Enquanto os dois primeiros livros apresentam a vontade de um modo afirmativo, os últimos dois, que lidam com a estética e a ética, ultrapassa-os apontando para a negação da vontade como uma possível liberação. Evocando como suas principais figuras o gênio e o santo, que ilustram essa negação, esses livros apresentam a visão “pessimista” do mundo que valoriza o não-ser mais do que o ser. As artes convocam o homem para um modo de ver as coisas sem vontade, no qual cessa a atuação das paixões.
Trecho do verbete sobre o filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860), chamado de o filósofo do pessimismo, na edição de 1975 da Enciclopédia Britânica
A solução para este doloroso estado de coisas deve, de acordo com Schopenhauer, ser procurada nos mitos do budismo. O que causa nosso sofrimento é precisamente nossa vontade. Dopando a vontade, podemos no final atingir a liberação no Nirvana, ou no nada.
Trecho do livro “Wisdom of the West”, do filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970)
Prezados leitores, imaginem um homem de meia-idade que leva uma vida ascética, dedicada à leitura de Platão, Aristóteles, Horácio, Sêneca, Shakespeare e Calderón de la Barca, além de expoentes do misticismo e do Iluminismo. Este homem não frequenta a sociedade e seu único contato social é com seus amigos de longa data que ele vê raramente. Quando não está lendo e estudando, ele passeia com seu poodle e fala consigo mesmo, gesticulando. Apesar do isolamento ou por causa dele, goza de boa saúde e acuidade mental. Pois bem, eu soube da existência deste homem recentemente e a esta altura da minha vida fiz dele meu guru. Explico-me.
Seu nome é Arthur Schopenhauer, que nasceu em Danzig e morreu em Frankfurt. Eu já ouvira falar dele, mas não tinha a mínima ideia do teor dos seus pensamentos filosóficos. Por obra do acaso, ao procurar algo no YouTube para ouvir enquanto fazia meus exercícios matinais, deparei-me com um professor universitário de filosofia nos Estados Unidos, Christopher Anadale, que em vários vídeos faz a leitura de “Counsels and Maxims”, publicado em inglês em 1890, em que Schopenhauer apresenta uma sabedoria prática de como conduzir a vida de acordo com os princípios de sua filosofia.
Qual não foi minha grata surpresa quando percebi que sigo muitos dos conselhos do filósofo, de maneira que escutar a formulação por um grande pensador de um modo de vida é um grande incentivo a persegui-lo sem culpas e confiante nas vantagens que ele traz. Para entender o que Schopenhauer propõe como conselhos sobre o que fazer com o vale de lágrimas que é a vida é preciso primeiro abordar os conceitos filosóficos que os embasam.
O conceito primordial da filosofia de Schopenhauer é o de vontade. A vontade não é simplesmente um fenômeno que existe no tempo e no espaço e que pode ser percebido pelos nossos sentidos e apreendido por nosso intelecto por meio das categorias mentais, tais como causa, efeito, necessidade, contingência, etc. que Kant havia relacionado como as ferramentas à disposição do homem para a cognição. A vontade é mais que isso, é uma categoria ontológica, uma essência, é uma coisa em si mesma, unitária, imutável, insondável, além do tempo e do espaço, sem causa nem finalidade. No mundo dos fenômenos, ela se manifesta sempre, desde os impulsos cegos nas forças da natureza orgânica, passando pela natureza orgânica, como as plantas e animais, para chegar no homem que atua guiado pela razão. A vontade constitui-se assim concretamente em uma cadeia de desejos, agitações e impulsos que nunca param, um esforço inesgotável que ao final termina na morte, a grande censora de toda essa agitação, perguntando a cada pessoa: “Já basta?”
Daí o pessimismo do filósofo: se todas essas manifestações da vontade não levam a nada além da morte e no meio tempo causam sofrimento no ser que realiza essa vontade no tempo e no espaço, dando vazão a suas paixões e desejos, para que permitir que elas ocorram? O melhor a fazer é neutralizar essa vontade como um meio de liberação do sofrimento. Conforme o trecho que abre este artigo, um dos instrumentos que Schopenhauer propõe para superar as paixões é a arte. O outro é o estudo. Há também a via acessível aos santos que é o desprendimento do ego e a dedicação aos outros, a compaixão pelo sofrimento alheio. Qualquer um desses três caminhos será um meio de negar o ser, o indivíduo que se manifesta a cada dia querendo algo, sentindo, frustrando-se quando seus desejos não são alcançados e sempre indo atrás de um horizonte de felicidade que foge sempre.
Nesse sentido, a receita para uma vida que valha a pena ser vivida não é procurar atingir a felicidade. Ter esse objetivo é ter uma visão positiva da vontade e de sua realização no mundo dos fenômenos. Dar vazão às paixões só nos traz sofrimento, então a melhor aposta existencial é a de evitar o sofrimento neutralizando-as por meio de um estilo de vida exemplificado na rotina seguida pelo próprio filósofo, feita de poucos contatos sociais e muita reflexão e estudo para quem tem a capacidade de dedicar-se a essas atividades, claro.
É nesse ponto que os hábitos de Schopenhauer coincidem com os meus, que a mim me parecem os melhores neste momento da minha vida. Pode ser que para um jovem cheio de energia, força, vitalidade, saúde e beleza essa negação do ser rumo ao Nirvana budista, conforme explicado por Bertrand Russell ao abordar as ideias do filósofo pessimista por excelência, seja absurda. Afinal, aos 20 anos nossos sofrimentos são poucos: não temos que frequentar médicos frequentemente; nosso otimismo com o futuro e nossa beleza advinda da idade nos tornam agradáveis e atraentes, permitindo que amemos e sejamos amados.
No entanto, à medida que os anos passam o corpo começa a claudicar e deixamos de ser saudáveis, belos e radiantes como éramos em nossa tenra idade. Muitas pessoas se afastam de você e vice-versa e não é mais tão fácil estabelecer novas relações de amizade ou amor. Por acaso os conselhos de Schopenhauer não fazem bastante sentido então? O estudo, a arte, a caridade com o próximo não podem servir de consolo para pessoas mais velhas, que passam mais tempo sozinhas porque o círculo de relações diminuiu? Em tais circunstâncias o desprendimento do ser proposto pelo filósofo rumo ao nada pode ser um meio de evitar sofrimentos em um momento da vida em que o sofrimento fica cada vez mais comum.
Prezados leitores, a autoajuda de Schopenhauer não está acessível a todos, porque nem todas as pessoas têm vocação para atividades intelectuais ou estéticas, mas de qualquer forma a lição dele serve para qualquer um neste nosso mundo encantado da sociedade de consumo feito de grandes expectativas de autorrealização, de conquistas e de vitórias. Baixemos a bola sobre o que podemos esperar do mundo e das pessoas que o habitam e teremos uma vida mais tranquila, sem grandes emoções, mas sem grandes decepções.