O leitor

Ele tinha suas dúvidas a respeito da criação do mundo no tempo, sobre a imortalidade do indivíduo, sobre o nascimento virginal e sobre outras doutrinas da fé cristã. Ao rejeitar as ordálias, ele perguntou: “Como pode um homem acreditar que o calor natural do ferro incandescente ficará frio sem uma causa suficiente, ou que por causa de uma consciência dilacerada, o elemento água recusará aceitar (submergir) o acusado?”

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981) sobre o imperador do Sacro Império Romano Germânico e rei da Sicília Frederico II (1194-1250)

Pat Buchanan: Quem são seus autores favoritos?

Donald Trump: Bem, eu tenho vários autores favoritos. Eu acho o Tom Wolfe excelente.

Pat Buchanan: Você leu “A Fogueira das Vaidades?”

Donald Trump: Não.

Tom Braden: Que livro você está lendo agora?

Donald Trump: Estou lendo meu próprio livro porque eu acho fantástico, Tom.

Pat Buchanan: Qual o melhor livro que você leu além de “A Arte da Negociação”?

Donald Trump: Eu realmente gosto do Tom Wolfe. Eu acho que ele é um grande escritor. Ele fez um excelente trabalho …

Pat Buchanan: Que livro?

Donald Trump: O livro atual dele. O livro mais recente dele.

Pat Buchanan: A Fogueira das Vaidades

Donald Trump: Sim. E ele fez um trabalho muito, muito bom. Aliás, eu realmente não consigo ouvir com esse fone de ouvido.

Trecho de uma entrevista dada por Donald Trump à CNN em 23 de dezembro de 1987

Prezados leitores, imaginem um menino órfão de pai e mãe vagando a esmo pelas ruas de Palermo, capital da Sicília, na virada do século XII para o século XII. Ele andava livre pelas ruas da cidade ouvindo pessoas falando grego, árabe e hebraico. Ninguém cuidava verdadeiramente dele e o menino chegou a viver na pobreza, mitigada pela caridade dos habitantes de Palermo que lhe davam comida.  Desprovido de educação formal, educou-se a si mesmo, vendo e ouvindo o que as pessoas faziam e lendo avidamente livros de história. Este menino chamava-se Frederico de Hohenstaufen e vem a ser neto do Frederico Barba Ruiva (1123-1190) a que me referi no artigo “A História das verdades e das mentiras”.

Tornando-se um adulto, Frederico conseguiu a coroa do Sacro Império Romano Germânico e a coroa do Reino da Sicília. Sua curiosidade intelectual o levou a estudar a ciência e a filosofia e as obras-primas da cultura árabe, que àquela época era muito mais avançada que a cultura europeia. Era amigo do famoso matemático de Pisa Leonardo Fibonacci (1170-1250) e seu conhecimento filosófico era tanto que solicitou a alguns sábios muçulmanos que resolvessem as discrepâncias entre Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) e seu comentador póstumo, Alexandre de Afrodísias (198-209), sobre a eternidade do mundo. Em 1224, Frederico fundou a Universidade de Nápoles, uma instituição de ensino estabelecida sem o beneplácito da Igreja Católica, algo raro na época. Ele inclusive estabeleceu a concessão de bolsas para alunos pobres para que pudessem estudar e tornar-se futuramente membros da administração pública. Com base em suas próprias pesquisas experimentais, Frederico escreveu na década de 1240 um tratado sobre a falcoaria, De arte venandi cum avibus.

Talvez o maior legado do seu reinado tenha sido o Liber Augustalis, elaborado por Pier della Vigna (1190-1249), jurista da faculdade de direito de Bolonha e considerado o primeiro código de leis elaborado sob os auspícios da ciência. O Liber Augustalis, promulgado em 1231, aboliu um instituto jurídico da Idade Média, as ordálias, que eram uma prova a que o acusado era submetido para mostrar sua inocência: por exemplo, caminhar sobre brasas, ser jogado na água com um peso. A ideia era que se o indivíduo conseguia passar ileso pela prova, não se queimando ou não se afogando, isso era sinal de sua inocência, pois Deus não deixaria que um homem inocente fosse injuriado e interviria, salvando-lhe a pele. No entanto, conforme o trecho que abre este artigo, um imperador/rei filósofo como Frederico não poderia aceitar que um ferro quente esfriaria sem que uma causa natural atuasse para que isso ocorresse ou que um homem não se afogasse sendo mais pesado que a água porque a água se recusaria a fazer afundar uma pessoa inocente. Acreditando que o mundo sempre estivera presente e não havia sido criado, Frederico não acreditava na intervenção divina nas leis naturais para produzir resultados que fugissem da normalidade dos fenômenos físicos tais como eles se desenrolavam na prática.

Um ponto alto de sua carreira como estadista foram suas aventuras na Palestina, em 1228, quando resolveu cumprir seu voto de realizar uma cruzada na Terra Santa a despeito da excomunhão imposta a ele pelo papa Gregório IX (1145-1241). Ao chegar a Acre, Frederico não precisou lutar para obter uma conquista territorial. Negociando com o sultão Al-Kamil (1177-1238), Frederico obteve Jerusalém, Belém e Nazaré conquistando o sarraceno apenas pelo brilho dos seus conhecimentos da filosofia, da literatura e da filosofia árabes e em 18 de março de 1229 coroou-se a si mesmo rei de Jerusalém na Igreja do Santo Sepulcro, pois o papa proibira qualquer homem de obedecê-lo. Michael Scot (1175-1232), o polímata escocês, exclamou a ele: “Eu realmente acredito que se algum homem pudesse escapar da morte por meio do seu conhecimento, este homem seria Vossa Majestade.”

  Enfim, em Frederico, o último grande representante da dinastia dos Hohenstaufen, temos um líder que fez do conhecimento sua paixão e um modo de governar pelo exercício da tolerância e da apreciação de culturas e fés diferentes e pelo emprego das suas faculdades mentais para resolver problemas concretos e aprender com isso. Frederico exemplificou a máxima de que o conhecimento traz poder e pode levar a resultados positivos, como a resolução diplomática de conflitos e o aprimoramento do sistema de justiça.

Nada mais longe de Frederico do que o presidente dos Estados Unidos, por quem esta humilde escrevinhadora deixou-se enganar. Com base no que ele falava considerei que ele buscaria a paz e livraria o povo americano da sina de lutar guerras infindáveis em todo o mundo que são um sorvedouro de recursos. Infelizmente Trump provou ser um líder especialmente belicoso: começo pelo sequestro do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro em janeiro, passou pelo ataque ao Irã no final de fevereiro e agora a próxima parada certamente será Cuba. Na entrevista que abre este artigo, Trump é pego em flagrante na inconsistência. Ele a princípio diz que não leu A Fogueira das Vaidades, do autor Tom Wolfe (1930-2018) e depois perguntado sobre de que livros gosta, menciona a obra-prima do escritor nascido em Richmond e falecido em Nova Yorque. Em suma, O Aprendiz não lê, mas mente dizendo que lê.

Prezados leitores, ávido leitor, Frederico sabia que havia outros modos de ser e de pensar que não fossem os do cristianismo ocidental. Talvez se Donald Trump tivesse mais cultura e conhecimento ele saberia um pouco da história da Pérsia; saberia que o Império Persa foi raramente conquistado ao longo de seus mais de 2.000 anos de história; saberia que o Irã não seria uma presa fácil como é um país latino-americano como a Venezuela, fraturado por disputas raciais, econômicas e sociais. Talvez Donald Trump não designasse todos que resistem ao expansionismo militar dos Estados Unidos como terroristas e seria capaz de ter nuances de pensamento sobre os diferentes caracteres nacionais. Oxalá num futuro próximo tenhamos à frente de um Império Global um leitor como Frederico que seja mais tolerante com as diferenças culturais e mais consciente da história de cada povo. Do contrário, a hecatombe nuclear ficará cada vez mais próxima.

Categories: Internacional | Tags: , , , , , , , , | Leave a comment

 Combinaram com eles?

A Sabesp se solidariza com as vítimas da ocorrência registrada na região e informa que realizava, no local, uma obra de remanejamento de tubulação de água, previamente alinhada e acompanhada pela concessionária responsável pela rede de gás. Durante a execução dos trabalhos, uma tubulação de gás foi atingida, momento em que a atividade foi imediatamente paralisada, para adoção dos protocolos técnicos cabíveis pela concessionária de gás.

Trecho da nota divulgada pela SABESP, a companhia de saneamento que atende o estado de São Paulo, após explosão de gás que deixou um morto e quatro feridos no Jaraguá, bairro da zona oeste de São Paulo e ainda comprometeu a estrutura de ao menos 10 casas

Os sistemas também podem variar, a depender da quantidade de julgamento humano que entra na operação. Há claro, sistemas como os circuitos elétricos ou os equipamentos de produção automatizada que podem operar de uma maneira totalmente determinada. No outro extremo, há sistemas de controle e de gerenciamento, tanto para fins comerciais quanto para fins militares, nos quais as máquinas fazem a maior parte do trabalho, mas sob a supervisão humana e mediante a tomada de decisões por seres humanos em pontos críticos. Obviamente, esses sistemas mistos homem-máquina oferecem a maior variedade tanto de possibilidades quanto de problemas para o engenheiro de sistemas.

Trecho retirado do verbete sobre Engenharia de Sistemas da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

Prezados leitores, correm por aí muitos ditos apócrifos, que acabam colando à imagem de uma pessoa e caracterizando-a para a eternidade. A frase “Não tem pão, comam brioches!” foi atribuída à rainha da França Maria Antonieta (1755-1793) para caracterizá-la como uma mulher indiferente ao sofrimento do povo francês, que passava fome e foi ao Palácio das Tulherias, onde estavam Maria Antonieta e o rei Luís XVI (1754-1793), para protestar. Outros ditos são provavelmente autênticos. Um dia, o treinador do Botafogo virou-se para Garrincha (1933-1983) e disse tintim por tintim tudo o que tinham que fazer para ganhar o jogo. Ao final, Garrincha perguntou:
– Mas combinaram com eles? A inocente pergunta do anjo das pernas tortas, considerado o melhor driblador da história do futebol, se nos faz rir, aponta para um problema que está presente em nossa vida cotidiana, qual seja, o modo de funcionamento dos sistemas.

Garrincha referia-se ao jogo de futebol e aos desafios enfrentados pelo técnico para treinar o time e prepará-lo para vencer. Era preciso definir um esquema de jogo, defensivo ou ofensivo, o posicionamento dos jogadores em campo, a tarefa de cada jogador ao longo da partida. Mas nenhuma instrução do técnico aos seus comandados seria de grande valia se não fosse levado em conta o fato de que aquelas 11 pessoas estariam durante 90 minutos interagindo com as 11 pessoas do time adversário, as quais estariam seguindo elas mesmas as diretivas do seu técnico. Afinal, o jogo e seu resultado, vitória de um dos times ou empate, é fruto das ações individuais de cada um dos 22 homens em campo e das interações entre eles, isto é, do modo como cada um reage à ação do outro, para não falar do modo como cada um reage a fatores externos ao campo, como o comportamento da torcida nas arquibancadas, o clima no dia (quente, chuvoso, frio), as condições do estádio de futebol (gramado, iluminação). Ou seja, as ordens do técnico sobre o que fazer seriam cumpridas total ou parcialmente ou totalmente descumpridas a depender da combinação de de uma série de fatores, mais ou menos sob o controle do gestor da equipe.

Em suma, um jogo de futebol é um singelo exemplo de um sistema complexo, isto é um sistema feito pelo homem, cujas partes componentes interagem de maneira tão abrangente que uma mudança em uma parte afetará muitas outras. Outra importante característica dos sistemas é que os inputs que os alimentam são aleatórios, de maneira que ninguém pode prever exatamente a que o sistema estará exposto quando estiver em funcionamento. A única coisa que é possível fazer é tentar estabelecer uma gama de possíveis inputs e a probabilidade das respostas que o sistema dará na sua interação com esses inputs, resposta esta que determinará seu desempenho. O esquema de jogo do técnico do Garrincha operava no contexto de uma partida de futebol em que a atuação dos jogadores do time adversário não podia ser prevista de antemão. Nesse sentido, Garrincha estava certíssimo em dizer que não era possível combinar com eles o que fazer, mas cabia ao técnico estudar as partidas anteriores do time contra o qual jogariam para tentar estabelecer um padrão de jogo e as possibilidades sobre o modo como atuariam de forma a responder a elas.

Para passarmos a um nível mais relevante de discussão do desafio que sistemas complexos colocam, tomemos uma cidade. A cidade é um sistema urbano de infinita complexidade, porque as interações são muito maiores do que em um jogo de futebol e a gama de dados nos quais o sistema se baseia para funcionar é imensa. Em suma, as partes do sistema urbano, que incluem equipamentos e pessoas, influenciam umas às outras não só durante os 90 minutos de uma partida, mas o tempo todo, 24 horas por dia e 365 dias por ano, e além disso elas estão submetidas à atuação de n fatores externos, não só as condições meteorológicas e físicas de uma partida em um estádio, mas as condições sociais, econômicos, culturais e políticas predominantes. Um sistema urbano não pode ser gerenciado por um técnico de futebol com sua prancheta e seus desenhos da movimentação dos jogadores em campo, mas por engenheiros de sistema que são capazes de construir modelos matemáticos consistentes em um conjunto de equações que descrevem as interações possíveis em termos quantitativos. E é aqui que mora o problema.

De acordo com os números do City Globe Tour, disponíveis no YouTube, a China ocupa o primeiro lugar no mundo em número de engenheiros, com 530.000, a Rússia vem em segundo lugar com 432.000, a Índia, em terceiro com 337.000, os Estados Unidos em quarto com 283.000, o Irã em quinto lugar com 254.000, o Japão em sexto lugar com 194.000, a Coréia do Sul em sétimo lugar com 177.000 e o Brasil vem em oitavo lugar com 166.000. Ou seja, um país como a Rússia, que tem metade da nossa população, tem quase três vezes mais engenheiros do que nós. Essa falta de profissionais suficientes para atender as necessidades de um país de oito milhões de quilômetros quadrados fica patente quando temos acidentes como a explosão de gás que matou pessoas e destruiu várias casas em São Paulo depois de uma obra realizada pela companhia de abastecimento de água de São Paulo, a SABESP, que acabou perfurando a tubulação de gás.

De acordo com o trecho que abre este artigo, a SABESP diz que avisou a concessionária de gás e estava alinhada com ela. O que significa avisar e estar alinhada? É simplesmente notificar a concessionária de gás que obras serão feitas em tal local e obter a aprovação para isso? Ou é realizar a obra em verdadeira parceria, compartilhando informações e pessoal para que a tubulação de água e a tubulação de gás possam ser consertadas sem que haja danos nem a uma nem a outra? O fato de ter havido um acidente mostra que se houve tal compartilhamento ou alinhamento ele foi falho. De quem é a culpa? Da SABESP que foi recentemente privatizada, da COMGÁS, que já explora o serviço de fornecimento de gás em São Paulo há décadas? Vemos aqui que se a cidade fosse tratada como um sistema complexo e a prefeitura tivesse um departamento de engenharia que fosse responsável pelo planejamento desse sistema, acidentes desses poderiam ser ao menos mitigados.

Tal departamento estabeleceria diretrizes para obras de infraestrutura na cidade de maneira que trabalhos em um subsistema, como o do gás ou da eletricidade, não prejudicasse outro subsistema, como o da água. Conforme o trecho que abre este artigo, o fato de sistemas dependerem de julgamentos humanos apresenta desafios aos gestores, porque havendo decisões a serem tomadas nas interações do homem com as máquinas e equipamentos, os gestores precisam levar em conta quem tomará tais decisões, para estimar a resposta que o sistema dará em termos de resultado. No caso do acidente da SABESP os funcionários usaram equipamento para mexer na tubulação da água e acabaram perfurando o cano do gás. Como eles tomaram a decisão? Quem lhes instruiu sobre o que fazer tinha um mapa da infraestrutura de encanamentos no local para saber o que poderia acontecer? Se a cidade de São Paulo tivesse uma equipe responsável pela gestão do sistema urbano, nenhuma empresa ou concessionária de serviços públicos trabalharia isoladamente, mas sempre sob a coordenação de alguém que tivesse a visão do todo e das possíveis interações entre as partes.

Prezados leitores, infelizmente as atividades da SABESP não serão tratadas e saneadas por engenheiros de sistema, mas por advogados das vítimas da explosão que procurarão indenização e pelos juízes que decidirão o valor com base na extensão dos danos. Oxalá um dia cheguemos a um nível de organização da cidade que nos permita impedir que a derrubada de galhos de árvores por uma ventania não cause apagão geral na cidade, como já ocorreu antes. Enquanto os engenheiros não chegam e não combinamos com eles como realizar obras de infraestrutura no meio urbano, ficaremos nas eternas disputas entre privatistas e não privatistas, direita e esquerda e ninguém terá razão.      

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , , , , | Leave a comment

Barreiras aqui e acolá

“Que novidades são essas por aqui?’, perguntou, quando o guarda-barreira, após um bom intervalo de tempo, saiu de sua guarita. “Privilégio senhorial”, respondeu este enquanto abria, “concedido ao junker e fidalgo Wenzel von Tronka.” […] Entretanto, mal havia passado sob a cancela quando ouviu uma nova voz vindo da torre atrás de si, “Alto lá, ó negociador de crinas!”, e viu o castelão bater uma janela e descer correndo em sua direção. ‘Ora, qual a novidade agora?”, perguntou-se Kohlhaas a si mesmo e deteve-se com os cavalos. O castelão chegou ainda abotoando um colete sobre o corpo largo e, inclinado para se proteger contra o mau tempo, pediu o passe de fronteira.

Trecho retirado do livro Michael Kohlhaas, do escritor alemão Heinrich von Kleist (1777-1811)

Ao final do século XII a revolução comunal foi ganha na Europa Ocidental. As cidades, em que pese não serem completamente livres, haviam jogado fora os senhores feudais, acabado com os pedágios ou os reduzidos fortemente e limitado bastante os direitos eclesiásticos. […] Uma onda de indústria e comércio levou embora obstáculos enraizados ao desenvolvimento humano e impulsionou os homens adiante, da glória dispersa das catedrais para o frenesi universal do Renascimento.

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

Lançado pelo governo na esteira da operação, o programa Barricada Zero, que tem como propósito arrancar as trincheiras do crime postas no caminho do Estado, um triste símbolo do poderio dos fora da lei, nunca chegou ao Alemão ou à Penha. Boa parte das que foram desmontadas naquele 28 de outubro acabou sendo reerguida ou substituída por grupos armados que formam uma barreira humana por onde só passa quem eles permitem […]

Trecho retirado do artigo “O desafio continua” publicado na edição da revista VEJA de 1º de maio

Prezados leitores, aqueles que assistiram ao filme Michael Kohlhass, Justiça e Honra, estrelado por Mads Mikkelsen em 2013, lembrar-se-ão das cenas iniciais. Um comerciante de cavalos chega nas terras de um senhor feudal, que no livro ficam às margens do rio Elba, mas que no filme ficam na França. As terras mudaram de dono: o antigo cavalheiro gostava de ver o movimento dos transeuntes passarem por sua propriedade e havia mandado construir um calçamento de pedras, pois uma das éguas do comerciante havia quebrado a pata. Quando Michael Kolhass passa desta vez pelo mesmo local com seus animais, ele constata que as coisas pioraram.

Conforme o trecho que abre este artigo, o novo dono, o fidalgo Wenzel von Tronka, mandou colocar uma nova barreira que não existia antes, exigindo pagamento para permitir a passagem. Pior: depois de passar pela cancela, é advertido que há outro tributo, um passe de fronteira. Michael Kohlhass nada pode fazer a não ser submeter-se à dupla exação, porque este é o caminho para chegar ao vilarejo onde negocia seus cavalos. Criar e vender cavalos é o ofício de Kohlhass e para continuar a exercê-lo é preciso aturar as arbitrariedades dos detentores dos direitos feudais.

A insatisfação do “negociador de crinas”, como o castelão em tom de desprezo o chama, reflete a insatisfação de toda a nova classe de comerciantes e industriais que começa a surgir na Europa no século IX e atinge o pleno florescimento nos séculos XII e XIII. Produzir mercadorias, comprá-las e vendê-las eram tarefas dificultadas pela ordem então vigente. Na rota de transporte das matérias primas e dos produtos finais havia uma miríade de propriedades feudais cujos senhores cobravam pedágios de passagem, mas que não necessariamente ofereciam como contrapartida a infraestrutura de hospedagem e boas estradas que garantissem que a viagem fosse segura e fácil. 

O objetivo dos castelões não era fomentar a atividade econômica facilitando-a, mas simplesmente tirar seu naco dela na forma de exações, porque a lei feudal assim lhes permitia. Para um proprietário de terras, tanto fazia se o negociante vendesse mais ou menos ou se o mestre da guilda produzisse mais ou menos, porque ele não participava das atividades. O que importava é que ele tinha o direito de cobrar pagamento pela passagem. Esse descompromisso do senhor feudal atrapalhava os negócios e não é de se admirar que os Michael Kohlhass lutassem por uma ordem mais justa, em que fossem eliminados os obstáculos postos por aqueles que gozavam de privilégios consolidados havia séculos.

E assim foi feito, conforme explica Will Durant no capítulo “A Revolução Econômica” do livro “A Idade da Fé”, cujo trecho abre este artigo. Ao final do século XII, as cidades haviam ganho a batalha contra a ordem vigente desde a queda do Império Romano e haviam conquistado sua liberdade, por meio de cartas régias em que era reconhecido o direito delas de não estar sob a tutela de um senhor feudal. As cidades eram o local onde não se pagavam pedágios aos Wenzel von Tronka, como Kohlhass foi obrigado a pagar, o lugar onde servos se transformavam em trabalhadores livres que podiam oferecer sua força de trabalho no comércio e na indústria sem estarem presos à atividade agrícola nos domínios senhoriais. 

Um admirável mundo novo se abria aos habitantes das cidades, um mundo em que o indivíduo podia tentar ser algo diferente do que fora seus antepassados, presos à terra pelas obrigações de entrega de produtos e de prestação de serviços ao senhor. Conforme explica Durant, esse impulso ao empreendedorismo dado pela emancipação de certos locais do jugo feudal lançou as bases da Europa moderna, pois permitiu o advento do Renascimento, caracterizado pela inovação econômica, científica, artística e intelectual.

Avancemos nove séculos para o século XXI. Barreiras arbitrárias, exações e demonstrações de poder do castelão sobre o negociador de crinas são coisa do passado na Europa. Mas no Brasil e especificamente no Rio de Janeiro fazem parte do cotidiano de milhões de moradores das comunidades cariocas que vivem sob o jugo do crime organizado. Saem os senhores feudais e entram os chefes do tráfico de drogas. Conforme a reportagem da revista VEJA sobre os desdobramentos da ação policial de 28 de outubro de 2025 que matou 117 membros do Comando Vermelho, tudo voltou como dantes ao Quartel de Abrantes. As quadrilhas continuam cobrando taxas de fornecimento de gás e internet dos moradores e homens com fuzis continuam na entrada dos territórios atuando como guardas da fronteira para determinar quem pode ou não entrar. Concessionárias de energia elétrica e de outros serviços públicos, provedoras de internet e demais empresas são permitidas desde que atendam as condições determinadas pelos chefes. A polícia, claro, só entra se fizer uma megaoperação militar como a que foi feita em 28 de outubro, à custa de muitas vidas.

Por outro lado, segundo o site de notícias Terra a prefeitura do Rio de Janeiro investiu 20 milhões de reais no show da cantora colombiana Shakira, realizado nas areias de Copacabana em 2 de maio. A justificativa é que a ocupação de hotéis, as compras no comércio da cidade e a movimentação nos restaurantes gerariam uma receita de quase 800 milhões de reais para a cidade. De um lado incentiva-se a indústria do turismo e as atividades que giram em torno dela. De outro, as 4 milhões de pessoas que vivem sob a mira dos fuzis do tráfico nas comunidades não têm liberdade de ir e vir nem de contratar empresas prestadoras de serviços, e precisam pagar taxas de proteção ao crime organizado e dele contratar serviços que são pirateados de empresas formalizadas. Livre iniciativa para os que vivem na cidade turística, grilhões e falta de oportunidades para quem vive sob o jugo dos castelões dos morros cariocas.

Prezados leitores, oxalá o Brasil um dia possa fazer a transição completa de um regime de barreiras para um regime sem barreiras para todo mundo. Quem sabe neste momento tenhamos também o nosso Renascimento, como foi o caso na Europa há sete séculos? Enquanto isso não acontece, torçamos para que a cidade que recebe Madona, Lady Gaga e Shakira faça também bondades para os cariocas que vivem sob o domínio dos senhores do tráfico.

Categories: Economia | Tags: , , , , , , , | Leave a comment

A História das verdades e das mentiras

“Baudolino”, dizia-lhe, “és um mentiroso nato.”

“Mestre, por que dizes isso?”

“Porque é verdade. Mas não penses que te censuro. Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia, escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona. Mas terás de fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.” 

Trecho retirado do romance histórico Baudolino, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016)

“…numa grande história podem-se alterar pequenas verdades, para ressaltar a verdade maior”

Trecho retirado do romance histórico Baudolino, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016)

[…] das peças de Sófocles e Eurípides, até então completamente preservadas, só uma minoria sobreviveu. Milhares de obras-primas artísticas foram roubadas, mutiladas ou destruídas.

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

Prezados leitores, imaginem a cena: um camponês adolescente está num pântano em meio a um bosque no noroeste do que hoje é a Itália e vê um homem ruivo passar com seu cavalo. A névoa cobre tudo e o cavaleiro está obviamente perdido. Avistando o adolescente, o grande homem que fala uma língua estranha pede-lhe ajuda para sair dali. O camponês, que conhece o lugar como a palma de sua mão, guia o cavaleiro para fora do pântano e quando chegam em local seguro é testemunha de algo impressionante: ao avistarem o cavaleiro várias pessoas se ajoelham prestando-lhe homenagem. Ele é nada mais nada menos do que Frederico Barba Ruiva (1123-1190), o Imperador do Sacro Império Romano Germânico, que estava então em sua primeira campanha militar transalpina, fazendo o cerco de Tortona, em 1155, uma das cidades-estado da península que resistiam à autoridade do Imperador e não lhe prestavam a devida vassalagem em termos de tributos e contribuições de homens para campanhas militares.

Para recompensar o camponês que o salvou, chamado Baudolino, Frederico lhe dá uma moeda de ouro. O adolescente, para impressioná-lo, diz-lhe que Santo Baudolino aparecera para ele e lhe dissera que o imperador teria uma grande vitória em Tortona, porque Frederico era o senhor único e verdadeiro de toda a Lombardia. O imperador repete essa história da aparição para um grupo de cavaleiros que a espalham pelo acampamento do cerco. Por coincidência – ou não – lá estavam também os mensageiros de Tortona, que negociavam um fim ao cerco e ainda não se haviam decidido render-se ou não. Ao ouvirem sobre Santo Baudolino os tortonianos optam pela capitulação, porque se até os santos estavam contra eles, eles não iriam aguentar muito. Imediatamente ao saírem da cidade os alemães entram na cidade e a destroem, não deixando pedra sobre pedra.

Frederico, grato ao camponês pela história da aparição do santo que lhe permitira conquistar a cidade de Tortona, chama Baudolino para ir com ele para a Alemanha, onde o contador de histórias providenciais iria aprender a escrever. E é assim que o escritor Umberto Eco nos introduz ao personagem principal de seu romance Baudolino, em que se discute a natureza do contar histórias. A discussão é propiciada pelo encontro de Baudolino com dois personagens que existiram no mundo real: o bispo Otto von Cappenberg (1100-1171), padrinho e tio de Frederico, sob cujos cuidados o Imperador coloca Baudolino; e o historiador bizantino Nicetas Coniate (1155-1217), a quem Baudolino salva durante a pilhagem e incêndio de Constantinopla empreendidos pelos cruzados em 1204.  

A própria narrativa do episódio do cerco de Tortona é uma exemplificação dessa concepção de História explicada no trecho que abre este artigo, um diálogo entre Baudolino e seu preceptor Otto. A História é uma mentira no sentido de ser uma criação, mas não se pode mentir sobre tudo, porque se perde a credibilidade, deve-se mentir apenas sobre as coisas importantes, que fornecem a chave do sentido da História. O cerco à cidade rebelde de Tortona pelas tropas imperiais de fato ocorreu, assim como a destruição da cidade. O detalhe modificado na narrativa apresentada pelo escritor italiano faz toda a diferença para concatenar os fatos e dar-lhes uma moldura. Os habitantes da cidade não se renderam depois de ouvirem a história da aparição de Santo Baudolino, mas depois que Frederico contaminou o abastecimento de água da guarnição que defendia Tortona com cadáveres e enxofre e breche em chamas. 

Contar que a cidade capitulou porque reconheceu que os santos estavam ao lado de Frederico dava respaldo à imagem do Imperador como a autoridade a ser respeitada, porque seu poder vinha de Deus. Sob essa perspectiva, a História de Frederico Barba Ruiva é a História do Imperador do Sacro Império Romano Germânico que lutou pela afirmação da sua autoridade em contraposição àquela dos papas, que se diziam os únicos autênticos representantes de Deus na Terra. Quem tinha mais conexão com Deus, de onde emanava o poder e a legitimidade para governar as pessoas? Os imperadores e reis, detentores dos poderes temporais, ou o papa, detentor do poder espiritual da Igreja? 

No contexto de tal disputa, mostrar um santo dar ganho de causa ao Imperador ao aparecer a um camponês de alma simples e boa fazia toda a diferença: era contar uma pequena mentira para ressaltar a verdade maior, conforme Nicetas Coniate explica ao sábio Pafnúcio ao dar-lhe uma lição no final do livro sobre como escrever uma grande História. A verdade maior era que em uma História da vida de Frederico Barba Ruiva, Deus estava ao lado do Imperador, que era a autoridade verdadeira e legítima, porque seu poder tinha-lhe sido concedido pelas potestades celestes lá no alto.

Nesse sentido, a História tem uma dupla natureza: ela é verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Ela contém elementos factuais, corroborados por testemunhas oculares, mas também tem elementos não factuais, mitos inseridos na narrativa dos acontecimentos para dar à História uma chave de interpretação, sem a qual os fatos enumerados seriam apenas uma coleção de itens disformes, que passariam desapercebidos. Como escrever a História sem saber o fim a que ela se destina? É este desafio que é enfrentado por Otto e por Nicetas em sua filosofia da História: a combinação correta de pequenas mentiras com grandes verdades estabelece o roteiro para o historiador exercer seu ofício sem ser acusado de ser mentiroso contumaz e nem de escritor irrelevante. O historiador é um grande poeta que cria uma narrativa que faz sentido e é plausível, embora não totalmente atrelada à gama de acontecimentos que se desenrolaram.

Prezados leitores, quando forem a Veneza e virem os quatro cavalos sobre a Catedral de São Marco, saibam que eles foram retirados de Constantinopla na Quarta Cruzada, durante a qual o personagem de Umberto Eco conversa com Nicetas Coniate. Eles são fruto de um episódio histórico lamentável em que livrarias, museus, igrejas e casas foram saqueados e destruídos, conforme descreve Durant na “Idade da Fé”. A depender do sentido que se queira dar à História, podemos ver os cavalos de Veneza como símbolos das trocas entre o Ocidente e o Oriente que permitiram à Europa sair do estupor medieval e caminhar a passos largos rumo ao Renascimento. OU então como mais uma evidência das violências perpetradas pelos ocidentais contra os povos do Oriente Médio, a que estamos assistindo em pleno século XXI. Uma coisa é certa: conforme ensina Baudolino de Umberto Eco, a História a ser contada será sempre uma mentira verdadeira e uma verdade mentirosa.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , , | Leave a comment

Equilíbrio de poderes

Tão enredada na teia medieval, a Igreja encontrava-se na posição de uma instituição
política, econômica e militar, assim como religiosa; suas “temporalidades” ou possessões
materiais, suas “feudalidades,” ou direitos e obrigações feudais, tornou-se um escândalo
para os cristãos de moral estrita, um tópico de discussão para os heréticos, uma fonte de
controvérsias sem fim entre imperadores e papas. O feudalismo feudalizou a Igreja.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)

São Tomás de Aquino interpretava a escravidão como uma consequência do pecado de
Adão e como um expediente econômico em um mundo em que alguns deviam trabalhar de
modo que outros pudessem ser livres para defendê-los.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)

Prezados leitores, imaginem uma corte eclesiástica que condena sete mulheres a
serem enterradas vivas por roubo. Ou um mosteiro, como o de St. Gall na Suíça, que tinha
mais de 2.000 servos. Ou um funcionário da Santa Inquisição que em 1554 vangloriava-se
de que o Santo Ofício havia condenado à fogueira ao menos 30.000 bruxas nos 150 anos
precedentes. Ou bispos e abades que vestindo armadura e portando lança – estando assim
prontos para matar – participavam de guerras como qualquer senhor feudal que exercia
domínio sobre vastas extensões de terra.

Esta era a situação da Igreja Católica na Idade Média e começo da Idade Moderna.
Se na Idade Média a fonte do poder e da riqueza tornou-se a propriedade e a gestão da
terra, quem dispusesse desse ativo em abundância estava fadado a ocupar a posição de
liderança na sociedade. E liderança significa exercer o controle, isto é, realizar as atividades
típicas dos homens que geriam os homens que, por si sós, só conseguiam gerir coisas. Tais
atividades incluíam organizar a exploração da terra e sua defesa contra ataques de
inimigos. Não é de surpreender então que os membros da alta hierarquia da Igreja Católica
– papa, arcebispos, bispos e abades – supervisionassem o trabalho agrícola e participassem
de guerras. E que, em fazendo isso, acabassem realizando coisas que violavam os preceitos
da moral cristã.
A Igreja pregava a misericórdia, mas seus tribunais aplicavam as mesmas penas
brutais aplicadas por tribunais leigos, incluindo a pena de morte. Afinal, era tarefa dos
líderes da sociedade controlarem o comportamento das pessoas para que a ordem
predominante não fosse violada. A Igreja pregava a caridade e o compartilhamento do pão,
como fez Jesus Cristo na Santa Ceia, mas cobrava como qualquer senhor feudal os tributos
impostos aos camponeses, pelo direito que estes gozavam de tirar o seu sustento de glebas
sobre as quais a Igreja tinha diferentes tipos de propriedade. A Igreja pregava que todos
eram iguais perante Deus e que todo ser humano tinha uma dignidade intrínseca, mas
aceitava a escravidão como um mal necessário, conforme o trecho que abre este artigo nos
mostra: afinal, a tarefa de uns era arar a terra, a tarefa de outros era lutar para que as
plantações não fossem destruídas por tropas inimigas ou que os vilarejos não fossem
saqueados ou queimados. O mundo depois da queda do Império Romano na Europa
Ocidental era um mundo cheio de insegurança e sujeito às invasões dos povos bárbaros. O
medo e a expectativa do pior tornavam difícil aplicar a receita de paz e amor pregada no
Novo Testamento.
É nesse sentido que a Igreja se feudalizou ao participar da Idade Média na qualidade
de protagonista. Conforme o trecho que abre este artigo, ao gerir suas possessões
materiais, a Igreja tornou-se parte integrante da estrutura política, econômica e militar
daqueles tempos, exercendo um poder que ia além do poder espiritual para incluir os
atributos daqueles que geriam a atividade econômica mais importante da época, a
agricultura. Não é surpreendente que a Igreja Católica, acumulando rendimentos pela
cobrança de tributos e pela produção de alimentos, tenha se desviado daquela ética surgida
no Oriente Médio no primeiro século da nossa era a partir dos ensinamentos do filho de um
carpinteiro em uma longínqua e obscura província do Império Romano.
Assim, ao tornar-se a sucessora do Império Romano como fonte de poder, a Igreja
Católica, que pregava a fé, a esperança e a caridade propostas na periferia desse império,

acabou matando, confiscando e oprimindo como qualquer senhor feudal fazia à época. E
mesmo quando o feudalismo entrou em decadência, a Igreja Católica tinha se consolidado
de tal forma como instituição que tornou-se ferrenha defensora da ortodoxia, como
mostram as atividades da Inquisição, que se iniciaram na Europa a partir do século XII.
Prezados leitores, na semana passada conclamei Donald Trump a ir a Canossa pedir
perdão ao papa pela guerra contra o Irã e tomar alguns conselhos sobre como resolver
conflitos por meios diplomáticos. Mas que fique claro, o papa a ser consultado não é um
papa da Idade Média como o Gregório VII que disputou com Henrique IV. É o papa Leão
XIV do século XXI, que lidera uma igreja que não mais está no centro da atividade
econômica da sociedade, como era a Igreja da Idade Média, e portanto, não tem poder
material, apesar de ser ainda rica em ativos imobiliários, resquício da sua época de
esplendor.

Não tendo poder material e não estando envolvida com as coisas deste mundo, a
Igreja Católica pode enfocar a pregação cristã original e assim propor o fim das guerras e o
diálogo universal. Foram-se os tempos em que a Igreja precisava estralar o chicote para
gerir as pessoas sob seu controle. Nesse sentido, sua mensagem ética tem mais
credibilidade do que teria se ela ainda fosse um grande potentado econômico. Por outro
lado, para líderes como Trump que não acreditam em direito internacional e para quem a
força faz o direito, consistência ética é apenas uma firula sem consequência.
É forçoso notar que no frigir dos ovos, se Henrique IV foi a Canossa e Trump não vai
a Roma é porque o poder espiritual sem poder material é pouco eficaz. O excesso de poder
material foi um grande golpe para a Igreja Católica, tornando-a vulnerável aos ataques do
Protestantismo, o que acabou minando-lhe tanto o poder material quanto o espiritual. Por
outro lado, neste século XXI, em que o direito das gentes tem sido tão vilipendiado, como
tornar o poder espiritual relevante sem que haja um poder material que o respalde? E como
não deixar que o poder material se torne tão cheio de si de modo a levar à destruição do
mundo pela guerra? Oxalá encontremos uma solução de equilíbrio de poderes antes que
seja tarde demais.

Categories: Internacional | Tags: , , , , , , , , | Leave a comment