o Estado de São Paulo em 24 de maio

Fernando Montero afirma que o aumento das transferências governamentais – como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), aposentadorias, seguro-desemprego – fez a renda total das famílias ultrapassar o patamar anterior à pandemia frente ao PIB. Esses benefícios representam hoje 21,36%, acima dos 19% de dezembro de 2019. Ele calcula que 21,6 milhões de novas rendas foram criadas no país desde 2020, mas só 41% provenientes das novas ocupações geradas no período. Para ele, essa combinação de ocupações de baixa remuneração e benefícios que dão acesso ao crédito bancário ajuda a explicar o alto endividamento.

Trecho retirado do artigo “Salário Limitado – Renda do trabalho sobe, mas não recupera o patamar pré-pandemia”, publicado no jornal O Globo de 24 de maio

Prezados leitores, todos os dias no horário do meu almoço vou a um bistrô tomar café e vez ou outra comer uma sobremesa, que a carne é fraca. O negócio é de um casal homossexual que juntou as economias angariadas ao longo de anos trabalhando em salões de beleza. Como sou cliente assídua, fico inteirada dos acontecimentos do negócio. Recentemente eles têm enfrentado vários problemas. A cozinheira adoeceu e parou de trabalhar, mas eles precisam continuar pagando-lhe o salário porque o perito do INSS não concedeu à funcionária o afastamento por doença por erros na papelada. Uma outra perícia demora algum tempo para acontecer. Além disso, uma jovem atendente pediu demissão e eles não conseguem encontrar ninguém para substituí-la.

Difícil a vida do pequeno empresário. Ele tem que lidar com a ineficiência do governo, que não consegue fazer o INSS funcionar na velocidade necessária para atender as necessidades da população. E não tem cacife suficiente para oferecer benefícios que sejam atraentes o suficiente para que pudesse contratar funcionários mais facilmente, em um cenário em que a taxa de desemprego atingiu 5,1% no trimestre de outubro a dezembro de 2025 (fonte: IBGE), recorde histórico, o que torna a disponibilidade de mão de obra mais difícil, já que a população economicamente ativa vem diminuindo devido ao envelhecimento da população. O resultado é que os donos do bistrô têm que fazer as vezes de cozinheiros, atendentes, gerentes de compra e de finanças. Com isso, ficam muito cansados e decidiram por enquanto não mais trabalhar aos sábados, o que diminui o faturamento.

Todos os dias também convivo com uma mulher solteira que há dois anos têm me pedido que a ajude a preencher a declaração de imposto de renda. A razão é simples: ela contraiu alguns empréstimos com o banco e não sabia como registrá-los: um foi integralmente pago ao longo do ano, o outro foi parcialmente pago e um terceiro é produto de uma negociação com o banco que consolidou dívidas anteriores em um único empréstimo. Eu fiquei espantadíssima ao ver uma mulher que não tem filhos para sustentar ter que tomar tantos empréstimos assim. Mas claro, não perguntei a razão porque não é da minha conta. Apenas a ajudei no ano passado e neste ano a declarar as dívidas e ônus à Receita Federal do Brasil. Considerando que segundo o SERASA, em março de 2026 82,8 milhões de pessoas estavam endividadas no Brasil, eu não deveria ter me espantado.

Essas duas pequenas histórias, tiradas da minha experiência diária, revelam algumas das características da economia brasileira nesta segunda década do século XXI. Mercado de trabalho aquecido, alto endividamento, Estado ineficiente. Qual o mecanismo por trás disso? Ora, estamos presos em uma armadilha de baixo crescimento econômico (2,3% em 2025 de acordo com o jornalista Rolf Kuntz), baixo investimento (16,8% do PIB de acordo com o mesmo jornalista), baixa produtividade (de acordo com os cálculos do economista Samuel Pessoa, nos 30 anos entre 1995 e 2025, a produtividade cresceu 30%, menos de 1% por ano). Não havendo dinamismo na economia que agregue valor e permita o aumento real dos salários, o único modo de aumentar a renda e melhorar a qualidade de vida das pessoas é pelo nacional-consumismo praticado no país há décadas desde a estabilização monetária na década de 90, mas que vem se intensificando desde 2019. 

O nacional-consumismo tem dois fundamentos. O primeiro deles são as transferências governamentais relacionadas no trecho que abre este artigo e que compõem a maior parte das novas fontes de renda (59%) geradas para os brasileiros desde a pandemia da COVID-19. A massa dos rendimentos do trabalhador, que em março de 2026 atingiu 34,48% do PIB, estava em 34.75% do PIB em janeiro de 2020. Já as transferências governamentais aumentaram sua participação no PIB: em janeiro de 2020 correspondiam a 19,25% do PIB e em março de 2026 correspondiam a 21,36% do PIB.

O segundo fundamento é o acesso ao crédito bancário, viabilizado pela garantia de renda proporcionada pelas transferências governamentais. Assim, mesmo que a economia seja de baixo crescimento e não gere empregos de alta remuneração por causa da baixa produtividade, as famílias conseguem ter acesso a bens de consumo duráveis porque compram tudo em suaves prestações mensais fazendo uso de cartão de crédito, de empréstimo consignado, do cheque especial, do PIX e por aí vai. Não admira que o governo federal já esteja lançando o Desenrola 2.0 para ajudar as pessoas a saldar as dívidas.

Como sair dessa armadilha e superar o modelo do nacional-consumismo, que proporciona bens à população, mas a acorrenta ao endividamento eterno? Segundo o já citado Samuel Pessoa, o potencial do PIB brasileiro está entre 1,2% e 1,8% ao ano, limitado por baixa produtividade e esgotamento do bônus demográfico, isto é, do período em que a proporção de pessoas em idade ativa para trabalhar é significativamente maior do que a de dependentes (crianças e idosos), o qual atingiu seu auge em 2022 e se encerrará por volta de 2050 no Brasil. Soma-se a isso o fato de que a dívida pública aumenta constantemente e já está em 80% do PIB, conforme os dados apresentados por Fernando Schuler no trecho que abre este artigo, e a armadinha parece cada vez mais inescapável. Se as despesas públicas aumentam mais que as receitas, as taxas de juros fixadas pelo Banco Central precisam ser altas o suficiente para convencer investidores a comprar os títulos do tesouro nacional que permitirão a rolagem da dívida. Por outro lado, será que a SELIC a 13,25% ao ano incentiva empresários a investir na produção? Qual setor da economia proporciona uma rentabilidade mais alta que a SELIC? Como colocar os juros em um patamar suficiente para remunerar poupadores e ao mesmo tempo incentivar investimentos produtivos que possam iniciar um círculo virtuoso de crescimento econômico sustentável, aumento da produtividade, aumento real de salários, aumento da renda e diminuição do endividamento das famílias?

Prezados leitores, são essas as perguntas que deveriam ser parte da agenda das eleições de outubro. Mas é mais excitante ver a escolha do próximo chefe do executivo federal como uma corrida de cavalos e dá-lhe pesquisa eleitoral a cada semana e um escândalo a cada três dias. Enquanto o circo é montado, os espectadores estão tentando se desenrolar de suas dívidas, fazer bicos para aumentar a renda e pagar as contas. Quem for beneficiado pelo fim da escala 6 x 1 de trabalho e estiver endividado com certeza irá usar o tempo livre para ir atrás de mais uma fonte de renda. E os pequenos empresários do país terão que lidar com a dificuldade ainda maior de contratar pessoas quando a nova escala estiver em pleno vigor, após o período de transição, já que precisarão de mais funcionários para cobrir todos os horários da operação. Oxalá consigamos um dia escapar dessa armadilha de baixo investimento, baixo crescimento, baixa produtividade e alto endividamento. Para isso, será preciso primeiro enxergarmos o problema.  

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O leitor

Ele tinha suas dúvidas a respeito da criação do mundo no tempo, sobre a imortalidade do indivíduo, sobre o nascimento virginal e sobre outras doutrinas da fé cristã. Ao rejeitar as ordálias, ele perguntou: “Como pode um homem acreditar que o calor natural do ferro incandescente ficará frio sem uma causa suficiente, ou que por causa de uma consciência dilacerada, o elemento água recusará aceitar (submergir) o acusado?”

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981) sobre o imperador do Sacro Império Romano Germânico e rei da Sicília Frederico II (1194-1250)

Pat Buchanan: Quem são seus autores favoritos?

Donald Trump: Bem, eu tenho vários autores favoritos. Eu acho o Tom Wolfe excelente.

Pat Buchanan: Você leu “A Fogueira das Vaidades?”

Donald Trump: Não.

Tom Braden: Que livro você está lendo agora?

Donald Trump: Estou lendo meu próprio livro porque eu acho fantástico, Tom.

Pat Buchanan: Qual o melhor livro que você leu além de “A Arte da Negociação”?

Donald Trump: Eu realmente gosto do Tom Wolfe. Eu acho que ele é um grande escritor. Ele fez um excelente trabalho …

Pat Buchanan: Que livro?

Donald Trump: O livro atual dele. O livro mais recente dele.

Pat Buchanan: A Fogueira das Vaidades

Donald Trump: Sim. E ele fez um trabalho muito, muito bom. Aliás, eu realmente não consigo ouvir com esse fone de ouvido.

Trecho de uma entrevista dada por Donald Trump à CNN em 23 de dezembro de 1987

Prezados leitores, imaginem um menino órfão de pai e mãe vagando a esmo pelas ruas de Palermo, capital da Sicília, na virada do século XII para o século XII. Ele andava livre pelas ruas da cidade ouvindo pessoas falando grego, árabe e hebraico. Ninguém cuidava verdadeiramente dele e o menino chegou a viver na pobreza, mitigada pela caridade dos habitantes de Palermo que lhe davam comida.  Desprovido de educação formal, educou-se a si mesmo, vendo e ouvindo o que as pessoas faziam e lendo avidamente livros de história. Este menino chamava-se Frederico de Hohenstaufen e vem a ser neto do Frederico Barba Ruiva (1123-1190) a que me referi no artigo “A História das verdades e das mentiras”.

Tornando-se um adulto, Frederico conseguiu a coroa do Sacro Império Romano Germânico e a coroa do Reino da Sicília. Sua curiosidade intelectual o levou a estudar a ciência e a filosofia e as obras-primas da cultura árabe, que àquela época era muito mais avançada que a cultura europeia. Era amigo do famoso matemático de Pisa Leonardo Fibonacci (1170-1250) e seu conhecimento filosófico era tanto que solicitou a alguns sábios muçulmanos que resolvessem as discrepâncias entre Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) e seu comentador póstumo, Alexandre de Afrodísias (198-209), sobre a eternidade do mundo. Em 1224, Frederico fundou a Universidade de Nápoles, uma instituição de ensino estabelecida sem o beneplácito da Igreja Católica, algo raro na época. Ele inclusive estabeleceu a concessão de bolsas para alunos pobres para que pudessem estudar e tornar-se futuramente membros da administração pública. Com base em suas próprias pesquisas experimentais, Frederico escreveu na década de 1240 um tratado sobre a falcoaria, De arte venandi cum avibus.

Talvez o maior legado do seu reinado tenha sido o Liber Augustalis, elaborado por Pier della Vigna (1190-1249), jurista da faculdade de direito de Bolonha e considerado o primeiro código de leis elaborado sob os auspícios da ciência. O Liber Augustalis, promulgado em 1231, aboliu um instituto jurídico da Idade Média, as ordálias, que eram uma prova a que o acusado era submetido para mostrar sua inocência: por exemplo, caminhar sobre brasas, ser jogado na água com um peso. A ideia era que se o indivíduo conseguia passar ileso pela prova, não se queimando ou não se afogando, isso era sinal de sua inocência, pois Deus não deixaria que um homem inocente fosse injuriado e interviria, salvando-lhe a pele. No entanto, conforme o trecho que abre este artigo, um imperador/rei filósofo como Frederico não poderia aceitar que um ferro quente esfriaria sem que uma causa natural atuasse para que isso ocorresse ou que um homem não se afogasse sendo mais pesado que a água porque a água se recusaria a fazer afundar uma pessoa inocente. Acreditando que o mundo sempre estivera presente e não havia sido criado, Frederico não acreditava na intervenção divina nas leis naturais para produzir resultados que fugissem da normalidade dos fenômenos físicos tais como eles se desenrolavam na prática.

Um ponto alto de sua carreira como estadista foram suas aventuras na Palestina, em 1228, quando resolveu cumprir seu voto de realizar uma cruzada na Terra Santa a despeito da excomunhão imposta a ele pelo papa Gregório IX (1145-1241). Ao chegar a Acre, Frederico não precisou lutar para obter uma conquista territorial. Negociando com o sultão Al-Kamil (1177-1238), Frederico obteve Jerusalém, Belém e Nazaré conquistando o sarraceno apenas pelo brilho dos seus conhecimentos da filosofia, da literatura e da filosofia árabes e em 18 de março de 1229 coroou-se a si mesmo rei de Jerusalém na Igreja do Santo Sepulcro, pois o papa proibira qualquer homem de obedecê-lo. Michael Scot (1175-1232), o polímata escocês, exclamou a ele: “Eu realmente acredito que se algum homem pudesse escapar da morte por meio do seu conhecimento, este homem seria Vossa Majestade.”

  Enfim, em Frederico, o último grande representante da dinastia dos Hohenstaufen, temos um líder que fez do conhecimento sua paixão e um modo de governar pelo exercício da tolerância e da apreciação de culturas e fés diferentes e pelo emprego das suas faculdades mentais para resolver problemas concretos e aprender com isso. Frederico exemplificou a máxima de que o conhecimento traz poder e pode levar a resultados positivos, como a resolução diplomática de conflitos e o aprimoramento do sistema de justiça.

Nada mais longe de Frederico do que o presidente dos Estados Unidos, por quem esta humilde escrevinhadora deixou-se enganar. Com base no que ele falava considerei que ele buscaria a paz e livraria o povo americano da sina de lutar guerras infindáveis em todo o mundo que são um sorvedouro de recursos. Infelizmente Trump provou ser um líder especialmente belicoso: começo pelo sequestro do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro em janeiro, passou pelo ataque ao Irã no final de fevereiro e agora a próxima parada certamente será Cuba. Na entrevista que abre este artigo, Trump é pego em flagrante na inconsistência. Ele a princípio diz que não leu A Fogueira das Vaidades, do autor Tom Wolfe (1930-2018) e depois perguntado sobre de que livros gosta, menciona a obra-prima do escritor nascido em Richmond e falecido em Nova Yorque. Em suma, O Aprendiz não lê, mas mente dizendo que lê.

Prezados leitores, ávido leitor, Frederico sabia que havia outros modos de ser e de pensar que não fossem os do cristianismo ocidental. Talvez se Donald Trump tivesse mais cultura e conhecimento ele saberia um pouco da história da Pérsia; saberia que o Império Persa foi raramente conquistado ao longo de seus mais de 2.000 anos de história; saberia que o Irã não seria uma presa fácil como é um país latino-americano como a Venezuela, fraturado por disputas raciais, econômicas e sociais. Talvez Donald Trump não designasse todos que resistem ao expansionismo militar dos Estados Unidos como terroristas e seria capaz de ter nuances de pensamento sobre os diferentes caracteres nacionais. Oxalá num futuro próximo tenhamos à frente de um Império Global um leitor como Frederico que seja mais tolerante com as diferenças culturais e mais consciente da história de cada povo. Do contrário, a hecatombe nuclear ficará cada vez mais próxima.

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 Combinaram com eles?

A Sabesp se solidariza com as vítimas da ocorrência registrada na região e informa que realizava, no local, uma obra de remanejamento de tubulação de água, previamente alinhada e acompanhada pela concessionária responsável pela rede de gás. Durante a execução dos trabalhos, uma tubulação de gás foi atingida, momento em que a atividade foi imediatamente paralisada, para adoção dos protocolos técnicos cabíveis pela concessionária de gás.

Trecho da nota divulgada pela SABESP, a companhia de saneamento que atende o estado de São Paulo, após explosão de gás que deixou um morto e quatro feridos no Jaraguá, bairro da zona oeste de São Paulo e ainda comprometeu a estrutura de ao menos 10 casas

Os sistemas também podem variar, a depender da quantidade de julgamento humano que entra na operação. Há claro, sistemas como os circuitos elétricos ou os equipamentos de produção automatizada que podem operar de uma maneira totalmente determinada. No outro extremo, há sistemas de controle e de gerenciamento, tanto para fins comerciais quanto para fins militares, nos quais as máquinas fazem a maior parte do trabalho, mas sob a supervisão humana e mediante a tomada de decisões por seres humanos em pontos críticos. Obviamente, esses sistemas mistos homem-máquina oferecem a maior variedade tanto de possibilidades quanto de problemas para o engenheiro de sistemas.

Trecho retirado do verbete sobre Engenharia de Sistemas da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

Prezados leitores, correm por aí muitos ditos apócrifos, que acabam colando à imagem de uma pessoa e caracterizando-a para a eternidade. A frase “Não tem pão, comam brioches!” foi atribuída à rainha da França Maria Antonieta (1755-1793) para caracterizá-la como uma mulher indiferente ao sofrimento do povo francês, que passava fome e foi ao Palácio das Tulherias, onde estavam Maria Antonieta e o rei Luís XVI (1754-1793), para protestar. Outros ditos são provavelmente autênticos. Um dia, o treinador do Botafogo virou-se para Garrincha (1933-1983) e disse tintim por tintim tudo o que tinham que fazer para ganhar o jogo. Ao final, Garrincha perguntou:
– Mas combinaram com eles? A inocente pergunta do anjo das pernas tortas, considerado o melhor driblador da história do futebol, se nos faz rir, aponta para um problema que está presente em nossa vida cotidiana, qual seja, o modo de funcionamento dos sistemas.

Garrincha referia-se ao jogo de futebol e aos desafios enfrentados pelo técnico para treinar o time e prepará-lo para vencer. Era preciso definir um esquema de jogo, defensivo ou ofensivo, o posicionamento dos jogadores em campo, a tarefa de cada jogador ao longo da partida. Mas nenhuma instrução do técnico aos seus comandados seria de grande valia se não fosse levado em conta o fato de que aquelas 11 pessoas estariam durante 90 minutos interagindo com as 11 pessoas do time adversário, as quais estariam seguindo elas mesmas as diretivas do seu técnico. Afinal, o jogo e seu resultado, vitória de um dos times ou empate, é fruto das ações individuais de cada um dos 22 homens em campo e das interações entre eles, isto é, do modo como cada um reage à ação do outro, para não falar do modo como cada um reage a fatores externos ao campo, como o comportamento da torcida nas arquibancadas, o clima no dia (quente, chuvoso, frio), as condições do estádio de futebol (gramado, iluminação). Ou seja, as ordens do técnico sobre o que fazer seriam cumpridas total ou parcialmente ou totalmente descumpridas a depender da combinação de de uma série de fatores, mais ou menos sob o controle do gestor da equipe.

Em suma, um jogo de futebol é um singelo exemplo de um sistema complexo, isto é um sistema feito pelo homem, cujas partes componentes interagem de maneira tão abrangente que uma mudança em uma parte afetará muitas outras. Outra importante característica dos sistemas é que os inputs que os alimentam são aleatórios, de maneira que ninguém pode prever exatamente a que o sistema estará exposto quando estiver em funcionamento. A única coisa que é possível fazer é tentar estabelecer uma gama de possíveis inputs e a probabilidade das respostas que o sistema dará na sua interação com esses inputs, resposta esta que determinará seu desempenho. O esquema de jogo do técnico do Garrincha operava no contexto de uma partida de futebol em que a atuação dos jogadores do time adversário não podia ser prevista de antemão. Nesse sentido, Garrincha estava certíssimo em dizer que não era possível combinar com eles o que fazer, mas cabia ao técnico estudar as partidas anteriores do time contra o qual jogariam para tentar estabelecer um padrão de jogo e as possibilidades sobre o modo como atuariam de forma a responder a elas.

Para passarmos a um nível mais relevante de discussão do desafio que sistemas complexos colocam, tomemos uma cidade. A cidade é um sistema urbano de infinita complexidade, porque as interações são muito maiores do que em um jogo de futebol e a gama de dados nos quais o sistema se baseia para funcionar é imensa. Em suma, as partes do sistema urbano, que incluem equipamentos e pessoas, influenciam umas às outras não só durante os 90 minutos de uma partida, mas o tempo todo, 24 horas por dia e 365 dias por ano, e além disso elas estão submetidas à atuação de n fatores externos, não só as condições meteorológicas e físicas de uma partida em um estádio, mas as condições sociais, econômicos, culturais e políticas predominantes. Um sistema urbano não pode ser gerenciado por um técnico de futebol com sua prancheta e seus desenhos da movimentação dos jogadores em campo, mas por engenheiros de sistema que são capazes de construir modelos matemáticos consistentes em um conjunto de equações que descrevem as interações possíveis em termos quantitativos. E é aqui que mora o problema.

De acordo com os números do City Globe Tour, disponíveis no YouTube, a China ocupa o primeiro lugar no mundo em número de engenheiros, com 530.000, a Rússia vem em segundo lugar com 432.000, a Índia, em terceiro com 337.000, os Estados Unidos em quarto com 283.000, o Irã em quinto lugar com 254.000, o Japão em sexto lugar com 194.000, a Coréia do Sul em sétimo lugar com 177.000 e o Brasil vem em oitavo lugar com 166.000. Ou seja, um país como a Rússia, que tem metade da nossa população, tem quase três vezes mais engenheiros do que nós. Essa falta de profissionais suficientes para atender as necessidades de um país de oito milhões de quilômetros quadrados fica patente quando temos acidentes como a explosão de gás que matou pessoas e destruiu várias casas em São Paulo depois de uma obra realizada pela companhia de abastecimento de água de São Paulo, a SABESP, que acabou perfurando a tubulação de gás.

De acordo com o trecho que abre este artigo, a SABESP diz que avisou a concessionária de gás e estava alinhada com ela. O que significa avisar e estar alinhada? É simplesmente notificar a concessionária de gás que obras serão feitas em tal local e obter a aprovação para isso? Ou é realizar a obra em verdadeira parceria, compartilhando informações e pessoal para que a tubulação de água e a tubulação de gás possam ser consertadas sem que haja danos nem a uma nem a outra? O fato de ter havido um acidente mostra que se houve tal compartilhamento ou alinhamento ele foi falho. De quem é a culpa? Da SABESP que foi recentemente privatizada, da COMGÁS, que já explora o serviço de fornecimento de gás em São Paulo há décadas? Vemos aqui que se a cidade fosse tratada como um sistema complexo e a prefeitura tivesse um departamento de engenharia que fosse responsável pelo planejamento desse sistema, acidentes desses poderiam ser ao menos mitigados.

Tal departamento estabeleceria diretrizes para obras de infraestrutura na cidade de maneira que trabalhos em um subsistema, como o do gás ou da eletricidade, não prejudicasse outro subsistema, como o da água. Conforme o trecho que abre este artigo, o fato de sistemas dependerem de julgamentos humanos apresenta desafios aos gestores, porque havendo decisões a serem tomadas nas interações do homem com as máquinas e equipamentos, os gestores precisam levar em conta quem tomará tais decisões, para estimar a resposta que o sistema dará em termos de resultado. No caso do acidente da SABESP os funcionários usaram equipamento para mexer na tubulação da água e acabaram perfurando o cano do gás. Como eles tomaram a decisão? Quem lhes instruiu sobre o que fazer tinha um mapa da infraestrutura de encanamentos no local para saber o que poderia acontecer? Se a cidade de São Paulo tivesse uma equipe responsável pela gestão do sistema urbano, nenhuma empresa ou concessionária de serviços públicos trabalharia isoladamente, mas sempre sob a coordenação de alguém que tivesse a visão do todo e das possíveis interações entre as partes.

Prezados leitores, infelizmente as atividades da SABESP não serão tratadas e saneadas por engenheiros de sistema, mas por advogados das vítimas da explosão que procurarão indenização e pelos juízes que decidirão o valor com base na extensão dos danos. Oxalá um dia cheguemos a um nível de organização da cidade que nos permita impedir que a derrubada de galhos de árvores por uma ventania não cause apagão geral na cidade, como já ocorreu antes. Enquanto os engenheiros não chegam e não combinamos com eles como realizar obras de infraestrutura no meio urbano, ficaremos nas eternas disputas entre privatistas e não privatistas, direita e esquerda e ninguém terá razão.      

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Barreiras aqui e acolá

“Que novidades são essas por aqui?’, perguntou, quando o guarda-barreira, após um bom intervalo de tempo, saiu de sua guarita. “Privilégio senhorial”, respondeu este enquanto abria, “concedido ao junker e fidalgo Wenzel von Tronka.” […] Entretanto, mal havia passado sob a cancela quando ouviu uma nova voz vindo da torre atrás de si, “Alto lá, ó negociador de crinas!”, e viu o castelão bater uma janela e descer correndo em sua direção. ‘Ora, qual a novidade agora?”, perguntou-se Kohlhaas a si mesmo e deteve-se com os cavalos. O castelão chegou ainda abotoando um colete sobre o corpo largo e, inclinado para se proteger contra o mau tempo, pediu o passe de fronteira.

Trecho retirado do livro Michael Kohlhaas, do escritor alemão Heinrich von Kleist (1777-1811)

Ao final do século XII a revolução comunal foi ganha na Europa Ocidental. As cidades, em que pese não serem completamente livres, haviam jogado fora os senhores feudais, acabado com os pedágios ou os reduzidos fortemente e limitado bastante os direitos eclesiásticos. […] Uma onda de indústria e comércio levou embora obstáculos enraizados ao desenvolvimento humano e impulsionou os homens adiante, da glória dispersa das catedrais para o frenesi universal do Renascimento.

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

Lançado pelo governo na esteira da operação, o programa Barricada Zero, que tem como propósito arrancar as trincheiras do crime postas no caminho do Estado, um triste símbolo do poderio dos fora da lei, nunca chegou ao Alemão ou à Penha. Boa parte das que foram desmontadas naquele 28 de outubro acabou sendo reerguida ou substituída por grupos armados que formam uma barreira humana por onde só passa quem eles permitem […]

Trecho retirado do artigo “O desafio continua” publicado na edição da revista VEJA de 1º de maio

Prezados leitores, aqueles que assistiram ao filme Michael Kohlhass, Justiça e Honra, estrelado por Mads Mikkelsen em 2013, lembrar-se-ão das cenas iniciais. Um comerciante de cavalos chega nas terras de um senhor feudal, que no livro ficam às margens do rio Elba, mas que no filme ficam na França. As terras mudaram de dono: o antigo cavalheiro gostava de ver o movimento dos transeuntes passarem por sua propriedade e havia mandado construir um calçamento de pedras, pois uma das éguas do comerciante havia quebrado a pata. Quando Michael Kolhass passa desta vez pelo mesmo local com seus animais, ele constata que as coisas pioraram.

Conforme o trecho que abre este artigo, o novo dono, o fidalgo Wenzel von Tronka, mandou colocar uma nova barreira que não existia antes, exigindo pagamento para permitir a passagem. Pior: depois de passar pela cancela, é advertido que há outro tributo, um passe de fronteira. Michael Kohlhass nada pode fazer a não ser submeter-se à dupla exação, porque este é o caminho para chegar ao vilarejo onde negocia seus cavalos. Criar e vender cavalos é o ofício de Kohlhass e para continuar a exercê-lo é preciso aturar as arbitrariedades dos detentores dos direitos feudais.

A insatisfação do “negociador de crinas”, como o castelão em tom de desprezo o chama, reflete a insatisfação de toda a nova classe de comerciantes e industriais que começa a surgir na Europa no século IX e atinge o pleno florescimento nos séculos XII e XIII. Produzir mercadorias, comprá-las e vendê-las eram tarefas dificultadas pela ordem então vigente. Na rota de transporte das matérias primas e dos produtos finais havia uma miríade de propriedades feudais cujos senhores cobravam pedágios de passagem, mas que não necessariamente ofereciam como contrapartida a infraestrutura de hospedagem e boas estradas que garantissem que a viagem fosse segura e fácil. 

O objetivo dos castelões não era fomentar a atividade econômica facilitando-a, mas simplesmente tirar seu naco dela na forma de exações, porque a lei feudal assim lhes permitia. Para um proprietário de terras, tanto fazia se o negociante vendesse mais ou menos ou se o mestre da guilda produzisse mais ou menos, porque ele não participava das atividades. O que importava é que ele tinha o direito de cobrar pagamento pela passagem. Esse descompromisso do senhor feudal atrapalhava os negócios e não é de se admirar que os Michael Kohlhass lutassem por uma ordem mais justa, em que fossem eliminados os obstáculos postos por aqueles que gozavam de privilégios consolidados havia séculos.

E assim foi feito, conforme explica Will Durant no capítulo “A Revolução Econômica” do livro “A Idade da Fé”, cujo trecho abre este artigo. Ao final do século XII, as cidades haviam ganho a batalha contra a ordem vigente desde a queda do Império Romano e haviam conquistado sua liberdade, por meio de cartas régias em que era reconhecido o direito delas de não estar sob a tutela de um senhor feudal. As cidades eram o local onde não se pagavam pedágios aos Wenzel von Tronka, como Kohlhass foi obrigado a pagar, o lugar onde servos se transformavam em trabalhadores livres que podiam oferecer sua força de trabalho no comércio e na indústria sem estarem presos à atividade agrícola nos domínios senhoriais. 

Um admirável mundo novo se abria aos habitantes das cidades, um mundo em que o indivíduo podia tentar ser algo diferente do que fora seus antepassados, presos à terra pelas obrigações de entrega de produtos e de prestação de serviços ao senhor. Conforme explica Durant, esse impulso ao empreendedorismo dado pela emancipação de certos locais do jugo feudal lançou as bases da Europa moderna, pois permitiu o advento do Renascimento, caracterizado pela inovação econômica, científica, artística e intelectual.

Avancemos nove séculos para o século XXI. Barreiras arbitrárias, exações e demonstrações de poder do castelão sobre o negociador de crinas são coisa do passado na Europa. Mas no Brasil e especificamente no Rio de Janeiro fazem parte do cotidiano de milhões de moradores das comunidades cariocas que vivem sob o jugo do crime organizado. Saem os senhores feudais e entram os chefes do tráfico de drogas. Conforme a reportagem da revista VEJA sobre os desdobramentos da ação policial de 28 de outubro de 2025 que matou 117 membros do Comando Vermelho, tudo voltou como dantes ao Quartel de Abrantes. As quadrilhas continuam cobrando taxas de fornecimento de gás e internet dos moradores e homens com fuzis continuam na entrada dos territórios atuando como guardas da fronteira para determinar quem pode ou não entrar. Concessionárias de energia elétrica e de outros serviços públicos, provedoras de internet e demais empresas são permitidas desde que atendam as condições determinadas pelos chefes. A polícia, claro, só entra se fizer uma megaoperação militar como a que foi feita em 28 de outubro, à custa de muitas vidas.

Por outro lado, segundo o site de notícias Terra a prefeitura do Rio de Janeiro investiu 20 milhões de reais no show da cantora colombiana Shakira, realizado nas areias de Copacabana em 2 de maio. A justificativa é que a ocupação de hotéis, as compras no comércio da cidade e a movimentação nos restaurantes gerariam uma receita de quase 800 milhões de reais para a cidade. De um lado incentiva-se a indústria do turismo e as atividades que giram em torno dela. De outro, as 4 milhões de pessoas que vivem sob a mira dos fuzis do tráfico nas comunidades não têm liberdade de ir e vir nem de contratar empresas prestadoras de serviços, e precisam pagar taxas de proteção ao crime organizado e dele contratar serviços que são pirateados de empresas formalizadas. Livre iniciativa para os que vivem na cidade turística, grilhões e falta de oportunidades para quem vive sob o jugo dos castelões dos morros cariocas.

Prezados leitores, oxalá o Brasil um dia possa fazer a transição completa de um regime de barreiras para um regime sem barreiras para todo mundo. Quem sabe neste momento tenhamos também o nosso Renascimento, como foi o caso na Europa há sete séculos? Enquanto isso não acontece, torçamos para que a cidade que recebe Madona, Lady Gaga e Shakira faça também bondades para os cariocas que vivem sob o domínio dos senhores do tráfico.

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